Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:
"As nossas raízes são cristãs. Como escreveu recentemente o filósofo agnóstico Régis Debray, "é sempre possível renegar esta ascendência; negá-la seria frívolo". É uma "questão de código genético". É a nossa "árvore genealógica", sem "orgulho" nem "vergonha". Não se pode negar a própria identidade. Não se trata de impô-la aos outros, mas, quando se conhece as próprias raízes, é mais fácil dialogar com os outros, apreciando as deles e abrindo-se, na universalidade, ao enriquecimento mútuo.
A título de exemplo, Debray pede que se repare nos nossos dias feriados, nas nossas igrejas, nos nossos museus, na nossa música. Sem o Concílio de Niceia II (787), que autorizou as imagens, teríamos a arte que temos e "todas as nossas paixões ópticas"? Por paradoxal que pareça, o lugar do feminino no nosso imaginário não deve também ao culto mariano? Não está o nosso protocolo republicano ligado, através do protocolo monárquico, à hierarquia celeste estabelecida pelo Pseudo-Dionísio Areopagita? É claro que a laicidade tem a sua raiz no vocabulário eclesiástico.
A nossa concepção de pessoa tem na sua base os debates à volta da tentativa de entender o mistério de Cristo e da Santíssima Trindade. A própria "morte de Deus" não se compreende sem a relação com a morte de Cristo na Sexta-Feira Santa - lembre-se a "Sexta- -Feira Santa especulativa", de Hegel.
Se é verdade que na Europa se vive uma crise de fé e de pertença cristã, também se não pode esquecer que o número dos católicos e dos protestantes no mundo não deixa de crescer. Dois mil milhões de seres humanos confessam-se cristãos, o que faz do cristianismo a principal religião da Humanidade.
Na base deste movimento cristão encontra-se a pessoa de Jesus e, quando se reflecte, não é possível ficar indiferente à sua figura. Nasceu num lugar obscuro - provavelmente em Nazaré da Galileia, há dois mil e dez anos -, teve uma vida pública de pregador ambulante durante dois anos e foi condenado à morte e à morte mais ignominiosa: a morte da cruz, que era a morte aplicada pelo Império Romano aos escravos. Tornou-se, no entanto, uma figura determinante para a Humanidade e talvez mesmo a mais influente da História.
Depois dele, o mundo não foi o mesmo.(…)"
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