Na edição de hoje do Público, sai uma reportagem que escrevi sobre um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados que, com a participação de uma actriz imigrante, envolve 40 estabelecimentos de ensino; o objectivo é sensibilizar os alunos para a questão das migrações. Uma gala do projecto decorre hoje à tarde no Colégio São João de Brito, em Lisboa.
E a mussaca? Ah, a mussaca! Alguém sabe como se cozinha a mussaca? "Pega-se numa cebola e corta-se cebola aos pedaços - tac, tac, tac. Nem muito grandes nem muito pequenos. Pega-se numa panela com bocadinho de óleo. Põe-se cebola no óleo e faz-se um refugiado. Perdão, um refogado." Primeiros risos.
Natasha Marjanovic, actriz sérvia (ex-jugoslava, corrige, mas já lá vamos) há sete anos radicada em Portugal, está numa turma de 10.º ano do colégio St. Peters, em Palmela, a participar numa acção de sensibilização sobre os imigrantes. Ao fim de hora e meia, os alunos são surpreendidos com a troca: a "técnica de uma empresa de inquéritos", como Natasha se apresentara, deu lugar à actriz que passa receitas culinárias, encena o cozinhado, toca acordeão e põe alunos a dançar.
A receita da mussaca, prato típico sérvio, continua (ver caixa). Antes de desvendar quem é, Natasha pega num acordeão. Cresce a perplexidade dos alunos. Um convite: "Vou ensinar uma dança tradicional." Cristina Pessanha, que integra o projecto Bem-Vindos à Nossa Terra, dança com dois alunos. "Um dia vão embora os pássaros/ e as ruas vão ficar sem sol./ Um homem vai despedir-se de uma mulher/ e muito tempo, no vento, vai ficar sozinho."
A iniciativa é do JRS - Serviço Jesuíta aos Refugiados, organização ligada aos padres da Companhia de Jesus. No início, Cristina explica, com imagens: "190 milhões de pessoas residem num país diferente daquele em que nasceram." "Eu sou um deles", ouve-se do fundo da sala. Pedro, 15 anos, nasceu em França quando os pais lá trabalhavam.
Natasha bate à porta, pergunta se é ali a aula sobre migrações. "Sou da empresa Igualdade Para Todos, falei com o professor." Sim, sim. Alguns risos - o sotaque? -, mas não se pressente desconfiança. Chama-se "teatro de infiltração" e envolve 40 escolas das regiões de Lisboa, Porto e Setúbal. "Pensam que estou a fazer entrevistas", explicara antes a actriz. "Eu vou interrompendo, troco o nome à Cristina, só no fim a dúvida acaba."
Bombas em Belgrado
Cristina passa os slides do computador. As origens das migrações podem ser várias. Alguns alunos intervêm. Há guerras, pessoas discriminadas. Primeira interrupção: "Eu, por exemplo, venho de um país de leste, onde dominava um regime comunista. Lembro-me de me terem levado de noite para baptizar. No Natal, só havia almoço melhorado em casa da avó, como se fosse um encontro casual."
Variam as formas das migrações. Voluntárias, forçadas, legais, ilegais. "Eu sou refugiada? Tinha de ter provas. Em 2004, 105 pessoas pediram asilo em Portugal. Quantas tiveram? Duas. Em 2005 já mudou tudo: cinco conseguiram. Tem que ter prova. Eu estava em Belgrado quando houve bombardeamentos da NATO. Tinha de ir pedir: "Senhor, assine aqui, para eu ter prova de que está a bombardear."" Os alunos entram no jogo, riem, acenam, a perturbação inicial dá lugar à participação.
Natural de Sarajevo, na Bósnia, filha de pais sérvios, Natasha casou com um croata. Com a guerra, marido e irmão ficaram em campos opostos. Por isso, diz que é de um país que já não existe: a Jugoslávia. Fugiu para casa dos pais em Belgrado, as bombas empurraram-na para Portugal.
Os imigrantes são contribuintes e têm direito a ir a um centro de saúde, mesmo ilegalizados. "Porque é tão difícil legalizar?" - pergunta Pedro. Natasha já centra a discussão: "Há gente que não existe, não tem documentos." Maria, muito activa, pergunta como chega comida aos refugiados. A Europa, recorda uma frase de Kofi Annan no ecrã, não está a cumprir os seus deveres: África é o continente que mais protecção dá aos refugiados. Portugal tem pouco mais de 400 mil imigrantes; espalhados pelo mundo, há 4,5 milhões de portugueses. "É razão para respeitarem dez vezes mais os imigrantes." E não respeitamos? "Não oferecem ajuda à primeira, mas depois fazem tudo o que se pede." A resposta de Natasha recorda os primeiros três dias de solidão. Quebrada por um cesto de cerejas do senhor Joaquim.
Natasha gosta do país que a acolhe: "Vocês têm um país bonito, não dão valor, eu fiquei porque estou nove meses com sol." A mussaca, a dança, a campainha para o final da aula. Pouco antes, diria o que não gosta em Portugal, que reparou por causa da escola das filhas: "Não lêem Tolstoi, não lêem nada. Leiam, leiam."
A dança terminava assim: "Um dia cada um vai atrás da sua vida/ no fim, só, o coração diz:/ eu vou voltar!/ Agora, adeus./ E quem sabe quando…/ E quem sabe onde…"
Mussaca para quatro pessoas
A mussaca precisa de 1 kg de beringelas, 400 gramas de carne picada, duas cebolas grandes, dois dentes de alho, queijo ralado e molho bechamel (ou um iogurte natural e três/quatro ovos batidos). Enquanto se faz o refogado (ver texto principal), está outra panela a "fazer glu glu - o que é isto? Água a ferver, à espera de quê? Da beringela."
"Pegas na beringela e pluc, colocas dentro dessa água, em cima da cebola. Pegas na carne picada, de qualquer animal que encontres no caminho, juntas sal, pimenta e pegas numa travessa grande, para toda a gente comer. Quanto mais gente houver, mais saborosa é a mussaca. Colocas uma camada de beringela, outra de carne picada, uma de beringela, outra de carne, outra de beringela. Abres o forno, colocas a mussaca e não perdes tempo: três, quatro ovos, iogurte natural, um bocadinho de sal. Abres o forno, regas a mussaca, devolves ao forno. Ah!, já cheira a mussaca!"
O projecto Bem-Vindos à Nossa Terra tem hoje um ponto culminante com uma gala que inclui uma peça encenada por Natasha Marjanovic. É no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, a partir das 17h00 (entrada livre).
