27 November, 2006
Sobre o problema da liberdade religiosa na Turquia, um dos temas que se prevê que o papa abordará na viagem ao país, escreve-se no Destaque do Público de domingo:
Será um tema para abordar com pinças, mas o Papa Bento XVI não deverá deixar de se referir à questão da liberdade religiosa na Turquia. Ainda mais delicado, porque constitui também uma pedra de toque nas negociações para a eventual entrada da Turquia na União Europeia. O problema é vasto. No relatório de 2005 sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) assinala que a Turquia não reconhece juridicamente as confissões religiosas minoritárias. De acordo com a AIS, organização dependente do Vaticano e vocacionada para apoiar crentes perseguidos e a viver em países pobres, não há na Turquia qualquer lei sobre o direito de propriedade das comunidades religiosas que lhes permita “manter as actuais e recuperar as que foram confiscadas ao longo dos últimos 70 anos”. As dificuldades não acabam no plano formal. A Constituição turca garante a liberdade de consciência, de expressão e de religião, mas qualquer conversão de um muçulmano ao cristianismo é muito mal encarada num país com 72,5 milhões de habitantes, dos quais 97 por cento são muçulmanos (dois por cento são agnósticos e menos de um por cento são cristãos). E, como nota o relatório da AIS, nem os muçulmanos escapam às leis que proíbem a pregação do Alcorão fora dos lugares actualmente permitidos ou o uso do véu pelas mulheres que o desejem.
Sobre o diálogo entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, escreve-se no Destaque de domingo do Público:
O objectivo número um da viagem do Papa Bento XVI à Turquia é a aproximação com a Igreja Ortodoxa, da qual o patriarca Bartolomeu I é o primus inter pares. Uma declaração comum será assinada pelos dois líderes religiosos no dia 30, quinta-feira, naquele que será mais um passo na aproximação mútua de duas igrejas, separadas formalmente desde 1054 – há quase mil anos. (…) A viagem “terá um grande significado para o diálogo entre a Igreja Católica e a ortodoxia”, afirmou o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone. (…) Líder espiritual dos perto de 200 milhões de ortodoxos do mundo inteiro, Bartolomeu convidou o Papa para aquela que é a festa mais importante do patriarcado, a festa de Santo André. De acordo com a tradição, foi este discípulo, um dos mais doze apóstolos seguidores de Jesus, o primeiro a anunciar o evangelho na cidade. Mesmo se é simbolicamente importante, não se espera que o encontro traga novidades importantes ao processo de aproximação mútua. A divergência maior – o primado do Papa – está longe, ainda, de ser resolvida.
O Público dedica o seu Destaque de domingo a uma antevisão da viagem do Papa Bento XVI à Turquia. O ambiente que rodeia a visita, o islão turco, a prioridade ao diálogo com os ortodoxos e as questões relativas à liberdade religiosa são alguns dos temas desenvolvidos em três páginas. Aqui fica o início do primeiro texto:
O Papa Bento XVI inicia terça-feira aquela que é, até agora, a mais difícil viagem do seu pontificado de ano e meio. Depois da Alemanha (duas vezes) e da Polónia, a Turquia é o destino. O diálogo ecuménico entre o Vaticano e a Igreja Ortodoxa, a Europa, a adesão da Turquia à União Europeia e a liberdade religiosa serão temas a abordar, directa ou indirectamente, pelo Papa. Mas o actual clima entre islão e Vaticano acabará por dominar vários dos actos da viagem.
Partiu do patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I - líder espiritual dos cristãos ortodoxos -, o convite para que Bento XVI fosse à Turquia. O encontro assume importância significativa num momento em que o patriarca russo disputa um lugar ao sol entre as primazias na Igreja Ortodoxa. Uma importante declaração sobre a aproximação entre catolicismo e ortodoxia será mesmo assinada nesta visita. Mas a viagem será muito dominada pelo tema da relação com o islão.
25 November, 2006
A Santa Sé lamentou a falta de compromissos que assinalou a Conferência de Exame da Convenção sobre a Proibição ou Limitação do Uso de Certas Armas Convencionais que podem ser consideradas como Produzindo Efeitos Traumáticos Excessivos ou Ferindo Indiscriminadamente. Ao intervir no final do encontro, que se celebrou na suíça de 7 a 17 de Novembro, o arcebispo Silvano Maria Tomasi, segundo a agência Zenit, afirmou que é “deplorável que os Estados não tenham sido capazes de alcançar um acordo sobre um instrumento legalmente vinculativo sobre minas anti-veículos, que são particularmente mortíferas nas operações humanitárias e após os conflitos armados”.
Na Conferência, a Santa Sé apoiou as negociações que visavam aprovar um instrumento que vinculasse legalmente os Estados em matéria de proibição de uso de “bombas cluster” ou de fragmentação e mostrou-se favorável a uma moratória, enquanto não se alcançar esse objectivo. A moratória justifica-se pelos desastres humanitários causados por estas armas, especialmente entre a população civil. É que mais de onze mil pessoas morreram no pós-guerra, em numerosos conflitos mundiais desde 1973 pela explosão de bombas de fragmentação, que, com as minas terrestres, são as que mais civis matam, segundo um relatório de Handicap Internacional.
24 November, 2006

Abre hoje ao público, em França, aquele que é considerado o conjunto mais relevante do arquitecto Le Corbusier na Europa. Trata-se da igreja de S. Pedro, concebida nos últimos anos de vida do arquitecto mundialmente conhecido, mas cuja construção esteve, desde finais dos anos 60 do século passado, emperrada em vários momentos.
A ideia de convidar Le Corbusier surgiu do presidente da Câmara de St. Pierre de Firminy, no Loire, ele próprio ex-ministro encarregado da reconstrução do país, no pós-Guerra.
A igreja de S. Pedro irá acollher, no complexo em que está inserida, uma parte do Museu de S. Étienne e os seus responsáveis contam apostar sobretudo no turismo e na pastoral do turismo. (Fonte: La Croix)
22 November, 2006
Reflectir sobre o religioso no âmbito de uma abordagem transversal e multidisciplinar é o objectivo de um colóquio que se realiza no próximo dia 27, segunda-feira, na Universidade do Minho, em Braga, em torno do tema "Metamorfoses do religioso: heranças e novos desafios".
O Colóquio, que tem início às 9.15, prolongando-se até ao fim do dia, no Campus de Gualtar, pretende, no dizer dos seus promotores, do Departamento de História do Instituto de Ciêncis Sociais, apresentar "leituras críticas sobre o modo como o Ocidente e o Mundo do Islão perspectivam conceitos da modernidade (secularização/laicização, tolerância, lugar do outro), tanto no passado como, sobretudo, na contemporaneidade recente". Entre os conferencistas convidados contam-se Fernando Catroga, Adel Sidarius, António Matos Ferreira, Mostafa Zekri, Faranaz Keshavjee, Jesus Joel Peña Espinoza.
No mesmo dia, às 18 horas, decorrerá na Livraria Centésima Página, no centro da cidade de Braga, o lançamento do livro do Doutor Fernando Catroga, Entre Deuses e Césares, Secularização, Laicidade e Religião Civil (2006), estando a respectiva apresentação a cargo do Doutor Norberto Cunha.
Acaba de vir a lume o segundo número da revista electrónica "Online - Heidelberg Journal of Religions on the Internet", da iniciativa de uma equipa de investigação da Universidade de Heidelberg (Alemanha). A revista é nova e ainda relativamente desconhecida, mas merecedora de visita.
Este número tem por tema genérico "Rituals on the Internet" (está já anunciado um novo sobre "Mundos virtuais") e compreende, entre outros, os seguintes artigos:
- Radde-Antweiler, Kerstin:Rituals Online: Transferring and Designing Rituals.
- Casey, Cheryl Anne: Virtual Faith - the Revirtualization of Religious Ritual in Cyberspace.
- MacWilliams, Marc:Techno-Ritualization - the Gohozon Controversy on the Internet.
21 November, 2006
A Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres em Beja, um dos mais importantes monumentos religiosos da capital do Baixo Alentejo, reabriu segunda-feira como museu, concluindo a Rede Museológica Diocesana. A inauguração do Museu Episcopal coincide com uma exposição temporária, intitulada "Nas Asas da Aurora", que revela alguns dos tesouros ocultos das igrejas de Beja, sem esquecer as antigas casas religiosas da cidade. Entre as peças que vêm agora à luz do dia, pela primeira vez, encontra-se um raro conjunto de disciplinas e cilícias dos séculos XVIII e XIX, recentemente inventariado pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja.
Mais pormenores sobre a exposição e o trabalho que tem sido feito por este organismo da diocese de Beja na agência Ecclesia.
A notícia já é conhecida: o exército israelita desistiu de bombardear a casa de um dos líderes dos comités de resistência popular da Gaza (Palestina), depois de dezenas de palestinianos civis terem servido de escudo humano na casa desse combatente. Durante o dia de segunda-feira, muitos continuaram a revesar-se na casa, como forma de evitar o ataque da aviação israelita.
Há muito que se percebeu que a escalada de violência não resolverá problema nenhum no Médio Oriente. Com lideranças adeptas da não-violência em Israel e na Palestina, o caminho da paz seria certamente outro. Rabin entendeu-o quando celebrou o acordo de paz com Arafat e, recordando a Bíblia, gritou: "Há um tempo para a guerra e um tempo para a paz. Este é o tempo da paz. Não mais lágrimas, não mais sangue."
Pode ser que, por um acaso e por causa de um combatente armado, os palestinianos tenham descoberto uma alternativa à violência que os tolhe. Vale a pena recordar aqui João Paulo II, nas vésperas da invasão norte-americana do Iraque: "A guerra é uma derrota da humanidade." A não-violência, prova-se de novo neste pequeno episódio escondido na avalanche noticiosa, pode ser o caminho redentor. Gandhi, Luther King e Nelson Mandela continuam a ser exemplos das possibilidades abertas por essa via. Aliás, em pleno Israel, há nomes que se destacam na defesa dessa via, mas que são sistematicamente obliterados pelos grandes impérios mediáticos: André Charouqui ou Elias Chacour são dois, entre muitos outros. Chacour esteve já nomeado por três vezes para o Nobel da Paz. Perto de Haifa, ele construiu, nas duas últimas décadas, uma escola onde leccionam e estudam judeus israelitas, árabes cristãos e muçulmanos, e druzos. Costuma dizer este homem, bispo da Igreja Melquita desde Fevereiro, que, quando se nasce, não se é judeu nem muçulmano nem cristão. Chacour é um homem frontal com todos, mas adepto acérrimo de um caminho de paz, que também recorda uma coisa óbvia (ou nem tanto): Deus não é cristão, nem muçulmano, nem judeu.
O Médio Oriente continuará, provavelmente, afogado no sangue. Mas vale a pena destacar gestos como o destes palestinianos anónimos. São eles que mostram que outro caminho é possível.
António Marujo
O responsável do Departamento turco para os Assuntos Religiosos diz que não quer discutir o discurso do Papa em Ratisbona, em Setembro, na visita que Bento XVI faz ao país na próxima semana. A não ser que…
The head of Turkey’s religious affairs department, Ali Bardakoglu has said he has no intention to bringing up the criticisms of Benedict XVI “unless the Pope puts it on the agenda”, but did not exclude possible protests during the papal visit to Turkey from 28 November to 1 December. However he also stressed that the Turkish people would welcome the pope with solemnity without creating big incidents. Bardakoglu’s commented appeared in an interview with the German Der Spiegel that was cited by the Turkish press. The head of the religious affairs department – that had reacted very strongly to the ‘lectio’ of Benedict XVI in Regensburg in September – said the statements made on that occasion, to the effect that Islam imposed itself over logic, were a “apparent and prejudiced attack to Islam’s main principles."
In an interview with Turkey’s CNN, Bardakoglu said he was sure the people would be reasonable and sensible about the pope’s visit and would not neglect their visitor. “Our doors are open to everybody. If somebody makes a false statement about Islam, we will make our attitude clear. This could be a Muslim, Jew or Christian,” he said.
A notícia mais completa está no Asia News.
20 November, 2006
Está em preparação uma nova conferência geral do episcopado latino-americano - depois de Medellín, Puebla, Santo Domingo… Para muitos, a assembleia pode significar um retorno a Puebla ou Medellín, mas há o receio de que se repita Santo Domingo. Jon Sobrino, conhecido "teólogo da libertação", escreveu a propósito uma carta ao irmão mártir Ignácio Ellacuría, o jesuíta reitor da Universidade Centro-Americana, assassinado há anos. O texto vem referido numa pequena notícia da Adista:
La Chiesa latinoamericana ha, sì, perso la rotta - già a Puebla rispetto a Medellín, e in maniera molto più decisa a Santo Domingo rispetto a Puebla - ma, per quanto il compito non sia facile, "ad Aparecida Dio può tornare ad irrompere, come in monsignor Romero davanti al cadavere di Rutilio". Ad esprimere questa speranza - davvero contro ogni speranza, considerando le incredibili lacune del Documento di Partecipazione diffuso dal Celam nel settembre del 2005 - è il teologo della Liberazione Jon Sobrino, nella sua lettera annuale al "fratello martire" Ignácio Ellacuría, il rettore della Uca, l’Università centroamericana di San Salvador, assassinato il 16 novembre del 1989 insieme ad altri quattro gesuiti, alla cuoca della comunità, Julia Elba, e a sua figlia Celina (le 15 lettere scritte da Sobrino a Ellacuría nei 16 anni successivi al massacro sono state ora pubblicate dalla Emi con il titolo Scrivo a te fratello martire.
Do artigo de frei Bento Domingues, intitulado "Há Mandamentos e Mandamentos!", no Público de dia 12 de Novembro:
Se, em muitos aspectos, o combate à pobreza se revela um fracasso, o governo britânico deu a conhecer, na passada semana, o relatório Stern sobre o impacto do aquecimento do planeta na economia: a economia mundial cairá em 20% se não forem tomadas medidas imediatas. Al Gore, ex-vice-presidente dos eua e autor do filme "Uma Verdade Inconveniente", sobre o aquecimento, veio em auxílio de Tony Blair, decidido a liderar um plano para reduzir em 60%, até 2050, as emissões de gazes, principalmente de óxido de carbono. Estamos, assim, sem vontade de acabar com a pobreza e sujeitos às mudanças climáticas impostas pelos países mais ricos e que a China imita da pior maneira.
Sabemos as causas da pobreza e as causas das alterações climáticas que afectam, de forma terrível, o meio ambiente. Ainda sabemos muito pouco acerca da formação da Terra e como surgiu, nela, a inteligência e a capacidade reflexiva do ser humano. Sabemos como a podemos destruir. Sabemos como a podemos salvar. Porque será que continuamos a fazer o mal que lamentamos e a não escolher o bem que seria desejável? Não há ciências ou técnicas que possam garantir, de forma automática, um futuro de esperança.
É preciso uma conversão dos indivíduos, dos povos e dos governos. A conversão implica aceitar a nossa condição: seres que não podem agir sem muito reflectir. Sem reflectir o que é bom para cada um, o que é bom para o próximo, o que é bom para o planeta. Não estamos, todavia, a zero. É certo que a história da humanidade, comparada com a história do Cosmos e com a história da Terra, é ainda muito breve. É, no entanto, suficientemente longa para podermos saber o que a desenvolveu e o que a envenenou. A história das religiões, das sabedorias, das espiritualidades, das filosofias, das ciências, das técnicas, das políticas, se for rigorosa, encurta o campo das ilusões e aumenta a possibilidade da lucidez.
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A notícia é de sábado. O núncio apostólico do Vaticano na Rússia disse, na assembleia dos bispos católicos, que o diálogo com a Igreja Ortodoxa é necessário. Um recado claro numa altura em que todas as vozes do Vaticano – incluindo Bento XVI – aparecem a manifestar-se pelo degelo entre católicos e ortodoxos na Rússia. Vale a pena registar o que conta a Asia News:
Nuncio in Russia: dialogue with Orthodox a must
At the closing of the plenary session of the Conference of Catholic Bishops, Mgr Mennini made a call for ecumenism, “fulfillment of Christ’s will to unity among Christians”. Saratov (AsiaNews) – The Apostolic Nuncio in Russia, Mgr Antonio Mennini, has once more emphasised the importance of Orthodox-Catholic dialogue. He was speaking yesterday at the close of the 23rd plenary session of the Conference of Catholic Bishops of Russia. “Ecumenical activity is not just a choice made by certain clergymen, but the fulfillment of Christ’s will to unity among Christians,” said the Vatican representative.The Conference’s general secretary, Fr Igor Kovalevsky, said participants of the plenary had paid particular attention to inter-confessional and inter-religious dialogue.
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19 November, 2006
Na crónica de domingo do Diário de Notícias, Anselmo Borges retoma o tema em título, apresentado num colóquio sobre O Homem e a Mentira, realizado sexta e sábado no Porto. Alguns excertos:
"Afinal, quem mente: a morte ou o Homem? Ninguém sabe o que é morrer. Mesmo que tenhamos visto alguém morrer, foi de fora. Vimos alguém ainda vivo. Depois, é uma ausência. Ninguém sabe o que é estar morto. O que é estar morto para o próprio morto? (…)
Frente à morte, o Homem é confrontado com o nada, aquele nada que lhe põe a interrogação absoluta, e, assim, pergunta inconstruível, o lugar da verdade para ele. É perante o abismo sem fundo e sem fim do nada que se lhe revela o puro assombro e a estupefacção absoluta do mistério incrível e indizível do Ser e de ser. A morte não mente. Ela desmente a hipocrisia diletante, pondo a nu a verdade. Quem mente é o Homem, sobretudo nas nossas sociedades urbanas e técnicas, que fazem da morte tabu, o último e único tabu. O Homem ocidental não só não quer enfrentar a verdade como mente, agora no sentido de não dizer a verdade, faltar à verdade, enganar e enganar-se. (…)
Perante a contradição viva do "eu-morro", do "alguém-ninguém" - a consciência da mortalidade é a experiência insuportável dessa contradição -, é-se arrancado à alienação, e pode acontecer ser-se convocado pela intuição de que aquele nada com que a morte nos confronta não é o nada vazio e morto, mas o nada enquanto véu da realidade verdadeira na sua ultimidade. Afinal, nem o sol nem a morte podem ser encarados de frente, e a causa é o excesso de luz. Os místicos sabem-no, quando falam de "raio de treva" e "tenebrosa nuvem, que a noite iluminava".
Na sua crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues fala do modo como as religiões - e em especial o cristianismo - têm lidado com a ideia de fim do mundo: Um excerto da crónica:
"Destaco o texto do filósofo alemão, Peter Sloterdijk, intitulado, "Os novos frutos da ira: pós-comunismo, neoliberalismo, islamismo" (1). Nada mais apropriado para entender a liturgia deste Domingo.
Começa, precisamente, por dizer que «o catolicismo só conseguiu sobreviver ao advento da modernidade à custa de uma adaptação renitente que se arrastou ao longo de dois séculos inteiros. Durante muito tempo revelou atitudes que não se distinguem do anti-modernismo teocêntrico de estilo islâmico que conhecemos de fontes actuais. Enquanto durou a sua fase mais obstinada, enfureceu-se contra a pretensa arrogância dos modernos, que pretendiam transformar a religião numa questão privada, erguendo-se, no estilo fanático dos movimentos que impõem a exclusividade de Deus, contra as tendências que privilegiavam a formação de uma cultura política secular, laica ou religiosamente neutra. A mudança nesta atitude fundamental do catolicismo, que só se concluiu na segunda metade do século XX, arrastou consigo uma profunda reorganização teológica das suas armas: para firmar finalmente a paz com a modernidade, teve de se libertar das tradições anti-humanistas e antiliberais que tinham o seu fundamento no absolutismo de direito divino. Esta mudança alcançou um ponto no qual a teologia pôde redefinir-se a si própria como organon de uma legitimação mais profunda dos direitos humanos. Naturalmente, isto implicou a renúncia ao amedrontamento aviltante dos crentes com ameaças apocalípticas e tons aterradores do dies irae. O resultado foi a retirada de circulação, no interior da igreja, das doutrinas consagradas da ira divina e das imagens de um tribunal vingador no fim dos tempos, que entretanto se tornaram meras curiosidades da história das ideias».