3 April, 2007

Por que acreditam em Deus os filhos de Abraão (VII, último)

Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento do padre José Tolentino Mendonça – Católico, doutorado em Teologia Bíblica, é professor do Departamento de Estudos Bíblicos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e director da revista de teologia Didaskalia. É também poeta, ensaísta e tradutor

A fé é experimental, dá-nos e pede-nos tudo

Importante não é ajudar a demonstrar, mas a ver. Melhor do que análises sofisticadas para provar, numa sala escura, a excelência das cores, é abrir uma janela que aproxime a  luz e, assim, a visão das cores se torne possível. A fé não está do lado dos enunciados: é experimental, incita à construção de narrativas, coloca em relação. Os que vivem o risco e a alegria de acreditar, porventura balbuciarão perante os porquês. Podem testemunhar razões, mas sentem-se incapazes de circunscrever a razão. O coração humano, contudo, precisa desse “não sei quê”, que depois o Espírito socorre “com gemidos inefáveis”, como lembra São Paulo. O teólogo católico Romano Guardini dizia que “a fé é uma tipologia do olhar”. Ela representa, talvez, a mais extrema e a mais modesta das organizações do olhar, porque ao mesmo tempo que nos dá tudo, nos pede tudo. A fé inscreve o olhar humano no ponto de vista de Deus. Nesse sentido, constitui a possibilidade inédita de um olhar total: abarcando o provisório e o eterno, o exterior e o interior, o recôndito e o próximo, o eu e o outro, o visível e o invisível. Como é vasta a vida contemplada do monte para o qual Abraão, e cada um dos crentes, é chamado a subir! Mas também lhes é pedido que esta visão se realize na itinerância radical do olhar, na sede e no desejo, na abertura mais do que na certeza, na confiança em vez de confirmações, no reconhecimento do silêncio de Deus como epifania de Deus. Sem esquecer que a fé, imperscrutável dom, chega através do caminho diverso e inesperado. Habituei-me a repetir uma oração que Paul Claudel escreveu: “É justo, ó Deus, que vos peça por Artur Rimbaud, sem o qual os meus olhos não se teriam aberto para o vosso Rosto”.

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