9 February, 2007

Houve uma estratégia da Igreja na campanha do referendo?

Hoje, no Público, procurei fazer um balanço do que foi a posição da Igreja institucional na campanha do referendo.


Estratégia da Igreja preparada para “esclarecimento das consciências”

Houve uma estratégia da hierarquia da Igreja no sentido de “esclarecer as consciências”, reconhece o porta-voz dos bispos. Uma estratégia natural, admite Ana Vicente, católica e defensora do “sim”. Que gostava de ver as mesmas energias orientadas para outras causas. Mas só os católicos pelo “sim” falaram como católicos, contrapõe Margarida Neto, apoiante do “não”.

Houve uma estratégia da Igreja Católica nesta campanha do referendo sobre o aborto? Com pequenas diferenças, a avaliação é coincidente. “Houve uma estratégia preparada com orientação da Conferência Episcopal Portuguesa: que o debate fosse esclarecedor, sereno, moderado, sem extremismos de posições” e procurando que “os católicos tivessem intervenção na formação das consciências”, diz ao PÚBLICO D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

Onde o bispo vê que esse trabalho não fez mais que corresponder ao “esclarecimento das consciências” como “trabalho próprio da missão evangelizadora da Igreja”, José Manuel Pureza, do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, observa a “mobilização assumida do ‘povo católico’ por parte do clero, promovendo sessões e a distribuição de folhetos”.

No princípio, uma frase do cardeal-patriarca ainda criou alguma “perplexidade”, recorda José Pureza. No início de Outubro, D. José Policarpo afirmou, respondendo a uma pergunta de uma jornalista, que o aborto não era “uma questão religiosa” e que, “se tivesse dúvidas acerca de um problema tão fundamental”, se absteria.

José Pureza recorda que as declarações do patriarca, “remetendo para a consciência” a decisão sobre a matéria, provocaram naturais interrogações entre “os mais conservadores do ‘não’ e os adeptos do ‘sim’”. Mas essas declarações “fizeram adivinhar algo que rapidamente foi corrigido”, quando o cardeal esclareceu que apenas fez a afirmação para responder à pergunta que lhe fora formulada.

Ambos, Carlos Azevedo e José Pureza, estão de acordo em outro aspecto: “Nem precisava de ser nada combinado” entre os bispos e os adeptos do “não”, porque “é quase espontânea esta tendência” de muitos católicos participarem em iniciativas sobre o aborto, diz o defensor do “sim”. “Este é um sentimento generalizado.”

Carlos Azevedo acrescenta que “desde a Acção Católica”, o movimento que agregava milhares de católicos até à década de 60 e onde havia focos de oposição ao Estado Novo, “não se assistia a uma tão grande mobilização por uma causa”. “É significativo que tenha aparecido um tão grande número de movimentos pelo ‘não’, cobrindo todo o território nacional, com pessoas que não querem qualquer tipo de poder, capaz de defender uma causa.”

Um debate positivo, diz o bispo

Ana Vicente, mandatária do Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, também diz que “houve uma estratégia” e que isso “é normal”. Já Margarida Neto, psiquiatra e um dos rostos da Plataforma Não, Obrigada!, diz que não esteve na campanha como católica. “Os católicos do ‘sim’ é que entenderam falar como católicos. Este não é um problema religioso, mas ético e de direitos humanos. Estou nisto muito mais por ser médica do que por ser católica”, insiste.

A psiquiatra admite que “quando a Igreja está claramente de um dos lados, isso dá mais conforto”. Mas não houve nada acertado entre a hierarquia e os movimentos do “não”. “A Igreja veio a terreiro colocar a questão doutrinal, onde ela deve ser colocada.” E, num tom entre a verificação e o lamento, Margarida Neto afirma: “Em 1998, a [hierarquia da] Igreja proclamou-se mais fortemente do que agora sobre o tema.”

E que avaliação se pode fazer da estratégia e da campanha que está a terminar? Carlos Azevedo faz um balanço positivo: “Houve algumas vozes mais excessivas de ambos os lados, que nunca se consegue evitar, mas o debate entre o ‘sim’ e o ‘não’ foi positivo.” As atitudes isoladas a que o porta-voz dos bispos se refere – um padre a falar de excomunhão de quem aborta, por exemplo – são “atitudes isoladas”, diz, apenas “amplificadas pela comunicação social”.

Sobre esses extremismos “de certas pessoas”, Ana Vicente pensa que eles “dão um mau testemunho e têm um efeito perverso”, afastando as pessoas e “descredibilizando” a Igreja. A investigadora fica mais incomodada com “toda esta energia para que não se mude a lei” do aborto. “Gostava de ver toda esta energia dos baptizados ser orientada para o bem dos que não nasceram, sim, mas também das muitas crianças maltratadas, dos idosos, dos mais vulneráveis”.

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