Encontro inter-religioso em Nápoles
A Religião em Portugal
1. Para perceber a evolução religiosa dos portugueses, não basta ter em conta as promessas de Fátima. O recurso às investigações dos sociólogos é preferível aos palpites e às observações puramente subjectivas. Millán Arroyo Menéndez, da Universidade Complutense de Madrid, aventurou-se a opinar sobre “Religiosidade e valores em Portugal: comparação com a Espanha e a Europa católica” (1). Sem pretender circunscrevê-lo neste espaço, permito-me alguns destaques.
Por falta de indicadores acerca das outras religiões, o grau de proximidade ou de distanciamento da população portuguesa em relação às crenças, práticas e identidades toma, apenas, por referência, a Igreja católica. Servem-lhe de enquadramento os países da Europa Ocidental de ampla maioria católica: Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Irlanda e Polónia. Dá especial atenção à Espanha, pelo facto de partilhar com Portugal afinidades históricas, políticas, económicas e culturais. Isto irá permitir que as diferenças, em termos de religiosidade e valores, sejam mais nítidas.
Na abordagem de temáticas tão complexas como são as identidades, as crenças, os valores e as sensibilidades, a aproximação quantitativa não é a mais adequada, embora, nesse artigo, seja a mais presente.
No âmbito das crenças, os portugueses situam-se, em geral, acima dos austríacos, belgas, espanhóis e franceses, à excepção da crença na vida depois da morte, da qual duvidam bastante. Tendo em conta várias comparações, chega à conclusão de que, entre nós, a ideia de um Deus pessoal continua a ter muita força, embora com uma intensidade algo inferior, mas parecida à observada na Polónia e claramente superior à da Irlanda e da Itália. Os traços que caracterizam a religiosidade portuguesa seriam os seguintes: uma elevada confiança na instituição eclesiástica; uma alta identificação religiosa com o catolicismo; uma prática religiosa não tão elevada como a sua identidade católica – embora superior à média dos oito países observados – expressa mais na oração individual do que na assistência à missa; um elevado nível de crença em Deus, claramente relacionado com o Deus pessoal da tradição católica, embora mantendo, em simultâneo, mais cepticismo do que fé nas crenças do além.
2. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola. Enquanto que, entre nós, verificamos a transição de uma religiosidade mais forte para uma mais intensa, em Espanha, a mudança religiosa – em termos de secularização – encontra-se num estádio mais adiantado: vai-se passando de uma religiosidade light para a saída da religião de Igreja ou da religião institucional. O que muda essencialmente, em Espanha, é a intensidade e a velocidade com que a população se afasta da Igreja e dos aspectos relacionados com a dimensão institucional da religiosidade. Pelo contrário, Portugal é o país mais ligado a essa instituição em toda a Europa. Esta tendência, relativamente recente em Espanha, não só não foi ainda detectada em Portugal, como não há indícios de que venha a acontecer num curto ou médio prazo.
Não cabe, neste apontamento, identificar as causas que explicam as importantes diferenças observadas nos níveis de religiosidade de Espanha e de Portugal. Para o autor, a principal causa está nos diferentes graus de modernização cultural de ambos os países, presentes no processo histórico e social, onde os valores, as crenças, as atitudes e os comportamentos são orientados por escolhas individuais e menos dependentes da tradição e das instituições. A doutrina da Igreja opõe-se, hoje, a determinados valores e comportamentos assumidos no seio de mentalidades modernas, por exemplo, no campo da sexualidade, mas também noutros, como o divórcio, a bioética, a eutanásia, a homossexualidade, os novos modelos familiares, etc.
A tese de M. Arroyo Menéndez é simples: as fricções vão-se agravando à medida que a sociedade avança em direcção a uma constelação de valores, crenças e sensibilidades, não especificamente religiosos, a que a Igreja se opõe porque os considera negativos. Nos outros países, isto conduz ao progressivo abandono da religião católica. Acerca deste ponto, o autor não dispõe de investigação que lhe permita saber o está a acontecer em Portugal. Sobre o que está a acontecer entre os jovens, nomeadamente, no distrito de Braga, Eduardo Duque conclui o seu importante estudo com estas palavras: “Apesar desta ‘crise’ das instituições, a Igreja de Braga conserva ainda uma maioria de jovens, não obstante o facto de irem dando sinais de uma certa desvalorização da mediação eclesial e da frágil observância das suas orientações” (2).
Não foi considerada a diferença entre a ostensiva beligerância do episcopado espanhol e a atitude dialogante do episcopado português. Esta talvez não seja indiferente à “elevada confiança na instituição eclesiástica” que os sociólogos notam em Portugal.
(1)Análise Social, vol. XLII (184), 2007, 757-787.
Deus: uma questão aberta
O que entender por ateísmo? Perante o mistério da existência, talvez alguns não ponham sequer a questão da fé. Outros têm respostas prontas, claras e indiscutíveis. Há também os que não compreendem e, porque, no meio de um mundo ambíguo, grandioso e inquietante, se não satisfazem com nenhuma resposta, se interrogam angustiados: porquê? G. Minois, na sua História do Ateísmo, pensa que é tarefa do historiador explorar o passado destas três atitudes com "compreensão e compaixão". Assim, ele "fala da história dos descrentes, agrupando sob esse vocábulo todos os que não reconhecem a existência de um Deus pessoal que intervenha na sua vida: ateus, panteístas, cépticos, agnósticos, mas também deístas".
Não será esta uma concepção demasiado ampla de ateísmo? O teólogo Hans Küng tem uma visão mais estrita: "O autêntico ateísmo nega todo o tipo de Deus e todo o divino, tanto entendidos em sentido mitológico como concebidos de forma teológica ou filosófica." Mas G. Minois pode ter razão, quando reivindica o carácter pessoal e providente de Deus. De facto, embora se não saiba propriamente o que significa Deus enquanto o Absoluto pessoal, um Deus que fosse menos do que pessoa, isto é, da ordem do neutro, do isso, que poderia dizer ao Homem religioso? Também Heidegger viu que ao Deus Causa sui, impessoal, o Homem não pode rezar.
As razões do ateísmo são múltiplas.
Porque é que se há-de ir além da natureza ou da matéria, causa e mãe de todas as coisas? Não é Deus uma ilusão enquanto projecção das melhores possibilidades do Homem ou compensação para os seus fracassos e aspirações frustradas? Frequentemente, o que é apresentado como Deus, em vez de engrandecer o Homem, apenas o humilha aos seus próprios olhos. Deus, que pode não passar de outro nome para a ordem moral do mundo, foi e pode ser causa de violência e divisão entre os homens. Não é difícil constatar que o que se chamou Deus também foi causa de opressão, infantilismo e alienação. Se Deus existe, não fica o ser humano limitado e paralisado na sua liberdade? Se Deus é omnipotente e infinitamente bom, como se explica todo o horror do mundo? Precisamente o mal é talvez a maior fonte de ateísmo. Não é paradoxalmente o ateísmo também um produto do cristianismo mediante a distinção do sagrado e do profano e a proclamação da liberdade e da autonomia, de tal modo que não falta quem pense que o ateísmo é essencialmente um fenómeno pós-cristão?
Afinal, nem a existência nem a não existência de Deus podem ser demonstradas. Mesmo o crente mais fervoroso convive com a dúvida e até o ateu mais convicto não deixa de ser assaltado por um "talvez", como dizia Unamuno. Já não pode haver lugar para a fé inquisitorial nem para o ateísmo dogmático.
Erradicar a miséria
Hoje, 17 de Outubro, assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Miséria. Às 10h00 da manhã, a Comissão Nacional Justiça e Paz entrega uma petição assinada por 20 mil pessoas a pedir que a pobreza seja declarada uma grave violação dos direitos humanos. Em Portugal, onde os últimos dados continuam a ser um escândalo – 20 por cento da população é pobre, 40 por cento está em risco de pobreza – esta petição pode ser uma grande pedra no charco que não quer enfrentar de vez o problema número um do país, o escândalo maior. Hoje, também por todo o país e por todo o mundo estão previstas manifestações e “levantamentos” contra a pobreza e a favor do cumprimento dos Objectivos do Milénio proclamados pelas Nações Unidas. Oxalá os políticos ouçam os cidadãos.
Papa quer mais esforços contra a fome
No Dia Mundial da Alimentação, o Papa Bento XVI enviou uma mensagem à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura a falar do problema da fome. A notícia é da agência Ecclesia.
Bento XVI defende o direito de todos os seres humanos à alimentação, lamentando que os esforços levados por diante em todo o mundo não tenham permitido diminuir "significativamente" o número de pessoas atingidas pela fome. A mensagem enviada pelo Papa ao director-geral da FAO, Jacques Diouf, faz uma referência especial à situação das crianças, "primeiras vítimas desta tragédia que sofrem pela falta de desenvolvimento físico e psíquico".
Na celebração do Dia Mundial da Alimentação, dedicado este ano ao tema "O direito à alimentação", a mensagem papal assinala que esta questão tem uma "repercussão imediata na dimensão individual e comunitária dos seres humanos".
Bento XVI liga o drama da fome ao respeito pelos Direitos Humanos, frisando que os dados disponíveis mostram que a falta de alimentos não está ligada apenas a causas naturais, "mas sobretudo a comportamentos humanos e a uma deterioração geral de tipo social, económica e humana".
Segundo o Papa, "é necessária uma consciência de solidariedade que considere a alimentação como um direito universal, sem distinções nem discriminações".
A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU indica que mais de 850 milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer, muito longe do objectivo das Nações Unidas de reduzir para metade e até 2015 o número de pessoas afectadas por este problema. Mais de 150 países vão assinalar esta jornada, organizando eventos especiais, conferências, concursos, iniciativas desportivas e uma vigília global, à luz das velas, sobre o "direito à alimentação".
A mensagem de Bento XVI fala da urgência de eliminar a fome e garantir uma alimentação sã e eficiente, combinando os avanços da tecnológica com "os ciclos e o ritmo da natureza".
“O ouro é para fazer ver que a eternidade é um contínuo movimento”
Esloveno, Marko Ivan Rupnik nasceu em Novembro de 1954, é padre jesuíta e vive desde 1991 em Roma, onde dirige o Centro Aletti, dedicado à arte e espiritualidade. Estudou na Academia de Belas-Artes de Roma e tem-se destacado pelo trabalho em mosaico, premiado internacionalmente. A Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico do Vaticano (1999), é uma das suas obras marcantes. A partir de agora, o mesmo acontecerá provavelmente com o grande painel de 500 metros quadrados, em ouro e terracota, que criou para o altar da Igreja da Santíssima Trindade, onde trabalharam, durante um mês, 20 artistas de oito países e várias confissões religiosas. Em entrevista ao Público e à agência Ecclesia, Rupnik, que é também um autor importante de livros sobre Bíblia e espiritualidade, explica o sentido desta obra apocalíptica. O texto foi publicado dia 12 de Outubro em ambas as edições, utilizando-se aqui a versão integral da entrevista, publicada na agência Ecclesia, onde aliás há um dossiê variado sobre a nova Igreja da Santíssima Trindade.
PÚBLICO/ECCLESIA – Que sentido dá ao grande painel do altar, que espiritualidade está por detrás?
MARKO IVAN RUPNIK – Como ponto de partida tomei dois elementos das aparições de Fátima: a mensagem é uma mensagem apocalíptica. Mas este apocalipse é comunicado, expresso, com uma enorme compaixão, misericórdia e amor pelos mais fracos, ou seja, pelos pecadores. Parto do capítulo 22 do Apocalipse de São João: a praça toda em ouro, com o trono de Deus e do Cordeiro e, dos lados, como se se visse através de uma pequena abertura, os santos como na antiga tradição: à direita do Cordeiro a Senhora, à esquerda João Baptista que apontou Cristo como o Cordeiro de Deus. A Senhora está com Jacinta, Francisco e Lúcia ao lado; depois estão os apóstolos, os santos e os anjos. Há um canto franciscano, com a presença de Francisco [de Assis], Clara [de Assis] e o padre Pio. Do outro lado, está Isabel de Portugal, muito visível, e Madre Teresa de Calcutá. A outra coisa interessante é que nas aparições de Fátima aparece uma grande familiaridade com o céu que hoje, neste mundo, é uma coisa estranha, mas muito importante. Estes miúdos. por exemplo, Lúcia quase desiludida por não ir para o céu, Francisco [que] quer ir depressa. Por isso, tomei em consideração um outro dado importante: na liturgia, há uma convocação universal. Rompem-se o espaço e o tempo, todos somos contemporâneos e sucede uma coisa bonita: no meio está o altar, daqui está a Igreja da história, de lá está a Igreja do céu. Repete-se quase a cena de Fátima: as crianças que têm uma abertura ao céu. Nós estamos do lado das crianças, ainda que não nos encontremos lá, estamos face a face com a Igreja do céu e a Igreja da história.
P. – Artisticamente, teve também uma intencionalidade.
R. – Quis representar um painel de luz. Tomei como fundo o ouro, que já desde João Damasceno [teólogo, 675-749] representa sempre a fidelidade e a santidade de Deus que não falha, uma luz que não se apaga. Com o ouro, basta pouquíssima luz para que brilhe. Toda a matéria de suporte está colocada de tal modo que surge um grande dinamismo, que não é estático. Mesmo para fazer ver que a vida eterna é um contínuo movimento, é uma comunhão, uma convergência, um encontro.
P. – Teve uma grande preocupação em ligar a expressão artística à Bíblia, que nem sempre está presente no fenómeno à volta de Fátima.
R. – Para mim, é importantíssimo. A arte litúrgica tem de ter três pernas para estar em pé. Senão, não se manterá de pé: a Palavra de Deus [é a primeira], que não devo tomar como a compreendo subjectivamente, mas deve haver um eco, uma correspondência na liturgia que pertence a toda a Igreja, não apenas a mim. Ambas estas coisas - a liturgia, a palavra de Deus - se quero compreendê-las bem, devo estar dentro da memória das gerações. A memória, a Tradição, com maiúscula. Tentei fazer algo assim: está a Bíblia (o Apocalipse), está o discurso da liturgia que expliquei, e a composição e uso das cores segundo a memória da Igreja.
Com três pernas já se mantém de pé, mas falta uma quarta, importante: o tempo em que se trabalha, uma abertura ao contemporâneo. Na liturgia há sempre qualquer coisa que não muda e algo que muda com o tempo. É uma dimensão mais ligada à pessoa, ao sujeito, à cultura, ao lugar, ao tempo. Creio que se compreende ali que os meus mestres são também artistas do século XX, como Kandinsky.
P. – Essa é uma perna que nem sempre está presente na arte cristã contemporânea…
R. – Sim, esse é um ponto muito débil. Se [a arte] se baseia apenas na imitação do passado, não diz nada e é sempre uma arte anémica, porque não está atenta à comunicação, está atenta a si mesma. Se se baseia apenas no diálogo contemporâneo, arrisca-se a ficar por diversas emoções imediatas.
P. – É possível perceber uma influência da arte oriental, pelo menos visualmente. Há uma tradição cristã oriental que se torna presente aqui em Fátima. Foi intencional?
R. – Não. Desligando de Fátima, creio que chegou o tempo de uma troca de dons entre Oriente e Ocidente: a arte litúrgica ocidental perdeu-se num subjectivismo que as pessoas já não percebem. A arte oriental perdeu-se numa esclerose e numa fossilização, já não está viva. Quando na história se encontraram estes dois grandes pulmões, foi sempre um bem. Veja-se o que aconteceu na Sicília, Ravena, ou o que fizeram El Greco ou Matisse, o último exemplo. Pessoalmente, procuro sempre ver como poderei, com os olhos de um iconógrafo, pintar com linguagens que eu conheço, contemporâneas, modernas. Não se trata de uma imitação do Oriente, não são ícones.
Por outro lado, penso que em Fátima quase não poderia haver uma arte exclusivamente ocidental, porque Fátima teve esta marca importante de tudo o que respeita a Rússia, ateísmo, comunismo, Leste. Uma influência dos dois pulmões em Fátima é importante. Aliás, basta ver como João Paulo II está ligado a Fátima.
P. – Foi difícil a concepção de uma obra desta envergadura?
R. – Digamos que não foi fácil. O arquitecto Tombazis foi muito exigente, não queria arcos, não queria figuras, só abstracto, não figurativo. Mas como poderia em Fátima, aquela gente de joelhos, chegar a uma igreja e não ver um rosto da Senhora, um santo? Como é possível? Não o imagino. A época que mais estudo como artista, para inspiração, é o pré-românico, o primeiro românico e o primeiro bizantino, no primeiro milénio. Aqui, propus uma figuração a que cheguei depois de muitos anos, uma figuração não agressiva, mas que pôde ser também aceite pelo arquitecto. No final, chegámos a acordo, a uma comunhão. Acabei por fazer algo que nunca tinha feito, pois os meus mosaicos são feitos de pedra, mármore, esmalte, ouro sobre vidro, nunca em ouro e terracota. Foi algo completamente inédito.
P. – Foi muito difícil do ponto de vista técnico?
R. – Sim, foi muito complexo, dado que cada peça do painel passou pelas nossas mãos nove vezes, é um trabalho enorme. Quando, no início, nos fomos distribuindo pelo espaço, era impressionante, parecíamos formigas. É precisa, verdadeiramente, uma força criadora, uma vontade muito forte para não desanimarmos após um mês num ritmo tremendo. O domínio espacial não foi fácil, porque é grandíssimo. Só chegando mais perto percebemos: 500 metros quadrados…
P. – O painel dominará visualmente o ambiente do altar, mas tem a companhia de uma cruz de 7,5 metros, em bronze. Os dois elementos convivem bem? António Marujo (Público) e Octávio Carmo (Ecclesia)
R. – Sim, teologicamente, deveria ser perfeito, porque primeiro está o crucifixo e depois o Cordeiro da vitória. Neste momento, o Cristo está um pouco baixo, sobretudo para o celebrante, é enorme e muito escuro, tem um certo peso. Apesar disso, sobre um fundo dourado, luminoso, emergirá ainda mais. Não sei se as pessoas vão olhar mais para o crucifixo ou para o Cordeiro, a Senhora, os santos que estão por trás…
Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo
A partir das reflexões de especialistas de diferentes saberes – sociologia, genética, neurobiologia, filosofia, teologia, psiquiatria, ciências da comunicação, história, ética e bioética, politologia – Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo, coordenado por Anselmo Borges, e acabado de editar pela Campo das Letras, propõe-se reflectir sobre o futuro de Deus e a Humanidade.
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Sobre a obra que inclui textos de Adriano Moreira, Alexandre Castro Caldas, Andrés Torres Queiruga, Frei Bento Domingues, Daniel Serrão, Edward Schilllebeeckx, Enrique Dussel, Fernando J. Regateiro, João Maria André, Joaquim Fernandes, Johann Baptist Metz, José María Mardones, Juan Martín Velasco, Juan Masiá Clavel, Manuel Pinto, Teresa Martinho Toldy, escreve o seu coordenador, Anselmo Borges:
“Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo. Aí está um tema paradoxal. Não é Deus sempre o mesmo? Há um Deus próprio do século XXI? E será legítimo pôr em causa o futuro do cristianismo?
Deus é sempre o mesmo, mas transformou-se e transforma-se no encontro com os homens e as mulheres, como estes e estas, no encontro com Deus, se transformaram e transformam. Há múltiplas figuras de Deus por causa da sua história com os homens e as mulheres, e a história dos homens e das mulheres e as suas figuras e autocompreensão também não seriam as mesmas sem a sua história com Deus.
Possivelmente, a revolução em curso neste início de século e milénio só tem comparação com as revoluções do neolítico e da modernidade, e tem múltiplos contornos e domínios.
São tais as perspectivas nos campos da genética e das neurociências e, consequentemente, das biotecnologias que se chega a pensar na possibilidade de uma bifurcação da Humanidade, a caminho do pós-humano. Pela primeira vez, a Humanidade tem nas suas mãos o seu segredo. O que pode e quer fazer com ele? É humano-ético tudo quanto é tecnicamente possível?
A globalização, que tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, obriga a pensar uma governança mundial e coloca de modo novo a problemática do multiculturalismo.
Se se quiser evitar o ‘choque das civilizações’, impõe-se o diálogo intercultural no horizonte da mestiçagem, com todos os problemas de personalidades cada vez mais compósitas.”
Muçulmanos escrevem ao Papa em favor da paz
Mais de uma centena de académicos muçulmanos de todo o mundo endereçou ao Papa Bento XVI e a outros líderes cristãos uma missiva contendo um apelo à paz e ao entendimento entre as duas religiões. A carta não é um gesto que se pode dispensar pois "está em causa a própria sobrevivência do mundo".
Jesus de Nazaré
Jesus de Nazaré, o livro escrito por Bento XVI, é publicado em Portugal este mês pela Esfera dos Livros. Hoje, a editora apresentava a obra com este texto do próprio Joseph Ratzinger:
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Cheguei a este livro sobre Jesus, cuja primeira parte é agora publicada, após um longo caminho interior. No tempo da minha juventude – anos 30 e 40 –, houve uma série de obras sobre Jesus que suscitavam verdadeiramente entusiasmo. Limito-me a citar o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Daniel-Rops. Em todas estas obras, a imagem de Jesus Cristo era delineada a partir dos evangelhos: mostravam como Ele viveu sobre a terra e como, sendo inteiramente homem, ao mesmo tempo trouxe aos homens Deus, com o Qual, enquanto Filho, era um só. Deste modo, através do homem Jesus, tornou-Se visível Deus e, a partir de Deus, pôde ver-se a imagem do homem autêntico.
A partir dos anos 50, a situação alterou-se. A cisão entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» foi-se tornando cada vez mais ampla; um afastou-se do outro a olhos vistos. Mas que significado poderia ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus tivesse sido tão diverso da forma como O apresentam os evangelistas e do modo como a Igreja, partindo dos evangelhos, O anuncia?
Os progressos da pesquisa histórico-crítica levaram a distinções sempre mais subtis entre os diversos estratos da tradição. Por trás destes, a figura de Jesus, sobre a qual assenta a fé, foi ficando cada vez mais diluída, com contornos sempre menos claros. Ao mesmo tempo as reconstruções deste Jesus, que devia ser procurado por trás das tradições dos evangelistas e das suas fontes, tornaram-se cada vez mais contrastantes: desde o revolucionário anti-romano que visa a derrocada dos poderes constituídos e naturalmente fracassa, até ao pacífico moralista que tudo permite e de modo inconcebível acaba por causar a própria ruína. Quem lê sucessivamente várias destas reconstruções, imediatamente se dá conta de que elas são muito mais a fotografia dos autores e dos seus ideais do que a reposição de um ícone que entretanto se tinha diluído. Por isso, foi crescendo a desconfiança a respeito destas imagens de Jesus; mas, a figura própria de Jesus afastou-se ainda mais de nós.
Como resultado comum de todas estas tentativas ficou a impressão de que, em todo o caso, de seguro sabemos muito pouco sobre Jesus e de que a sua imagem só posteriormente foi plasmada pela fé na sua divindade. Entretanto, esta impressão penetrou profundamente na consciência comum do cristianismo. Uma tal situação é dramática para a fé, porque torna incerto o seu verdadeiro ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, da qual tudo depende, corre o perigo de cair no vazio.
Joseph Ratzinger
António Lobo Antunes
A literatura e a morte foram alguns dos temas de uma entrevista com o António Lobo Antunes, que o Diário de Notícias publicou ontem. Nela, o escritor falou também sobre Deus.
Aqui ficam alguns extractos:
Como contrariar a morte?
Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.
Isso alterou a sua forma de ser?
Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.
Qual é a sua atitude perante Deus?
Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.
Como é essa relação?
É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.
Então à noite também acredita?
Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.
Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…
Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia "não busco compreender para crer, creio para compreender"; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?
O título do seu último livro vem da Bíblia?
Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.
