18 March, 2007

Análise evolutiva da religião

No seu artigo do Público de hoje, frei Bento Domingues fala de algumas recentes iniciativas que têm sido realizadas em Lisboa a propósito do fenómeno religioso.

Dizia-me, há dias, um amigo pouco devoto: já só falta Deus aparecer, em directo, na televisão. É verdade que este ano, em Lisboa, devido às questões levantadas pela religião, além da boa figura que tem feito em alguns livros notáveis, Ele tem sido muito falado em lugares onde se julgava que não era especialmente apreciado.
De 29 de Janeiro a 4 de Março, todas as semanas, muitos “descendentes de Abraão” (judeus, cristãos e muçulmanos) foram à Culturgest partilhar impressões e razões da sua fé monoteísta. Cientistas e fi lósofos estiveram, nos dias 12 e 13, na Gulbenkian para fazer a Análise evolutiva da religião. Ontem e anteontem, a Comissão da Liberdade Religiosa marcou, no Centro Ismaeli, um colóquio com o tema A religião fora dos templos. O Grande Oriente Lusitano vai organizar, a 5 de Maio, um encontro sobre Religiões, violência e razão.
Acerca do que se passou na Culturgest António Marujo já deu conta do seu alcance aqui no PÚBLICO. O Encontro da Gulbenkian teve outro conteúdo e seguiu outro método. Apesar do pequeno espaço de que disponho, quero destacar – com palavras dos conferencistas – a grande importância do tema e a responsabilidade académica que ele assumiu.
David Sloan, da Universidade de Binghawton (EUA), o primeiro conferencista, realçou  uma mudança significativa na abordagem da religião. Se durante quase todo o século XX, a teoria evolutiva esteve apenas confiada às ciências biológicas, hoje os temas geralmente  associados às ciências humanas e humanidades passaram também eles a ser analisados  numa perspectiva evolutiva. Para esta tendência, o estudo da religião, assim como os seus vários elementos podem ser estudados do mesmo modo que os evolucionistas investigam as  várias características das espécies humanas e não humanas.
Para Keith Parsons, da Universidade de Houston (EUA), existem várias evidências de que a religião se apresenta como um fenómeno natural. É actualmente objecto de investigação  científica e de tentativas de explicação através das neurociências e da biologia evolutiva. Estes avanços têm uma enorme relevância para as apologéticas teístas, isto é, para o esforço de mostrar que a fé teística é totalmente fundamentada ou racionalmente justificada. Alvin Plantinga, talvez o mais avançado dos actuais filósofos da religião, argumentou que os  seres humanos possuem uma faculdade cognitiva natural que, ao operar de acordo com a sua função, e em circunstâncias apropriadas, nos providencia um sensus divinitatis, ou seja, uma sabedoria básica e fundamentada acerca da realidade de Deus. Keith Parsons  examinou, na sua conferência, o impacto das mais recentes descobertas sobre as origens evolucionistas da religiosidade.
Para Lewis Wolpert, do University College de Londres, os seres humanos são diferentes de todos os outros animais por possuírem crenças causais acerca do mundo físico. As crianças têm estas crenças desde muito cedo. Por contraste, os chimpanzés têm uma ideia muito limitada acerca das relações de causa-efeito de base física. A vantagem evolutiva para os seres humanos foi a habilidade para construir ferramentas e foi esta tecnologia que levou à evolução humana. Quiseram perceber as causas das coisas que afectavam as suas vidas. Um Deus semelhante ao ser humano providenciava uma resposta clara e era vantajoso. Esta foi a origem de muitas religiões.
Richard Sosis, da Universidade Hebraica de Jerusalém, centrou-se no debate dos  investigadores que estudam a religião em perspectiva evolutiva, tentando saber se ela é ou não adaptativa. Os adaptativos demonstraram duas vantagens primárias: promover a cooperação no grupo e reduzir o stress. R. Sosis discutiu as principais teorias e dados empíricos que as suportam. Apontou caminhos possíveis à investigação futura que os investigadores evolutivos deveriam explorar para resolver adequadamente o debate adaptativo.
Depois das verosímeis explicações evolucionistas das crenças religiosas – no momento em que escrevo ainda não me posso referir ao colóquio sobre a A religião fora dos templos –, quero sugerir uma visita à parábola “do filho pródigo” (Lc 15) que é lida hoje na Eucaristia. E apresentada na Bíblia de Jerusalém como “O Evangelho dentro do Evangelho”. Com toda a razão. Esta peça literária é uma novidade impressionante no panorama da experiência religiosa sempre que as práticas das Igrejas cristãs a esquecem, em vez de evoluírem, regridem para os critérios da moral convencional e para a prisão de rituais sem sentido.
A parábola supõe que, para Jesus, um Deus que não respeitasse a liberdade dos seus filhos, nem fosse compassivo, não seria Deus. E sem liberdade não é possível ser humano, nem religioso. Nesta parábola, Deus é a casa da festa para todos os que regressam do mundo onde se perderam da alegria.

Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://religionline.blogsome.com/2007/03/18/analise-evolutiva-da-religiao/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>



Anti-spam measure: please retype the above text into the box provided.