11 March, 2007

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (II)

A longa viagem que “inventou” o monoteísmo

A acompanhar os depoimentos dos cinco crentes abraâmicos, escrevi no Público de hoje um texto sobre a viagem de Abraão.

Andrei Rubliov, A Hospitalidade de Abraão, 1411 

Referência fundadora para judeus, cristãos e muçulmanos, não se sabe se Abraão é a personificação de um clã ou uma personagem concreta. Mas sabe-se, sim, que a sua aventura mudou a História. A ele se deve o início do monoteísmo.

No princípio, foi um mito, personificação de um grupo ou uma personagem concreta? Viveu há 1500 anos ou mais? Ao aceitar uma proposta de aliança com Deus, Abraão mudou a história. Deixou o culto politeísta da sua tribo e intuiu, “inventou” o Deus único. A sua viagem mudou a História. Tornou-se a referência inaugural para judeus, cristãos e muçulmanos.
Naquele tempo, seria uma viagem quase impossível. Seis mil quilómetros a pé e com animais de carga, um clã inteiro pelo deserto, entre territórios hostis: de Ur, na Suméria (actual Iraque), até Canaã (onde está Israel), passando por regiões que hoje constituem a Síria, a Turquia, o Egipto, a Arábia Saudita.
Singular foi também a viagem espiritual deste homem: alguém que se põe a caminho, escuta uma promessa, que se torna “amigo de Deus”, espera pacientemente um filho, exercita a hospitalidade e intercede pelos condenados. E que, no fim, ainda é posto à prova: conseguirá abdicar do bem mais precioso, a vida do filho que tanto tardara? Nesta aventura, vêem a Bíblia e o Alcorão a Aliança fundadora da relação entre Deus e a humanidade. A Bíblia narra a história, o Alcorão interpreta a vida do patriarca na revelação de Deus.
Pier Giorgio Borbone, professor de Língua e Literatura Hebraica em Pisa, evoca (Abramo Padre di Tutti i Credenti, ed. ETS, Pisa, Itália) a “relação específica e única” entre Abraão e Deus. Uma proximidade intensamente pessoal. Os judeus invocam o Deus “de Abraão, de Isaac e de Jacob”, um Deus único evocado na pluralidade. Tal como no Alcorão, onde Ibrahim (o nome árabe) é referido 69 vezes (apenas Moisés é mais citado): “Cremos em Deus, no que nos foi revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacob e às tribos.” Sintetiza Borbone: “Íntimo de Deus, eleito e destinatário da promessa.”
Abraão, este nome evoca uma promessa. Há dúvidas quanto às datas – foi há 3500 anos? há cerca de 4000? – mas a maioria dos investigadores aponta um tempo algures por volta do século XVIII a.E.C. (antes da Era Comum). Abraão vive em Ur com o seu clã. Ur é, na época, o centro económico e cultural da Mesopotâmia, pouco mais de 10 mil pessoas num porto à beira do Eufrates e nas cercanias do Golfo Pérsico (o mar afastou-se entretanto uns 150 quilómetros). Só em Ur foram descobertos milhares de textos em escrita cuneiforme, inventada na região à volta de 3200 a.E.C.
Em 2000, o escritor polaco Tad Szulc (autor de biografias de João Paulo II e Fidel Castro publicadas em português) percorreu o trilho de Abraão. E falou sobre Ur com Piotr Michalowski, director da revista Journal of Cuneiform Studies e especialista na civilização mesopotâmica. “Imagino uma cidade próspera, de ruas fervilhantes cheias de lojas”, disse o especialista, na reportagem publicada em Dezembro de 2001 na National Geographic.
Uma guerra terá forçado Tera, pai de Abrão (o nome Abraão ser-lhe-à dado mais tarde), a deixar Ur com o seu clã. Mil quilómetros até Haran (actual Turquia). Em Ur e em Haran era a Lua que as pessoas adoravam, sob a invocação de Sin. Em Haran, escutou Abrão um Deus diferente, que lhe ordenava: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo”, conta a Bíblia, no livro dos Génesis.
A viagem de Abraão é mesmo, para os muçulmanos, a matriz da peregrinação a Meca. Varios dos ritos do hajj evocam episódios da vida de Abraão, desde a construção da Caaba até ao ritual do sacrifício.
O patriarca passa um tempo no Egipto, no Négueb, em Betel, até se fixar “junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hebron”, onde “construiu um altar ao Senhor”. Aí, Deus promete-lhe o filho que ainda não tem e uma descendência incontável: “Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar. Pois bem, será assim a tua descendência.
Abrão está velho – terá cerca de 90 anos – e Sarai, sua mulher, também. Hesita: como será isso? A própria mulher propõe-lhe: “Visto que o Senhor me tornou uma estéril, peço-te que vás ter com a minha escrava. Talvez, por ela, eu consiga ter filhos.” Um gesto permitido pelo código de Hammurabi, para que um homem tivesse descendência. Agar engravida e nasce Ismael. Aqui radica uma divergência entre judeus e muçulmanos: para estes, Ismael é o filho herdeiro de Ibrahim.
É que mais tarde nasce Isaac, filho de Sara. Na Bíblia, é Isaac e não Ismael o filho com legitimidade para herdar. O nascimento de Isaac é anunciado pelo próprio Deus, que aparece a Abraão sob a forma de três visitantes misteriosos, aos quais ele oferece água e pão. A hospitalidade de Abraão será tema omnipresente. Na espiritualidade, o andaluz Ibn Arabi, considerado o maior xeque sufi, fala dela a propósito da relação entre Deus e o crente. Na arte, Andrei Rubliov, celebrizado no filme homónimo de Tarkovski, pintará em 1411 o ícone que se tornará a obra russa mais comentada de sempre.
Antes, tinha Abrão 99 anos, já Deus selara com ele a sua aliança: “Serás pai de inúmeros povos. Já não te chamarás Abrão, mas sim Abraão, porque Eu farei de ti o pai de inúmeros povos.” Esse é o significado do nome: pai de uma multidão. Abraão ganha a universalidade, reflecte Borbone, já não é apenas Abrão, um “pai excelso”. A mesma dimensão que São Paulo, no cristianismo nascente, lhe dará, ao chamá-lo pai de circuncisos (os judeus) e incircuncisos (os não-judeus). Os textos do Novo Testamento cristão olham-no como modelo de fé, confiança e disponbilidade, recorda Jean Louis Ska, professor do Instituto Bíblico Pontifício, no livro citado.
No seu diálogo com Deus, Abraão chega a ser quase impertinente. Como quando interpela a destruição de Sodoma e tenta salvar a cidade: E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? (…) Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir?“Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, (…) se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco homens?” E a insistência final: “Que o meu Senhor não se irrite (…) Talvez lá não se encontrem senão dez.” O atrevimento resulta: “Em atenção a esses dez justos, não a destruirei.”
À prova de paciência a que Abraão se sujeitara, Deus acrescenta-lhe uma última: pede-lhe que sacrifique aquele por quem tanto esperara: “Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto.” Isaac é poupado, in extremis, pelo próprio Deus, quando Abraão já se preparava para cumprir o ritual – um momento imortalizado em muitas obras de arte ao longo dos séculos.
Este é o acto de fé radical e fundador. Abraão confia até final na presença de Deus. Abandonando-se à promessa, sabe que, no fim, Deus providenciará. Na reportagem citada, Tad Szulc cita o poema “Hino à bênção de Abraão”, do muçulmano Cengizham Mutlu: “Não sente dor, não se lamenta./ Diz: “O meu Deus salvar-me-à.”/ Dois anjos tinham-no previsto com acerto.// Brasas transformam-se em cinzas./ Faíscas transformam-se em rosas.”

Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://religionline.blogsome.com/2007/03/11/por-que-acreditam-em-deus-os-filhos-de-abraao-ii/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.