14 September, 2007

Dalai Lama em Portugal (2)

Filed under: Budismo, Portugal

O Dalai Lama está já há três dias em Portugal. Tenho acompanhado alguns dos actos para o Público. No dia da chegada, publiquei um texto sobre as recentes edições de livros fundamentais da espiritualidade budista que saíram recentemente. Aqui fica.

O monge idiota, afinal, escreveu a obra mais bela

Uma mão-cheia de livros fundamentais do budismo acaba de sair em Portugal, quando Lisboa se prepara para receber o Dalai Lama. O budismo volta a estar na moda? E que diferenças e semelhanças há entre esta espiritualidade nascida na Índia há dois milénios e meio e o cristianismo?

António Marujo


Pode um monge budista da primeira metade do século VIII, que só se preocupava em comer, dormir e deambular, ser o autor de uma das mais belas obras da espiritualidade dos seguidores de Buda? Muitos séculos depois, Paulo Borges, professor de Filosofia e presidente da União Budista Portuguesa (UBP), responde que sim.

Shantideva surpreendeu todos os outros monges que no mosteiro o achavam pouco menos que um idiota. E assim, diz a tradição budista, nasceu A Via do Bodhisattva (ver texto nestas páginas). Deste livro, diz o actual Dalai Lama, que hoje chega a Lisboa para uma visita de quatro dias: “Se tenho alguma compreensão da compaixão e da via do Bodhisattva, é inteiramente com base neste texto que a possuo.”

Paulo Borges, 47 anos, descobriu o budismo em 1981. “Tomou refúgio” (que é como quem diz, fez o ritual de adesão, como um baptismo) em 1983. Caracteriza A Via do Bodhisattva (que significa o “ser iluminado”) como “um livro síntese” da espiritualidade budista, que traduz “o ensinamento de um grande mestre”.

Este é um dos últimos títulos (será apresentado quinta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), de alguns textos fundamentais do budismo tibetano publicados nos últimos meses em Portugal. Um regresso da moda budista? Não, responde Paulo Borges. Essa moda – dos anos 1960 e 70, quando no Ocidente se viveu uma “grande sedução pelo que é exótico” – passou.

Nessa altura, houve um “primeiro impulso de muita gente” que viu no budismo um estilo de vida alternativo aos modos ocidentais. Depois da primeira vaga, ficaram sementes. Que “começam a frutificar”. E se, de acordo com as suas estimativas, haveria uns cinco mil portugueses que tinham aderido ao budismo desde a década de 60 até ao início do século XXI, desde 2001 para cá esse número terá duplicado.

“As pessoas procuram a meditação, nós não pretendemos que elas se tornem budistas, apenas queremos ser úteis.” Mas muitos acabam por ficar. Claro que há sempre o “factor mediático” dos actores e actrizes que revelam a sua adesão ao budismo, admite. Mas Paulo Borges só tem uma certeza: “Vejo que o budismo tem modificado a vida das pessoas que a ele aderem”

De que falamos, então, quando falamos de budismo – sabendo que o budismo tibetano é uma das correntes do universo budista? E que diferenças e semelhanças têm budismo e cristianismo? Compaixão, sabedoria, “duas asas de uma ave” como diz uma imagem da tradição tibetana, são expressões fundamentais no budismo. E também no judeo-cristianismo…

Na primeira metade do século V antes da actual era, na zona da actual fronteira da Índia com o Nepal, o príncipe Siddharta Gautama vivia feliz no palácio. Quatro encontros (um velho, um doente, um morto e um religioso) levaram-no a ver outras realidades e a deixar o palácio do seu pai procurando respostas para o sofrimento que via à sua volta.

Apesar de ter procurado junto de vários mestres, acabou por ser o próprio príncipe a descobrir as respostas que procurava no seu interior. Atingiu o estado de iluminação, o estado de Buda.

Várias obras agora publicadas apresentam, em português, o caminho proposto por Buda Gautama e os ensinamentos dos seus seguidores. “Até agora, não havia grandes clássicos da literatura budista disponíveis em português”, nota Paulo Borges. Um deles, O Livro Tibetano dos Mortos, é mesmo a segunda tradução integral deste texto fora do Tibete – a primeira foi em inglês, em 2005.

O padre Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e responsável do Patriarcado para o diálogo inter-religioso, olha para a edição destas obras como um marco cultural importante: “Até agora, conhecíamos do budismo aquilo que outros ocidentais apreendiam e depois divulgavam da sua experiência. Mas esta está sempre influenciada pela cultura ocidental que as pessoas tinham.”

A importância destes “textos fundantes e de outros que traduzem a forma como a tradição budista se foi interpretando” é destacada por Peter Stilwell. Também no âmbito inter-religioso: “Para um contacto verdadeiro é preciso um conhecimento das fontes e uma aproximação efectiva aos textos sagrados”, afirma.

Em Dhammapada – As Palavras de Buda, lê-se: “Aqueles cujas mentes estão firmes nos elementos da iluminação, que não desejando nada se glorificam na renúncia, que não têm preconceitos (e) que estão cheios de luz, esses atingiram realmente a felicidade do Nibbana [nirvana] neste mundo” (Dhammapada, 89).

Destas obras, Peter Stilwell retira a ideia de que o budismo é uma “mundivisão completamente distinta da abraâmica”, judaico-cristã. “A diferença mais significativa é que o judeo-cristianismo sublinha a dimensão da alteridade: Deus é a fonte da relação com o outro, e ao qual se estabelece uma relação. O budismo, nesse sentido, está mais perto do neoplatonismo, em que toda a realidade é uma emanação do ser”, explica Peter Stilwell.

Neste sentido, Stilwell descobre nas obras agora publicadas e nos textos fundamentais do budismo uma aproximação ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos. Nesta corrente, a busca do conhecimento era o centro da experiência. “Há um caminho proposto à consciência do crente. A tradição bíblica, que acabou por se destacar, entende a experiência crente mais como uma relação com os outros e menos como um percurso interior”, afirma.

Paulo Borges verifica uma outra perspectiva: “Os textos gnósticos cristãos têm mais proximidade com o budismo pela ênfase que colocam no conhecimento, comparável à sabedoria do budismo. Os gnósticos atendem menos ao aspecto da compaixão, mais característica do cristianismo tradicional. O cristianismo separou duas coisas que o budismo uniu harmoniosamente.”

Naquele que é entendido como o primeiro ciclo dos ensinamentos de Buda, a iluminação é entendida como condição de uma maior sensibilidade em relação aos outros “seres sensíveis”, como escreve o Dalai Lama no prefácio de A Via do Bodhisattva. Lê-se nesta obra (II, 18): “Àqueles cuja própria natureza é compaixão/ Oferecerei vastos palácios, ressoando com belos louvores,/ Todos recobertos de preciosas pérolas e lindas gemas pendentes,/ Cintilantes jóias a revestir a amplidão do espaço.”

Sim, claro, há enunciados que sintetizam a espiritualidade budista: ele é “uma via para libertar a mente do sofrimento que ela causa a si própria e aos outros”, diz Paulo Borges.

O ensinamento de Buda baseia-se, explica, nas quatro nobres verdades. “Não são dogmas, mas hipóteses para cada um confirmar: todas as experiências são condicionadas e insatisfatórias; as causas do sofrimento são interiores à própria mente; existe um estado (nirvana) para lá do sofrimento; e há uma via para lá chegar, que implica um discurso ético, um discurso mental, e a sabedoria e a compaixão.”

No Livro Tibetano dos Mortos, lê-se no capítulo sobre “Prática Quotidiana”: “Quando experimentarmos o sofrimento, como resultado de acções passadas negativas, possam as nossas divindades de meditação dissipar completamente toda esta aflição. E, quando o som natural da realidade reverberar como mil trovoadas, possam [todos os sons] ser escutados como a sagrada ressonância.”

Toneladas de tâmaras para o Ramadão e maçãs com mel para Rosh Hashanah

Filed under: Islão, Judaísmo

Judeus entram no Ano Novo judaico e muçulmanos iniciam Ramadão o mês mais importante do calendário islâmico

Toneladas de tâmaras vêm dos países árabes para Portugal por estes dias, a maior parte delas oferecidas pelas respectivas embaixadas. O fruto assinala, diariamente, em casa ou nas mesquitas, a quebra do jejum do mês de Ramadão, que ontem se iniciou. Por coincidência de calendário, os judeus entraram também ontem no novo ano (5768) do seu calendário.

O início de Ramadão, o nono mês do calendário lunar islâmico, está sempre dependente da observação da lua nova a olho nu. Daí que, em alguns sítios, o mês comece um dia mais tarde. É o caso do Senegal, pelo menos, que só hoje registará o primeiro dia de Ramadão.

Durante este mês, os muçulmanos jejuam de dia e só podem comer após o pôr-do-sol. O fim do jejum é assinalado com a quebra de uma tâmara, fruto escolhido por ser essa a prática tradicional do Profeta Maomé.

“Trata-se de valorizar o que temos e partilhar com os que não têm” diz ao PÚBLICO o xeque da Mesquita de Lisboa, David Munir, acerca do sentido deste mês de jejum, em que se comemora a revelação do Alcorão. Este mês e o período de jejum que lhe está associado é um dos cinco pilares do islão, com a profissão de fé, a oração, a esmola e a peregrinação a Meca.

O mês acaba com a festa do Eid-Al-Fitr, que este ano (1428, no calendário islâmico) deverá ser assinalada a 12 ou 13 de Outubro. Nessa ocasião, as mesquitas enchem-se e os crentes revezam-se em oração. Em casa, há refeição de festa, com família ou amigos, e com doces em que a amêndoa e o pistáchio são alguns dos condimentos mais usados.

Na Mesquita de Lisboa, o Ramadão deste ano será assinalado ainda por alguns debates, a realizar todos os sábado, após as 23h00, quando acaba a última oração. O jejum nas outras religiões (com participantes de diferentes credos), a morte no islão e as relações entre Estado e religião são alguns dos temas previstos.

Já o Ano Novo judaico tem características diferentes, embora assuma também o aspecto da meditação e revisão de vida. Durante os 30 dias do mês de Elul (que antecede o dia de Rosh Hashanah), os judeus fazem uma “preparação espiritual” que tem já em vista a festa de Yom Kipur, o dia do perdão, que se assinala a 10 de Tishrei ou 22 de Setembro.

Na festa de Rosh Hashanah, toca-se o shofar, a trompeta feita com chifre de carneiro. São lidos textos e orações relacionados com a análise dos actos que se fizeram ao longo do ano, explica Samuel Levy, ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Essa reflexão marca dos dez dias que se seguem ao Ano Novo, até ao Yom Kipur.

Uma cerimónia perante água corrente, com o significado de “deitar fora as coisas erradas e de perdoar uns aos outros” assinala também esta época. Também gastronomicamente, há doces e pratos que se cozinham especialmente para esta altura. Maçã com mel, romãs, como sinal de fartura, e abóbora (cuja palavra hebraica é a mesma para rasgar, com o significado de rasgar as coisas velhas, estão presentes com abundância.

Na Torá (a Bíblia), era a fuga dos judeus do Egipto que marcava o início do ano. A tradição rabínica mudou depois o Ano Novo para Rosh Hashanah. A saudação habitual é desejar “um ano doce e bom”.

António Marujo

Uma biblioteca do budismo

Filed under: Budismo

Os textos canónicos do budismo tibetano são uma vasta colecção agrupada em dois tipos, cada um deles com mais de mil volumes: os Kangyur, ou “colecção das palavras do Buda”, e os Tengyur, ensinamentos ou comentários escritos até ao século XVII. Dessa vasta colecção, alguns condensam o essencial do budismo e são considerados fundamentais. Desse pequeno núcleo estão publicados finalmente, em português, alguns títulos.

 

A Via do Bodhisattva
Shantideva, autor de A Via do Bodhisattva, texto fundamental do budismo, era um monge da universidade monástica de Nalanda (actual Índia), a mais importante da Índia budista, destruída no século XII, após a chegada do islão. Pouco dado a meditações, no entendimento dos restantes monges do mosteiro, estes armaram-lhe uma cilada para o expulsar: cada um, à vez, explicaria as escrituras; ele sentir-se-ia embaraçado e iria embora. Shantideva perguntou se queriam ouvir algo de novo ou uma repetição dos ensinamentos de Buda. Estupefactos, os monges escutaram um poema que terminou com Shantideva elevando-se no ar e desaparecendo, enquanto concluía a recitação.

 

Dhammapada – As Palavras de Buda
É um texto kangyur, que fala da necessidade de o indivíduo se libertar do egoísmo, define Paulo Borges, estando “implícito o amor aos outros”. Texto mais próximo do monaquismo budista, situa-se na tradição de Theravada, ou tradição dos antigos: “Somos verdadeiramente felizes por vivermos livres do ódio entre aqueles que ainda odeiam. Entre os homens cheios de ódio, nós vivemos livres do ódio”, diz a sentença 197.

 

O Livro Tibetano dos Mortos
Atribuído a Guru Padmasambhava, fundador do primeiro mosteiro budista no Tibete, datará do século VIII da era comum (ou cristã). É lido por um lama à cabeceira do defunto durante 49 dias (a leitura prossegue após o terceiro dia, quando o corpo é cremado, sepultado ou dado aos abutres). “Os instantes da nossa vida não são desperdiçáveis/ E as [possíveis] circunstâncias de morte estão para além da imaginação. Se não alcanças agora uma impávida segurança confiante,/ Que sentido há em estares viva, ó criatura vivente?”

 

O Caminho da Grande Perfeição
Texto do século XIX, foi escrito por Patrul Rinpoche, um dos inspiradores do movimento Rimé (não-sectário), que introduziu no budismo tibetano um espírito de diálogo entre as suas diferentes escolas. Tornou-se “uma espécie de compêndio” da espiritualidade budista, diz Paulo Borges. É “o grande texto” para quem quer saber o que é o budismo tibetano.

 

Além destes títulos, publicados pela Ésquilo (O Livro Tibetano dos Mortos também pelo Círculo de Leitores), há outros que se destacam: O Livro Tibetano da Vida e da Morte (ed. Círculo de Leitores/Prefácio), importante introdução a vários aspectos da espiritualidade budista, e O Ensinamento do Dalai Lama (ed. Zéfiro), comentário a temas da filosofia budista. Há ainda vários outros títulos do Dalai Lama e de diferentes autores.

António Marujo

Os jesuítas portugueses que “descobriram” o Tibete

Filed under: Budismo


Dois padres saídos de Portugal foram os primeiros ocidentais a chegar ao território, em 1624

Em 1624, dois padres jesuítas portugueses, António de Andrade e Manuel Marques, foram os primeiros ocidentais a chegar ao Tibete. Ali encontraram uma expressão religiosa que pensaram, inicialmente, seria uma forma de cristianismo entretanto desvirtuado.

A viagem constituiu o primeiro episódio de uma relação mútua entre Portugal e o Tibete. Até hoje, no entanto, limitada a pequenos acontecimentos ou à atracção de alguns escritores e pensadores por aquele país oriental ou pelo budismo que ali predomina.

É sobre este diálogo presente e ausente que acabam de ser publicados dois volumes importantes: a Revista Lusófona de Ciências das Religiões dedica o seu último número (apresentado publicamente quinta-feira passada) ao título O Budismo – Uma Proximidade do Oriente. E o livro O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (ed. Ésquilo) procura analisar algumas influências e relações entre aqueles dois mundos.

Os jesuítas procuravam o mítico Cataio, o reino cristão que teria sobrevivido para lá dos Himalaias. Dois anos depois da primeira incursão, um novo duo – os padres Estêvão Cacela e João Cabral – fez-se também ao caminho. Dessas incursões iniciais ficaram registadas muitas impressões nas cartas que os padres fizeram chegar aos seus superiores – entretanto editadas no volume Os Portugueses no Tibete, editadas pela Comissão dos Descobrimentos.

Hugues Didier, que organizou essa correspondência, nota que os jesuítas viam no estabelecimento de uma missão no Tibete um acontecimento correspondendo a um sinal divino: “O profeta Isaías tinha anunciado para o final dos tempos a existência de uma ‘nação que vive numa montanha muito alta, de onde correm rios poderosos’”. Essa montanha e esses rios identificaram-nos os jesuítas com o Tibete.

No livro agora editado, António Teixeira estuda essa correspondência e essas missões, para concluir que “a história da chegada dos portugueses ao Tibete é, em parte, a história do falhanço da fundação da tibetologia moderna”.

Esta obra, organizada por Paulo Borges e Duarte Braga, é publicada (tal como a Revista Lusófona…) a pretexto do congresso internacional que, em 3 e 4 de Outubro, se realiza em Lisboa, dedicado à presença do budismo na cultura portuguesa.

Nos dois volumes referidos, são estudados alguns aspectos da relação entre Portugal e o budismo, e analisada a relação de vários escritores e pensadores portugueses com aquela espiritualidade. Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins ou Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Teixeira de Pascoaes e Vergílio Ferreira, são nomes evocados.

António Marujo

É bom e ecológico descansar ao domingo, diz o Papa


Bento XVI liga descanso semanal à preocupação pelo ambiente e diz que o sentido do domingo como “festa semanal da criação” deve ser preservado.

É bom e faz bem ao ambiente reencontrar o sentido do descanso de domingo. Foi esse o tom da homilia do Papa Bento XVI, ontem, na despedida da Áustria, após três dias de visita ao país, naquela que foi a sua sétima viagem fora de Itália desde o início do pontificado em Abril de 2005. Na missa que celebrou de manhã na catedral de Santo Estêvão, em Viena, o Papa defendeu a dimensão religiosa do descanso semanal, acrescentando-lhe uma preocupação ecológica.

“Numa época em que, por causa das intervenções humanas, a criação parece exposta a múltiplos perigos”, é necessário reencontrar o sentido do domingo que comemora a criação do mundo por Deus”, afirmou o Papa, citado pela AFP.

Lamentando que o tempo de lazer seja cada vez mais “vazio”, que não dá às pessoas o revigoramento de que necessitam, Bento XVI acrescentou que “o apetite desenfreado de viver que não dá nenhuma paz aos homens acaba no vazio de uma vida perdida”. a missa de domingo, ao contrário, é uma “necessidade interior” para os cristãos, “um espaço de liberdade que nos faz olhar para lá do activismo da vida quotidiana”. Do mesmo modo, o repouso semanal permite entender “qualquer coisa da liberdade e igualdade de todas as criaturas de Deus”.

As palavras de Bento XVI entraram a direito num dos actuais debates político-sociais da Áustria. A hierarquia católica tem defendido o repouso dominical, numa altura em que diversos grupos económicos e comerciais reclamam poder abrir neste dia. O próprio cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse ontem perante o Papa, ao acolhê-lo na catedral, que estava contente por se ter constituído uma espécie de “aliança pelo domingo”, que reúne grupos católicos e organizações da sociedade civil.

“Dar à alma o seu domingo, dar ao domingo a sua alma”, pediu o Papa, citado pela Reuters, repetindo uma frase de um bispo alemão do século XX. O dia semanal de descanso é uma “festa semanal da criação”, afirmou Bento XVI, e deve ser uma recordação semanal dos perigos que o planeta enfrenta, acrescentou.

A celebração presidida pelo Papa Ratzinger foi ritmada pela “Missa Celensis”, obra composta em 1782 por Joseph Haydn em honra da Virgem de Mariazell. Oito mil pessoas estiavam dentro da igreja, outras dezenas de milhar tiveram que ficar fora, suportando o frio e a chuva que não deixaram de acompanhar esta viagem papal.

Nos primeiros balanços desta curta visita de três dias, dois jornais expressavam ontem sentimentos diferentes: o popular Österreich dizia que, apesar do mau tempo, o Papa entusiasmou a Áustria. Já o conservador Die Presse salientava a “intimidade” da visita, que não incluiu nenhuma grande celebração. Tão pouco as críticas de vários grupos católicos obtiveram qualquer eco ou reacção durante a visita. Numa sondagem publicada ontem pelo Österreich, citada pela AFP, 47 por cento dos austríacos estão satisfeitos pela forma como Bento XVI dirige a Igreja Católica.

António Marujo

12 September, 2007

Ramadan karim

Filed under: Islão

O novo ano judeu coincide com o primeiro dia do mês do Ramadão. Para muitos, esta coincidência pode ser um bom augúrio.

Ramadan karim são os votos que se endereçam a todos os muçulmanos.

11 September, 2007

Uma leitura católica do Dr. House

Filed under: Media

Carlos Valério Bellieni, do Departamento de Terapia Intensiva Neonatal da Policlínica Universitária Le Scotte, de Siena, e membro da Academia Pontifícia para a Vida, fez, para a agência Zenit, uma leitura da série Dr. House, estreada nos Estados Unidos, em 2004, pela rede Fox, e presentemente transmitida pela TVI:

“É uma série que mostra algo interessante: saindo do rebanho, o médico não se deixa levar pelos elogios ao bem conhecido jargão do relativismo ético na Medicina”, que Bellieni descreve assim: “o paciente é o último tribunal; o médico um ‘provedor de um serviço’; não existe capacidade alguma para emitir juízos morais sobre os comportamentos na Medicina”.
House, na sua autonomia de juízo, é “politicamente incorrecto” – “ainda que com alguma excepção” –, acrescenta o cientista. O interessante é que esses juízos procedem de uma personagem “em constante luta com o mundo”. “A força da série está precisamente na transformação do protagonista, nas suas dúvidas e nos seus limites.”
O seriado parece ser uma apologia da frieza ante o paciente: narra a história de um médico (Gregory House) misantropo e antipático, que não quer ter contacto humano com os pacientes. “Esta distância, provocada pelo seu próprio sofrimento existencial e físico, é, contudo, só aparente. Ainda que permanecendo descortês e anti-social, em cada momento e com insistência, ele procura chegar ao fundo da pessoa que deve curar”, explica o Dr. Bellieni.
“Parte de seu próprio sofrimento consiste em reconhecer o dos demais, e às vezes é justamente esta reflexão que o faz ver coisas que não são vistas por aqueles que o rodeiam.”
“Fala de maneira brusca com os pacientes para convencê-los de que aceitem um determinado tratamento, não para agradá-los. Sabe que existe um bom comportamento médico e um equivocado, e quer que seus pacientes escolham o bom.”
Alguns poderiam acusar o doutor House de paternalismo. Mas o seu colega na vida real considera que este defeito poderia ser muito melhor “que quem deixa o paciente sozinho ante um diagnóstico feito de palavras e números, ‘livre’ para escolher se quer morrer ou viver”.
“Em resumo: com frequência as palavras, e certas palavras doces e piedosas muito na moda – diz-nos com um paradoxo o autor do seriado –, servem para disfarçar a distância entre as pessoas”, declara.
“Tudo isso – constata o especialista em bioética – se sublinha muito bem com a banda sonora, muito rica em músicas de cariz religioso, e que mostra a insatisfação de uma vida sem sentido; entre as peças musicais estão, por exemplo, a belíssima Desire de Ryan Adams ou Hallellujah, de Jeff Buckley”, indica.
Bellieni percebeu os valores presentes nesta série. O primeiro, explica, é que “o médico não é o ‘provedor de um serviço’, para quem cada petição de um paciente é igual a qualquer outra, mas que sabe distinguir entre uma boa resposta e uma má, e sabe encontrar a força para não proporcionar a segunda”.
Por exemplo, explica, “House mantém o músico de jazz entubado, apesar de todos terem medo de transgredir seu ‘testamento biológico’; e também sua colega ‘Cuddy’ faz algo similar: ao pedido de uma injecção de morfina, na realidade lhe injecta um placebo”.
Em segundo lugar, recorda, “a relação entre médico e paciente nunca tem um só sentido. Não está somente o que dá (o médico) e o que recebe (o enfermo), mas o médico, ou se coloca numa atitude de aprender do enfermo, da sua força e do seu empenho – percebendo os sinais escondidos que lança … –, ou, ao contrário, daria um tratamento truncado, ineficaz”.
“House cura uma criança autista conseguindo, só ele, entrar em contacto com o menino; e não só isso, mas, no final – quando parece deixar-se envolver pelo pensamento de que talvez curar uma criança autista, que é muito difícil de guiar, seja uma espécie de obstinação terapêutica –, a criança se aproxima dele, olha nos seus olhos e lhe dá seu brinquedo…”
“Surpreende todos – uma criança autista dificilmente fixa o olhar em outro nem mantém relações – e alegra seus pais, apesar da certeza da enormíssima dificuldade; inclusive dá ao doutor House uma oportunidade para reflectir sobre si mesmo.”
“O protagonista vai inclusive falar com uma mulher da empresa, deprimida, que espera que a coloquem na lista de espera para um transplante de coração, e lhe pergunta gritando: ‘Mas você quer viver? Diga-me, porque mesmo eu ainda não sei!’. E não o faz para que ela faça um ‘testamento biológico’, mas para despertar nela (em si mesmo!) o amor à vida.”
“Certamente, House, como pessoa, não é um santo, e às vezes equivoca-se nas suas decisões morais. Mas se fosse um santo, seria surpreendente assim ouvi-lo argumentar, como de facto acontece, contra a droga ou o sexo incestuoso, ou contra a fundação heteróloga [na qual participa uma terceira pessoa diferente aos pais legais]? Seria tão ‘forte’ ouvi-lo fazer-se perguntas sobre a humanidade de um feto?”
“Em alguns momentos, os comentários positivos vêm de outras personagens da série. Por exemplo, quando, frente ao cinismo de House, a ajudante pergunta: ‘Mas é preciso ser religioso para compreender que um feto é vida?’. Ou a colega – a quem perguntam por uma menina que perderá o braço, ‘que qualidade de vida terá’ e ela responde: ‘A vida tem sempre qualidades’.”
“O doutor House deixa-se surpreender. Equivoca-se, mas sabe reconhecer o humano quando o encontra. Este é um aspecto importante, com frequência esquecido na actividade médica: o estupor ante a misteriosa humanidade de um paciente.”
“House deixa-se abraçar pela menina com tumor, a quem prolongou a vida por um ano, e impressionado pela força moral da pequena, chega a mudar o seu estilo de vida.”
“Fica maravilhado ante a mãozinha do feto que sai do útero materno, durante uma operação, e toca a sua. Fica o dia todo olhando o dedo com o qual tocou a mãozinha, perguntando-se quem é essa vida que ninguém conhece como humana (talvez nem sequer ele), mas que o acariciou”.
“House parece não estar nunca disponível para os pacientes… Não é um médico bondoso, está cheio de dor; mas guarda uma exigência de significado que não lhe permite desesperar-se. Por isso impressiona, num momento em que parece que só o próprio capricho tem valor, em especial na Medicina”, conclui o especialista em bioética.

9 September, 2007

Madre Teresa [8]

O silêncio de Deus é o título do texto que Fernando Marques publica no Jornal de Notícias de hoje:

Teria sido fácil a Madre Teresa aceitar simplesmente a sua vida como uma dádiva de Deus para o cumprimento de uma missão difícil e dolorosa na Terra. Não precisaria de procurar mais nada. Quando, aos 18 anos, ingressou no convento das Irmãs do Loreto, na Irlanda, o despojamento e a aceitação faziam já parte da sua consciência essencial. Abandonava o mundo e o que o mundo podia ter para ela. E isso, numa simples pessoa de fé, seria suficiente para proporcionar uma existência regada com presença divina q.b.

Mas, como dizia o mestre indiano Yogananda a propósito das pessoas mundanas, talvez Madre Teresa não tenha andado por aqui em busca das dádivas de Deus. Talvez tenha andado, como todos os sábios, em busca do próprio Doador. Dádivas, teve-as sempre. Foi com elas que pôde cumprir um ministério notável de apoio aos mais pobres dos pobres e aos mais aflitos dos aflitos. Recebia e dava. Dava, dava e dava. Este fluxo foi ininterrupto e permitiu a edificação de uma gigantesca obra de amor.

Outra coisa era as necessidades da sua alma. A sua relação particular com Deus. O seu crescimento e a sua felicidade pessoal. Madre Teresa trabalhava voluntariamente com a doença, o medo, o infortúnio, a miséria e a morte. Trabalhava nos lugares mais profundos da adversidade humana. Como poderia ela, apesar tudo, obter satisfação com o que fazia? Como poderia ela sentir-se feliz? Se eu sou escritor e publico um livro, se eu sou arquitecto e me aprovam um projecto, se eu sou empresário e faço um grande negócio - brindo ao meu sucesso. Madre Teresa salvava uma criança de morrer à fome e brindava a quê, se à sua volta outras mil morriam?

Onde estava Deus? Em 1959, ela escreveu "Trabalho para quê? Se Deus não existir, não pode existir alma. Se não existir alma, então, Jesus, Tu também não és verdade". Nas cartas que foi enviando às hierarquias da Igreja Católica, as suas dúvidas sobre a existência de Deus acentuavam-se à medida em que, paradoxalmente, a sua obra de caridade se expandia. As dádivas continuavam a chegar-lhe, mas Madre Teresa não via nelas o dedo divino. Pelo contrário, sentia crescentemente a escuridão da sua ausência. Este "silêncio de Deus" - expressão que os teólogos usam para caracterizar as vivências de muitos santos e místicos - talvez não fosse mais, afinal, do que a manifestação do próprio Criador na sua vida. Talvez Madre Teresa - que não buscava a dádiva mas o Doador - se tenha fundido tanto com ele que lhe foi impossível observá-lo em si própria. Mas, dez anos depois de ela ter partido, a sua luz imensa continua por cá.

8 September, 2007

Shana tova

Filed under: Judaísmo

Shana tova (Bom ano) são os votos que, quando está prestes a iniciar-se o ano judeu de 5768, se formulam.

7 September, 2007

Irmã Emmanuelle e madre Teresa

Embora bem menos prolongados do que os de Madre Teresa, os momentos de dúvida de irmã Emmanuelle, uma religiosa muito conhecida sobretudo em França, também existiram, como agora, prestes a celebrar 99 anos, conta ao diário Le Monde:

[…]"Des gens de qualité défendaient donc une autre foi ? Mais où était la vérité ? Quels éléments penchaient en faveur du catholicisme ? Je me suis lancée avec frénésie dans l’étude de Mahomet, de Bouddha, du Talmud. Il n’y avait pas plus de preuves de l’existence de Dieu que dans la Bible. Mais mes prières m’ont soudain donné l’impression de résonner dans le vide. Moi qui m’étais consacrée corps et âme au Christ, sûre qu’il était la lumière, je doutais atrocement. Vers qui me tourner ?" Elle a plongé chez les philosophes pour y trouver un sens à la vie. Confucius, Camus, Sartre, les autres… "L’absurdité pour l’absurdité, ça ne valait pas la peine !" Elle a interrogé les grands théologiens. Ce fut rapidement l’impasse. "Je continuais à prier : tu ne m’aides pas, Seigneur ! Aie pitié de moi ! J’étais déchirée entre mon coeur, toujours attaché à la foi, et mon esprit qui en réclamait des preuves."

Ce n’est qu’en étudiant plus tard Pascal qu’elle trouva un certain soulagement. "Dieu n’est pas le dieu des philosophes et des savants, disait-il ! Dieu n’est pas sensible à la raison raisonnante et les preuves de son existence n’existent pas ! Que j’étais donc orgueilleuse de vouloir tout comprendre ! La foi est affaire de coeur, la foi vient des tripes.

L’apaisement vint des années plus tard, dans la cabane du bidonville du Caire où elle avait choisi de vivre, pauvre parmi les pauvres, à 60 ans passés. C’était un soir d’hiver et la soeur, dans un lit défoncé, tentait de se réchauffer quand une mélopée s’est élevée de chez Fawzia, sa voisine. La soeur s’est levée discrètement et la scène qu’elle a découverte alors l’a marquée à jamais. Près d’un feu qu’elle venait d’allumer, la jeune femme chantait les phrases de l’Evangile que lui lisait son mari, leur petit garçon faisant ses devoirs par terre.

"Le visage de Fawzia était transfiguré. Il y avait en elle une plénitude, la certitude que le Christ était là, près d’elle, et qu’il l’aiderait à élever ses enfants. Je suis rentrée fascinée. Et j’ai pensé à Pascal : le Dieu d’Abraham, d’Isaac, de Jacob se révèle à cette pauvre femme qui chante sereinement ; il ne se démontre pas par un raisonnement intellectuel. Et j’ai pensé à la parole du Christ : "Si vous n’avez pas un coeur d’enfant, vous n’entrerez pas dans le royaume." Cela m’a fait un bien fou. Et je n’ai plus douté. En tout cas, jamais durablement."[…]

4 September, 2007

O Dalai Lama em Portugal (1)

Filed under: Budismo, Portugal

A visita do Dalai Lama a Portugal, enre 13 e 16 de Setembro, é o pretexto para algumas iniciativas paralelas. Aqui se registam duas:

PRESENÇA DO BUDISMO NA CULTURA PORTUGUESA, 6 de Setembro - 18h 30 - Lançamento da "Revista Lusófona de Ciência das Religiões", número dedicado à Presença do Budismo na Cultura Portuguesa, no Auditório Vítor Sá da Universidade Lusófona (Campo Grande). Serão oradores o Director Dr. Paulo Pinto, o organizador, Prof. Paulo Borges, e o Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Dr. Mário Soares.  

PENSANDO NOS OUTROS, 10 de Setembro – 18h30 - Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (ao Campo Grande / metro: Cidade Universitária) – Duas intervenções sobre a importância da defesa dos Direitos Humanos no mundo e no Tibete.
Na mesma ocasião será apresentado o livro de Raimon Pannikar, "O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões" (Lisboa, Zéfiro, 2007). O autor, referência fundamental do diálogo inter-cultural e inter-religioso, foi recentemente nomeado candidato ao Prémio Nobel da Paz 2007.
Programa:
*    "Direitos humanos, mais do que nunca necessários" - Fernando Nobre,
Fundador e Presidente da AMI
*    "Os Direitos Humanos no Tibete" - Maria Teresa Nogueira -
ex-Presidente da Amnistia Internacional e especialista da situação
sino-tibetana)
*    Apresentação de "O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões", de
Raimon Pannikar – Prof.  Paulo Borges, professor do Deptº de Filosofia da UL, Presidente da União Budista Portuguesa e Vice-Presidente da Songtsen-Casa
da Cultura do Tibete
Entrada Livre

Madre Teresa (7)

A 29 de Agosto, o New York Times publicou um texto bem interessante do padre James Martin, jesuíta, autor do livro “My Life With the Saints”. Aqui fica:

The stunning revelations contained in a new book, which show that Mother Teresa doubted God’s existence, will delight her detractors and confuse her admirers. Or is it the other way around? The private journals and letters of the woman now known as Blessed Teresa of Calcutta will be released next month as “Mother Teresa: Come Be My Light,” and some excerpts have been published in Time magazine. The pious title of the book, however, is misleading. Most of its pages reveal not the serene meditations of a Catholic sister confident in her belief, but the agonized words of a person confronting a terrifying period of darkness that lasted for decades. “In my soul I feel just that terrible pain of loss,” she wrote in 1959, “of God not wanting me — of God not being God — of God not existing.” According to the book, this inner turmoil, known by only a handful of her closest colleagues, lasted until her death in 1997. Gleeful detractors may point to this as yet another example of the hypocrisy of organized religion. The woman widely known in her lifetime as a “living saint” apparently didn’t even believe in God. It was not always so. In 1946, Mother Teresa, then 36, was hard at work in a girls school in Calcutta when she fell ill. On a train ride en route to some rest in Darjeeling, she had heard what she would later call a “voice” asking her to work with the poorest of the poor, and experienced a profound sense of God’s presence. A few years later, however, after founding the Missionaries of Charity and beginning her work with the poor, darkness descended on her inner life. In 1957, she wrote to the archbishop of Calcutta about her struggles, saying, “I find no words to express the depths of the darkness.” But to conclude that Mother Teresa was a crypto-atheist is to misread both the woman and the experience that she was forced to undergo. Even the most sophisticated believers sometimes believe that the saints enjoyed a stress-free spiritual life — suffering little personal doubt. For many saints this is accurate: St. Francis de Sales, the 17th-century author of “An Introduction to the Devout Life,” said that he never went more than 15 minutes without being aware of God’s presence. Yet the opposite experience is so common it even has a name. St. John of the Cross, the Spanish mystic, labeled it the “dark night,” the time when a person feels completely abandoned by God, and which can lead even ardent believers to doubt God’s existence. During her final illness, St. Thérèse of Lisieux, the 19th-century French Carmelite nun who is now widely revered as “The Little Flower,” faced a similar trial, which seemed to center on doubts about whether anything awaited her after death. “If you only knew what darkness I am plunged into,” she said to the sisters in her convent. But Mother Teresa’s “dark night” was of a different magnitude, lasting for decades. It is almost unparalleled in the lives of the saints. In time, with the aid of the priest who acted as her spiritual director, Mother Teresa concluded that these painful experiences could help her identify not only with the abandonment that Jesus Christ felt during the crucifixion, but also with the abandonment that the poor faced daily. In this way she hoped to enter, in her words, the “dark holes” of the lives of the people with whom she worked. Paradoxically, then, Mother Teresa’s doubt may have contributed to the efficacy of one of the more notable faith-based initiatives of the last century. Few of us, even the most devout believers, are willing to leave everything behind to serve the poor. Consequently, Mother Teresa’s work can seem far removed from our daily lives. Yet in its relentless and even obsessive questioning, her life intersects with that of the modern atheist and agnostic. “If I ever become a saint,” she wrote, “I will surely be one of ‘darkness.’ ” Mother Teresa’s ministry with the poor won her the Nobel Prize and the admiration of a believing world. Her ministry to a doubting modern world may have just begun.

Madre Teresa [6]


Deus fala também quando cala, disse Bento XVI a meio milhão de jovens, explicando a “noite escura” vivida pela beata Teresa de Calcutá.
Na resposta espontânea à pergunta de uma jovem italiana, Sara Simonetta, o pontífice quis comentar no Ágora dos jovens italianos, na tarde de 1º de Setembro, o sentido dessa prova vivida pela religiosa albanesa e documentada por seus escritos recém-publicados.
Os textos foram recolhidos pelo Pe. Brian Kolodiejchuk, postulador da causa de canonização, e recolhidos no livro Mother Teresa: Come Be My Light, que aparece dez anos depois do seu falecimento.
Na esplanada de Montorso, nos arredores de Loreto, Simonetta havia explicado ao Papa que acreditava “no Deus que tocou meu coração, mas sinto muita insegurança, perguntas, medos”.
“Sinto minha solidão humana e quero sentir a proximidade de Deus. Santidade, neste silêncio, onde está Deus?”, perguntou a moça.
O bispo de Roma respondeu declarando que “todos nós, ainda que sejamos crentes, experimentamos o silêncio de Deus”.
“Acaba de ser publicado um livro com as experiências espirituais da Madre Teresa e o que já sabíamos agora se mostra mais abertamente: com toda sua caridade, sua força de fé, a Madre Teresa sofria o silêncio de Deus”, constatou.
“Por um lado, temos de suportar este silêncio de Deus, em parte também para poder compreender nossos irmãos que não conhecem Deus.”
Por outro, “podemos gritar sempre de novo a Deus: ‘Fala, mostra-te!’. E sem dúvida, em nossa vida, se o coração está aberto, podemos encontrar os grandes momentos nos quais a presença de Deus realmente se torna sensível inclusive para nós”.
Então o Papa explicou como é possível ver Deus.
Antes de tudo, declarou, “a beleza da Criação é uma das fontes nas quais realmente podemos tocar a beleza de Deus, podemos ver que o Criador existe e é bom, que é verdade o que a Sagrada Escritura diz na narração da Criação”.
Em segundo lugar, explicou, é possível perceber a presença divina “escutando a Palavra de Deus nas grandes celebrações litúrgicas, nas festas da fé, na grande música da fé”.
E o Papa citou o caso de uma mulher que se converteu ao cristianismo após ter escutado a grande música de Bach, Häendel e Mozart.
Em terceiro lugar, disse à assembleia festiva de jovens, podemos descobrir Deus com “o diálogo pessoal com Cristo”.
“Ele nem sempre responde, mas há momentos nos quais realmente responde.”
Uma última maneira de descobrir Deus, segundo o Papa, é “a amizade, a companhia na fé”.
“Agora, aqui, reunidos em Loreto, vemos como a fé une, a amizade cria uma companhia de pessoas a caminho”, constatou.
“E experimentamos que tudo isso não vem do nada, mas realmente tem uma fonte, que o Deus silencioso é também um Deus que fala, que se revela e, sobretudo, que nós mesmos podemos ser testemunhas de sua presença, que de nossa fé surge realmente uma luz inclusive para os demais”, sublinhou.
A conclusão do Papa foi a seguinte: “por um lado, temos de aceitar que neste mundo Deus é silencioso, mas não devemos permanecer surdos quando Ele fala, quando manifesta sua presença em tantas ocasiões, sobretudo na Criação, na liturgia, na amizade dentro da Igreja. E, cheios de sua presença, também nós podemos dar luz aos demais”.

Agência ZENIT. 4 de Setembro de 2007

3 September, 2007

Madre Teresa [5]


O Sorriso da Caridade
, da autoria do jornalista Luís Filipe Santos, é o título de uma biografia ilustrada de Madre Teresa Calcutá, agora publicada pela Paulus Editora, numa altura em que se comemoram os dez anos de falecimento da missionária.

Madre Teresa [4]

Teresa de Calcutá
Guillermo Juan Morado
La Voz de Galicia. 2 de septiembre del 2007

Una vez pude saludar personalmente a la madre Teresa de Calcuta. Me regaló una medallita, después de trazar sobre ese objeto piadoso una especie de bendición.
Cualquier creyente, y más si ha vivido entre la miseria, tiene dificultades para creer. La fe no es obvia. La fe es un don de Dios; pero un don que, humanamente, resulta costoso.
Muchas realidades cuestionan la fe. No en último lugar el constatar la inanidad de lo humano. ¿Merece la pena que un Dios, que lo es todo, fije en nosotros su mirada? ¿Por qué no pensar en un Dios feliz en sí mismo que se desentiende del mundo, y de esos peculiares habitantes del mundo que somos los hombres?
Escandaliza más un Dios creador, providente y redentor que la misma idea de Dios. Dios, puede ser. Pero Dios y nosotros; Dios encarnado -Belén, Nazaret y el Calvario-, es mucho Dios o ningún Dios. La razón sola, en su autosuficiencia, puede admitir el deísmo o la nada.
Podemos caer en la ligereza de dar la fe por descontada. Lo paradójico de la fe consiste en ser gracia. Es imposible creer sin la ayuda de Dios, sin su auxilio interior, sin que Él mueva nuestro corazón, abra los ojos de nuestro espíritu y nos conceda el gozo de aceptar la verdad.
El Catecismo dice que la fe, «luminosa por aquel en quien cree, […] es vivida con frecuencia en la oscuridad […] El mundo en que vivimos parece con frecuencia muy lejos de lo que la fe nos asegura» (n. 164).
No sólo la madre Teresa de Calcuta ha conocido la noche purificadora. Otra Teresa, Teresa de Lisieux, pudo experimentar lo mismo al sentir que le decían, ante la perspectiva de la muerte: «Crees que un día saldrás de las tinieblas que te rodean. ¡Adelante, adelante! Alégrate de la muerte, que te dará, no lo que tú esperas, sino una noche más profunda todavía, la noche de la nada».
La fe, la noche oscura, o «la noche de la nada». Teresa de Calcuta, ora pro nobis.