Bento XVI liga descanso semanal à preocupação pelo ambiente e diz que o sentido do domingo como “festa semanal da criação” deve ser preservado.
É bom e faz bem ao ambiente reencontrar o sentido do descanso de domingo. Foi esse o tom da homilia do Papa Bento XVI, ontem, na despedida da Áustria, após três dias de visita ao país, naquela que foi a sua sétima viagem fora de Itália desde o início do pontificado em Abril de 2005. Na missa que celebrou de manhã na catedral de Santo Estêvão, em Viena, o Papa defendeu a dimensão religiosa do descanso semanal, acrescentando-lhe uma preocupação ecológica.
“Numa época em que, por causa das intervenções humanas, a criação parece exposta a múltiplos perigos”, é necessário reencontrar o sentido do domingo que comemora a criação do mundo por Deus”, afirmou o Papa, citado pela AFP.
Lamentando que o tempo de lazer seja cada vez mais “vazio”, que não dá às pessoas o revigoramento de que necessitam, Bento XVI acrescentou que “o apetite desenfreado de viver que não dá nenhuma paz aos homens acaba no vazio de uma vida perdida”. a missa de domingo, ao contrário, é uma “necessidade interior” para os cristãos, “um espaço de liberdade que nos faz olhar para lá do activismo da vida quotidiana”. Do mesmo modo, o repouso semanal permite entender “qualquer coisa da liberdade e igualdade de todas as criaturas de Deus”.
As palavras de Bento XVI entraram a direito num dos actuais debates político-sociais da Áustria. A hierarquia católica tem defendido o repouso dominical, numa altura em que diversos grupos económicos e comerciais reclamam poder abrir neste dia. O próprio cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse ontem perante o Papa, ao acolhê-lo na catedral, que estava contente por se ter constituído uma espécie de “aliança pelo domingo”, que reúne grupos católicos e organizações da sociedade civil.
“Dar à alma o seu domingo, dar ao domingo a sua alma”, pediu o Papa, citado pela Reuters, repetindo uma frase de um bispo alemão do século XX. O dia semanal de descanso é uma “festa semanal da criação”, afirmou Bento XVI, e deve ser uma recordação semanal dos perigos que o planeta enfrenta, acrescentou.
A celebração presidida pelo Papa Ratzinger foi ritmada pela “Missa Celensis”, obra composta em 1782 por Joseph Haydn em honra da Virgem de Mariazell. Oito mil pessoas estiavam dentro da igreja, outras dezenas de milhar tiveram que ficar fora, suportando o frio e a chuva que não deixaram de acompanhar esta viagem papal.
Nos primeiros balanços desta curta visita de três dias, dois jornais expressavam ontem sentimentos diferentes: o popular Österreich dizia que, apesar do mau tempo, o Papa entusiasmou a Áustria. Já o conservador Die Presse salientava a “intimidade” da visita, que não incluiu nenhuma grande celebração. Tão pouco as críticas de vários grupos católicos obtiveram qualquer eco ou reacção durante a visita. Numa sondagem publicada ontem pelo Österreich, citada pela AFP, 47 por cento dos austríacos estão satisfeitos pela forma como Bento XVI dirige a Igreja Católica.
António Marujo
