27 February, 2007

Um documentário enterrado no sepulcro?

No Público de hoje, noticia-se a descoberta de um sepulcro que conteria os ossos de Jesus e de vários membros da sua família. O achado foi assumido pelo realizador de Holywood, James Cameron (Titanic, Exterminador Implacável) e sua equipa, para um documentário a exibir pelo Discovery Channel. Além dos elementos referidos no Público, a AFP ouviu um arqueólogo israelita que não poupa nas críticas a Cameron. "Farfelu", que significa "bizarro" ou "louco", é o adjectivo que o cientista utiliza para falar da descoberta. Alguns excertos:

Un des plus éminents archéologues israéliens a jugé farfelu un documentaire américain prétendant avoir découvert le tombeau de Jésus et affirmant que ce dernier avait eu un fils. Les hypothèses avancées dans "La tombe perdue de Jésus", réalisé par James Cameron ("Titanic") et Simcha Jacobovici, se basent sur la découverte en 1980 d’un tombeau contenant dix cercueils dans le quartier de Talpiot, à Jérusalem. (…)
Mais le professeur Amos Kloner est catégorique: Il n’y a "pas de preuve scientifique" démontrant qu’il pourrait s’agir de la tombe de Jésus et de sa famille. "C’est tout simplement un tombeau juif du premier siècle après Jésus Christ".
"Les noms visibles sur six des ossuaires sont très intéressants, car ils rappellent ceux des principaux personnages du Nouveau Testament. Mais malgré la ressemblance, qui dit que +Marie+ est Madeleine et que +Judah+ est le fils de Jésus? C’est impossible à prouver. Il s’agit de noms très populaires et communs à cette période", a expliqué à l’AFP l’archéologue de l’Université de Bar-Ilan. (…)
"Il est impossible de prendre un épisode religieux et de le transformer en quelque chose de scientifique. Ou alors il faut faire des tests ADN et vérifier que l’ADN des ossements appartenant soi-disant au fils de Jésus est le même que celui de Dieu"!, plaisante-t-il.
Sur les 900 tombeaux de la même époque retrouvés dans un rayon de quatre kilomètres de la vieille ville de Jérusalem, le nom Jésus ou Yéshu a été retrouvé 71 fois et celui de "Jésus, fils de Joseph" a également été retrouvé, a-t-il fait valoir.
Le service des Antiquités israéliennes s’est refusé à tout commentaire. En 1996, l’un de ses porte-parole avait cependant estimé que la probabilité que les ossuaires appartiennent à la famille de Jésus étaient "proche de zéro".
Mais selon la chaîne américaine Discovery, qui doit diffuser le documentaire début mars, de nouvelles données scientifiques, notamment des analyses d’ADN, laissent penser que les tombeaux ont pu, à un moment donné, contenir les ossements de Jésus et de sa famille. (…)

26 February, 2007

Arcebispo de Filadélfia no ‘You Tube’

O cardeal Justin Rigali saiu à busca de novas audiências nesta Quaresma, oferecendo comentários semanais ao Evangelho no site de intercâmbio de vídeos «You Tube». O arcebispo da Filadélfia, Estados Unidos, enviou seu primeiro vídeo de dois minutos e meio na Quarta-Feira de Cinzas. No vídeo, titulado «Viver a Quaresma: Primeiro Domingo», o cardeal de 71 anos explica os benefícios do jejum, comenta o Evangelho do Domingo e convida os ouvintes a unir-se a um grupo de estudo da Bíblia.

Donna Farrell, porta-voz da Arquidiocese, disse ao «Philadelphia Inquirer» que o cardeal Rigali «não sabia nada do ‘You Tube’» até que sua equipe lhe propôs experimentá-lo. «Ele disse: ‘Devemos fazer tudo que possamos para chegar a mais pessoas, aonde elas estão’. Ele nos disse repetidamente: ‘Estamos na evangelização. Saiamos. Temos de ir a qualquer parte’», disse Farrel ao diário. A porta-voz disse que o cardeal prevê continuar enviando mensagens ao longo da Quaresma. No momento da publicação desta notícia, o vídeo foi já visto por cerca de seis mil pessoas, foi situado 17 vezes como favorito, e suscitou vários comentários.

(Fonte: Agência Zenit.org

25 February, 2007

Uma proposta para a Quaresma: deixar o carro na garagem

Deixar os automóveis na garagem é a proposta quaresmal do presidente da Conferência Episcopal da Alemanha.
O jejum do carro, deixando os automóveis na garagem como gesto de respeito pela natureza. "O tempo de penitência da Quaresma convida-nos a repensar o nosso estilo de vida. Negligenciamos demasiadas vezes as coisas que são nefastas para o nosso ambiente e para os nossos próximos", refere o Cardeal Karl Lehmann, em entrevista ao Bild citada pela AFP. "Aproveitemos o período da Quaresma para contribuir para a melhoria do clima, por exemplo, fazendo o jejum do automóvel", disse.
O Cardeal Lehmann junta-se, assim, aos apelos lançados por vários responsáveis católicos e protestantes da Alemanha e Luzembrugo, pedindo aos fiéis que renunciem completamente ao automóvel durante a Quaresma, deslocando-se a pé, nos transportes públicos ou de bicicleta.

(Fonte: Agência Ecclesia)

“Embora seja noite”: lançamento

Filed under: Cultura

"Embora seja noite", de Luís Soares Barbosa, é um roteiro para uma via-sacra, nascido no âmbito da Pastoral Universitária e rezado na subida ao Bom Jesus do Monte na Quaresma de 2005. O lançamento é quinta-feira, dia 1, às 18 horas, na Livraria Centésima Página, em Braga, cabendo a apresentação ao poeta e editor José Rui Teixeira.

Manuel Clemente, o historiador que se tornou bispo do Porto

No Público de hoje, publiquei um perfil do novo bispo do Porto, D. Manuel Clemente.

Pacificador, homem de consensos, afectivamente próximo. Historiador, leitor compulsivo, sempre pronto para um bom debate. Devotado ao diálogo entre a Igreja e a cultura, com um percurso dentro de estruturas eclesiásticas – seminário, Universidade Católica Portuguesa (UCP) – mas em permanente contacto com meios académicos e culturais não católicos. Manuel Clemente, 58 anos, foi nomeado quinta-feira para bispo do Porto.

Até agora a desempenhar o cargo de bispo auxiliar de Lisboa, Manuel José Macário do Nascimento Clemente nasceu em 16 de Julho de 1948. Antes de decidir ingressar no seminário, em 1973, Manuel Clemente tinha já concluído a licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa.

Os dois apelos – a historiografia e o catolicismo – acabariam por coincidir no seu percurso de investigador, iniciado com a defesa da tese em Teologia Histórica. Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal – A ‘Sociedade Católica’ (1843-1853) era o título da sua dissertação, entretanto publicada (ed. UCP).

Com um percurso eclesial feito essencialmente em instituições ligadas ao ensino – o Seminário Maior de Cristo-Rei, nos Olivais (Lisboa) e a Faculdade de Teologia da UCP – D. Manuel tem agora, pela frente, um desafio maior: o de dar uma nova dinâmica pastoral a uma diocese adormecida à sombra do passado.

A cátedra episcopal do Porto tem, na sua história, uma lista de grandes nomes, como António Barroso ou António Ferreira Gomes. Este último, condenado ao exílio por Salazar durante a década de 60, acabou por deixar uma imagem do homem intelectual, extremamente culto (é dele, por exemplo, o prefácio dos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner), mas que não conseguiu gerir da melhor forma a relação com alguns padres e a organização da acção da Igreja.

Manuel Clemente sucede, agora, a D. Armindo Lopes Coelho, que atingiu os 75 anos (data canónica para a saída) e se encontra hospitalizado. O novo bispo do Porto, que tomará posse a 25 de Março, recupera essa dimensão de relação com a cultura e os meios académicos que ficou ligada à personalidade de Ferreira Gomes. Não por acaso, Manuel Clemente é, desde 2002, responsável da comissão da Conferência Episcopal para a Cultura e as Comunicações Sociais. Na Rádio Renascença e no programa Ecclesia, da RTP 2, mantém desde há anos uma presença regular.

A comparação com Ferreira Gomes não o assusta, como dizia ontem ao PÚBLICO: “Passaram 50 anos e a atenção à cultura continua a ser fundamental. Terei muita gente que pensa e escreve a ajudar-me. Não será difícil ler os sinais dos tempos e estar atento à realidade.”

Para o seu governo, o novo bispo tem, para já, uma prioridade: “Conhecer, amar e servir” a diocese, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, dos quais 98 por cento se consideram católicos mas em que a média de pessoas que vai à missa está pouco acima dos 20 por cento. Apesar desta taxa, o número de baptizados (quase 17 mil, dados de 2004) e de casamentos pela Igreja (quase 7500) continua a ser dos mais elevados entre as dioceses portuguesas.

Com uma grande diversidade social e geográfica – mais urbana na faixa litoral, mais rural e desertificada em zonas como Arouca, Baião ou Castelo de Paiva – a diocese tem quase 400 padres a trabalhar em 477 paróquias agrupadas em 34 vigararias (equivalentes aos concelhos civis). Além da vastidão e diversidade sócio-religiosa da diocese – “equivalente a Lisboa”, diz o próprio – Manuel Clemente enfrenta outro desafio importante: conseguir impor decisões e restabelecer a unidade num clero dividido em grupos onde, por vezes, o que conta mais são fidelidades antigas ou uma espécie de estratificação eclesiástica, tendo em conta os títulos canónicos.

A capacidade do novo bispo para o diálogo e o consenso, a sua “proximidade afectiva” – a expressão é do director da Faculdade de Teologia da UCP, Peter Stilwell – podem ser trunfos de Manuel Clemente na nova tarefa que tem pela frente.

Cultura e capacidade intelectual continuarão a ser pontos que o distinguem. A paixão pela História traduz-se nas várias obras já publicadas: além da tese, onde estuda aquela que foi a primeira tentativa, em Portugal, de organização de apostolado católico autónomo da hierarquia eclesiástica, também outras como Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República (ed. Grifo) consubstanciam a sua atenção prioritária ao século XIX, tempo em que a Igreja Católica deixou de dominar o espaço público.

Também a religiosidade popular tem sido objecto da investigação de Manuel Clemente, padre desde Junho de 1979 e bispo auxiliar de Lisboa desde Janeiro de 2000. No patriarcado, foi ele o responsável directo pela organização do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, cuja sessão de Lisboa decorreu em Novembro de 2005.

Na sua primeira saudação, D. Manuel incluía todos os crentes de outras confissões e todas as instâncias públicas e sociais (incluindo desportivas) da diocese.

Em Abril de 2005, a propósito da eleição do novo Papa Bento XVI, dizia: “A Igreja preza muito uma consciência bem informada que tenha capacidade de decisão, e nesse santuário da consciência a Igreja não se mete, mas não pode prescindir de dar à consciência de cada um todos os elementos da questão, até em nome da humanidade total que a Igreja defende.”

24 February, 2007

Enigmas

Isabelle de Gaulmyn, correspondente em Roma do jornal católico La Croix colocava há dias, no seu blogue, um post que levanta uma questão interessante. Começa assim:

"Quand on est journaliste française d’un quotidien chrétien, il est une question qui, depuis quelques semaines, revient avec insistance de la part des interlocuteurs du Vatican, qu’ils soient monseigneur, prêtre, séminariste, ou laïc. « Comment se fait-il qu’un pays très sécularisé comme la France arrive au premier rang de l’Europe pour le nombre de naissances ? ». La question, en réalité, en cache une autre, qui préoccupe sérieusement ici les responsables de l’Eglise: Pourquoi l’Italie catholique arrive-t-elle au dernier rang pour le nombre d’enfants par femme ? Comment se fait-il que l’Italie, nation la plus pratiquante de l’Europe occidentale, refuse de faire des enfants ? "

Ler  a continuação e os comentários aqui.

20 February, 2007

Os alçapões da doutrina católica sobre o aborto

No Público de hoje (a edição em pdf destes primeiros números do novo jornal contina disponível, passe a publicidade), saiu um artigo de opinião que escrevi ainda no rescaldo do referendo. O texto foi redigido antes da nota pastoral da Conferência Episcopal de sexta-feira passada, disponível na Ecclesia. No entanto, como vou por outros caminhos, a nota apenas me teria levado a alterar pequenos pormenores.

A doutrina oficial católica e de alguns sectores da Igreja em matéria de aborto tem vários alçapões, antes de tocar o problema maior. Essa foi uma razão para a derrota do “não” no referendo do passado domingo
1. A recusa da educação sexual nas escolas, com medo dos “valores” que se perdem, da “ameaça” à família, da “redução” à biologia.
O resultado desta atitude é que nem (muit)as famílias estão preparadas para educar os filhos nesta matéria nem a escola faz o que poderia fazer. Certo: há também falta de maturidade em muitos professores, predomina em Portugal uma visão estatizante da educação e o sistema de ensino não pode fazer tudo. No seu quarto texto sobre o referendo, o cardeal-patriarca de Lisboa escreveu que a educação sexual “é bem-vinda e necessária”. Mas essa não é a ideia de muitos responsáveis católicos. E melhor seria que, em vez da guerrilha, se instalasse um clima de colaboração entre o Ministério da Educação, as escolas, os pais, as comunidades religiosas…
2. A recusa da contracepção e do planeamento familiar.
É conhecido que a encíclica que regula esta posição oficial da Igreja, a “Humanae Vitae” (1968), foi publicada pelo Papa Paulo VI sob forte pressão da Cúria Romana contra a opinião de outros sectores da católicos, incluindo casais. O resultado está à vista: a aceitação exclusiva dos métodos “naturais” de planeamento familiar e a recusa do preservativo ou da pílula são um dos motivos mais fortes para que muitos católicos se afastem da Igreja. Hoje, não faz sentido continuar a investir contra esses moinhos de vento, questão de pormenor no tema mais vasto e esse sim fundamental que é o modo de viver a relação com o outro, a sexualidade e a felicidade. O planeamento familiar não é um problema do método que se utiliza, mas uma questão de como se educa para a maternidade e a paternidade responsáveis. Na prática, aliás, sabe-se que muitos católicos não ligam ao que a doutrina diz nesta matéria e que muitos agentes da Igreja – padres, bispos, mesmo cardeais – não lhe dão em privado a importância que afirmam em público.
3. O discurso católico fala da pessoa como um todo, reflectindo um paradigma personalista. Mas, nas matérias relacionadas com a sexualidade (relações pré-matrimoniais, contracepção, homossexualidade, erotismo, sensualidade), o modo como as coisas são ditas aproximam-se mais de um paradigma biológico.
4. No aborto, há dramas sérios que as pessoas vivem, situações que só cada um, perante a sua consciência (perante Deus, para os crentes) pode avaliar. Em 1994, o Papa João Paulo II beatificou a italiana Gianna Beretta Molla que, em 1962, decidiu levar até ao fim uma gravidez de risco, sabendo que podia morrer e deixar viúvo o marido (que a apoiou) e órfãos os outros três filhos que já tinha. Uma decisão difícil e legítima.
Uma mulher que decidisse abortar para não morrer e poder, assim, acompanhar marido e filhos, não deveria merecer o mesmo respeito da parte de quem anuncia, como se diz, o evangelho da misericórdia? (Para o padre João Seabra, como se ouviu segunda-feira, na RTP2, a questão mais importante é insistir no “pecado mortal”. Ideias infelizes como esta é que continuam a afastar as pessoas do centro da mensagem cristã.)
Outros dramas sérios podem atravessar-se à consciência de cada mulher e de cada homem na questão do aborto. Mas enquanto não se entender que cada pessoa deve ter a consciência (“santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus”, como diz o Concílio Vaticano II) no centro da decisão, a Igreja continuará a lutar sempre contra o mal menor, a reboque de leis e dos costumes.
5. O discurso católico poderia ter sido o da compreensão perante o drama do aborto (por exemplo, para com os casos previstos na lei em vigor desde 1984). Poderia, mesmo, ter sido o de exigir que a lei fosse cumprida de forma a evitar o recurso ao aborto clandestino – esse, um mal maior. Mas ele foi sempre o de se opor ao que viria a seguir. Por tudo isto, o discurso oficial católico perdeu – o oficial, porque na acção prática as coisas são (felizmente) diferentes em muitos casos.
6. A mesma preocupação com o início da vida deveria existir para a vida em processo. É que ela só é digna com possibilidade de cada um se poder realizar, com comida, casa e trabalho acessíveis a todos. É bom ver a Associação dos Empresários Católicos pronunciar-se “a favor da vida”, como o fez no fim da campanha. Seria bom ver alguns dos nomes dessa associação recordarem-se desse compromisso na hora de fazer pressões para que as mulheres não engravidem, de decidir ordenados ou despedimentos.
Num âmbito diferente, dois aspectos merecem reflexão: a) outra razão que ajudou ao insucesso do “não” foi o silêncio mediático sobre o trabalho feito pelas associações criadas depois do referendo de 1998 e que têm uma acção meritória de apoio a grávidas, a mães adolescentes e a crianças. Muitos católicos estão empenhados nessas associações, várias delas nascidas à sombra de instituições da Igreja, mas isso é pouco divulgado e conhecido. b) Em 1984, quando a primeira lei sobre o aborto foi aprovada no Parlamento, o objectivo era o de acabar com o aborto clandestino. Oxalá que o país seja capaz, agora, de resolver o problema. Para que, daqui a mais 10 anos, não se esteja a votar num novo referendo.
P.S. – Será lamentável se o PS não legislar no sentido de haver uma consulta de aconselhamento e apoio às grávidas; não foi isso que destacados membros do partido andaram a prometer e o próprio primeiro-ministro garantiu na noite de domingo?

19 February, 2007

“Está a pensar engravidar?”

"Ana escutava surpreendida as questões que lhe eram colocadas "Está a pensar engravidar? Tem filhos pequenos? Que idades têm?". A possibilidade de obter o posto de trabalho dependeria inteiramente das respostas que desse. Ana é mulher, mãe e esposa. E, por tudo isso, operária potencialmente inválida para trabalhar (…)".

Esta história encabeça um texto da jornalista Helena Forte ("Operárias que ninguém quer") que o Jornal de Notícias hoje publica e que deveria motivar denúncias tão encarniçadas quanto as daqueles que se encarniçaram na luta contra a despenalização do aborto, no referendo do passado dia 11.

Todos sabemos que, na actual situação de precariedade que afecta uma enorme parcela dos trabalhadores, a maternidade constitui um dos grandes entraves à contratação ou ao sucesso no emprego. O problema parece ser muito mais grave do que as estatísticas oficiais fazem crer. E, no entanto, estamos longe de ver um igual empenhamento e mobilização dos cidadãos (e, designadamente dos católicos) na denúncia deste comportamento ignóbil e anti-vida de tantos empresários e gestores.

14 February, 2007

A sedução monástica de Philip Gröning

Além de uma crítica ao filme O Grande Silêncio e da entrevista de Paulo Moura ao realizador, há ainda um comentário que assinei no Y de sexta-feira, no Público:
Quase no final, um dos planos de "O Grande Silêncio" sintetiza todo o filme: um monge acabado de chegar, ainda em fase de adaptação ao convento, pega na corda do sino, puxa, toca a campana da igreja, o olhar fixo num ponto que apenas adivinhamos. Só o braço se movimenta num ritmo igual, provocando o som ritmado. Permanece o rosto voltado para algures, o olhar seduzido por algo que vem do fundo.
"O Grande Silêncio", de Philip Gröning, mostra que o realizador se deixou seduzir pela vida da Grande Chartreuse, próximo de Grenoble. Ali, São Bruno fundou, há pouco mais de 900 anos, a Ordem da Cartuxa, onde os monges procuram aliar a vida eremítica (cada um vive sozinho numa cela) à vida cenobítica (a experiência comunitária, com tempos em comum). "Tu me seduziste, Senhor, e eu deixei-me seduzir", diz a frase do livro bíblico do profeta Jeremias, repetida como uma legenda.
Durante quase três horas (Gröning filmou 120 horas de película em seis meses de permanência na Cartuxa), o sino soa como um refrão: passam os tempos e as estações, enquanto os monges rezam, rapam o cabelo, meditam, tratam do jardim. Neva e os religiosos cortam lenha, brincam, cantam, escorregam na neve, prepararam comida. A primavera explode e os monges riem, cantam, rezam, cuidam do jardim, trabalham na carpintaria.
Essa passagem do tempo e de uma experiência que se mostra marcam decisivamente o filme. Há apenas duas interferências do realizador: a captação de cada um dos rostos, durante breves segundos, como um adágio do olhar que se repete ao longo do filme; e uma curta entrevista (só se escutam as respostas) a um monge que cegou. Philip Gröning já afirmou que quis redescobrir o lado "mais luminoso, mais puro" do catolicismo, por contraste com o triângulo pecado-culpabilidade-contrição que conhecera. As declarações do monge cego mostram a oscilação do próprio realizador: o religioso está feliz com a sua vida, diz que "Deus é infinitamente bom e ajuda", mas também agradece "todos os dias" a Deus o facto de ter cegado…
Mas os olhares que nos desafiam através da objectiva do realizador - quase todos a fixam sem pestanejar - são olhares de pessoas que vivem "quase sem medo, que não receiam a morte, que confiam em absoluto em que Deus se ocupa de tudo", como também já testemunhou o realizador. A doença e a morte estão também presentes: um dos monges mais idosos é filmado enquanto outro o trata delicadamente; quase no final do filme, vê-se o monge moribundo na cama. Tudo é captado com a mesma poesia de quem filma a natureza envolvente. O corpo - na oração, no trabalho, no divertimento, na doença - assume uma dimensão estética, ascética e transcendente, porque liberta.
A mesma transcendência e harmonia é dada aos objectos, gestos e espaços do quotidiano: a gota do lava-louça, o claustro, um avião, o automóvel que passa, os gatos, as plantas, o lavar das mãos, a mesa, o jarro, uma maçã cortada, o espaço vazio, a chuva… "A terra, o ar e o oceano são abençoados pelo Senhor", diz uma das frases-legenda do filme.
Há um problema na versão portuguesa, comum a outros filmes que abordam ao fenómeno religioso: os cantos e as orações quase não são legendados. Num filme em que a palavra escrita e falada não abunda, a palavra cantada e rezada tem uma função primordial que fica ocultada por essa ausência.
Gröning sintetiza o espírito deste convento feito cinema numa outra frase: "Eis o silêncio: deixai que o Senhor pronuncie em nós uma palavra igual a Ele."

O artista é um monge na sua cela

Já aqui se referiu, antes, o Grande Silêncio, filme de Philip Gröning sobre a Cartuxa da Grande Chartreuse, nos Alpes (casa-mãe dos cartuxos). O filme estreou quinta-feira em Portugal. No Y de sexta-feira, o Público trazia um pequeno dossier sobre o filme, onde se incluía uma entrevista ao realizador, feita por Paulo Moura. Aqui fica:

 

O alemão Philip Groening, 47 anos, sempre foi um cineasta pouco convencional. Mistura imagens de película e de vídeo, super 8 e Alta Definição, não usa scripts, é realizador, operador de câmara, editor e produtor dos seus próprios filmes. Cada um deles é uma experiência. Em "O Grande Silêncio", o seu primeiro documentário, fechou-se seis meses no convento da Grande Cartuxa, nos Alpes franceses, e filmou, sozinho, a vida solitária e rotineira dos monges. Depois, durante dois anos e meio, montou um filme sem palavras, sem música, sem comentários.

- É uma pessoa muito religiosa?

- Sou religioso de uma forma complicada. Muito diferente da católica. Mas acredito que existe algo mais do que um conjunto de átomos movendo-se por aí.

- Foi por isso que foi para o mosteiro? Para se sentir mais próximo de Deus?

- Não. O que eu quis foi descobrir quem era, de onde vinha. Eu fui educado como cristão. Mas só me falaram do pecado, da culpa, da confissão. Ora o Cristianismo não tem nada a ver com isso. Tem a ver com a Graça.

- Tratou-se então de um regresso às origens do Cristianismo.

- Sim. O que é muito importante. Porque todos nós, mesmo que sejamos ateus, vimos de uma base cultural cristã. Mas a Igreja em que eu cresci, nos anos 60, era opressora. Não era útil. A religião que vemos nos mosteiros é uma religião útil, luminosa. Tem a ver com fé, com confiança, com Graça…

- No entanto, não há muitos voluntários para ir para os mosteiros.

- Há muitos. Mas são recusados. Ou vão e depois descobrem que não querem viver naquilo toda a sua vida. Não aguentam.

- O que é tão difícil de suportar? É uma vida muito difícil e que implica desistir de quase tudo, para estarmos disponíveis para o que vier ao nosso encontro. Há uma grande dignidade nessa disponibilidade, nessa espera, mas não é fácil. Isto é um mosteiro, não é nenhuma espécie de grupo de terapia. Muitas pessoas vão lá e depois apercebem-se de que não estão dispostas a organizar toda a sua vida em função daquilo. Por isso têm de partir.

- No seu caso, a ideia era fazer a experiência do convento ou fazer um filme?

- A ideia surgiu quando eu era muito novo. Achei que a experiência me faria bem e ao mesmo tempo queria aproveitar a oportunidade para fazer um filme. E a razão mais forte foi esta: acho que a vida no mosteiro tem muito a ver com as origens da cultura europeia. E também com a forma como os artistas pensam e estruturam a sua vida. A atitude de um artista está relacionada com a ideia do monge na sua cela. A sua busca da verdade. Penso que fui influenciado por esse arquétipo cultural e queria saber de onde vem.

- Esse arquétipo é detectável na cultura contemporânea?

- Acho que sim. A razão pela qual a Europa é diferente do Médio Oriente ou da Ásia é que a cultura europeia tem as suas raízes nos mosteiros. É por isso que a primeira reacção dos espectadores ao filme é como se tivessem entrado num lugar estranho. Mas depois começam a sentir-se em casa. Geralmente pensamos que são as culturas orientais que estão mais ligadas ao isolamento, à meditação. Os mosteiros asiáticos são muito diferentes dos cristãos. A nossa vida está muito ligada à cultura dos mosteiros da Idade Média e ao que eles nos deixaram.

- Que foi o quê?

- A maneira como o tempo e o espaço são estruturados. O mosteiro medieval tem uma forma específica de os organizar. Cada acção ter um tempo e um lugar próprios. Separar o tempo de trabalho do tempo de ócio. Adoptar um estilo de vida regular. Tudo isto está profundamente enraizado na identidade europeia. Mas vivemos um tempo tão rápido. Dificilmente o podemos comparar com o tempo quase inexistente do mosteiro. O nosso tempo é mais rápido mas é estruturado da mesma maneira.

- Porque teve de se fechar seis meses no convento?

- Poderia ter lá ido filmar, voltando para casa ao fim do dia. E que filme teria feito? Um documentário com toda a informação sobre os cartuxos… Mas isto não é um filme sobre informação. É um filme sobre experiência. Vivemos numa sociedade em que há informação por todo o lado. O que nos falta são experiências. Eu não queria fazer uma reportagem normal, cheia de dados importantes sobre o convento da Cartuxa e a sua Ordem. Ficaríamos focados na informação e não teríamos nenhuma experiência. Foi para esta que tentei criar um espaço. Através de certos recursos formais, da repetição, do silêncio, que torna o tempo no instrumento para contar a história, tentei trazer os espectadores para dentro dessa experiência. O cinema é o lugar para se fazer uma viagem interior profunda. Por isso, a única maneira de fazer este filme era ir para o mosteiro e passar muito tempo lá. Partilhar as vidas daquelas pessoas e deixar que a experiência mudasse a minha percepção.

- E é possível transmitir essa percepção?

- Não, mas isto não é um filme sobre mim. Não é importante transmitir o que senti quando estive lá. O que importa é criar um espaço onde a audiência possa experimentar as suas próprias sensações. É por isso que cada espectador vê o filme à sua maneira. Uns acham aquela vida muito entediante, outros vêem os monges como homens felizes e divertidos. Há uma cena surpreendente, em que os monges brincam na neve, como crianças. Eu quis mostrar que não se trata de pessoas tristes, que fugiram da vida. Uma das coisas que me impressionaram foi o facto de os monges serem tão livres. São realmente eles próprios. Muito mais autênticos do que a maior parte de nós.

- Antes de fazer cinema, estudou Medicina e Psicologia. É daí que vem esse interesse quase científico, experimental, pelo comportamento humano?

- Talvez. Eu trabalhei muito sobre a percepção. O que nos faz ver e ouvir as coisas de certa maneira e como estruturamos essa informação. Como construímos o mundo. E acho que o cinema é essencialmente isso: construir um mundo que entre na percepção do espectador. É por isso que o cinema é tão poderoso. Muito mais do que a televisão. Todos os grandes cineastas trabalham sobre isto: como construímos o mundo.

- Por vezes é preciso ir para lugares extremos, radicais, para o compreender?

- Não necessariamente. O meu próximo filme trata de uma situação muito comum, um casamento. Depende da abordagem do realizador, que pode sempre ser radical. Pensando bem, acho que me interessa sempre o tema do isolamento e a imensa alegria que se consegue atingir através dele.

- Todos os seus filmes, tão diferentes entre si, são sobre esse isolamento e essa alegria?

- Quando faço um filme, tento sempre encontrar a forma artística adequada ao tema e ao que quero transmitir. Para que seja uma experiência para o espectador. De todas as vezes tento ir até ao limite de onde um filme pode ir. Por isso eles acabam por parecer tão diferentes. Todos são de ficção, excepto este. O primeiro, "Summer" (1988), também não tinha palavras. "The Terrorists" (1992) é grotesco e rápido. "L"amour, L"argent, L"amour" (2000), é terno e emocionalmente muito violento. Mas em todos eles há alguma coisa sobre isolamento. E também sobre a alegria. As varias formas da alegria.

12 February, 2007

Ser vaca na Europa ou pobre no Terceiro Mundo?

Do texto do padre Anselmo Borges no Diário de Notícias de domingo, 11:
 

Quando se fala em fundamentalismo, é no fundamentalismo religioso que normalmente se pensa. Mas há outras formas. Pense-se concretamente no fundamentalismo económico. Já em 2001, ano em que recebeu o Prémio Nobel da Economia, J. Stiglitz, referindo-se sobretudo ao caso do Fundo Monetário Internacional, falava de "fundamentalismo neoliberal". Agora, no seu último livro - Making Globalization Work -, faz notar que mais vale ser uma vaca na Europa do que uma pessoa pobre num país em vias de desenvolvimento. Enquanto as vacas europeias recebem em média um subsídio diário de dois dólares, grande parte da Humanidade tem de viver com menos do que isso.

A globalização é inevitável. Ela é também ambivalente, isto é, tem ganhadores e perdedores. Ela pode levar ao milagre económico e ao descalabro. Mas, como sublinhou o teólogo Hans Küng, é sobretudo importante perceber que ela é "dirigível".
O facto de poder ser orientada significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético: impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes, critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global. (…) 
O que hoje se sabe é que nem o socialismo nem a mão invisível do mercado abriram as portas do paraíso à Humanidade. Assim, à economia de mercado tout court é preciso contrapor a economia de mercado com sentido social e ecológico à escala global. (…)
Continuam a morrer no mundo à fome milhões de seres humanos, o que é intolerável. É um imperativo ético ajudar os países pobres no seu desenvolvimento. Ora, sempre será preferível ajudar no desenvolvimento as pessoas nos seus próprios países a ter de levantar barreiras e muralhas à volta do mundo desenvolvido e assistir à entrada, sem controlo possível, de multidões à procura de uma vida melhor, com todos os efeitos de turbulência inevitável a médio prazo. (…)

 Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários com os países pobres por razões de ética e humanidade, sejamo-lo ao menos por razões de egoísmo esclarecido.

Bem-aventuranças, fonte de alegria

Do texto de frei Bento Domingues no Público deste domingo, 11, sobre as bem-aventuranças, destaca-se:

(…) S. Paulo tinha por médico o evangelista S. Lucas e este fala de Jesus, precisamente, através da figura do médico de todas as doenças espirituais, físicas e sociais, mas implacável com quem não quer ter olhos nem coração para as vítimas das suas políticas e do seu arrogante estilo de vida. Para que não se diga que isso só valia na "era dos milagres", o autor dos Actos dos Apóstolos apresentou a Igreja através de uma comunidade exemplar, sem indigentes, na qual, os bens deste mundo eram distribuídos segundo as necessidades de cada um (Act 4, 32-35). Isto significa que a mudança dos tempos exige imaginação social na utilização de todos os recursos naturais, científicos e técnicos, em todos os sectores da vida, realizando o que a linguagem dos milagres anunciava.

As "bem-aventuranças", segundo S. Lucas, não são palavras de resignação alienante: tu que sofres, aguenta e cala; terás, no céu, uma grande recompensa; e tu, rico que agora te regalas, terás que prestar contas no outro mundo. Quer dizer, tudo adiado…

Ao falar de "bem-aventuranças", o caminho cristão surge como uma fonte de alegria num mundo fechado na tristeza. Porque será, então, que se apresenta sempre semeado de crucifixos?

Desde o começo até hoje, não faltaram as propostas para descrucificar o cristianismo. Paulo de Tarso, judeu e bem instruído na cultura helenista, foi dos primeiros a resistir a essa tentação: “Os judeus pedem sinais e os gregos andam à procura de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado que, para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 22-24). (…)

10 February, 2007

Entrevista

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António Marujo, jornalista do ‘Público’ e um dos animadores deste blogue, presta hoje declarações ao diário Le Monde, na sua condição de especialista de questões religiosas. A entrevista intitula-se "Les condamnations de femmes pour avortement clandestin ont joué en faveur du règlement du problème".

A Oração dos Homens

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"Ó pai, criador, deus-pai, ajuda-me!
Invoco-te, ó pai!
É a ti, ó pai, que eu me dirijo,
é para ti, meu deus, que eu me volto,
pai criador, é para ti que eu volto."

Assim começa "Orações a Nhialic", a prece de Denka, baixo vale do Nilo, que inaugura A Oração dos Homens. Uma Antologia das Tradições Espirituais,
uma obra com apresentação, selecção e tradução de Armando Silva Carvalho e José Tolentino Mendonça, recentemente editada pela Assírio & Alvim.

A antologia colige orações dos Povos Primeiros, da América Pré-Colombiana, da China, do Tibete, do Japão, da Índia, do Egipto, da Mesopotâmia, do Irão, da Tradição Hebraica, dos Gregos e dos Romanos, da Tradição Cristã e do Islão.

Uma das preces portuguesas que o livro inclui destina-se a ser rezada antes de se sair de casa:

"Jesus vai comigo,
eu vou com ele.
Ele vai adiante de mim.
eu vou atrás dele.
Ah! Jesus, Filho de Deus vivo,
andas sempre comigo,
no caminho que eu sigo.
Livrai-me de todo o perigo,
anjo da minha guarda,
pois Deus me enviou.
Guardai a minha alma,
guardai o meu corpo,
que eu não sei para o que vou.
Santo António,
andai sempre comigo,
livrai-me de todo o perigo,
de cão danado e por danar,
do mau encontro,
do homem vivo e do homem morto,
da mulher morta e da mulher viva.
Ó milagroso Santo António!
Livrai-me de todo o perigo,
e andai sempre comigo."

9 February, 2007

Comunicar ou dar a saber?

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No jornal Le Monde (9.Fev.2007), esta nota de Robert Solé, intitulada "Com-mu-ni-quer":

"On connaît les ‘Justes’, ces citoyens qui, au péril de leur vie, ont sauvé des juifs pendant le nazisme. Mais comment qualifier ceux d’entre eux qui ont refusé d’en parler après la guerre ? Un rabbin britannique, cité par le Financial Times, révèle que le patron de la célèbre firme Leica, Ernst Leitz II, a aidé des centaines de ses employés juifs à fuir l’Allemagne dans les années 1930. Ce protestant ne s’en est jamais vanté par la suite : même ses petits-fils l’ignoraient. ‘Faites du bien, leur disait-il, et n’en parlez pas.’
Aujourd’hui, cette discrétion passerait pour pathologique. Il faut absolument "communiquer" ce que l’on a fait. Com-mu-ni-quer, pour défendre des idées, promouvoir une image ou gagner de l’argent. Tout le monde s’y est mis : partis, entreprises, syndicats, Eglises, ONG… Sans compter les mendiants dans le métro et, bien sûr, les terroristes. "Communiquer" ne signifie plus entrer en relation avec quelqu’un, mais le conquérir, le séduire, voire le piéger. Agir ne sert plus à rien si l’on ne sait pas en parler. A la limite, il n’est pas nécessaire de faire : l’important est de faire savoir."