25 February, 2007

Manuel Clemente, o historiador que se tornou bispo do Porto

No Público de hoje, publiquei um perfil do novo bispo do Porto, D. Manuel Clemente.

Pacificador, homem de consensos, afectivamente próximo. Historiador, leitor compulsivo, sempre pronto para um bom debate. Devotado ao diálogo entre a Igreja e a cultura, com um percurso dentro de estruturas eclesiásticas – seminário, Universidade Católica Portuguesa (UCP) – mas em permanente contacto com meios académicos e culturais não católicos. Manuel Clemente, 58 anos, foi nomeado quinta-feira para bispo do Porto.

Até agora a desempenhar o cargo de bispo auxiliar de Lisboa, Manuel José Macário do Nascimento Clemente nasceu em 16 de Julho de 1948. Antes de decidir ingressar no seminário, em 1973, Manuel Clemente tinha já concluído a licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa.

Os dois apelos – a historiografia e o catolicismo – acabariam por coincidir no seu percurso de investigador, iniciado com a defesa da tese em Teologia Histórica. Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal – A ‘Sociedade Católica’ (1843-1853) era o título da sua dissertação, entretanto publicada (ed. UCP).

Com um percurso eclesial feito essencialmente em instituições ligadas ao ensino – o Seminário Maior de Cristo-Rei, nos Olivais (Lisboa) e a Faculdade de Teologia da UCP – D. Manuel tem agora, pela frente, um desafio maior: o de dar uma nova dinâmica pastoral a uma diocese adormecida à sombra do passado.

A cátedra episcopal do Porto tem, na sua história, uma lista de grandes nomes, como António Barroso ou António Ferreira Gomes. Este último, condenado ao exílio por Salazar durante a década de 60, acabou por deixar uma imagem do homem intelectual, extremamente culto (é dele, por exemplo, o prefácio dos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner), mas que não conseguiu gerir da melhor forma a relação com alguns padres e a organização da acção da Igreja.

Manuel Clemente sucede, agora, a D. Armindo Lopes Coelho, que atingiu os 75 anos (data canónica para a saída) e se encontra hospitalizado. O novo bispo do Porto, que tomará posse a 25 de Março, recupera essa dimensão de relação com a cultura e os meios académicos que ficou ligada à personalidade de Ferreira Gomes. Não por acaso, Manuel Clemente é, desde 2002, responsável da comissão da Conferência Episcopal para a Cultura e as Comunicações Sociais. Na Rádio Renascença e no programa Ecclesia, da RTP 2, mantém desde há anos uma presença regular.

A comparação com Ferreira Gomes não o assusta, como dizia ontem ao PÚBLICO: “Passaram 50 anos e a atenção à cultura continua a ser fundamental. Terei muita gente que pensa e escreve a ajudar-me. Não será difícil ler os sinais dos tempos e estar atento à realidade.”

Para o seu governo, o novo bispo tem, para já, uma prioridade: “Conhecer, amar e servir” a diocese, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, dos quais 98 por cento se consideram católicos mas em que a média de pessoas que vai à missa está pouco acima dos 20 por cento. Apesar desta taxa, o número de baptizados (quase 17 mil, dados de 2004) e de casamentos pela Igreja (quase 7500) continua a ser dos mais elevados entre as dioceses portuguesas.

Com uma grande diversidade social e geográfica – mais urbana na faixa litoral, mais rural e desertificada em zonas como Arouca, Baião ou Castelo de Paiva – a diocese tem quase 400 padres a trabalhar em 477 paróquias agrupadas em 34 vigararias (equivalentes aos concelhos civis). Além da vastidão e diversidade sócio-religiosa da diocese – “equivalente a Lisboa”, diz o próprio – Manuel Clemente enfrenta outro desafio importante: conseguir impor decisões e restabelecer a unidade num clero dividido em grupos onde, por vezes, o que conta mais são fidelidades antigas ou uma espécie de estratificação eclesiástica, tendo em conta os títulos canónicos.

A capacidade do novo bispo para o diálogo e o consenso, a sua “proximidade afectiva” – a expressão é do director da Faculdade de Teologia da UCP, Peter Stilwell – podem ser trunfos de Manuel Clemente na nova tarefa que tem pela frente.

Cultura e capacidade intelectual continuarão a ser pontos que o distinguem. A paixão pela História traduz-se nas várias obras já publicadas: além da tese, onde estuda aquela que foi a primeira tentativa, em Portugal, de organização de apostolado católico autónomo da hierarquia eclesiástica, também outras como Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República (ed. Grifo) consubstanciam a sua atenção prioritária ao século XIX, tempo em que a Igreja Católica deixou de dominar o espaço público.

Também a religiosidade popular tem sido objecto da investigação de Manuel Clemente, padre desde Junho de 1979 e bispo auxiliar de Lisboa desde Janeiro de 2000. No patriarcado, foi ele o responsável directo pela organização do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, cuja sessão de Lisboa decorreu em Novembro de 2005.

Na sua primeira saudação, D. Manuel incluía todos os crentes de outras confissões e todas as instâncias públicas e sociais (incluindo desportivas) da diocese.

Em Abril de 2005, a propósito da eleição do novo Papa Bento XVI, dizia: “A Igreja preza muito uma consciência bem informada que tenha capacidade de decisão, e nesse santuário da consciência a Igreja não se mete, mas não pode prescindir de dar à consciência de cada um todos os elementos da questão, até em nome da humanidade total que a Igreja defende.”

Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://religionline.blogsome.com/2007/02/25/manuel-clemente-o-historiador-que-se-tornou-bispo-do-porto/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.