1. Para perceber a evolução religiosa dos portugueses, não basta ter em conta as promessas de Fátima. O recurso às investigações dos sociólogos é preferível aos palpites e às observações puramente subjectivas. Millán Arroyo Menéndez, da Universidade Complutense de Madrid, aventurou-se a opinar sobre “Religiosidade e valores em Portugal: comparação com a Espanha e a Europa católica” (1). Sem pretender circunscrevê-lo neste espaço, permito-me alguns destaques.
Por falta de indicadores acerca das outras religiões, o grau de proximidade ou de distanciamento da população portuguesa em relação às crenças, práticas e identidades toma, apenas, por referência, a Igreja católica. Servem-lhe de enquadramento os países da Europa Ocidental de ampla maioria católica: Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Irlanda e Polónia. Dá especial atenção à Espanha, pelo facto de partilhar com Portugal afinidades históricas, políticas, económicas e culturais. Isto irá permitir que as diferenças, em termos de religiosidade e valores, sejam mais nítidas.
Na abordagem de temáticas tão complexas como são as identidades, as crenças, os valores e as sensibilidades, a aproximação quantitativa não é a mais adequada, embora, nesse artigo, seja a mais presente.
No âmbito das crenças, os portugueses situam-se, em geral, acima dos austríacos, belgas, espanhóis e franceses, à excepção da crença na vida depois da morte, da qual duvidam bastante. Tendo em conta várias comparações, chega à conclusão de que, entre nós, a ideia de um Deus pessoal continua a ter muita força, embora com uma intensidade algo inferior, mas parecida à observada na Polónia e claramente superior à da Irlanda e da Itália. Os traços que caracterizam a religiosidade portuguesa seriam os seguintes: uma elevada confiança na instituição eclesiástica; uma alta identificação religiosa com o catolicismo; uma prática religiosa não tão elevada como a sua identidade católica – embora superior à média dos oito países observados – expressa mais na oração individual do que na assistência à missa; um elevado nível de crença em Deus, claramente relacionado com o Deus pessoal da tradição católica, embora mantendo, em simultâneo, mais cepticismo do que fé nas crenças do além.
2. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola. Enquanto que, entre nós, verificamos a transição de uma religiosidade mais forte para uma mais intensa, em Espanha, a mudança religiosa – em termos de secularização – encontra-se num estádio mais adiantado: vai-se passando de uma religiosidade light para a saída da religião de Igreja ou da religião institucional. O que muda essencialmente, em Espanha, é a intensidade e a velocidade com que a população se afasta da Igreja e dos aspectos relacionados com a dimensão institucional da religiosidade. Pelo contrário, Portugal é o país mais ligado a essa instituição em toda a Europa. Esta tendência, relativamente recente em Espanha, não só não foi ainda detectada em Portugal, como não há indícios de que venha a acontecer num curto ou médio prazo.
Não cabe, neste apontamento, identificar as causas que explicam as importantes diferenças observadas nos níveis de religiosidade de Espanha e de Portugal. Para o autor, a principal causa está nos diferentes graus de modernização cultural de ambos os países, presentes no processo histórico e social, onde os valores, as crenças, as atitudes e os comportamentos são orientados por escolhas individuais e menos dependentes da tradição e das instituições. A doutrina da Igreja opõe-se, hoje, a determinados valores e comportamentos assumidos no seio de mentalidades modernas, por exemplo, no campo da sexualidade, mas também noutros, como o divórcio, a bioética, a eutanásia, a homossexualidade, os novos modelos familiares, etc.
A tese de M. Arroyo Menéndez é simples: as fricções vão-se agravando à medida que a sociedade avança em direcção a uma constelação de valores, crenças e sensibilidades, não especificamente religiosos, a que a Igreja se opõe porque os considera negativos. Nos outros países, isto conduz ao progressivo abandono da religião católica. Acerca deste ponto, o autor não dispõe de investigação que lhe permita saber o está a acontecer em Portugal. Sobre o que está a acontecer entre os jovens, nomeadamente, no distrito de Braga, Eduardo Duque conclui o seu importante estudo com estas palavras: “Apesar desta ‘crise’ das instituições, a Igreja de Braga conserva ainda uma maioria de jovens, não obstante o facto de irem dando sinais de uma certa desvalorização da mediação eclesial e da frágil observância das suas orientações” (2).
Não foi considerada a diferença entre a ostensiva beligerância do episcopado espanhol e a atitude dialogante do episcopado português. Esta talvez não seja indiferente à “elevada confiança na instituição eclesiástica” que os sociólogos notam em Portugal.
(1)Análise Social, vol. XLII (184), 2007, 757-787.

A RELIGIAO EM PORTUGAL ESTA CADA VEZ MAIS DESENVOLVIDA PARABEN,
Comment by ESTER ARAUJO DE CRISTO — 10 April, 2008 @ 2:25 pm
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Comment by VINICIUS — 23 June, 2008 @ 4:38 pm