11 March, 2007

Religiões e teologia: libertação e sentido

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, Anselmo Borges fala da busca de um novo paradigma teológico. Alguns excertos:

(…) Procura-se um "Novo Paradigma Teológico para Outro Mundo Possível", dentro de horizontes teológicos novos como resposta aos novos desafios.
O horizonte intercultural implica a passagem da cultura única ao pluralismo cultural e, concretamente, da inculturação da teologia, que continua ainda a manter os princípios e as categorias teológicas da cultura dominante, à elaboração de uma teologia intercultural, que assuma o diálogo entre culturas baseado na igualdade.
O horizonte inter-religioso requer a passagem da religião única à elaboração de uma teologia ecuménica das religiões para a paz, a partir das vítimas e com a praxis de libertação, que não é assunto de uma religião, mas de todas.
O horizonte hermenêutico é a chave de toda a teologia, implicando a passagem da mera exegese dos textos sagrados a uma teologia toda ela hermenêutica enquanto procura de sentido, na nossa experiência de mundo.
Dentro do horizonte hermenêutico, é preciso sublinhar a perspectiva teológica de género, pondo em questão a estrutura androcêntrica e patriarcal das doutrinas e teorias religiosas e teológicas. Neste contexto, surge a teologia feminista, não como teologia regional, no sentido de ocupar-se de questões relativas às mulheres, mas como teologia fundamental, que procura dar razão da fé em Deus sem a submissão ao modelo divino patriarcal.
Há o horizonte ecológico, exigindo que se ouça o grito da Terra em busca de libertação. O Credo cristão confessa a criação amorosa do mundo por Deus, de tal modo que se impõe também uma leitura ecológico-festiva da criação. (…)
Indissociável do horizonte utópico, ético-praxístico e anamnético aparece o horizonte político e económico, que exige uma praxis libertadora e inclusiva das pessoas, dos povos, dos países e continentes. Ainda seria teologia aquela que contemporizasse com a globalização da rapina e da exclusão, ignorando a justiça e a solidariedade?
Não se pode esquecer o horizonte simbólico, porque, pela sua própria natureza, a teologia, se quiser manter-se fiel ao Sagrado que se revela e oculta, tem de substituir a linguagem dogmática pela linguagem simbólica. Como dizia Ricoeur, "o símbolo dá que pensar", enquanto o dogma tende a fechar o horizonte do pensamento e do sentido. Embora não seja o único, o compromisso com os direitos humanos e a salvaguarda da criação é critério decisivo da verdade de uma religião e das religiões.
A teologia é teologia das religiões empenhadas na libertação, portanto, teologia libertadora das religiões. O horizonte do diálogo inter-religioso é a libertação-salvação enquanto experiência radical de sentido frente ao sem sentido dos explorados, dos humilhados, das vítimas e da morte.

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