10 March, 2007

Biblioteca de Montserrat na net

Na edição de hoje, sábado, do Digital, o novo suplemento do Público, escrevi um texto sobre um acordo com o Google para digitalizar os fundos de cinco bibliotecas catalãs - entre elas, a da Abadia de Montserrat. A abadia está a iniciar a preparação das comemorações do seu milénio, que se completa em 2025. O texto é o que se segue:

O fundo da biblioteca da Abadia de Montserrat (um dos mais antigos mosteiros católicos do mundo), próximo de Barcelona (Espanha), irá ser digitalizado e ficará disponível para os utilizadores do motor de busca de livros do Google (www.google.es/books). Sendo um projecto a longo prazo, prevê-se que dentro de dois anos várias obras estejam já disponíveis para os interessados, quer através do Google, quer da página www.bibliotecademontserrat.net.
O acordo, que permitirá o acesso a 330 mil volumes, inclui outras quatro instituições: a Biblioteca da Catalunha, que coordenará o projecto, a Biblioteca Pública Episcopal do Seminário de Barcelona e as do Ateneo Barcelonês e do Centro Excursionista da Catalunha. A sua concretização significa que estas instituições passarão a ser o segundo parceiro do Google-livros fora do universo anglosaxónico – o outro é a Universidade Complutense de Madrid.
Em declarações ao Digital, o padre Damià Roure, responsável pela biblioteca de Montserrat, sublinha precisamente a importância de “permitir aos leitores não anglófonos a leitura de livros em outras línguas europeias”, como catalão, alemão, castelhano, francês e latim, além do inglês. “Até agora, só as grandes bibliotecas americanas e a de Oxford”, no Reino Unido, participavam neste projecto. Os acordos com a Complutense e as cinco bibliotecas catalãs permitem ampliar o universo linguístico.
Entre as obras que ficarão disponíveis na Internet, Damià Roure destaca o Llibre Vermell de Montserrat, um manuscrito que reúne cânticos do próprio mosteiro, composto à volta de 1400, e do qual foram gravadas várias peças por músicos como Jordi Savall ou o Ensemble Micrologus. O manuscrito (cujos fólios se podem ver em www.lluisvives.com/servlet/SirveObras/jlv/08140629733581728654480/) “é o melhor expoente do scriptorium medieval” de Montserrat, diz o padre Roure. Há ainda diversos incunábulos, impressos na tipografia do mosteiro, que começou a funcionar em 1499 por impulso do abade García de Cisneros.
Na biblioteca, estão também depositadas obras clássicas em castelhano e francês – por exemplo, Miguel de Cervantes – e vários fundos sobre o Oriente antigo, o mundo clássico, a Bíblia ou temas de história. Ramon Llull, uma das mais importantes figuras da religião e da cultura catalãs, marca também presença. Místico e viajante, teólogo e poeta, filósofo e arabista, Llull (1232-1316) era um adepto do uso da razão e foi nesse sentido que escreveu a sua Ars Maior, que pretendia ser a obra enunciadora de todas as áreas da ciência.
A maior parte dos fundos antigos mais importantes que havia na biblioteca perderam-se no incêndio de 1811, durante as invasões napoleónicas. Conta o padre Damià Roure que, de acordo com o relato de Vargas Ponce, ilustre visitante de Montserrat, em 1799 havia 158 manuscritos e incunábulos anteriores a 1500 e uns 8500 livros posteriores a essa data. Nos séculos XIX e XX a abadia adquiriu, além de obras contemporâneas, fundos de outras bibliotecas antigas, entre os quais uma tábua cuneiforme com um vocabulário sumérico-acádico.
Quinhentos mapas antigos, 330 mil monografias, seis mil publicações periódicas, 1500 manuscritos, 400 incunábulos, 3700 obras do século XVI. Em números, é este o resumo da biblioteca de Montserrat. Utilizada diariamente pelos monges, há cada vez mais investigadores a recorrer a ela desde que o catálogo passou a estar disponível na Internet. A biblioteca inclui ainda, no seu fundo, 18 mil gravuras de artistas como Durer, Rembrandt, Rubens ou Goya. Autores catalães de gravuras do século XX são, aliás, o tema de uma das exposições virtuais actualmente visitáveis naquele sítio.
Podem ver-se 207 gravuras de 88 autores. Entre estes, Picasso, Dali ou Miró e representantes de movimentos tão diversos como o modernismo, o vanguardismo, a abstracção. Uma mostra da arte gráfica catalã contemporânea, diz a organização, com “quase todos os nomes imprescindíveis”.

Rochedo espiritual, refúgio político

Situado no cimo de um maciço rochoso a 60 quilómetros de Barcelona, o mosteiro beneditino de Montserrat foi fundado em 1025 pelo abade Oliba. Profundamente ligado à história e à cultura catalã - ali se refugiaram, por diversas vezes, nacionalistas perseguidos -, o mosteiro acabou por se tornar um dos mais importantes lugares de peregrinação de Espanha: ali vão anualmente mais de 2,2 milhões de pessoas. Em 1493, foi eleito como abade o padre García de Cisneros, que ocupou o cargo até morrer, em 1510. A criação da tipografia, o crescimento da biblioteca e a prosperidade que o mosteiro conheceu foram as marcas que deixou, mas Cisneros publicou também várias obras, entre as quais o Exercitatório de la Vida Espiritual, que viria a influenciar o fundador dos jesuítas, Inácio de Loiola, nos seus Exercícios Espirituais. Depois do incêndio da antiga biblioteca em 1811, a actual foi construída a partir de 1918. A comunidade da abadia conta, actualmente, com 80 monges. O seu actual abade, Josep Soler, foi eleito em 2000.

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