A notícia já é conhecida: o exército israelita desistiu de bombardear a casa de um dos líderes dos comités de resistência popular da Gaza (Palestina), depois de dezenas de palestinianos civis terem servido de escudo humano na casa desse combatente. Durante o dia de segunda-feira, muitos continuaram a revesar-se na casa, como forma de evitar o ataque da aviação israelita.
Há muito que se percebeu que a escalada de violência não resolverá problema nenhum no Médio Oriente. Com lideranças adeptas da não-violência em Israel e na Palestina, o caminho da paz seria certamente outro. Rabin entendeu-o quando celebrou o acordo de paz com Arafat e, recordando a Bíblia, gritou: "Há um tempo para a guerra e um tempo para a paz. Este é o tempo da paz. Não mais lágrimas, não mais sangue."
Pode ser que, por um acaso e por causa de um combatente armado, os palestinianos tenham descoberto uma alternativa à violência que os tolhe. Vale a pena recordar aqui João Paulo II, nas vésperas da invasão norte-americana do Iraque: "A guerra é uma derrota da humanidade." A não-violência, prova-se de novo neste pequeno episódio escondido na avalanche noticiosa, pode ser o caminho redentor. Gandhi, Luther King e Nelson Mandela continuam a ser exemplos das possibilidades abertas por essa via. Aliás, em pleno Israel, há nomes que se destacam na defesa dessa via, mas que são sistematicamente obliterados pelos grandes impérios mediáticos: André Charouqui ou Elias Chacour são dois, entre muitos outros. Chacour esteve já nomeado por três vezes para o Nobel da Paz. Perto de Haifa, ele construiu, nas duas últimas décadas, uma escola onde leccionam e estudam judeus israelitas, árabes cristãos e muçulmanos, e druzos. Costuma dizer este homem, bispo da Igreja Melquita desde Fevereiro, que, quando se nasce, não se é judeu nem muçulmano nem cristão. Chacour é um homem frontal com todos, mas adepto acérrimo de um caminho de paz, que também recorda uma coisa óbvia (ou nem tanto): Deus não é cristão, nem muçulmano, nem judeu.
O Médio Oriente continuará, provavelmente, afogado no sangue. Mas vale a pena destacar gestos como o destes palestinianos anónimos. São eles que mostram que outro caminho é possível.
António Marujo
21 November, 2006
Não-violência, solução para o Médio Oriente (comentário)
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