Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de AbdoolKarim Vakil - muçulmano, é professor de História Contemporânea no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, tendo trabalhado sobre as representações do Islão e muçulmanos no imaginário português.
Não é acreditar, mas testemunhar Deus
Suponho que entendo a lógica que adivinho por trás da pergunta: sendo que Deus é objecto e fundamento da crença, querendo compreender os crentes que pergunta poderia ir mais directamente ao âmago da questão? Reconheço-lhe o intuito bem intencionado de abrir um jorro de luz sobre o universo da crença, mas é um abrir sobre, que não é um abrir-se a. Pede respostas mas não aprende primeiro que perguntas fariam sentido. (…) A pergunta afigura-se-me problemática por quatro razões. Primeiro, por assumir que as religiões são religiões todas da mesma forma; que a questão da crença, o lugar do credo e das doutrinas, e o “acreditar” em Deus têm a mesma relevância, para já não dizer o mesmo sentido e função, em cada uma das religiões e para os seus crentes. No entanto, o que define o muçulmano não é acreditar em Deus, mas testemunhar Deus. Depois, porque privilegia a crença sobre a prática; o discurso, o intelectualismo, as razões e fundamentação da “crença” por sobre outras formas de conhecimento do Divino; do experienciar, e quotidianamente testemunhar, louvar e implementar a Vontade de Deus; privilegia a palavra sobre o gesto (…). Em terceiro lugar, porque não reconhece que a relação com Deus se vive na relação com os outros em sociedade; na obrigação, no serviço, na solidariedade com os outros o acreditar se vive no creditar. Menos generosamente, por último, suspeito na pergunta o que ela reflecte da intolerância do tempo que é o nosso, traduzida numa atitude de provinciana e arrogante curiosidade perante o exotismo e atavismo de ‘como se pode [ainda] ser crente?’ Trai algo do pressuposto ideológico da normatividade epistemológica da não-crença. Sendo que é o crente que se reveste do artifício da crença; ao crente compete justificar-se ou explicar-se.
