21 October, 2007

Deus: uma questão aberta

 
No Diário de Notícias de sábado, dia 20, Anselmo Borges debate a questão do ateísmo: é-se ateu em relação a que Deus? 
 
Que se quer dizer, quando se fala de ateísmo? É-se ateu em relação a que Deus? O que é ou quem é Deus? O que faz que haja crentes e não crentes, que ao longo dos tempos se perseguiram e mataram uns aos outros? O que muda na vida das pessoas e no mundo, acreditando em Deus ou não? Afinal, Deus não é uma questão meramente teórica, pois implica uma praxis. Não é a mesma coisa dizer: "Aquela árvore existe" e "Deus existe", pois a fé tem de ter consequências na transformação da existência e da sociedade. Também há ateus que lutam pela justiça, e até mais do que muitos crentes. Assim, quando se fala em ateísmo, também aparece a distinção fundamental entre ateísmo teórico e ateísmo prático.

    O que entender por ateísmo? Perante o mistério da existência, talvez alguns não ponham sequer a questão da fé. Outros têm respostas prontas, claras e indiscutíveis. Há também os que não compreendem e, porque, no meio de um mundo ambíguo, grandioso e inquietante, se não satisfazem com nenhuma resposta, se interrogam angustiados: porquê? G. Minois, na sua História do Ateísmo, pensa que é tarefa do historiador explorar o passado destas três atitudes com "compreensão e compaixão". Assim, ele "fala da história dos descrentes, agrupando sob esse vocábulo todos os que não reconhecem a existência de um Deus pessoal que intervenha na sua vida: ateus, panteístas, cépticos, agnósticos, mas também deístas".

    Não será esta uma concepção demasiado ampla de ateísmo? O teólogo Hans Küng tem uma visão mais estrita: "O autêntico ateísmo nega todo o tipo de Deus e todo o divino, tanto entendidos em sentido mitológico como concebidos de forma teológica ou filosófica." Mas G. Minois pode ter razão, quando reivindica o carácter pessoal e providente de Deus. De facto, embora se não saiba propriamente o que significa Deus enquanto o Absoluto pessoal, um Deus que fosse menos do que pessoa, isto é, da ordem do neutro, do isso, que poderia dizer ao Homem religioso? Também Heidegger viu que ao Deus Causa sui, impessoal, o Homem não pode rezar.

    As razões do ateísmo são múltiplas.

    Porque é que se há-de ir além da natureza ou da matéria, causa e mãe de todas as coisas? Não é Deus uma ilusão enquanto projecção das melhores possibilidades do Homem ou compensação para os seus fracassos e aspirações frustradas? Frequentemente, o que é apresentado como Deus, em vez de engrandecer o Homem, apenas o humilha aos seus próprios olhos. Deus, que pode não passar de outro nome para a ordem moral do mundo, foi e pode ser causa de violência e divisão entre os homens. Não é difícil constatar que o que se chamou Deus também foi causa de opressão, infantilismo e alienação. Se Deus existe, não fica o ser humano limitado e paralisado na sua liberdade? Se Deus é omnipotente e infinitamente bom, como se explica todo o horror do mundo? Precisamente o mal é talvez a maior fonte de ateísmo. Não é paradoxalmente o ateísmo também um produto do cristianismo mediante a distinção do sagrado e do profano e a proclamação da liberdade e da autonomia, de tal modo que não falta quem pense que o ateísmo é essencialmente um fenómeno pós-cristão?

    Afinal, nem a existência nem a não existência de Deus podem ser demonstradas. Mesmo o crente mais fervoroso convive com a dúvida e até o ateu mais convicto não deixa de ser assaltado por um "talvez", como dizia Unamuno. Já não pode haver lugar para a fé inquisitorial nem para o ateísmo dogmático.

    Afastados os dogmatismos, Deus é uma questão aberta. Então, talvez se possa seguir a comparação do jovem filósofo Charles Pépin. Fazemos uma travessia num barco, que pode terminar numa terra maravilhosa. No quadro de uma fé dogmática, há o perigo de esquecer a beleza da travessia. Com a certeza absoluta de que essa terra não existe, isto é, de que não há Deus, estar-se-ia condenado a vaguear eternamente sem destino e entregue ao absurdo. Mas a esperança no Deus vivo e na vida eterna liberta do fanatismo e da angústia, não aliena do mundo e abre horizontes de sentido último.

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