31 December, 2006
"(…) Sabemos todos, e há muito, que Saddam era um ditador sanguinário, conhecido por requintes de crueldade. Sabemos que cometeu crimes contra a humanidade e oprimiu o seu povo. Sabemos que após a invasão do seu país foi deposto, capturado e julgado num processo irregular, marcado por interferências políticas e assassínios de advogados. A justiça e os direitos humanos em nome dos quais se quis condenar Saddam foram aviltados com a pena capital. A forca é uma marca medieval, um retrocesso civilizacional que apenas coloca os "libertadores" do Iraque ao nível do tirano de Bagdad. O acrescento de civilização que seria a eliminação da pena de morte e da tortura frustrou-se uma vez mais. E dizer, como disse Bush, que a execução de Saddam é um marco importante no caminho do Iraque rumo à democracia é apenas mais uma barbaridade. Pior, só mesmo o cinismo de algumas diplomacias tão cheias de princípios como de compreensão pela "soberania" iraquiana…(…)
Confundir a forca com o caminho para a democracia ajuda apenas a perceber a irracionalidade do nosso tempo."
António José Teixeira, editorial in DN, 31.12.2006
30 December, 2006
Cerca de quatro de dezenas de académicos e líderes religiosos do mundo muçulmano endereçaram ao papa Bento XVI uma "Carta Aberta" a propósito do seu discurso em Ratisbona, Alemanha, em Setembro passado, que tanta polémica originou. O documento, divulgado pela revista Islamica Magazine, encontra-se traduzido em oito idiomas, um dos quais o espanhol, do qual respigámos a abertura:
"En relación con vuestra conferéncia en la Universidad de Regensburgo, Alemania, el 12 de Septiembre de 2006, hemos creído apropiado, en un espíritu de libre intercambio, considerar vuestro uso de un debate entre el Emperador Manuel II Paleologus y un «erudito persa» como punto de partida para un discurso sobre la relación entre la razón y la fe. Pese a que aplaudimos vuestros esfuerzos por combatir el dominio del positivismo y el materialismo en la vida humana, debemos señalar algunos errores en la forma en que os referisteis al Islam como un contrapunto al uso apropiado de la razón, así como en las aseveraciones que realizasteis en apoyo de vuestros argumentos".
Complemento:
Sobre este mesmo assunto - ou seja - o discurso e o papel de Bento XVI - importa registar o primeiro de dois artigos que José Pacheco Pereira começou a publicar qunta-feira, dia 28, no Público, e que transcreve, com desenvolvimentos, no blogue Abrupto, sob o título UM INTELECTUAL ORGÂNICO EUROPEU: JOSEPH RATZINGER (BENTO XVI).
28 December, 2006
O editorial de hoje de António José Teixeira, director do Diário de Notícias, conjugado com as notícias de ontem que davam conta dos volumes "astronómicos" (*) do consumo nesta quadra natalícia e do esgotamento dos programas de férias mais caros, merece ficar registado e ser debatido.
Com a devida vénia ao autor e ao jornal, aqui o transcrevo:
"Evasões
António José Teixeira
Não é Carnaval, mas, talvez para dar folga ao cinto apertado pela governação socialista, nunca os portugueses terão sido dados a tanto excesso. Não foi e não é necessariamente folguedo, foi e é muito dinheiro gasto em pouco tempo. O cartão multibanco não teve parança, muitos milhões de euros mudaram de mãos em poucos dias. Quase mil euros foram movimentados por segundo, o que demonstra a voragem consumista do nosso tempo. A constatação propicia moralismos diversos, seja porque somos um país pobre a fazer de rico, seja porque estamos demasiado endividados e só pensamos em aumentar as dívidas, seja porque transformamos todas as datas festivas em hinos ao consumo. A verdade é que tendemos a esquecer que o modelo produtivo e social em que vivemos, e a que pressupostamente não somos alheios, tem por base o estímulo ao consumo. De uma forma simplista podemos dizer que o crescimento do consumo faz crescer a produção e o comércio. O problema português não está no excesso consumista natalício, admitindo que é um excesso. O problema está na nossa fraca capacidade produtiva, na enorme dependência externa.
Portugal é um país de comerciantes, uma desproporcionada superfície mercantil. Bate recordes nos hipermercados. Projecta mais centros comerciais do que qualquer congénere europeu. O prazer e a felicidade de hoje já não se fazem de marcas simbólicas, de intercâmbios pessoais ou do mero convívio social. Ganha crescente protagonismo o sujeito consumidor, que vai destronando o cidadão preocupado com a comunidade. O desejo e o prazer realizam-se numa incessante procura e conquista de objectos, quantas vezes confundidos com sujeitos nossos iguais.
A cultura consumista vive do efémero, faz do passado um mero pretexto de diversão e evasão. Produz demasiado lixo, que não recicla. Vive da precariedade e na velocidade. Foge demasiadas vezes sem destino. Estampa-se insolvente numa qualquer estrada sem que a morte seja mais do que uma ocorrência ou calamidade sem especial significado.
A voragem do consumo não tem pensamento estratégico. Esgota-se em si própria, descrente em qualquer salvação. Num mundo de pouca esperança, goza–se o presente que os amanhãs já não cantam. O tempo é agora de saldos, promoções, pechinchas, oportunidades a não perder. Aproxima-se a passagem de ano e neste país sem direitos adquiridos, em défice continuado, nada como voar para o Brasil para esquecer o garrote de Sócrates. Para que conste, os voos já estão esgotados. Se nada mais houver, restará o comando da televisão…"
……………..
(*) O jornalista Paulo Ferreira sintetiza hoje no JN:
"Os portugueses levantaram, este Natal, mais dinheiro no multibanco e fizeram compras de valor mais elevado com os seus cartões de crédito. Os números assustam em sete dias, gastámos 1,35 mil milhões de euros; os pagamentos com os cartões subiram para 768,3 milhões de euros; os levantamentos atingiram 590,6 milhões de euros.
De onde vem o susto? Primeiro as cifras, já de si enormes, não incluem os valores gastos com cartões de crédito (os tradicionais, fornecidos sem medida pela Banca, e os criados pelas empresas). Segundo: convém não esquecer que as famílias portuguesas são as segundas mais endividadas da Zona Euro. Terceiro e seguramente mais importante: os portugueses não ouviram com atenção as últimas declarações do presidente do Banco Central Europeu, aquelas em que Trichet escancarou a porta para um novo aumento dos juros no primeiro trimestre do próximo ano."
27 December, 2006
Quantas vidas se não vão com as mais de 3000 armas (não legalizadas) voluntariamente entregues às forças policiais, nas últimas semanas?
Ler, no Lx Repórter, do jornalista Miguel Marujo: Armas ilegais apresentadas ultrapassaram as 3000.
24 December, 2006
Bento Domingues, no Público (acesso a assinantes):
" (…) Só morrem e ressuscitam os que nascem. O hino que abre o Evangelho de S. João resolveu as coisas de uma forma brilhante: "O Verbo fez-se carne", fragilidade humana, e estabeleceu a sua tenda entre nós. Desse Presépio jorra "graça sobre graça" e a luz da verdade tocou a nossa condição maltratada (Job 1, 1-18). (…)
Se, por negligência, maldade ou ideologia, a referência e os fundamentos confessionais do Natal fossem perdidos, mas continuasse a ser a festa das crianças, dos pobres, dos sem-abrigo, dos velhos, dos que não têm ninguém, dos hospitais, dos abandonados, dos presos, dos esforços para acabar com as guerras, a violência e a marginalidade, o principal não estaria perdido. Se a paz ganhasse a terra, mesmo sem hinos à glória de Deus nas alturas, o Deus do Presépio seria infinitamente louvado. A alegria humana é a maior glória de Deus. Bom Natal!"
Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:
"As nossas raízes são cristãs. Como escreveu recentemente o filósofo agnóstico Régis Debray, "é sempre possível renegar esta ascendência; negá-la seria frívolo". É uma "questão de código genético". É a nossa "árvore genealógica", sem "orgulho" nem "vergonha". Não se pode negar a própria identidade. Não se trata de impô-la aos outros, mas, quando se conhece as próprias raízes, é mais fácil dialogar com os outros, apreciando as deles e abrindo-se, na universalidade, ao enriquecimento mútuo.
A título de exemplo, Debray pede que se repare nos nossos dias feriados, nas nossas igrejas, nos nossos museus, na nossa música. Sem o Concílio de Niceia II (787), que autorizou as imagens, teríamos a arte que temos e "todas as nossas paixões ópticas"? Por paradoxal que pareça, o lugar do feminino no nosso imaginário não deve também ao culto mariano? Não está o nosso protocolo republicano ligado, através do protocolo monárquico, à hierarquia celeste estabelecida pelo Pseudo-Dionísio Areopagita? É claro que a laicidade tem a sua raiz no vocabulário eclesiástico.
A nossa concepção de pessoa tem na sua base os debates à volta da tentativa de entender o mistério de Cristo e da Santíssima Trindade. A própria "morte de Deus" não se compreende sem a relação com a morte de Cristo na Sexta-Feira Santa - lembre-se a "Sexta- -Feira Santa especulativa", de Hegel.
Se é verdade que na Europa se vive uma crise de fé e de pertença cristã, também se não pode esquecer que o número dos católicos e dos protestantes no mundo não deixa de crescer. Dois mil milhões de seres humanos confessam-se cristãos, o que faz do cristianismo a principal religião da Humanidade.
Na base deste movimento cristão encontra-se a pessoa de Jesus e, quando se reflecte, não é possível ficar indiferente à sua figura. Nasceu num lugar obscuro - provavelmente em Nazaré da Galileia, há dois mil e dez anos -, teve uma vida pública de pregador ambulante durante dois anos e foi condenado à morte e à morte mais ignominiosa: a morte da cruz, que era a morte aplicada pelo Império Romano aos escravos. Tornou-se, no entanto, uma figura determinante para a Humanidade e talvez mesmo a mais influente da História.
Depois dele, o mundo não foi o mesmo.(…)"
(Continuar a ler: aqui)
16 December, 2006
Está desde quinta-feira, 14, operacional na rede de banda larga da Internet a agência televisiva de notícias "Rome Reports" . Os promotores da iniciativa caracterizam este serviço como "próximo das fontes, conhecedor da instituição, profissionalmente criativo e procurando a excelência do ponto de vista técnico". "Como em qualquer outro campo da informação", sublinham.
Com sede em Roma, a agência disponibiliza a todo o tipo de media e a particulares informação especializada não confessional, em distintos géneros e formatos: informação diária, documentários semanais e reportagens mais extensas com ritmo mensal.
Para já em ingês e espanhol, o serviço é disponibilizado de forma gratuita até fins de Janeiro, após o que os interessados poderão aceder mediante o pagamento de oito euros mensais.
Segundo o director da iniciativa, que é docente na Faculdade de Comunicação Institucional da Universidade da Santa Cruz em Roma,não se trata de informação religiosa, mas, antes, de «informação política, social e económica tendo por base o ponto de vista do Vaticano».
A "Rome Reports" já difundia desde há algum tempo informação sobre o Vaticano para os media confessionais e não confessionais.
Cf., a este propósito, o que escreve o jornalista John Allen, no seu blogue:
News agency with ties to Legionaries to launch video service (Updated with reply)
13 December, 2006
A Shoah é uma "tragédia imensa", diz o Vaticano num comunicado emitido hoje a propósito de uma conferência negacionista promovida pelo presidente do Irão.
Ao contrário do que se tem afirmado na iniciativa que hoje termina em Teerão, o Holocausto do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial existiu, foi uma "tragédia imensa" e subsiste como uma "advertência" para as consciências.
O comunicado, emitido pela Sala de Imprensa da Santa Sé nesta terça-feira, afirma textualmente:
"Relativamente à Conferência, que decorre em Teerão, a Santa Sé recorda sua posição, já expressa no documento da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo ‘Nós recordamos: uma reflexão sobre a Shoah‘. O século passado foi testemunha da tentativa de exterminío do povo judeu, com o assassinato de milhões de judeus de todas as idades e categorias sociais apenas por serem judeus. A Shoah foi uma tragédia imensa, ante a qual não é possível permanecer indiferente. A Igreja sente um profundo respeito e uma grande compaixão pela experiência vivida pelo povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial: a lembrança daqueles terríveis factos representa uma advertência dirigida às consciências para eliminar os conflitos, respeitar os legítimos direitos de todos os povos, exortar à paz, na verdade e na justiça. Esta posição foi afirmada pelo Papa João Paulo II no Monumento à Memória Yad Vashem em Jerusalém, no dia 23 de Março de 2000, e foi confirmada por Sua Santidade o Papa Bento XVI durante a visita ao campo de extermínio de Auschwitz, no dia 28 de Maio de 2006.
11 December, 2006
Aproveitando a quadra, as salas de cinema oferecem, este ano, "A História de Natal", um filme acabado de produzir, realizado por Catherine Hardwicke. O filme parece ter algum interesse documental, a avaliar por uma extensa análise crítica que o site da Signis - Associação Católica Internacional para a Comunicação divulga [Interessante, este texto, entre outros motivos pelo facto de traçar um quadro histórico acerca da presença de Maria no cinema].
As edições Paulistas norte-americanas não perderam tempo e já têm no mercado um guia para aproveitamento pastoral do filme.
Site Oficial do filme: http://www.thenativitystory.com/
O Filme na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Nativity_Story
10 December, 2006
"Nas religiões, oferece-se sacrifícios à divindade - frutos, comida, animais, seres humanos -, para aplacá-la, agradecer, expiar os pecados, atrair bênçãos. A refeição sacrificial cultual criava relações de comunidade dos participantes com a divindade e entre si. Mas desgraçados dos seres humanos que foram oferecidos em sacrifício! Teria sido melhor não terem conhecido a religião. E que Deus seria esse que precisasse dos sacrifícios, sobretudo quando isso implicava a morte de homens ou mulheres?
A Bíblia, concretamente na sua linha profética, verberou os sacrifícios. Oseias põe na boca de Deus estas palavras: "Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos."
E Amós: "Eu conheço as vossas maldades e a enormidade dos vossos pecados. Sois opressores do justo, aceitais subornos e violais o direito dos pobres no tribunal. Eu detesto e rejeito as vossas festas. Se me ofereceis holocaustos, não os aceito nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca."
E o profeta Isaías escreve: "De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? - diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gorduras de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas."
Jesus retomou a palavra profética de Oseias: "Ide aprender, diz o Senhor, o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’." Ele enfrentou profeticamente a casta sacerdotal e expulsou os vendilhões do Templo, tendo sido este acontecimento determinante para a sua condenação à morte na cruz (…)".
Continuar a ler AQUI.
Anselmo Borges, Sacrifício e Misericórdia, in Diário de Notícias, 10.12.2006
7 December, 2006
A época natalícia costuma trazer os temas religiosos para as capas de inúmeras publicações. O número de Dezembro de 2006/Fevereiro de 2007 dos Grands Dossiers Sciences Humaines não é excepção.
O índice de L’origine des religions pode ser consultado aqui.
"Musiques Sacrés" é o título de um número hors série da revista Le Monde de la Musique, cuja leitura se recomenda. A leitura pode, aliás, ser acompanhada pela audição de um CD oferecido na compra da publicação.
A apresentação de discografias agrupadas por géneros (les planants, les festifs, les tonitruants, les ordinaires, les obsessionnels, por exemplo) e de uma lista das 50 obras que devem integrar uma discoteca ideal de músicas sagradas justifica, por si só, a leitura da revista.
Como curiosidade, assinale-se o facto de o capítulo dedicado às músicas festivas, por exemplo, ser ilustrado com fotografias do fogo-de-artifício do S. João do Porto captadas em 1997.
5 December, 2006
Realiza-se quinta-feira, em França, o encontro de um vasto conjunto de organizações que pretende traduzir no terreno as orientações do Manifesto por uma Economia Solidária, apresentado em Setembro último.
No quadro da pré-campanha da eleição presidencial francesa, as individualidades eorganizações proponentes expressaram já a intenção de lançar um apelo público no sentido de "duplicar o peso da economia solidária nos próximos cinco anos". A reunião desta semana visa lançar uma campanha de mobilização nesse sentido.
O Manifesto arranca deste modo:
"Le profit ne peut être la finalité unique de l’activité économique.Dominée par le capitalisme financier, l’économie, dopée par les nouvelles technologies, les progrès fulgurants du commerce mondial, la surmultiplication des échanges financiers, tend à se libérer de toute contrainte sociale au nom de la compétitivité. Elle produit des richesses impressionnantes mais très inéquitablement réparties. Elle crée des emplois mais génère aussi précarité, insécurité et parfois exclusion des personnes. Elle ignore des besoins individuels et collectifs pressants s’ils ne lui semblent pas assez rentables. Elle fait dépendre l’avenir des hommes, leur emploi, leur revenu, leur rôle dans la cité, de décisions prises souvent sous la pression d’impératifs financiers.
Peut-on redonner du sens à notre engagement personnel et à notre vie collective ? Peut-on recréer un triangle vertueux entre l’emploi, la cohésion sociale et la démocratie participative ? Peut-on permettre aux plus fragiles de vivre dignement de leur travail sans dépendre des prestations d’assurance? (…)"
4 December, 2006
O assunto parece vir a destempo, mas continua a fazer todo o sentido. Trata-se de sugerir a leitura de um estudo sobre o fenómeno Código da Vinci, pensado e enunciado do ponto de vista de como reagir ao impacte do livro e do filme. Intitula-se "Et vous, qui dites-vous que je suis? Annoncer Jésus-Christ après le tsunami Da Vinci". É seu autor Bertrand Ouellet, director geral de Communications et Société.
O passo seguinte resume o espírito do texto:
" (…) la question la plus importante n’est peut-être pas de savoir comment ‘répondre’ au Code Da Vinci, comment réfuter les innombrables faussetés, demi-vérités et affirmations sans fondement qu’il contient; comment expliquer ce que sont la gnose, les apocryphes, les institutions de l’Église, les conciles; comment rétablir les faits et la vérité de l’histoire… Nombreux déjà sont les articles, livres, sites Web, documentaires et émissions qui le font et leur impact est modeste, au mieux. (…) Non. Nous entrons dans un nouveau chantier. La vraie question est de savoir quel ajustement pastoral, catéchétique et missionnaire sera nécessaire pour parler à tout ce monde qui a aimé et accueilli les idées véhiculées par le roman de Dan Brown. Autrement dit, comment annoncer Jésus-Christ après le tsunami Da Vinci."
E as perguntas a que, segundo o autor, será necessário responder:
"Pourquoi ce roman connaît-il un tel succès? Qu’est-ce que cela veut dire? Qu’est-ce que cela nous révèle des aspirations et des préoccupations de nos contemporains? Qu’est-ce que cela nous apprend des sensibilités et des questionnements religieux actuels?"
E, já que vem a propósito, fica a sugestão de uma visita ao site Communications et Société. Vale a pena. Trata-se de um organismo sem fins lucrativos dedicado à "promoção da qualidade, do sentido crítico e dos valores éticos e espirituais no mundo dos media e da comunicação, numa perspectiva cristã". Consulte-se, a título de exemplo, o capítulo dedicado a documentos de estudo e reflexão.
1 December, 2006
Há, no modo de agir do papa Bento XVI, aspectos inovadores, cujo significado e alcance o tempo se encarregará de revelar.
De entre eles, destaco dois: o modo como assumiu o seu livro sobre Cristo, recentemente anunciado, e a separação que mostrou querer fazer, na visita à Turquia, entre a sua posição enquanto cardeal Ratzinger e enquanto papa quanto à possibilidade de aquele país vir a integrar a União Europeia.
Relativamente a este último ponto, é sabido que o então cardeal Joseph Ratzinger manifestou, por mais de uma vez, sérias reticências ao sentido que possa ter o acolhimento da Turquia na UE. Seguindo uma lógica que não suscitaria, provavelmente, demasiadas resistências, Ratzinger, uma vez eleito papa, poderia procurar impor a sua visão das coisas, reorientando a diplomacia do Vaticano. Não foi essa a via que seguiu. As responsabilidades da condução da Igreja levaram-no a reavaliar a posição a adoptar.
Mais interessante foi o que se passou com o livro de que é autor - "Jesus de Nazaré - do Batismo à Transfiguração" - e que terá escrito nos tempos livres das suas funções papais. O seu porta-voz, além do panegírico ao pensamento teológico do autor, fez questão de sublinhar algo que certamente lhe foi recomendado: que os teólogos eram livres de discutir a obra, visto que ela era publicada pelo papa, certamente, mas não enquanto papa, mas, antes «, enquanto académico e teólogo.
Nos tempos que vivemos, fará certamente sorrir muitos esta distinção entre o que pode e não pode ser objecto de debate. Tudo pode e deve - diria eu - ser questionado, aprofundado, confrontado. Mas enfim! É aí que ainda estamos. Porém, a novidade - creio que notável e relativamente inédita, nos tempos modernos, é que Bento XVI aceite submeter o seu pensamento teológico desligado das suas responsabilidades papais.
É, certamente, um sinal positivo.
Nota complementar:
Este livro - escreve o Papa no prefácio - “non è assolutamente un atto magisteriale, ma è unicamente espressione della mia ricerca personale del ‘volto del Signore’ (Salmo 27,8). Perciò ognuno è libero di contraddirmi. Chiedo solo alle lettrici e ai lettori quell’anticipo di simpatia senza la quale non c’è alcuna comprensione”.