14 September, 2007

Dalai Lama em Portugal (2)

Filed under: Budismo, Portugal

O Dalai Lama está já há três dias em Portugal. Tenho acompanhado alguns dos actos para o Público. No dia da chegada, publiquei um texto sobre as recentes edições de livros fundamentais da espiritualidade budista que saíram recentemente. Aqui fica.

O monge idiota, afinal, escreveu a obra mais bela

Uma mão-cheia de livros fundamentais do budismo acaba de sair em Portugal, quando Lisboa se prepara para receber o Dalai Lama. O budismo volta a estar na moda? E que diferenças e semelhanças há entre esta espiritualidade nascida na Índia há dois milénios e meio e o cristianismo?

António Marujo


Pode um monge budista da primeira metade do século VIII, que só se preocupava em comer, dormir e deambular, ser o autor de uma das mais belas obras da espiritualidade dos seguidores de Buda? Muitos séculos depois, Paulo Borges, professor de Filosofia e presidente da União Budista Portuguesa (UBP), responde que sim.

Shantideva surpreendeu todos os outros monges que no mosteiro o achavam pouco menos que um idiota. E assim, diz a tradição budista, nasceu A Via do Bodhisattva (ver texto nestas páginas). Deste livro, diz o actual Dalai Lama, que hoje chega a Lisboa para uma visita de quatro dias: “Se tenho alguma compreensão da compaixão e da via do Bodhisattva, é inteiramente com base neste texto que a possuo.”

Paulo Borges, 47 anos, descobriu o budismo em 1981. “Tomou refúgio” (que é como quem diz, fez o ritual de adesão, como um baptismo) em 1983. Caracteriza A Via do Bodhisattva (que significa o “ser iluminado”) como “um livro síntese” da espiritualidade budista, que traduz “o ensinamento de um grande mestre”.

Este é um dos últimos títulos (será apresentado quinta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), de alguns textos fundamentais do budismo tibetano publicados nos últimos meses em Portugal. Um regresso da moda budista? Não, responde Paulo Borges. Essa moda – dos anos 1960 e 70, quando no Ocidente se viveu uma “grande sedução pelo que é exótico” – passou.

Nessa altura, houve um “primeiro impulso de muita gente” que viu no budismo um estilo de vida alternativo aos modos ocidentais. Depois da primeira vaga, ficaram sementes. Que “começam a frutificar”. E se, de acordo com as suas estimativas, haveria uns cinco mil portugueses que tinham aderido ao budismo desde a década de 60 até ao início do século XXI, desde 2001 para cá esse número terá duplicado.

“As pessoas procuram a meditação, nós não pretendemos que elas se tornem budistas, apenas queremos ser úteis.” Mas muitos acabam por ficar. Claro que há sempre o “factor mediático” dos actores e actrizes que revelam a sua adesão ao budismo, admite. Mas Paulo Borges só tem uma certeza: “Vejo que o budismo tem modificado a vida das pessoas que a ele aderem”

De que falamos, então, quando falamos de budismo – sabendo que o budismo tibetano é uma das correntes do universo budista? E que diferenças e semelhanças têm budismo e cristianismo? Compaixão, sabedoria, “duas asas de uma ave” como diz uma imagem da tradição tibetana, são expressões fundamentais no budismo. E também no judeo-cristianismo…

Na primeira metade do século V antes da actual era, na zona da actual fronteira da Índia com o Nepal, o príncipe Siddharta Gautama vivia feliz no palácio. Quatro encontros (um velho, um doente, um morto e um religioso) levaram-no a ver outras realidades e a deixar o palácio do seu pai procurando respostas para o sofrimento que via à sua volta.

Apesar de ter procurado junto de vários mestres, acabou por ser o próprio príncipe a descobrir as respostas que procurava no seu interior. Atingiu o estado de iluminação, o estado de Buda.

Várias obras agora publicadas apresentam, em português, o caminho proposto por Buda Gautama e os ensinamentos dos seus seguidores. “Até agora, não havia grandes clássicos da literatura budista disponíveis em português”, nota Paulo Borges. Um deles, O Livro Tibetano dos Mortos, é mesmo a segunda tradução integral deste texto fora do Tibete – a primeira foi em inglês, em 2005.

O padre Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e responsável do Patriarcado para o diálogo inter-religioso, olha para a edição destas obras como um marco cultural importante: “Até agora, conhecíamos do budismo aquilo que outros ocidentais apreendiam e depois divulgavam da sua experiência. Mas esta está sempre influenciada pela cultura ocidental que as pessoas tinham.”

A importância destes “textos fundantes e de outros que traduzem a forma como a tradição budista se foi interpretando” é destacada por Peter Stilwell. Também no âmbito inter-religioso: “Para um contacto verdadeiro é preciso um conhecimento das fontes e uma aproximação efectiva aos textos sagrados”, afirma.

Em Dhammapada – As Palavras de Buda, lê-se: “Aqueles cujas mentes estão firmes nos elementos da iluminação, que não desejando nada se glorificam na renúncia, que não têm preconceitos (e) que estão cheios de luz, esses atingiram realmente a felicidade do Nibbana [nirvana] neste mundo” (Dhammapada, 89).

Destas obras, Peter Stilwell retira a ideia de que o budismo é uma “mundivisão completamente distinta da abraâmica”, judaico-cristã. “A diferença mais significativa é que o judeo-cristianismo sublinha a dimensão da alteridade: Deus é a fonte da relação com o outro, e ao qual se estabelece uma relação. O budismo, nesse sentido, está mais perto do neoplatonismo, em que toda a realidade é uma emanação do ser”, explica Peter Stilwell.

Neste sentido, Stilwell descobre nas obras agora publicadas e nos textos fundamentais do budismo uma aproximação ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos. Nesta corrente, a busca do conhecimento era o centro da experiência. “Há um caminho proposto à consciência do crente. A tradição bíblica, que acabou por se destacar, entende a experiência crente mais como uma relação com os outros e menos como um percurso interior”, afirma.

Paulo Borges verifica uma outra perspectiva: “Os textos gnósticos cristãos têm mais proximidade com o budismo pela ênfase que colocam no conhecimento, comparável à sabedoria do budismo. Os gnósticos atendem menos ao aspecto da compaixão, mais característica do cristianismo tradicional. O cristianismo separou duas coisas que o budismo uniu harmoniosamente.”

Naquele que é entendido como o primeiro ciclo dos ensinamentos de Buda, a iluminação é entendida como condição de uma maior sensibilidade em relação aos outros “seres sensíveis”, como escreve o Dalai Lama no prefácio de A Via do Bodhisattva. Lê-se nesta obra (II, 18): “Àqueles cuja própria natureza é compaixão/ Oferecerei vastos palácios, ressoando com belos louvores,/ Todos recobertos de preciosas pérolas e lindas gemas pendentes,/ Cintilantes jóias a revestir a amplidão do espaço.”

Sim, claro, há enunciados que sintetizam a espiritualidade budista: ele é “uma via para libertar a mente do sofrimento que ela causa a si própria e aos outros”, diz Paulo Borges.

O ensinamento de Buda baseia-se, explica, nas quatro nobres verdades. “Não são dogmas, mas hipóteses para cada um confirmar: todas as experiências são condicionadas e insatisfatórias; as causas do sofrimento são interiores à própria mente; existe um estado (nirvana) para lá do sofrimento; e há uma via para lá chegar, que implica um discurso ético, um discurso mental, e a sabedoria e a compaixão.”

No Livro Tibetano dos Mortos, lê-se no capítulo sobre “Prática Quotidiana”: “Quando experimentarmos o sofrimento, como resultado de acções passadas negativas, possam as nossas divindades de meditação dissipar completamente toda esta aflição. E, quando o som natural da realidade reverberar como mil trovoadas, possam [todos os sons] ser escutados como a sagrada ressonância.”

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