15 April, 2007
O anunciado livro do Papa Bento XVI sobre Jesus estará à venda a partir desta segunda-feira, em Itália, e chegará em Maio a Portugal. Hoje, no Público, levantei um pouco do véu sobre o conteúdo, a partir da leitura já feita por várias agências.
É um livro que pretende traduzir apenas uma “busca pessoal” e não quer afi rmar-se como um “acto relevante” do magistério do Papa. Jesus de Nazaré, da autoria de Joseph Ratzinger ou Bento XVI, será posto à venda em Itália, Alemanha e Polónia amanhã, dia em que o Papa faz 80 anos. Em Maio estará nas livrarias portuguesas. O livro já se anuncia como tentativa de contrariar perspectivas políticas da fi gura de Jesus ou especulações sem fundamento histórico como as veiculadas por fi cções como O Código Da Vinci. Mas a obra pode ser discutida e contestada. “Qualquer pessoa é livre de me contradizer”, escreveu o Papa, citado pela Reuters. Com este texto, começado a escrever em 2003, dois anos antes de ser eleito Papa, Ratzinger denuncia os “maus livros, destruidores da fi gura de Jesus e da fé, cheios de resultados presumidos de exegese”. A citação, transcrita pela AFP, pode ser lida como alusão ao Código, que foi criticado por várias fi guras destacadas da Igreja. “Tentei apresentar o Jesus dos evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o Jesus histórico no verdadeiro sentido”, escreve o Papa, que já antes de ser eleito, faz quinta-feira dois anos, era um dos mais importantes teólogos católicos. A reafi rmação de que esta é uma obra do pensador e não do líder da Igreja Católica é feita numa sinopse do livro, citada pela Zenit, uma agência ofi ciosa do Vaticano. Jesus de Nazaré “refl ecte a busca pessoal do ‘rosto do Senhor’ por parte de Ratzinger e não pretende ser um documento do magistério”, diz o texto. Ou seja, não tem o carácter ofi cial e hierárquico de textos como as encíclicas ou as exortações. Com um livro pleno de citações da Bíblia e de autores tão diferentes como Karl Marx, Madre Teresa, Sócrates, Confúcio, Dante ou Nietzsche, Ratzinger alerta: “A interpretação da Bíblia pode tornar-se um instrumento do Anticristo”. O Papa insiste na ideia do “primado de Deus” e critica os que pretendem que a Igreja “se preocupe antes de mais com o pão a dar ao mundo”. Quando Deus é considerado “secundário” em relação a outras coisas pretensamente mais importantes, estas “fracassam”. “A experiência negativa do marxismo não é a única a demonstrá-lo”, acrescenta. Estas referências têm outros alvos: de um lado, os biblistas que acentuam o estudo histórico da fi gura de Jesus. Nesta perspectiva, o Papa enal- O livro será posto à venda amanhã em Itália, Alemanha e Polónia; em Maio, estará nas livrarias portuguesas tece o método histórico-crítico como “indispensável para uma exegese séria” e que colocou à disposição uma grande quantidade de material e conhecimentos que permitem reconstruir a fi gura de Jesus”. Apesar disso, Ratzinger diz que “só a fé pode fazer compreender que Jesus é Deus”. O outro alvo é a teologia da libertação, que defendia, a partir da análise da realidade, uma maior intervenção social da Igreja. “Sim, realmente aconteceu. Jesus não é um mito. É um homem feito de carne e sangue, uma presença totalmente real na história. Ele morreu e ressuscitou de entre os mortos”, escreve Ratzinger. O livro cita ainda problemas do mundo contemporâneo como o drama das populações de África, “roubadas e pilhadas” pelo “estilo de vida” ocidental. A obra será publicado em 20 línguas. Ratzinger planeia um segundo volume consagrado às narrativas da infância de Jesus. No primeiro, analisa a vida pública de Cristo, desde o baptismo no Jordão até ao episódio da Transfiguração.
3 April, 2007
A acompanhar o texto sobre os 40 anos da Populorum progressio, a encíclica social do Papa Paulo VI, publiquei na edição do
Público de dia 1 uma entrevista com o padre Calvez, um dos mais importantes especialistas em doutrina social da Igreja.
Jean-Yves Calvez, um dos redactores da encíclica de Paulo VI, esteve quarta-feira em Lisboa. E fez o balanço do que mudou no mundo. Não se deve generalizar o pessimismo, avisa.
É preciso fazer coisas positivas, diz Jean-Yves Calvez, e encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital.
Recordo três frases da encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos): "Em alguns continentes, são incontáveis os homens torturados pela fome." "O mundo está doente." "Os povos da fome apelam aos povos da opulência." Parece terem sido escritas hoje.
É verdade. Mas também eram verdadeiras naquela época.
Estamos melhor ou pior?
Há países que estão muito melhor. Creio que não se deve generalizar o pessimismo. Repare num país como a Coreia do Sul, que tinha o mesmo rendimento per capita que os Camarões, em 1950. Hoje, a Coreia do Sul tem um rendimento comparável à Europa Mediterrânica e é um país industrial bem avançado. Quando comecei a interessar-me por estas questões, nos anos 50, o Japão estava entre os países em vias de desenvolvimento. Há transformações profundas em muitos países. Hoje, na China, o desenvolvimento é um pouco caótico, mas o que se passa na parte oriental do país é espectacular.
Significa que há países ou políticas que colocaram em prática princípios da doutrina social da Igreja?
Sim, alguns países foram inspirados por ela. Por exemplo, através de um homem como o padre Lebret, que foi conselheiro de vários governos: Senegal, Brasil, Uruguai, Peru. Encontrei-o, no terreno, na Venezuela. Houve influência, claro. Não podemos pensar que a China escute muito as encíclicas, mas talvez escute algumas coisas do Ocidente que não são estranhas à doutrina social da Igreja.
Há, em toda a encíclica, um sentimento de urgência em resolver os problemas de quem sofre. Hoje, somos menos sensíveis ao sofrimento de outros?
É pior: por vezes estamos resignados. Há pessoas que têm a impressão de que se ensaiaram muitas coisas - em África, por exemplo -, que se desejaram políticas de desenvolvimento que falharam e já não há nada a fazer. Creio que estão erradas e exageram. Mas tenho alunos africanos, que estão condicionados por este afro-pessimismo ocidental.
Digo, por exemplo a alunos do Burkina Faso: "Conheço o vosso país há 50 anos. Regressei há pouco tempo a Ouagadougou. A transformação da cidade é extraordinária. É um país muito pobre, mas não se deve dizer que não há nada. O país é desigual, há muito a fazer, mas é preciso fazer um julgamento mais justo.
Há urgências ainda hoje?
Sim. Há países como esse, muito desnutridos no plano agrícola. Em alguns casos, perguntamos o que é preciso fazer. É urgente encontrar soluções novas.
Se pensarmos em alguns temas da encíclica - racismo, nacionalismos, distribuição da terra, guerra, fome, dívida externa, especulação financeira - parece que muitas coisas caminham à margem do que a Igreja propõe.
Em todos esses domínios há problemas, é verdade. Mas será que podemos dizer que está tudo pior? Não. Mesmo o racismo, se quiser. Há racismo na Europa, por causa do encontro das populações, da imigração. Mas na atitude com relação aos africanos, em geral, há muito menos racismo hoje do que há 50 anos.
Nessa altura havia uma espécie de crença de que a África estava condenada para sempre. Hoje, há muita gente que vê que a África é capaz de se desenvolver e educar. Há muitos africanos que demonstram uma capacidade intelectual notável e são reconhecidos como tal. Não podemos dizer que o racismo está generalizado. É preciso lutar, mas já se obtiveram alguns resultados: nas escolas, as crianças vivem juntas sem muitos problemas.
Paulo VI pedia a criação de um fundo de ajuda sustentado em parte por despesas militares, que não interferisse nos países. O Fundo Monetário Internacional [FMI] é acusado disso mesmo…
O FMI não é um organismo de ajuda, mas de gestão de dinheiro. Mas tem muita influência pelo julgamento que faz sobre as economias de diversos países. Os banqueiros, os financeiros agem tendo em conta o juízo do FMI. O fundo impõe medidas muito imperativas, para estabilizar a moeda, por vezes com algum desprezo para com a autonomia dos países. Isso é verdade.
É necessário ainda, então, criar esse fundo de que Paulo VI falava?
Sim. O melhor seria uma participação igualitária dos diversos países na sua gestão. Na realidade,
o FMI é gerido pelos países mais ricos.
A Igreja propõe os princípios do destino universal dos bens e do bem comum. Mas há políticos e empresários católicos que não têm em conta esses princípios e para os quais é mais fácil, por exemplo, enviar gente para o desemprego. Falta formação no campo da doutrina social?
Sim, falta. Há alguma coisa, mas é preciso ocuparmo-nos de toda a gente. Seria necessário este campo essencial estar presente na catequização: se isso não for algo comum a todos os católicos, é muito difícil falar apenas a especialistas e responsáveis. Se o conjunto da comunidade for mais consciente, teremos mais possibilidades de conseguir.
Tem um livro sobre os silêncios do pensamento social católico. Na sua conferência referiu a imigração. Que outros temas estão ausentes?
O sistema de economia financeira, o capitalismo - no sentido do carácter desigual da gestão do capital. Demasiado poucos homens intervêm para determinar o destino dos outros, por exemplo nas empresas. A maior parte das pessoas - mesmo quem tem responsabilidades - depende do capital financeiro exterior, que age sobre elas.
Pode dizer-se que o verdadeiro poder do mundo e dos países é o capital financeiro?
Não, mas joga um papel, por vezes, muito prejudicial. O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso. Mas não podemos dizer que seja a única coisa a actuar. As empresas também têm responsabilidade, a inteligência e a ciência, também actuam.
Como dizia, "não temos o direito de nos mostrarmos negligentes, resignados ou adormecidos". É preciso resistir?
Resistir, sim. Mas também trabalhar para fazer coisas positivas. Não apenas estar perante [os problemas], é preciso criar, encontrar soluções. A propósito do capital, é necessário encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital, e sendo por consequência capazes de intervir na gestão do capital, associando-se.
No passado dia 26 de Março, completaram-se 40 anos sobre a publicação da Populorum Progressio. No domingo, dia 1 de Abril, escrevi no
Público um artigo a recordar o significado da ecncíclica social de Paulo VI.
Há 40 anos, o mundo vivia optimista. O Papa Paulo VI surpreendeu toda a gente com uma encíclica sobre o desenvolvimento dos povos. "Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência", dizia. Passaram mesmo quatro décadas?
Em 1967, um documento do Papa Paulo VI surpreendeu meio mundo: nesse ano, o dia 26 de Março, fez segunda-feira passada 40 anos, era Domingo de Páscoa. Foi a data escolhida para divulgar uma encíclica que falava do desenvolvimento, da industrialização, da equidade nas relações comerciais entre povos, da importância de uma autoridade mundial eficaz e da necessidade de estabelecer um fundo de ajuda aos países mais pobres. E que, relida 40 anos depois, mantém uma actualidade premente em muitos dos seus enunciados.
O tema e o tempo escolhidos não eram esperados. A encíclica Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos) parecia mais um texto saído de alguma instituição económica. O Ocidente vivia um tempo de euforia: o crescimento económico antecipava a abundância, o processo de descolonização entrava na recta final (só Portugal mantinha colónias). Mas havia já sinais prenunciadores da crise: a difícil luta pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos, a agonia da guerra do Vietname. A revolta estudantil francesa chegaria em Maio de 1968…
Comungando de algum optimismo, a encíclica de Paulo VI não deixava de alertar: "Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência", escrevia o Papa Montini no terceiro parágrafo. O documento saía apenas 15 meses depois de terminado o Concílio Vaticano II, que iniciara a reforma da Igreja e retivera, entre 1962 e 1965, a atenção de muitos.
A surpresa será maior se se pensar, recorda Peter Stilwell, que nessa altura o papado - estamos antes de João Paulo II e da massificação televisiva - não atraía as atenções que depois conquistaria. Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, coordenou a edição de vários documentos de doutrina social católica (Caminhos da Justiça e da Paz, ed. Rei dos Livros), entre os quais a Populorum Progressio.
Já se começava a falar de neocolonialismo, lembra este especialista. Os países que tinham conquistado a independência após a II Guerra Mundial continuavam dependentes. Havia excepções: Leopold Senghor no Senegal, Julius Nyerere na Tanzânia. Mas a maioria das lideranças africanas mais não fazia que "reproduzir as estruturas das anteriores administrações coloniais", diz Stilwell.
Tal realidade era referida por Paulo VI: "Os povos que ainda há pouco tempo conseguiram a independência nacional sentem a necessidade de acrescentar a esta liberdade política um crescimento autónomo e digno, tanto social como económico."
"Liberalismo esmaga"
É neste contexto que, qual pedrada no charco, surge a encíclica. "O desenvolvimento é o novo nome da paz", escrevia então o Papa, num enunciado que ficaria célebre. E o desenvolvimento "não se reduz ao simples crescimento", acrescentava. A novidade "foi que o desenvolvimento foi compreendido como um processo universal", disse quarta-feira passada na Universidade Católica, em Lisboa, um dos peritos que foram convidados por Paulo VI a trabalhar na redacção da encíclica.
Jean-Yves Calvez, de 79 anos, padre jesuíta e teólogo, é um dos mais importantes especialistas no pensamento social católico, com uma larga lista de títulos publicados em campos como a filosofia política ou o marxismo. Na época em que participou na redacção da encíclica, Calvez admite que "toda a gente" imaginava que era uma questão de "curto prazo" acabar com a miséria.
Em entrevista ao PÚBLICO, o padre Calvez reafirma: "Toda a gente falhou: economistas, políticos, todos os que se implicaram na questão do desenvolvimento nos anos 50-60. Imaginavam que, com uma política monetarista e meios financeiros, se poderia elevar o nível de toda a população que tínhamos deixado ao abandono no tempo colonial." Mesmo assim, o teólogo tem uma perspectiva optimista: "Ao mesmo tempo, tivemos sucessos, não se pode dizer que fracassámos em toda a linha. Mas há problemas difíceis ."
Na conferência da Universidade Católica, Calvez situou: a "questão maior" era a da ""disparidade", da flagrante desigualdade quanto ao desenvolvimento". Mas não bastava recorrer aos mecanismos económicos para resolver os problemas. O Papa, diz, tinha consciência da importância da cultura. "Paulo VI tinha um sentido muito agudo dessa necessidade. Foi o que a encíclica trouxe de novo. Não trouxe grandes invenções sobre modos de financiamento ou industrialização, mas sim sobre os aspectos culturais e sociológicos."
Tal visão traduzia-se em alguns enunciados: um desenvolvimento integral e solidário; ambivalência do crescimento, já que "possuir mais não é o fim último"; o destino universal dos bens acima do direito à propriedade e do comércio livre; o risco de "esmagar" os países pobres com o peso da dívida; o "escândalo intolerável" do esbanjamento; a necessidade de "construir uma ordem jurídica internacionalmente reconhecida".
Pelo meio, Paulo VI anunciava a criação de uma comissão para favorecer as ideias da encíclica - "Justiça e Paz é o seu nome e o seu programa". E apelava à criação de um "fundo mundial, sustentado por uma parte da verba das despesas militares, para vir em auxílio dos mais deserdados".
Quarenta anos depois, Calvez verifica: "A repartição é mais desigual que nunca". E se "o liberalismo é eficaz de muitas maneiras, traz também o esmagamento e a exclusão de muitos". Mas a encíclica tem um "rico conjunto de princípios".
Um sentimento de urgência atravessava o documento: "Temos de nos apressar: há muitos homens a sofrer e cresce a distância que separa o progresso de uns da estagnação e até da regressão de outros." Esta frase tem mesmo 40 anos?
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento do padre José Tolentino Mendonça – Católico, doutorado em Teologia Bíblica, é professor do Departamento de Estudos Bíblicos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e director da revista de teologia Didaskalia. É também poeta, ensaísta e tradutor
A fé é experimental, dá-nos e pede-nos tudo
Importante não é ajudar a demonstrar, mas a ver. Melhor do que análises sofisticadas para provar, numa sala escura, a excelência das cores, é abrir uma janela que aproxime a luz e, assim, a visão das cores se torne possível. A fé não está do lado dos enunciados: é experimental, incita à construção de narrativas, coloca em relação. Os que vivem o risco e a alegria de acreditar, porventura balbuciarão perante os porquês. Podem testemunhar razões, mas sentem-se incapazes de circunscrever a razão. O coração humano, contudo, precisa desse “não sei quê”, que depois o Espírito socorre “com gemidos inefáveis”, como lembra São Paulo. O teólogo católico Romano Guardini dizia que “a fé é uma tipologia do olhar”. Ela representa, talvez, a mais extrema e a mais modesta das organizações do olhar, porque ao mesmo tempo que nos dá tudo, nos pede tudo. A fé inscreve o olhar humano no ponto de vista de Deus. Nesse sentido, constitui a possibilidade inédita de um olhar total: abarcando o provisório e o eterno, o exterior e o interior, o recôndito e o próximo, o eu e o outro, o visível e o invisível. Como é vasta a vida contemplada do monte para o qual Abraão, e cada um dos crentes, é chamado a subir! Mas também lhes é pedido que esta visão se realize na itinerância radical do olhar, na sede e no desejo, na abertura mais do que na certeza, na confiança em vez de confirmações, no reconhecimento do silêncio de Deus como epifania de Deus. Sem esquecer que a fé, imperscrutável dom, chega através do caminho diverso e inesperado. Habituei-me a repetir uma oração que Paul Claudel escreveu: “É justo, ó Deus, que vos peça por Artur Rimbaud, sem o qual os meus olhos não se teriam aberto para o vosso Rosto”.
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de Ivan Moody – Ortodoxo, nasceu em Londres em 1964. Estudou música e teologia, e é actualmente presidente da Sociedade Internacional de Música Ortodoxa. Tem servido como cantor na catedral russa de Londres e nas paróquias grega e búlgara de Lisboa
Não posso dizer por que acredito
Posso dizer, com toda a honestidade, que sempre tive fé. Percebo que para outros não é assim, mas nunca duvidei da existência ou da bondade de Deus. (É claro que isto não quer dizer que na prática da Ortodoxia eu seja perfeito – são duas questões distintas.) Por isso, de certa forma, não posso dizer por que acredito em Deus, embora também pudesse responder que nunca poderia acreditar que o complexíssimo e belíssimo milagre da criação do Universo e da vida fosse um mero acaso. Quanto às descobertas científicas, até agora não vi nenhuma que pusesse em causa a minha fé; admiro o trabalho dos cientistas, e, longe de ver a minha fé contradita nele, vejo uma confirmação – e que seja claro que não me refiro aqui a literalismos como acreditar em oito dias (como nós os ordenamos) para a criação do mundo. No cepticismo vejo mais perigo – embora, mais uma vez, eu pessoalmente tenha sempre conseguido resistir –, pois é muito fácil sobretudo para um jovem, ainda a absorver o mundo à sua volta, ser infectado por um não-crente, mesmo que cresça num meio religioso. É claro também que hoje em dia este fenómeno é reforçado não pelo secularismo dominante – eu acredito na separação do estado e das instituições religiosas –, mas pela “correcção política”, que faz com que, por exemplo, em certas zonas dos Estados Unidos não se possa ter o símbolo da Cruz, enquanto símbolos judaicos e muçulmanos são aceitáveis. Se me perguntar “mas não pode provar a virgindade de Maria ou a acção histórica do Logos, pois não?”, então é óbvio que vou ter de responder que não. Mas é a pergunta errada, pois parte da necessidade de uma prova científica segundo o modelo supostamente moderno da ciência. A fé começa noutro sítio, num complexo que é capaz de integrar uma visão cósmica e o destino do homem, essa criatura profundamente doxológica.
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de AbdoolKarim Vakil - muçulmano, é professor de História Contemporânea no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, tendo trabalhado sobre as representações do Islão e muçulmanos no imaginário português.
Não é acreditar, mas testemunhar Deus
Suponho que entendo a lógica que adivinho por trás da pergunta: sendo que Deus é objecto e fundamento da crença, querendo compreender os crentes que pergunta poderia ir mais directamente ao âmago da questão? Reconheço-lhe o intuito bem intencionado de abrir um jorro de luz sobre o universo da crença, mas é um abrir sobre, que não é um abrir-se a. Pede respostas mas não aprende primeiro que perguntas fariam sentido. (…) A pergunta afigura-se-me problemática por quatro razões. Primeiro, por assumir que as religiões são religiões todas da mesma forma; que a questão da crença, o lugar do credo e das doutrinas, e o “acreditar” em Deus têm a mesma relevância, para já não dizer o mesmo sentido e função, em cada uma das religiões e para os seus crentes. No entanto, o que define o muçulmano não é acreditar em Deus, mas testemunhar Deus. Depois, porque privilegia a crença sobre a prática; o discurso, o intelectualismo, as razões e fundamentação da “crença” por sobre outras formas de conhecimento do Divino; do experienciar, e quotidianamente testemunhar, louvar e implementar a Vontade de Deus; privilegia a palavra sobre o gesto (…). Em terceiro lugar, porque não reconhece que a relação com Deus se vive na relação com os outros em sociedade; na obrigação, no serviço, na solidariedade com os outros o acreditar se vive no creditar. Menos generosamente, por último, suspeito na pergunta o que ela reflecte da intolerância do tempo que é o nosso, traduzida numa atitude de provinciana e arrogante curiosidade perante o exotismo e atavismo de ‘como se pode [ainda] ser crente?’ Trai algo do pressuposto ideológico da normatividade epistemológica da não-crença. Sendo que é o crente que se reveste do artifício da crença; ao crente compete justificar-se ou explicar-se.