Os textos canónicos do budismo tibetano são uma vasta colecção agrupada em dois tipos, cada um deles com mais de mil volumes: os Kangyur, ou “colecção das palavras do Buda”, e os Tengyur, ensinamentos ou comentários escritos até ao século XVII. Dessa vasta colecção, alguns condensam o essencial do budismo e são considerados fundamentais. Desse pequeno núcleo estão publicados finalmente, em português, alguns títulos.
A Via do Bodhisattva
Shantideva, autor de A Via do Bodhisattva, texto fundamental do budismo, era um monge da universidade monástica de Nalanda (actual Índia), a mais importante da Índia budista, destruída no século XII, após a chegada do islão. Pouco dado a meditações, no entendimento dos restantes monges do mosteiro, estes armaram-lhe uma cilada para o expulsar: cada um, à vez, explicaria as escrituras; ele sentir-se-ia embaraçado e iria embora. Shantideva perguntou se queriam ouvir algo de novo ou uma repetição dos ensinamentos de Buda. Estupefactos, os monges escutaram um poema que terminou com Shantideva elevando-se no ar e desaparecendo, enquanto concluía a recitação.
Dhammapada – As Palavras de Buda
É um texto kangyur, que fala da necessidade de o indivíduo se libertar do egoísmo, define Paulo Borges, estando “implícito o amor aos outros”. Texto mais próximo do monaquismo budista, situa-se na tradição de Theravada, ou tradição dos antigos: “Somos verdadeiramente felizes por vivermos livres do ódio entre aqueles que ainda odeiam. Entre os homens cheios de ódio, nós vivemos livres do ódio”, diz a sentença 197.
O Livro Tibetano dos Mortos
Atribuído a Guru Padmasambhava, fundador do primeiro mosteiro budista no Tibete, datará do século VIII da era comum (ou cristã). É lido por um lama à cabeceira do defunto durante 49 dias (a leitura prossegue após o terceiro dia, quando o corpo é cremado, sepultado ou dado aos abutres). “Os instantes da nossa vida não são desperdiçáveis/ E as [possíveis] circunstâncias de morte estão para além da imaginação. Se não alcanças agora uma impávida segurança confiante,/ Que sentido há em estares viva, ó criatura vivente?”
O Caminho da Grande Perfeição
Texto do século XIX, foi escrito por Patrul Rinpoche, um dos inspiradores do movimento Rimé (não-sectário), que introduziu no budismo tibetano um espírito de diálogo entre as suas diferentes escolas. Tornou-se “uma espécie de compêndio” da espiritualidade budista, diz Paulo Borges. É “o grande texto” para quem quer saber o que é o budismo tibetano.
Além destes títulos, publicados pela Ésquilo (O Livro Tibetano dos Mortos também pelo Círculo de Leitores), há outros que se destacam: O Livro Tibetano da Vida e da Morte (ed. Círculo de Leitores/Prefácio), importante introdução a vários aspectos da espiritualidade budista, e O Ensinamento do Dalai Lama (ed. Zéfiro), comentário a temas da filosofia budista. Há ainda vários outros títulos do Dalai Lama e de diferentes autores.
António Marujo
