Judeus entram no Ano Novo judaico e muçulmanos iniciam Ramadão o mês mais importante do calendário islâmico
Toneladas de tâmaras vêm dos países árabes para Portugal por estes dias, a maior parte delas oferecidas pelas respectivas embaixadas. O fruto assinala, diariamente, em casa ou nas mesquitas, a quebra do jejum do mês de Ramadão, que ontem se iniciou. Por coincidência de calendário, os judeus entraram também ontem no novo ano (5768) do seu calendário.
O início de Ramadão, o nono mês do calendário lunar islâmico, está sempre dependente da observação da lua nova a olho nu. Daí que, em alguns sítios, o mês comece um dia mais tarde. É o caso do Senegal, pelo menos, que só hoje registará o primeiro dia de Ramadão.
Durante este mês, os muçulmanos jejuam de dia e só podem comer após o pôr-do-sol. O fim do jejum é assinalado com a quebra de uma tâmara, fruto escolhido por ser essa a prática tradicional do Profeta Maomé.
“Trata-se de valorizar o que temos e partilhar com os que não têm” diz ao PÚBLICO o xeque da Mesquita de Lisboa, David Munir, acerca do sentido deste mês de jejum, em que se comemora a revelação do Alcorão. Este mês e o período de jejum que lhe está associado é um dos cinco pilares do islão, com a profissão de fé, a oração, a esmola e a peregrinação a Meca.
O mês acaba com a festa do Eid-Al-Fitr, que este ano (1428, no calendário islâmico) deverá ser assinalada a 12 ou 13 de Outubro. Nessa ocasião, as mesquitas enchem-se e os crentes revezam-se em oração. Em casa, há refeição de festa, com família ou amigos, e com doces em que a amêndoa e o pistáchio são alguns dos condimentos mais usados.
Na Mesquita de Lisboa, o Ramadão deste ano será assinalado ainda por alguns debates, a realizar todos os sábado, após as 23h00, quando acaba a última oração. O jejum nas outras religiões (com participantes de diferentes credos), a morte no islão e as relações entre Estado e religião são alguns dos temas previstos.
Já o Ano Novo judaico tem características diferentes, embora assuma também o aspecto da meditação e revisão de vida. Durante os 30 dias do mês de Elul (que antecede o dia de Rosh Hashanah), os judeus fazem uma “preparação espiritual” que tem já em vista a festa de Yom Kipur, o dia do perdão, que se assinala a 10 de Tishrei ou 22 de Setembro.
Na festa de Rosh Hashanah, toca-se o shofar, a trompeta feita com chifre de carneiro. São lidos textos e orações relacionados com a análise dos actos que se fizeram ao longo do ano, explica Samuel Levy, ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Essa reflexão marca dos dez dias que se seguem ao Ano Novo, até ao Yom Kipur.
Uma cerimónia perante água corrente, com o significado de “deitar fora as coisas erradas e de perdoar uns aos outros” assinala também esta época. Também gastronomicamente, há doces e pratos que se cozinham especialmente para esta altura. Maçã com mel, romãs, como sinal de fartura, e abóbora (cuja palavra hebraica é a mesma para rasgar, com o significado de rasgar as coisas velhas, estão presentes com abundância.
Na Torá (a Bíblia), era a fuga dos judeus do Egipto que marcava o início do ano. A tradição rabínica mudou depois o Ano Novo para Rosh Hashanah. A saudação habitual é desejar “um ano doce e bom”.
António Marujo
