25 March, 2007

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (IV)

Este é o depoimento de Silas Oliveira, a propósito do ciclo da Culturgest, e que foi publicado há duas semanas no Público.

É no texto bíblico que escutamos o apelo

Silas Oliveira – Protestante, nasceu em 1945 na Guarda, onde o pai era pastor da Igreja Baptista local. Licenciado em Filologia Românica, tem trabalhado como jornalista e  assessor de imprensa. Vive a sua fé na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa 

Em última instância, a minha fonte de fé, realmente, é o texto bíblico. É no testemunho dos povos que o viveram e o escreveram, que foram interpelados por ele – e, por fim, na vida e na palavra do Verbo que “habitou entre nós” (Ev. João 1:14) – que podemos continuar a escutar esse apelo de um Deus que fala, e nos propõe uma aliança e uma reconciliação (com Ele e entre nós). Pode parecer um alicerce frágil, ou demasiado subjectivo, mas a Bíblia é um texto surpreendente, que tem sobrevivido até mesmo às nossas teologias mais desastradas. A sua proposta essencial é sólida e continua a fazer sentido. A cultura está sempre a sugerir-nos deuses “concorrentes”, que não têm esta dimensão. Os ateísmos oficiais desembocaram em regimes “teocráticos” à sua maneira, erigindo ídolos que esmagam a nossa condição humana. O Deus “derrotado” mas disponível do Cristianismo bíblico, o que encontramos no “sermão da montanha” (Ev. Mateus 5-7), dá espaço, deixa respirar, converte-nos pela persuasão. A questão de fundo no Cristianismo (como, antes dele, no testemunho dos profetas hebraicos) é que  acabamos por ter de escolher, e só esse Deus verdadeiro nos salva do culto dos deuses a fingir – que se torna sempre um culto de sacrifícios humanos.

22 March, 2007

mulheres

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 (…)

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

                                                Daniel Faria


Bento XVI, Habermas e a razão

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Através do blogue de Isabelle de Gaulmyn, jornalista correspondente de La Croix em Roma, tomei contacto com a continuidade do debate sobre as proposições de Bento XVI, sobre a fé e a razão, aquando do seu discurso em Ratisbona, em Outubro último. No mês passado, em artigo publicado num jornal suiço de expressão alemã, o filósofo Jurgen Habermas, que já em 2004 tinha protagonizado um debate com o então cardeal Ratzinger, apontou algumas críticas que segundo ele, o discurso do papa lhe suscitava. A resposta, curiosamente, acabou por chegar do cardeal e teólogo Ruini, que recentemente deixou a presidência da Conferência Episcopal Italiana.

Os documentos de referência para este debate são os seguintes: 

21 March, 2007

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (III)

A criação da vida não pode ser obra do acaso - Samuel Levy

Este é o terceiro texto dos depoimentos publicados no dia 11 de Março, no Público (ver mais abaixo), a propósito do ciclo na Culturgest.

Judeu, nascido em Lisboa a 7 de Julho de 1929. Foi presidente do Centro Israelita de Portugal de 1955 a 1957 e da Comunidade Israelita de Lisboa nas décadas de 50 e 60, e mais tarde de 2000 a 2002

Em primeiro lugar: a Fé é uma convicção que, por definição, não carece de explicação racional. Apesar disso posso dizer que acredito em Deus, porque sinto (e até reconheço  racionalmente) que a criação do Universo e o seu funcionamento, a criação da Vida na Terra, em especial da vida humana, são de tal complexidade e harmonia que não podem ser obra do acaso. Não consigo acreditar que tudo isto seja obra do acaso. Acredito serem criações resultantes de uma vontade superior que também as faz funcionar  segundo leis precisas necessárias e suficientes. Acredito num Deus (seja o que isso significar), como dizia Moisés Maimonides – 1135 ou 1138-1204, nasceu em Córdova e está enterrado em Tiberíades (Israel) –, Ser Primordial, infinito, incorpóreo, sem composição, eterno e único. De modo algum [é difícil ter fé hoje]. Sobretudo no caso da religião que professo – o Judaísmo – em que a definição de Deus que dei acima é clara e me parece absolutamente evidente. Aceito que haja cépticos que não consigam acreditar, mas que também não têm qualquer alternativa de explicação. Conforme referi na minha conferência na Culturgest, “pouca ciência afasta de Deus, muita ciência aproxima de Deus” (Einstein?). Quanto mais descobertas científicas mais admiração se tem pelas maravilhas da Criação. O Judaísmo não tem dogmas e não aceita a divinização de nada (nem coisas, nem seres vivos ou mortos). Deus é único.

18 March, 2007

19 de Março, o dia do pai

Na sua coluna de domingo no DN, o padre Anselmo Borges fala da figura do Pai, a propósito do seu dia, e das imagens de Deus.

O génio de Kant não estaria num dos seus momentos mais altos, quando, num texto célebre, pôs esta pergunta na boca de Deus: "Não conseguimos libertar-nos deste pensamento, mas também não podemos suportá-lo: que um ser, que nos representamos como o supremo entre todos os possíveis, de certo modo se diga a si mesmo: ‘Eu sou de eternidade em eternidade, fora de mim não existe senão o que existe por minha vontade; mas então donde venho eu?’ Aqui, tudo se afunda debaixo dos nossos pés."
Há realmente uma pergunta vertiginosa, que constitui um abismo para a razão humana: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Mas essa é uma pergunta do Homem e para o Homem, não de Deus e para Deus. Deus não pergunta, porque é Deus. O animal não pergunta, porque é animal. A pergunta é própria do Homem, e a razão é que ele é ao mesmo tempo finito e abertura ao infinito. Perguntar é constitutivo do Homem, e a pergunta radical é precisamente: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Porque ao mesmo tempo que se manifesta esconde-se - revela-se e oculta-se simultaneamente.
Na tentativa de balbuciarem algo sobre o Mistério último da realidade, a fé e a teologia cristãs falam de Deus como comunhão de diferentes - Pai, Filho e Espírito Santo -, sendo o Pai o Princípio sem princípio, a Fonte originária, Criador de tudo o que existe e Mistério abissal, invisível e inexprimível. Ele diz-se no Filho, que é o Verbo, a Palavra do Pai, e o Espírito Santo é o Amor que une o Pai e o Filho.
Pai é alguém que está na origem de, algo ou alguém que é força criadora do novo.
O pai humano é criador - com-criador, juntamente com a mãe (o óvulo feminino só foi descoberto em 1827) - de um ser livre. E isto é misterioso. O mistério é este: como pode um ser humano estar na origem de um ser livre? Neste sentido, Kant escreveu: "É impossível compreender a produção de um ser dotado de liberdade por uma operação física. Não se pode nem mesmo compreender como é possível Deus criar seres livres; de facto, parece que todas as suas acções futuras deveriam ser predeterminadas por esse primeiro acto e compreendidas na cadeia da necessidade natural e, consequentemente, elas não seriam livres."
Não basta, porém, criar fisicamente. A palavra pai (Vater, papa, father, padre…) talvez tenha como étimo o indo-europeu "po(i)", com o sentido de proteger, defender. Criar é educar: alimentar, física, psíquica, cultural, social, espiritual e religiosamente, ajudar a vir à luz da consciência um novo ser humano único e irrepetível em relação. Há pais que investem na carreira e no dinheiro, esquecendo que a obra mais importante são os filhos.
Base da educação é o afecto e o amor sem condições, para que a criança cresça segura. Sem esse amor, não haverá confiança nem em si nem nos outros nem na realidade, de tal modo que o que poderá sobrar é a violência da destruição: como amar, se não se foi amado, como entregar-se confiadamente à construção de si e do mundo, se a confiança de base não foi assegurada e a realidade apareceu, desde o início, desfavorável e agressiva?
Em ordem à constituição e desenvolvimento harmónico da pessoa, a tradição psicanalítica sublinhou a importância determinante da figura da mãe, mas fê-lo igualmente em relação ao princípio antropológico do pai, independentemente das suas concretizações históricas nas diferentes sociedades e épocas. A figura do pai é fundamental para a necessária ruptura da unidade íntima, quase não dual, de mãe-filho/filha. O pai representa o transpessoal e social e, portanto, a disciplina, o direito, a autoridade, a consciência dos limites, a coragem para o sacrifício. A criança que não aprende que há regras e limites torna-se anárquica e com pretensões de omnipotência.
O teólogo Leonardo Boff, numa obra inesperada: São José. A Personificação do Pai - não se esqueça que o Dia do Pai está ligado à festa da Igreja em honra de São José -, para sublinhar as consequências dramáticas da ausência do pai para os filhos e filhas na actual sociedade de enfraquecimento do pai e até do seu eclipse, apresenta estatísticas oficiais recentes dos Estados Unidos: 90% dos filhos fugidos de casa, 70% da criminalidade juvenil, 85% dos jovens nas prisões, 63% de jovens suicidas provinham de famílias sem pai ou onde o pai era ausente.
Também no domínio religioso é reconhecida a importância da imagem da figura e das experiências com o pai e com a mãe para a imagem que se tem de Deus.

Análise evolutiva da religião

No seu artigo do Público de hoje, frei Bento Domingues fala de algumas recentes iniciativas que têm sido realizadas em Lisboa a propósito do fenómeno religioso.

Dizia-me, há dias, um amigo pouco devoto: já só falta Deus aparecer, em directo, na televisão. É verdade que este ano, em Lisboa, devido às questões levantadas pela religião, além da boa figura que tem feito em alguns livros notáveis, Ele tem sido muito falado em lugares onde se julgava que não era especialmente apreciado.
De 29 de Janeiro a 4 de Março, todas as semanas, muitos “descendentes de Abraão” (judeus, cristãos e muçulmanos) foram à Culturgest partilhar impressões e razões da sua fé monoteísta. Cientistas e fi lósofos estiveram, nos dias 12 e 13, na Gulbenkian para fazer a Análise evolutiva da religião. Ontem e anteontem, a Comissão da Liberdade Religiosa marcou, no Centro Ismaeli, um colóquio com o tema A religião fora dos templos. O Grande Oriente Lusitano vai organizar, a 5 de Maio, um encontro sobre Religiões, violência e razão.
Acerca do que se passou na Culturgest António Marujo já deu conta do seu alcance aqui no PÚBLICO. O Encontro da Gulbenkian teve outro conteúdo e seguiu outro método. Apesar do pequeno espaço de que disponho, quero destacar – com palavras dos conferencistas – a grande importância do tema e a responsabilidade académica que ele assumiu.
David Sloan, da Universidade de Binghawton (EUA), o primeiro conferencista, realçou  uma mudança significativa na abordagem da religião. Se durante quase todo o século XX, a teoria evolutiva esteve apenas confiada às ciências biológicas, hoje os temas geralmente  associados às ciências humanas e humanidades passaram também eles a ser analisados  numa perspectiva evolutiva. Para esta tendência, o estudo da religião, assim como os seus vários elementos podem ser estudados do mesmo modo que os evolucionistas investigam as  várias características das espécies humanas e não humanas.
Para Keith Parsons, da Universidade de Houston (EUA), existem várias evidências de que a religião se apresenta como um fenómeno natural. É actualmente objecto de investigação  científica e de tentativas de explicação através das neurociências e da biologia evolutiva. Estes avanços têm uma enorme relevância para as apologéticas teístas, isto é, para o esforço de mostrar que a fé teística é totalmente fundamentada ou racionalmente justificada. Alvin Plantinga, talvez o mais avançado dos actuais filósofos da religião, argumentou que os  seres humanos possuem uma faculdade cognitiva natural que, ao operar de acordo com a sua função, e em circunstâncias apropriadas, nos providencia um sensus divinitatis, ou seja, uma sabedoria básica e fundamentada acerca da realidade de Deus. Keith Parsons  examinou, na sua conferência, o impacto das mais recentes descobertas sobre as origens evolucionistas da religiosidade.
Para Lewis Wolpert, do University College de Londres, os seres humanos são diferentes de todos os outros animais por possuírem crenças causais acerca do mundo físico. As crianças têm estas crenças desde muito cedo. Por contraste, os chimpanzés têm uma ideia muito limitada acerca das relações de causa-efeito de base física. A vantagem evolutiva para os seres humanos foi a habilidade para construir ferramentas e foi esta tecnologia que levou à evolução humana. Quiseram perceber as causas das coisas que afectavam as suas vidas. Um Deus semelhante ao ser humano providenciava uma resposta clara e era vantajoso. Esta foi a origem de muitas religiões.
Richard Sosis, da Universidade Hebraica de Jerusalém, centrou-se no debate dos  investigadores que estudam a religião em perspectiva evolutiva, tentando saber se ela é ou não adaptativa. Os adaptativos demonstraram duas vantagens primárias: promover a cooperação no grupo e reduzir o stress. R. Sosis discutiu as principais teorias e dados empíricos que as suportam. Apontou caminhos possíveis à investigação futura que os investigadores evolutivos deveriam explorar para resolver adequadamente o debate adaptativo.
Depois das verosímeis explicações evolucionistas das crenças religiosas – no momento em que escrevo ainda não me posso referir ao colóquio sobre a A religião fora dos templos –, quero sugerir uma visita à parábola “do filho pródigo” (Lc 15) que é lida hoje na Eucaristia. E apresentada na Bíblia de Jerusalém como “O Evangelho dentro do Evangelho”. Com toda a razão. Esta peça literária é uma novidade impressionante no panorama da experiência religiosa sempre que as práticas das Igrejas cristãs a esquecem, em vez de evoluírem, regridem para os critérios da moral convencional e para a prisão de rituais sem sentido.
A parábola supõe que, para Jesus, um Deus que não respeitasse a liberdade dos seus filhos, nem fosse compassivo, não seria Deus. E sem liberdade não é possível ser humano, nem religioso. Nesta parábola, Deus é a casa da festa para todos os que regressam do mundo onde se perderam da alegria.

A sérvia ex-jugoslava ensina na escola portuguesa como se faz mussaca

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Na edição de hoje do Público, sai uma reportagem que escrevi sobre um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados que, com a participação de uma actriz imigrante, envolve 40 estabelecimentos de ensino; o objectivo é sensibilizar os alunos para a questão das migrações. Uma gala do projecto decorre hoje à tarde no Colégio São João de Brito, em Lisboa.

E a mussaca? Ah, a mussaca! Alguém sabe como se cozinha a mussaca? "Pega-se numa cebola e corta-se cebola aos pedaços - tac, tac, tac. Nem muito grandes nem muito pequenos. Pega-se numa panela com bocadinho de óleo. Põe-se cebola no óleo e faz-se um refugiado. Perdão, um refogado." Primeiros risos.
Natasha Marjanovic, actriz sérvia (ex-jugoslava, corrige, mas já lá vamos) há sete anos radicada em Portugal, está numa turma de 10.º ano do colégio St. Peters, em Palmela, a participar numa acção de sensibilização sobre os imigrantes. Ao fim de hora e meia, os alunos são surpreendidos com a troca: a "técnica de uma empresa de inquéritos", como Natasha se apresentara, deu lugar à actriz que passa receitas culinárias, encena o cozinhado, toca acordeão e põe alunos a dançar.
A receita da mussaca, prato típico sérvio, continua (ver caixa). Antes de desvendar quem é, Natasha pega num acordeão. Cresce a perplexidade dos alunos. Um convite: "Vou ensinar uma dança tradicional." Cristina Pessanha, que integra o projecto Bem-Vindos à Nossa Terra, dança com dois alunos. "Um dia vão embora os pássaros/ e as ruas vão ficar sem sol./ Um homem vai despedir-se de uma mulher/ e muito tempo, no vento, vai ficar sozinho."
A iniciativa é do JRS - Serviço Jesuíta aos Refugiados, organização ligada aos padres da Companhia de Jesus. No início, Cristina explica, com imagens: "190 milhões de pessoas residem num país diferente daquele em que nasceram." "Eu sou um deles", ouve-se do fundo da sala. Pedro, 15 anos, nasceu em França quando os pais lá trabalhavam.
Natasha bate à porta, pergunta se é ali a aula sobre migrações. "Sou da empresa Igualdade Para Todos, falei com o professor." Sim, sim. Alguns risos - o sotaque? -, mas não se pressente desconfiança. Chama-se "teatro de infiltração" e envolve 40 escolas das regiões de Lisboa, Porto e Setúbal. "Pensam que estou a fazer entrevistas", explicara antes a actriz. "Eu vou interrompendo, troco o nome à Cristina, só no fim a dúvida acaba."
Bombas em Belgrado
Cristina passa os slides do computador. As origens das migrações podem ser várias. Alguns alunos intervêm. Há guerras, pessoas discriminadas. Primeira interrupção: "Eu, por exemplo, venho de um país de leste, onde dominava um regime comunista. Lembro-me de me terem levado de noite para baptizar. No Natal, só havia almoço melhorado em casa da avó, como se fosse um encontro casual."
Variam as formas das migrações. Voluntárias, forçadas, legais, ilegais. "Eu sou refugiada? Tinha de ter provas. Em 2004, 105 pessoas pediram asilo em Portugal. Quantas tiveram? Duas. Em 2005 já mudou tudo: cinco conseguiram. Tem que ter prova. Eu estava em Belgrado quando houve bombardeamentos da NATO. Tinha de ir pedir: "Senhor, assine aqui, para eu ter prova de que está a bombardear."" Os alunos entram no jogo, riem, acenam, a perturbação inicial dá lugar à participação.
Natural de Sarajevo, na Bósnia, filha de pais sérvios, Natasha casou com um croata. Com a guerra, marido e irmão ficaram em campos opostos. Por isso, diz que é de um país que já não existe: a Jugoslávia. Fugiu para casa dos pais em Belgrado, as bombas empurraram-na para Portugal.
Os imigrantes são contribuintes e têm direito a ir a um centro de saúde, mesmo ilegalizados. "Porque é tão difícil legalizar?" - pergunta Pedro. Natasha já centra a discussão: "Há gente que não existe, não tem documentos." Maria, muito activa, pergunta como chega comida aos refugiados. A Europa, recorda uma frase de Kofi Annan no ecrã, não está a cumprir os seus deveres: África é o continente que mais protecção dá aos refugiados. Portugal tem pouco mais de 400 mil imigrantes; espalhados pelo mundo, há 4,5 milhões de portugueses. "É razão para respeitarem dez vezes mais os imigrantes." E não respeitamos? "Não oferecem ajuda à primeira, mas depois fazem tudo o que se pede." A resposta de Natasha recorda os primeiros três dias de solidão. Quebrada por um cesto de cerejas do senhor Joaquim.
Natasha gosta do país que a acolhe: "Vocês têm um país bonito, não dão valor, eu fiquei porque estou nove meses com sol." A mussaca, a dança, a campainha para o final da aula. Pouco antes, diria o que não gosta em Portugal, que reparou por causa da escola das filhas: "Não lêem Tolstoi, não lêem nada. Leiam, leiam."
A dança terminava assim: "Um dia cada um vai atrás da sua vida/ no fim, só, o coração diz:/ eu vou voltar!/ Agora, adeus./ E quem sabe quando…/ E quem sabe onde…"

Mussaca para quatro pessoas

A mussaca precisa de 1 kg de beringelas, 400 gramas de carne picada, duas cebolas grandes, dois dentes de alho, queijo ralado e molho bechamel (ou um iogurte natural e três/quatro ovos batidos). Enquanto se faz o refogado (ver texto principal), está outra panela a "fazer glu glu - o que é isto? Água a ferver, à espera de quê? Da beringela."
"Pegas na beringela e pluc, colocas dentro dessa água, em cima da cebola. Pegas na carne picada, de qualquer animal que encontres no caminho, juntas sal, pimenta e pegas numa travessa grande, para toda a gente comer. Quanto mais gente houver, mais saborosa é a mussaca. Colocas uma camada de beringela, outra de carne picada, uma de beringela, outra de carne, outra de beringela. Abres o forno, colocas a mussaca e não perdes tempo: três, quatro ovos, iogurte natural, um bocadinho de sal. Abres o forno, regas a mussaca, devolves ao forno. Ah!, já cheira a mussaca!"
O projecto Bem-Vindos à Nossa Terra tem hoje um ponto culminante com uma gala que inclui uma peça encenada por Natasha Marjanovic. É no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, a partir das 17h00 (entrada livre).

Vaticano censura teólogo “da libertação” e arcebispo de San Salvador proíbe-o de ensinar

Terça-feira passada, foi publicada a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras do padre jesuíta Jon Sobrino. No Público de hoje, sai a notícia que escrevi sobre o tema. 

O padre Jon Sobrino, jesuíta de origem espanhola a trabalhar desde há décadas em El Salvador, viu partes de dois dos seus livros sobre Jesus serem censuradas pelo Vaticano. A notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), enviada a Jon Sobrino, um dos mais importantes teólogos contemporâneos, não prevê medidas disciplinares, deixando a questão para o bispo local. O arcebispo de San Salvador, Fernando Sanez Lacalle, que, de acordo com a AFP, é membro da Opus Dei, já interditou Sobrino de ensinar em nome da Igreja e publicar livros com autorização eclesiástica.
Sobrino, nascido em 1938, é um dos expoentes da teologia da libertação, uma corrente nascida na América Latina no final da década de 60. Os teólogos da libertação defendem que a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos deve ser uma prioridade da missão da Igreja, tomando como referência as atitudes de Jesus relatadas nos evangelhos.
Na opinião da CDF, as teses do padre jesuíta não estão "conformes à doutrina da Igreja" (www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/doc_doc_index_po.htm). Apesar de apreciar "a preocupação do autor com a sorte dos pobres", a congregação diz que as duas obras em questão "apresentam, em certos pontos, notáveis divergências com a fé da Igreja". Os "pressupostos metodológicos", a "divindade de Jesus", a "encarnação do filho de Deus", a "relação entre Jesus" e o tema do reino de Deus, a "autoconsciência" de Cristo e "o valor salvífico da sua morte" são os seis temas referidos pela CDF, que afirma não pretender "julgar as intenções subjectivas" do autor.
Estes enunciados têm a ver, por exemplo, com a insistência que, no entender da congregação, Sobrino faz da dimensão humana de Jesus em detrimento da sua divindade. Também a expressão "Igreja dos pobres" em vez de "opção preferencial pelos pobres", está em causa.
Método desconfiado
Os livros analisados pela CDF foram Jesus, o Libertador - A História de Jesus de Nazaré (1991) e A Fé em Jesus Cristo - Ensaio a Partir das Vítimas (1999), ambos publicados em português pela Vozes, do Brasil. No primeiro, Sobrino escreve que a realidade salvadorenha, a partir da qual reflecte, "ilumina o que é o divino e o que é o humano, e o Cristo que os unifica".
Numa carta ao superior geral dos jesuítas, Peter-Hans Kolvenbach (em www.redescristianas.net/2007/03/14), Sobrino recusa assinar a notificação, por não se reconhecer na leitura que é feita dos livros. Acrescenta que seria "uma falta de respeito para teólogos por ele consultados previamente e que não encontraram qualquer "erro doutrinal ou afirmação perigosa". Um dos colegas consultados, Bernard Sesboué, dizia que uma carta da congregação a Jon Sobrino, de 2004, era "tão exagerada que não tem valor". E acrescenta: "Com este método deliberadamente desconfiado, eu também podia ler heresias nas encíclicas de João Paulo II!".
Na mesma carta, Sobrino cita vários comentários aos seus livros do então cardeal Joseph Ratzinger - o agora Papa Bento XVI, que autorizou a notificação da CDF. Mas, no entender do teólogo da libertação, o cardeal citou erradamente várias passagens. Esses excertos serviriam, mesmo, para condenar determinadas perspectivas da teologia da libertação, em dois documentos sobre o tema publicados pela CDF, então presidida pelo agora Papa.
Na mesma carta, Sobrino conta que quando Alfonso López Trujillo foi nomeado cardeal, afirmou "num grupo que ia acabar com Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Ronaldo Muñoz e Jon Sobrino". De uma forma ou de outra, todos estes teólogos tiveram problemas com o Vaticano. No caso de Sobrino, o próprio conta que desde 1975 que teve que responder a várias interpelações do Vaticano. Até chegar a esta notificação.

11 March, 2007

O gosto da Igreja

Chama-se Salve Regina e é o painel que agora decora o altar-mor da cripta do Santuário do Sameiro. Nele, pode ver-se uma cena em que está presente Nossa Senhora do Sameiro (à direita) e, entre outros, o cónego Melo (à esquerda, hélas). A coisa está a dar polémica como contou na sexta-feira e no sábado o Jornal de Notícias.

Sobre o assunto, publiquei hoje, no Diário do Minho, o texto seguinte:

A propósito de um quadro do Sameiro

No domínio do gosto artístico, digamos assim, a Igreja, em Braga, parece viver em dois mundos. Um é o que aprecia pinturas como a que está na basílica do Sameiro – que o Jornal de Notícias exibiu, na sexta-feira, na primeira página – que apresenta uma cena em que estão Nossa Senhora do Sameiro e, entre outros, o Papa João Paulo II, o arcebispo primaz, D. Jorge Ortiga (que, dizia o jornal, não conhecia a obra) e o cónego Melo. O outro mundo é o que anima o blogue O Bom Pastor – Formação do Clero da Arquidiocese de Braga (http://o-bom-pastor.blogspot.com/) onde, há dias, se podia ver The Stations of the Cross, de Barnett Newman (e onde, regularmente, se podem ler textos de enorme qualidade).
O primeiro mundo é o do mau gosto; no segundo, regista-se uma atenção ao que de mais significativo a arte contemporânea oferece. Estes dois mundos estéticos são, evidentemente, incompatíveis. Quem quiser compreender por que é que o são e, já agora, por que é que uma obra como a que está no Sameiro é de tão mau gosto pode ler com grande proveito o instrutivo O Mau Gosto e a Piedade Cristã (Lisboa: Aster, 1960), da autoria de Richard Egenter.
Poderia referir-se bibliografia mais actualizada, mas este livro fala com particular autoridade (nestas coisas, nunca fiando…), embora seja certo que alguns apenas apreciam a autoridade quando a autoridade são eles. Fala, em todo o caso, com a autoridade de estar incluído numa colecção, a Éfeso, que não suscitará qualquer desconfiança relativamente à conformidade em relação ao respeito pela ortodoxia religiosa, e de ter o imprimatur de um arcebispo-bispo, o de Coimbra.
“O mau gosto será pecado?”, pergunta o autor na primeira linha do prólogo. “Pessoas há que se limitarão a sorrir, perguntando por sua vez: a estupidez será um pecado? A voz do povo fala de estupidez culpada. Também há um mau gosto culpado”, afirma Richard Egenter, que julga, aliás, que o mau gosto produz um efeito mais nocivo do que as “manifestações escandalosas”. O mau gosto é mesmo considerado culpado do afastamento de muitas pessoas da Igreja.
“Talvez fosse necessário em primeiro lugar o panfleto, a ironia cortante, para desmascarar a inércia do espírito e a mediocridade do gosto. Aqui, onde o demónio cultiva a seu modo a homeopatia e mistura em pequenas doses a mediocridade moral com empreendimentos de ‘boa finalidade’, talvez as palavras fustigantes devessem sacudir todos aqueles que não vêem e, na sua indolência, não querem ver que no mau gosto não residem apenas problemas de estética. O mau gosto vai afectar o homem, a sua saúde moral e a sua salvação”, diz Richard Egenter, que, como é óbvio, não se estava a referir ao tal quadro que está no Sameiro.
Poucas páginas adiante, o autor dá uma resposta a uma questão óbvia: “Que vem a ser mau gosto?”, uma resposta, aliás, bastante simples, mas eficaz: “diremos apenas que é uma obra com pretensões a artística, embora não consiga atingir o nível desejado”. Richard Egenter não deixa de dizer que a definição é algo vaga, para, assim, excluir do lote de produtos de mau gosto certas obras, como os quadros votivos antigos, que podem sofrer de uma ou outra imperfeição.
Num dos capítulos de O Mau Gosto e a Piedade Cristã, Richard Egenter faz um convite: “trabalha, artista, e não tentes catequizar”. É que, sublinha, “a verdade é que o artista não é nem moralista nem pedagogo”. No melhor dos casos, observa ainda o autor, uma obra pode ter valor artístico apesar de possuir finalidades pedagógicas ou moralistas, mas nunca o possui em consequência dessas finalidades.
De resto, “o artista não tem obrigação de tomar algo de moralmente bom para objecto da formação artística”. Realmente, “os objectos amorais e imorais também se contam entre os possíveis para uma finalidade artística”. O que é decisivo é “o modo como o artista trabalhar esses motivos e lhes der forma”.
A este propósito, Richard Egenter dá como bom exemplo A Estrada, um dos mais conhecidos filmes de Federico Fellini: “O realizador apresenta uma atmosfera na qual nos parece não existirem Deus nem leis morais. E, no entanto, depreende-se do filme o poder dos valores pessoais, a convicção de que aquele mundo também se encontra aberto a uma realidade superior, no desabrochar da rapariguinha em mulher amorosa e altruísta, com o desejo intenso de poder significar algo de querido para uma pessoa qualquer”.
Mas talvez seja pouco provável que quem gosta dessa peça kitsch, que é o quadro do Sameiro, compreenda o exemplo; e é certo que o compreende quem descobriu The Stations of the Cross, de Barnett Newman. É que o gosto de cada um, como se sabe, também diz muito sobre a sua capacidade de compreender e de descobrir.

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (II)

A longa viagem que “inventou” o monoteísmo

A acompanhar os depoimentos dos cinco crentes abraâmicos, escrevi no Público de hoje um texto sobre a viagem de Abraão.

Andrei Rubliov, A Hospitalidade de Abraão, 1411 

Referência fundadora para judeus, cristãos e muçulmanos, não se sabe se Abraão é a personificação de um clã ou uma personagem concreta. Mas sabe-se, sim, que a sua aventura mudou a História. A ele se deve o início do monoteísmo.

No princípio, foi um mito, personificação de um grupo ou uma personagem concreta? Viveu há 1500 anos ou mais? Ao aceitar uma proposta de aliança com Deus, Abraão mudou a história. Deixou o culto politeísta da sua tribo e intuiu, “inventou” o Deus único. A sua viagem mudou a História. Tornou-se a referência inaugural para judeus, cristãos e muçulmanos.
Naquele tempo, seria uma viagem quase impossível. Seis mil quilómetros a pé e com animais de carga, um clã inteiro pelo deserto, entre territórios hostis: de Ur, na Suméria (actual Iraque), até Canaã (onde está Israel), passando por regiões que hoje constituem a Síria, a Turquia, o Egipto, a Arábia Saudita.
Singular foi também a viagem espiritual deste homem: alguém que se põe a caminho, escuta uma promessa, que se torna “amigo de Deus”, espera pacientemente um filho, exercita a hospitalidade e intercede pelos condenados. E que, no fim, ainda é posto à prova: conseguirá abdicar do bem mais precioso, a vida do filho que tanto tardara? Nesta aventura, vêem a Bíblia e o Alcorão a Aliança fundadora da relação entre Deus e a humanidade. A Bíblia narra a história, o Alcorão interpreta a vida do patriarca na revelação de Deus.
Pier Giorgio Borbone, professor de Língua e Literatura Hebraica em Pisa, evoca (Abramo Padre di Tutti i Credenti, ed. ETS, Pisa, Itália) a “relação específica e única” entre Abraão e Deus. Uma proximidade intensamente pessoal. Os judeus invocam o Deus “de Abraão, de Isaac e de Jacob”, um Deus único evocado na pluralidade. Tal como no Alcorão, onde Ibrahim (o nome árabe) é referido 69 vezes (apenas Moisés é mais citado): “Cremos em Deus, no que nos foi revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacob e às tribos.” Sintetiza Borbone: “Íntimo de Deus, eleito e destinatário da promessa.”
Abraão, este nome evoca uma promessa. Há dúvidas quanto às datas – foi há 3500 anos? há cerca de 4000? – mas a maioria dos investigadores aponta um tempo algures por volta do século XVIII a.E.C. (antes da Era Comum). Abraão vive em Ur com o seu clã. Ur é, na época, o centro económico e cultural da Mesopotâmia, pouco mais de 10 mil pessoas num porto à beira do Eufrates e nas cercanias do Golfo Pérsico (o mar afastou-se entretanto uns 150 quilómetros). Só em Ur foram descobertos milhares de textos em escrita cuneiforme, inventada na região à volta de 3200 a.E.C.
Em 2000, o escritor polaco Tad Szulc (autor de biografias de João Paulo II e Fidel Castro publicadas em português) percorreu o trilho de Abraão. E falou sobre Ur com Piotr Michalowski, director da revista Journal of Cuneiform Studies e especialista na civilização mesopotâmica. “Imagino uma cidade próspera, de ruas fervilhantes cheias de lojas”, disse o especialista, na reportagem publicada em Dezembro de 2001 na National Geographic.
Uma guerra terá forçado Tera, pai de Abrão (o nome Abraão ser-lhe-à dado mais tarde), a deixar Ur com o seu clã. Mil quilómetros até Haran (actual Turquia). Em Ur e em Haran era a Lua que as pessoas adoravam, sob a invocação de Sin. Em Haran, escutou Abrão um Deus diferente, que lhe ordenava: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo”, conta a Bíblia, no livro dos Génesis.
A viagem de Abraão é mesmo, para os muçulmanos, a matriz da peregrinação a Meca. Varios dos ritos do hajj evocam episódios da vida de Abraão, desde a construção da Caaba até ao ritual do sacrifício.
O patriarca passa um tempo no Egipto, no Négueb, em Betel, até se fixar “junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hebron”, onde “construiu um altar ao Senhor”. Aí, Deus promete-lhe o filho que ainda não tem e uma descendência incontável: “Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar. Pois bem, será assim a tua descendência.
Abrão está velho – terá cerca de 90 anos – e Sarai, sua mulher, também. Hesita: como será isso? A própria mulher propõe-lhe: “Visto que o Senhor me tornou uma estéril, peço-te que vás ter com a minha escrava. Talvez, por ela, eu consiga ter filhos.” Um gesto permitido pelo código de Hammurabi, para que um homem tivesse descendência. Agar engravida e nasce Ismael. Aqui radica uma divergência entre judeus e muçulmanos: para estes, Ismael é o filho herdeiro de Ibrahim.
É que mais tarde nasce Isaac, filho de Sara. Na Bíblia, é Isaac e não Ismael o filho com legitimidade para herdar. O nascimento de Isaac é anunciado pelo próprio Deus, que aparece a Abraão sob a forma de três visitantes misteriosos, aos quais ele oferece água e pão. A hospitalidade de Abraão será tema omnipresente. Na espiritualidade, o andaluz Ibn Arabi, considerado o maior xeque sufi, fala dela a propósito da relação entre Deus e o crente. Na arte, Andrei Rubliov, celebrizado no filme homónimo de Tarkovski, pintará em 1411 o ícone que se tornará a obra russa mais comentada de sempre.
Antes, tinha Abrão 99 anos, já Deus selara com ele a sua aliança: “Serás pai de inúmeros povos. Já não te chamarás Abrão, mas sim Abraão, porque Eu farei de ti o pai de inúmeros povos.” Esse é o significado do nome: pai de uma multidão. Abraão ganha a universalidade, reflecte Borbone, já não é apenas Abrão, um “pai excelso”. A mesma dimensão que São Paulo, no cristianismo nascente, lhe dará, ao chamá-lo pai de circuncisos (os judeus) e incircuncisos (os não-judeus). Os textos do Novo Testamento cristão olham-no como modelo de fé, confiança e disponbilidade, recorda Jean Louis Ska, professor do Instituto Bíblico Pontifício, no livro citado.
No seu diálogo com Deus, Abraão chega a ser quase impertinente. Como quando interpela a destruição de Sodoma e tenta salvar a cidade: E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? (…) Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir?“Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, (…) se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco homens?” E a insistência final: “Que o meu Senhor não se irrite (…) Talvez lá não se encontrem senão dez.” O atrevimento resulta: “Em atenção a esses dez justos, não a destruirei.”
À prova de paciência a que Abraão se sujeitara, Deus acrescenta-lhe uma última: pede-lhe que sacrifique aquele por quem tanto esperara: “Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto.” Isaac é poupado, in extremis, pelo próprio Deus, quando Abraão já se preparava para cumprir o ritual – um momento imortalizado em muitas obras de arte ao longo dos séculos.
Este é o acto de fé radical e fundador. Abraão confia até final na presença de Deus. Abandonando-se à promessa, sabe que, no fim, Deus providenciará. Na reportagem citada, Tad Szulc cita o poema “Hino à bênção de Abraão”, do muçulmano Cengizham Mutlu: “Não sente dor, não se lamenta./ Diz: “O meu Deus salvar-me-à.”/ Dois anjos tinham-no previsto com acerto.// Brasas transformam-se em cinzas./ Faíscas transformam-se em rosas.”

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (I)

No caderno P2 do Público de hoje, Alexandra Prado Coelho recolheu depoimentos de cinco "filhos de Abraão", a propósito do ciclo que durante mês e meio decorreu na Culturgest. Os cinco depoimentos - Sam Levy, Silas Oliveira, AbdoolKarim Vakil, Ivan Moody e José Tolentino Mendonça - serão aqui reproduzidos nos próximos dias. Para já, fica a introdução ao trabalho.

Durante cinco semanas, de 29 de Janeiro a 5 de Março, cinco crentes de cinco religiões monoteístas descendentes de Abraão falaram na Culturgest no ciclo de conferências As Religiões dos Filhos de Abraão. Filas enormes para levantar senha de acesso, o auditório principal cheio, durante cinco segundas-feiras ao final da tarde a Culturgest encheu-se para ouvir estes homens falarem da sua fé.O que se lhes pedia, no texto de apresentação, era “que viessem dizer, por palavras que todos entendam, que acreditam, porque acreditam e como acreditam. Talvez porque, sabendo, nós possamos compreender melhor”.
Eles falaram, explicaram, contaram histórias, enumeraram regras e dogmas, esclareceram diferenças. Mas também trouxeram músicas, cânticos, imagens, e tentaram que não fossem só as palavras a explicar a fé. Quiserem partilhar experiências, sensações, mostrar, como disse José Tolentino Mendonça no último dia, que “o percurso da beleza é um percurso que nos transforma” e que “cada beleza guarda a promessa de uma beleza sem fim”.
O PÚBLICO pediu-lhes que, em poucas palavras, respondessem apenas a uma pergunta: porque acreditam? E porque acreditam hoje, num mundo em que o cepticismo é forte e em que as descobertas científicas abalam dogmas. Eles aceitaram responder, embora pensem que aquilo de que aqui se fala não é algo que se explique. Como disse ainda Tolentino Mendonça: “O verdadeiro encontro religioso transforma-nos em solitários, porque o que atingimos é da ordem do indizível”.

Fábrica de desejos, capitalismo e religião

Com o título "Fábrica de desejos", frei Bento Domingues escreve hoje no Público acerca das tentações entre capitalismo e religião. Excertos:

(…) Nos gritos do populismo político-religioso contra o capitalismo, corre-se o risco de esquecer o essencial. Repete-se, desde o século XIX, que, devido às suas contradições, o capitalismo não pode sobreviver. É certo que precisou, várias vezes, da mão visível do Estado - medidas de tipo político, fiscal e legal - para responder às incapacidades da "mão invisível" do mercado. Hoje, o capitalismo está globalizado e é nele que vivem, bem ou mal, americanos e europeus, indianos e chineses, oligarcas russos e príncipes sauditas. Por uma questão de sustentabilidade - e sem contar com as extravagâncias dos super-ricos - pensa-se que o nosso planeta não aguentaria 6 500 milhões de pessoas a viver, como é desejável e como já vivem hoje os consumidores da classe média do rico hemisfério norte.
O ser humano, movido pelo desejo do Ilimitado perde-se no labirinto dos desejos desgarrados e distorcidos, tornados mediaticamente inadiáveis como uma droga. A genialidade do capitalismo contemporâneo consiste precisamente em ser uma fábrica, em contínua produção, de novos desejos. A publicidade vive de nos tornar infelizes se os não satisfizermos.
O Budismo dispõe de uma resposta clara e radical: a supressão do desejo através de um caminho de auto-iluminação marcado por verdades e práticas bem estabelecidas e numeradas. Os paralelismos entre Buda e Jesus, entre o cristianismo e o budismo têm sido muito estudados. Mas também podem ser apontadas profundas diferenças. O percurso cristão não segue a via da auto-iluminação nem procura a supressão, mas a conversão do desejo como puro dom da graça divina, enquanto iluminante e transformante da condição humana. Mas a graça da conversão do desejo não suprime, reorienta as energias e paixões humanas. Pode e deve acolher sabedorias, regras de vida e métodos de espiritualidade de todas as proveniências para hierarquizar necessidades materiais e espirituais num mundo dominado pela fábrica de novos e insaciáveis desejos que nos devoram e alimentam ódios e violência. Paz com a Terra e o Céu, paz dentro de nós próprios, paz e a justiça com os que precisam da nossa solidariedade.

Religiões e teologia: libertação e sentido

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, Anselmo Borges fala da busca de um novo paradigma teológico. Alguns excertos:

(…) Procura-se um "Novo Paradigma Teológico para Outro Mundo Possível", dentro de horizontes teológicos novos como resposta aos novos desafios.
O horizonte intercultural implica a passagem da cultura única ao pluralismo cultural e, concretamente, da inculturação da teologia, que continua ainda a manter os princípios e as categorias teológicas da cultura dominante, à elaboração de uma teologia intercultural, que assuma o diálogo entre culturas baseado na igualdade.
O horizonte inter-religioso requer a passagem da religião única à elaboração de uma teologia ecuménica das religiões para a paz, a partir das vítimas e com a praxis de libertação, que não é assunto de uma religião, mas de todas.
O horizonte hermenêutico é a chave de toda a teologia, implicando a passagem da mera exegese dos textos sagrados a uma teologia toda ela hermenêutica enquanto procura de sentido, na nossa experiência de mundo.
Dentro do horizonte hermenêutico, é preciso sublinhar a perspectiva teológica de género, pondo em questão a estrutura androcêntrica e patriarcal das doutrinas e teorias religiosas e teológicas. Neste contexto, surge a teologia feminista, não como teologia regional, no sentido de ocupar-se de questões relativas às mulheres, mas como teologia fundamental, que procura dar razão da fé em Deus sem a submissão ao modelo divino patriarcal.
Há o horizonte ecológico, exigindo que se ouça o grito da Terra em busca de libertação. O Credo cristão confessa a criação amorosa do mundo por Deus, de tal modo que se impõe também uma leitura ecológico-festiva da criação. (…)
Indissociável do horizonte utópico, ético-praxístico e anamnético aparece o horizonte político e económico, que exige uma praxis libertadora e inclusiva das pessoas, dos povos, dos países e continentes. Ainda seria teologia aquela que contemporizasse com a globalização da rapina e da exclusão, ignorando a justiça e a solidariedade?
Não se pode esquecer o horizonte simbólico, porque, pela sua própria natureza, a teologia, se quiser manter-se fiel ao Sagrado que se revela e oculta, tem de substituir a linguagem dogmática pela linguagem simbólica. Como dizia Ricoeur, "o símbolo dá que pensar", enquanto o dogma tende a fechar o horizonte do pensamento e do sentido. Embora não seja o único, o compromisso com os direitos humanos e a salvaguarda da criação é critério decisivo da verdade de uma religião e das religiões.
A teologia é teologia das religiões empenhadas na libertação, portanto, teologia libertadora das religiões. O horizonte do diálogo inter-religioso é a libertação-salvação enquanto experiência radical de sentido frente ao sem sentido dos explorados, dos humilhados, das vítimas e da morte.

10 March, 2007

Dança dos bispos: Funchal também muda

No Público de sexta, saiu a notícia da nomeação do novo bispo do Funchal. Depois do Porto, há duas semanas, a diocese madeirense tem também um novo responsável, que terá um desafio essencial: desfazer a imagem de conivência entre os poderes político e religioso. A notícia, assinada por Natália Faria, fala do problema.

Novo bispo do Funchal espera manter diálogo adulto” com Alberto João Jardim

O novo bispo de Funchal, D. António Carrilho, prometeu ontem pautar as suas relações com Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, pelos princípios da “autonomia e cooperação”. “Estou convencido que haverá um diálogo maduro e adulto. Tendo as pessoas consciência daquilo que lhes compete, penso que não haverá dificuldades”, declarou aos jornalistas, no Paço Episcopal do Porto, onde foi bispo auxiliar nos últimos oito anos. Dizendo que uma das prioridades quando pisar a Madeira será recensear-se no Funchal, António Carrilho lembrou que só assumirá o novo cargo a 19 de Maio, já com o próximo acto eleitoral realizado. E, porque “as eleições não dizem directamente respeito ao bispo”, prometeu acatar as regras democráticas. “Se o povo elege alguém, assume essa responsabilidade e temos que respeitar essa decisão”. Quanto às críticas de quem acusa a subserviência da Igreja Católica relativamente ao Governo Regional da Madeira, D. António Carrilho escudou-se no desconhecimento. “Só depois de lá chegar poderei dizer se há ou não subjugação, mas estou convencido que os princípios de autonomia que me norteiam são os mesmos do bispo que lá está”. O melindre da relação entre Igreja e Governo Regional pode ter sido uma das razões para a dificuldade em encontrar sucessor para D. Teodoro Faria, o actual bispo: nos meios eclesiásticos, sabe-se que houve pelo menos um convidado para o lugar – Samuel Ornelas, actual responsável máximo dos Padres Dehonianos – que recusou a hipótese, tendo em conta também o cargo internacional que ocupa. Com 64 anos e origens algarvias, António José Cavaco Carrilho vai substituir Teodoro Faria, que atingiu o limite de idade. Durante doze anos exerceu actividade pastoral em Faro, depois em Lisboa. Em Fevereiro de 1999 foi nomeado bispo auxiliar do Porto. Aos que o rotulam como ortodoxo e apagado, D. António responde com um encolher de ombros. “Se for ortodoxo no sentido de que sou fiel ao evangelho sem preocupações de protagonismo, até considero um elogio”, reagiu, dizendo-se “perseverante no meio do povo” e avesso ao mediatismo. Uma característica que poderá ser-lhe útil enquanto bispo de origem continental num arquipélago onde a crispação política se alia ao problema da pedofilia. Sobre esta questão, declarou preferir “ter nas mãos elementos concretos para poder fazer juízos”. “Sei que esse problema existe na Madeira, como existe cá [no Continente], e merece-nos condenação, sem condenar as pessoas em si mas apontando comportamentos digno de pessoas humanas e de respeito pelos mais frágeis”, declarou.

Biblioteca de Montserrat na net

Na edição de hoje, sábado, do Digital, o novo suplemento do Público, escrevi um texto sobre um acordo com o Google para digitalizar os fundos de cinco bibliotecas catalãs - entre elas, a da Abadia de Montserrat. A abadia está a iniciar a preparação das comemorações do seu milénio, que se completa em 2025. O texto é o que se segue:

O fundo da biblioteca da Abadia de Montserrat (um dos mais antigos mosteiros católicos do mundo), próximo de Barcelona (Espanha), irá ser digitalizado e ficará disponível para os utilizadores do motor de busca de livros do Google (www.google.es/books). Sendo um projecto a longo prazo, prevê-se que dentro de dois anos várias obras estejam já disponíveis para os interessados, quer através do Google, quer da página www.bibliotecademontserrat.net.
O acordo, que permitirá o acesso a 330 mil volumes, inclui outras quatro instituições: a Biblioteca da Catalunha, que coordenará o projecto, a Biblioteca Pública Episcopal do Seminário de Barcelona e as do Ateneo Barcelonês e do Centro Excursionista da Catalunha. A sua concretização significa que estas instituições passarão a ser o segundo parceiro do Google-livros fora do universo anglosaxónico – o outro é a Universidade Complutense de Madrid.
Em declarações ao Digital, o padre Damià Roure, responsável pela biblioteca de Montserrat, sublinha precisamente a importância de “permitir aos leitores não anglófonos a leitura de livros em outras línguas europeias”, como catalão, alemão, castelhano, francês e latim, além do inglês. “Até agora, só as grandes bibliotecas americanas e a de Oxford”, no Reino Unido, participavam neste projecto. Os acordos com a Complutense e as cinco bibliotecas catalãs permitem ampliar o universo linguístico.
Entre as obras que ficarão disponíveis na Internet, Damià Roure destaca o Llibre Vermell de Montserrat, um manuscrito que reúne cânticos do próprio mosteiro, composto à volta de 1400, e do qual foram gravadas várias peças por músicos como Jordi Savall ou o Ensemble Micrologus. O manuscrito (cujos fólios se podem ver em www.lluisvives.com/servlet/SirveObras/jlv/08140629733581728654480/) “é o melhor expoente do scriptorium medieval” de Montserrat, diz o padre Roure. Há ainda diversos incunábulos, impressos na tipografia do mosteiro, que começou a funcionar em 1499 por impulso do abade García de Cisneros.
Na biblioteca, estão também depositadas obras clássicas em castelhano e francês – por exemplo, Miguel de Cervantes – e vários fundos sobre o Oriente antigo, o mundo clássico, a Bíblia ou temas de história. Ramon Llull, uma das mais importantes figuras da religião e da cultura catalãs, marca também presença. Místico e viajante, teólogo e poeta, filósofo e arabista, Llull (1232-1316) era um adepto do uso da razão e foi nesse sentido que escreveu a sua Ars Maior, que pretendia ser a obra enunciadora de todas as áreas da ciência.
A maior parte dos fundos antigos mais importantes que havia na biblioteca perderam-se no incêndio de 1811, durante as invasões napoleónicas. Conta o padre Damià Roure que, de acordo com o relato de Vargas Ponce, ilustre visitante de Montserrat, em 1799 havia 158 manuscritos e incunábulos anteriores a 1500 e uns 8500 livros posteriores a essa data. Nos séculos XIX e XX a abadia adquiriu, além de obras contemporâneas, fundos de outras bibliotecas antigas, entre os quais uma tábua cuneiforme com um vocabulário sumérico-acádico.
Quinhentos mapas antigos, 330 mil monografias, seis mil publicações periódicas, 1500 manuscritos, 400 incunábulos, 3700 obras do século XVI. Em números, é este o resumo da biblioteca de Montserrat. Utilizada diariamente pelos monges, há cada vez mais investigadores a recorrer a ela desde que o catálogo passou a estar disponível na Internet. A biblioteca inclui ainda, no seu fundo, 18 mil gravuras de artistas como Durer, Rembrandt, Rubens ou Goya. Autores catalães de gravuras do século XX são, aliás, o tema de uma das exposições virtuais actualmente visitáveis naquele sítio.
Podem ver-se 207 gravuras de 88 autores. Entre estes, Picasso, Dali ou Miró e representantes de movimentos tão diversos como o modernismo, o vanguardismo, a abstracção. Uma mostra da arte gráfica catalã contemporânea, diz a organização, com “quase todos os nomes imprescindíveis”.

Rochedo espiritual, refúgio político

Situado no cimo de um maciço rochoso a 60 quilómetros de Barcelona, o mosteiro beneditino de Montserrat foi fundado em 1025 pelo abade Oliba. Profundamente ligado à história e à cultura catalã - ali se refugiaram, por diversas vezes, nacionalistas perseguidos -, o mosteiro acabou por se tornar um dos mais importantes lugares de peregrinação de Espanha: ali vão anualmente mais de 2,2 milhões de pessoas. Em 1493, foi eleito como abade o padre García de Cisneros, que ocupou o cargo até morrer, em 1510. A criação da tipografia, o crescimento da biblioteca e a prosperidade que o mosteiro conheceu foram as marcas que deixou, mas Cisneros publicou também várias obras, entre as quais o Exercitatório de la Vida Espiritual, que viria a influenciar o fundador dos jesuítas, Inácio de Loiola, nos seus Exercícios Espirituais. Depois do incêndio da antiga biblioteca em 1811, a actual foi construída a partir de 1918. A comunidade da abadia conta, actualmente, com 80 monges. O seu actual abade, Josep Soler, foi eleito em 2000.