3 April, 2007

O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso

A acompanhar o texto sobre os 40 anos da Populorum progressio, a encíclica social do Papa Paulo VI, publiquei na edição do Público de dia 1 uma entrevista com o padre Calvez, um dos mais importantes especialistas em doutrina social da Igreja.

Jean-Yves Calvez, um dos redactores da encíclica de Paulo VI, esteve quarta-feira em Lisboa. E fez o balanço do que mudou no mundo. Não se deve generalizar o pessimismo, avisa.

É preciso fazer coisas positivas, diz Jean-Yves Calvez, e encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital.
Recordo três frases da encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos): "Em alguns continentes, são incontáveis os homens torturados pela fome." "O mundo está doente." "Os povos da fome apelam aos povos da opulência." Parece terem sido escritas hoje.
É verdade. Mas também eram verdadeiras naquela época.
Estamos melhor ou pior?
Há países que estão muito melhor. Creio que não se deve generalizar o pessimismo. Repare num país como a Coreia do Sul, que tinha o mesmo rendimento per capita que os Camarões, em 1950. Hoje, a Coreia do Sul tem um rendimento comparável à Europa Mediterrânica e é um país industrial bem avançado. Quando comecei a interessar-me por estas questões, nos anos 50, o Japão estava entre os países em vias de desenvolvimento. Há transformações profundas em muitos países. Hoje, na China, o desenvolvimento é um pouco caótico, mas o que se passa na parte oriental do país é espectacular.
Significa que há países ou políticas que colocaram em prática princípios da doutrina social da Igreja?
Sim, alguns países foram inspirados por ela. Por exemplo, através de um homem como o padre Lebret, que foi conselheiro de vários governos: Senegal, Brasil, Uruguai, Peru. Encontrei-o, no terreno, na Venezuela. Houve influência, claro. Não podemos pensar que a China escute muito as encíclicas, mas talvez escute algumas coisas do Ocidente que não são estranhas à doutrina social da Igreja.
Há, em toda a encíclica, um sentimento de urgência em resolver os problemas de quem sofre. Hoje, somos menos sensíveis ao sofrimento de outros?
É pior: por vezes estamos resignados. Há pessoas que têm a impressão de que se ensaiaram muitas coisas - em África, por exemplo -, que se desejaram políticas de desenvolvimento que falharam e já não há nada a fazer. Creio que estão erradas e exageram. Mas tenho alunos africanos, que estão condicionados por este afro-pessimismo ocidental.
Digo, por exemplo a alunos do Burkina Faso: "Conheço o vosso país há 50 anos. Regressei há pouco tempo a Ouagadougou. A transformação da cidade é extraordinária. É um país muito pobre, mas não se deve dizer que não há nada. O país é desigual, há muito a fazer, mas é preciso fazer um julgamento mais justo.
Há urgências ainda hoje?
Sim. Há países como esse, muito desnutridos no plano agrícola. Em alguns casos, perguntamos o que é preciso fazer. É urgente encontrar soluções novas.
Se pensarmos em alguns temas da encíclica - racismo, nacionalismos, distribuição da terra, guerra, fome, dívida externa, especulação financeira - parece que muitas coisas caminham à margem do que a Igreja propõe.
Em todos esses domínios há problemas, é verdade. Mas será que podemos dizer que está tudo pior? Não. Mesmo o racismo, se quiser. Há racismo na Europa, por causa do encontro das populações, da imigração. Mas na atitude com relação aos africanos, em geral, há muito menos racismo hoje do que há 50 anos.
Nessa altura havia uma espécie de crença de que a África estava condenada para sempre. Hoje, há muita gente que vê que a África é capaz de se desenvolver e educar. Há muitos africanos que demonstram uma capacidade intelectual notável e são reconhecidos como tal. Não podemos dizer que o racismo está generalizado. É preciso lutar, mas já se obtiveram alguns resultados: nas escolas, as crianças vivem juntas sem muitos problemas.
Paulo VI pedia a criação de um fundo de ajuda sustentado em parte por despesas militares, que não interferisse nos países. O Fundo Monetário Internacional [FMI] é acusado disso mesmo…
O FMI não é um organismo de ajuda, mas de gestão de dinheiro. Mas tem muita influência pelo julgamento que faz sobre as economias de diversos países. Os banqueiros, os financeiros agem tendo em conta o juízo do FMI. O fundo impõe medidas muito imperativas, para estabilizar a moeda, por vezes com algum desprezo para com a autonomia dos países. Isso é verdade.
É necessário ainda, então, criar esse fundo de que Paulo VI falava?
Sim. O melhor seria uma participação igualitária dos diversos países na sua gestão. Na realidade,
o FMI é gerido pelos países mais ricos.
A Igreja propõe os princípios do destino universal dos bens e do bem comum. Mas há políticos e empresários católicos que não têm em conta esses princípios e para os quais é mais fácil, por exemplo, enviar gente para o desemprego. Falta formação no campo da doutrina social?
Sim, falta. Há alguma coisa, mas é preciso ocuparmo-nos de toda a gente. Seria necessário este campo essencial estar presente na catequização: se isso não for algo comum a todos os católicos, é muito difícil falar apenas a especialistas e responsáveis. Se o conjunto da comunidade for mais consciente, teremos mais possibilidades de conseguir.
Tem um livro sobre os silêncios do pensamento social católico. Na sua conferência referiu a imigração. Que outros temas estão ausentes?
O sistema de economia financeira, o capitalismo - no sentido do carácter desigual da gestão do capital. Demasiado poucos homens intervêm para determinar o destino dos outros, por exemplo nas empresas. A maior parte das pessoas - mesmo quem tem responsabilidades - depende do capital financeiro exterior, que age sobre elas.
Pode dizer-se que o verdadeiro poder do mundo e dos países é o capital financeiro?
Não, mas joga um papel, por vezes, muito prejudicial. O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso. Mas não podemos dizer que seja a única coisa a actuar. As empresas também têm responsabilidade, a inteligência e a ciência, também actuam.
Como dizia, "não temos o direito de nos mostrarmos negligentes, resignados ou adormecidos". É preciso resistir?
Resistir, sim. Mas também trabalhar para fazer coisas positivas. Não apenas estar perante [os problemas], é preciso criar, encontrar soluções. A propósito do capital, é necessário encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital, e sendo por consequência capazes de intervir na gestão do capital, associando-se.

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