Do artigo de frei Bento Domingues, intitulado "Há Mandamentos e Mandamentos!", no Público de dia 12 de Novembro:
Se, em muitos aspectos, o combate à pobreza se revela um fracasso, o governo britânico deu a conhecer, na passada semana, o relatório Stern sobre o impacto do aquecimento do planeta na economia: a economia mundial cairá em 20% se não forem tomadas medidas imediatas. Al Gore, ex-vice-presidente dos eua e autor do filme "Uma Verdade Inconveniente", sobre o aquecimento, veio em auxílio de Tony Blair, decidido a liderar um plano para reduzir em 60%, até 2050, as emissões de gazes, principalmente de óxido de carbono. Estamos, assim, sem vontade de acabar com a pobreza e sujeitos às mudanças climáticas impostas pelos países mais ricos e que a China imita da pior maneira.
Sabemos as causas da pobreza e as causas das alterações climáticas que afectam, de forma terrível, o meio ambiente. Ainda sabemos muito pouco acerca da formação da Terra e como surgiu, nela, a inteligência e a capacidade reflexiva do ser humano. Sabemos como a podemos destruir. Sabemos como a podemos salvar. Porque será que continuamos a fazer o mal que lamentamos e a não escolher o bem que seria desejável? Não há ciências ou técnicas que possam garantir, de forma automática, um futuro de esperança.
É preciso uma conversão dos indivíduos, dos povos e dos governos. A conversão implica aceitar a nossa condição: seres que não podem agir sem muito reflectir. Sem reflectir o que é bom para cada um, o que é bom para o próximo, o que é bom para o planeta. Não estamos, todavia, a zero. É certo que a história da humanidade, comparada com a história do Cosmos e com a história da Terra, é ainda muito breve. É, no entanto, suficientemente longa para podermos saber o que a desenvolveu e o que a envenenou. A história das religiões, das sabedorias, das espiritualidades, das filosofias, das ciências, das técnicas, das políticas, se for rigorosa, encurta o campo das ilusões e aumenta a possibilidade da lucidez.
