Há, no modo de agir do papa Bento XVI, aspectos inovadores, cujo significado e alcance o tempo se encarregará de revelar.
De entre eles, destaco dois: o modo como assumiu o seu livro sobre Cristo, recentemente anunciado, e a separação que mostrou querer fazer, na visita à Turquia, entre a sua posição enquanto cardeal Ratzinger e enquanto papa quanto à possibilidade de aquele país vir a integrar a União Europeia.
Relativamente a este último ponto, é sabido que o então cardeal Joseph Ratzinger manifestou, por mais de uma vez, sérias reticências ao sentido que possa ter o acolhimento da Turquia na UE. Seguindo uma lógica que não suscitaria, provavelmente, demasiadas resistências, Ratzinger, uma vez eleito papa, poderia procurar impor a sua visão das coisas, reorientando a diplomacia do Vaticano. Não foi essa a via que seguiu. As responsabilidades da condução da Igreja levaram-no a reavaliar a posição a adoptar.
Mais interessante foi o que se passou com o livro de que é autor - "Jesus de Nazaré - do Batismo à Transfiguração" - e que terá escrito nos tempos livres das suas funções papais. O seu porta-voz, além do panegírico ao pensamento teológico do autor, fez questão de sublinhar algo que certamente lhe foi recomendado: que os teólogos eram livres de discutir a obra, visto que ela era publicada pelo papa, certamente, mas não enquanto papa, mas, antes «, enquanto académico e teólogo.
Nos tempos que vivemos, fará certamente sorrir muitos esta distinção entre o que pode e não pode ser objecto de debate. Tudo pode e deve - diria eu - ser questionado, aprofundado, confrontado. Mas enfim! É aí que ainda estamos. Porém, a novidade - creio que notável e relativamente inédita, nos tempos modernos, é que Bento XVI aceite submeter o seu pensamento teológico desligado das suas responsabilidades papais.
É, certamente, um sinal positivo.
Nota complementar:
Este livro - escreve o Papa no prefácio - “non è assolutamente un atto magisteriale, ma è unicamente espressione della mia ricerca personale del ‘volto del Signore’ (Salmo 27,8). Perciò ognuno è libero di contraddirmi. Chiedo solo alle lettrici e ai lettori quell’anticipo di simpatia senza la quale non c’è alcuna comprensione”.
