9 February, 2007

As dissonâncias católicas e outras variantes

 Uma das notas desta campanha do referendo sobre o aborto foi o aparecimento de vozes de católicos, publicamente reconhecidos como tal, a defender o "sim". Opiniões diversificadas de católicos mesmo no campo do "não" também se fizeram notar. Um debate que procurei trazer hoje às páginas do Público.

Uma “carta aberta de crentes para crentes”, vozes de católicos reconhecidos como tal a defender o “sim” no referendo, opiniões diferenciadas de vários católicos, quer no campo do “não” quer do “sim”, artigos de opinião a criticar posições oficiais. Desta vez, ao contrário do que se passou em 1998, em que a voz dos católicos e da Igreja falou com grande unanimidade, apareceram dissonâncias.

A atitude não passou despercebida à hierarquia e foi uma das razões que terá pesado para a decisão de intervenção de alguns bispos. O patriarca de Lisboa criticou mesmo essas vozes desalinhadas do discurso oficial. “Como havia confusão e dissidência de gente que se afastou da doutrina da Igreja, era preciso esclarecer”, diz D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

O bispo considera que os católicos defensores do “sim” na resposta ao referendo manifestam “alguma infidelidade à doutrina da Igreja”, onde existe uma “quase unanimidade” sobre o aborto. Carlos Azevedo admite, no entanto, que o aparecimento dessas vozes se fique a dever também a uma reacção das pessoas à oposição da Igreja a questões como a contracepção. “É um dos pontos que obriga a [hierarquia a] pensar e a fazer autocrítica”, afirma.

A psiquiatra Margarida Neto, da Plataforma Não, Obrigada!, diz que a intervenção de católicos em defesa do “sim” é “legítima”. “Mas não compreendo. Percebo o sentimento de compreensão e empatia pelas mulheres em dificuldade, mas a pergunta é sobre o direito à vida. E o ‘não’ é o único que representa os dois lados: o direito à vida e a compreensão pelas mulheres.”

Diferente é a posição de José Manuel Pureza, militante católico e membro do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. “Há um distanciamento cultural em relação a este problema específico e à questão mais vasta da moral sexual.” O “fosso cada vez maior” entre a “rigidez da moral privada” e a “prática de muitos católicos” é um dos factores apontados por este professor universitário para esse distanciamento.

“Este discurso da Igreja tem sido baseado numa moral a preto e branco, em que os bons seriam obedientes e os maus os que não cumprem”, diz. “Mas cada um de nós sabe que isso não é assim.” E, acrescenta, “não se trata de um afastamento da Igreja.

Ana Vicente, investigadora em assuntos de mulheres e mandatária do Cidadania e Responsabilidade, acrescenta que a diferença em relação ao que se passou em 1998 é que, desta vez, apareceram mais pessoas, publicamente, a assumir a sua maturidade e sem medo de contradizer a instituição.

“O travão à contracepção” e a “repressão da sexualidade” como uma dimensão fundamental do ser humano merecem reservas a Ana Vicente. “Pessoalmente, não reconheço autoridade a um colectivo de pessoas que exclui as mulheres e que, de forma tão veemente, se pronunciam sobre os comportamentos reprodutores das mulheres”, diz.

Sobre a veemência, Carlos Azevedo não tem dúvidas de que ela deveria continuar em outros campos: “A insistência no campo da moral pessoal esquece, por vezes, a moral social. Por isso, eu gostaria de ver todos estes movimentos [que agora militam pelo ‘não’] a lutar também contra o desemprego, contra a fome, contra a violência”, afirma o bispo. “Espero que todos sejam coerentes, porque se trata da mesma exigência”, diz.

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