9 September, 2007

Madre Teresa [8]

O silêncio de Deus é o título do texto que Fernando Marques publica no Jornal de Notícias de hoje:

Teria sido fácil a Madre Teresa aceitar simplesmente a sua vida como uma dádiva de Deus para o cumprimento de uma missão difícil e dolorosa na Terra. Não precisaria de procurar mais nada. Quando, aos 18 anos, ingressou no convento das Irmãs do Loreto, na Irlanda, o despojamento e a aceitação faziam já parte da sua consciência essencial. Abandonava o mundo e o que o mundo podia ter para ela. E isso, numa simples pessoa de fé, seria suficiente para proporcionar uma existência regada com presença divina q.b.

Mas, como dizia o mestre indiano Yogananda a propósito das pessoas mundanas, talvez Madre Teresa não tenha andado por aqui em busca das dádivas de Deus. Talvez tenha andado, como todos os sábios, em busca do próprio Doador. Dádivas, teve-as sempre. Foi com elas que pôde cumprir um ministério notável de apoio aos mais pobres dos pobres e aos mais aflitos dos aflitos. Recebia e dava. Dava, dava e dava. Este fluxo foi ininterrupto e permitiu a edificação de uma gigantesca obra de amor.

Outra coisa era as necessidades da sua alma. A sua relação particular com Deus. O seu crescimento e a sua felicidade pessoal. Madre Teresa trabalhava voluntariamente com a doença, o medo, o infortúnio, a miséria e a morte. Trabalhava nos lugares mais profundos da adversidade humana. Como poderia ela, apesar tudo, obter satisfação com o que fazia? Como poderia ela sentir-se feliz? Se eu sou escritor e publico um livro, se eu sou arquitecto e me aprovam um projecto, se eu sou empresário e faço um grande negócio - brindo ao meu sucesso. Madre Teresa salvava uma criança de morrer à fome e brindava a quê, se à sua volta outras mil morriam?

Onde estava Deus? Em 1959, ela escreveu "Trabalho para quê? Se Deus não existir, não pode existir alma. Se não existir alma, então, Jesus, Tu também não és verdade". Nas cartas que foi enviando às hierarquias da Igreja Católica, as suas dúvidas sobre a existência de Deus acentuavam-se à medida em que, paradoxalmente, a sua obra de caridade se expandia. As dádivas continuavam a chegar-lhe, mas Madre Teresa não via nelas o dedo divino. Pelo contrário, sentia crescentemente a escuridão da sua ausência. Este "silêncio de Deus" - expressão que os teólogos usam para caracterizar as vivências de muitos santos e místicos - talvez não fosse mais, afinal, do que a manifestação do próprio Criador na sua vida. Talvez Madre Teresa - que não buscava a dádiva mas o Doador - se tenha fundido tanto com ele que lhe foi impossível observá-lo em si própria. Mas, dez anos depois de ela ter partido, a sua luz imensa continua por cá.

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