O que entender por ateísmo? Perante o mistério da existência, talvez alguns não ponham sequer a questão da fé. Outros têm respostas prontas, claras e indiscutíveis. Há também os que não compreendem e, porque, no meio de um mundo ambíguo, grandioso e inquietante, se não satisfazem com nenhuma resposta, se interrogam angustiados: porquê? G. Minois, na sua História do Ateísmo, pensa que é tarefa do historiador explorar o passado destas três atitudes com "compreensão e compaixão". Assim, ele "fala da história dos descrentes, agrupando sob esse vocábulo todos os que não reconhecem a existência de um Deus pessoal que intervenha na sua vida: ateus, panteístas, cépticos, agnósticos, mas também deístas".
Não será esta uma concepção demasiado ampla de ateísmo? O teólogo Hans Küng tem uma visão mais estrita: "O autêntico ateísmo nega todo o tipo de Deus e todo o divino, tanto entendidos em sentido mitológico como concebidos de forma teológica ou filosófica." Mas G. Minois pode ter razão, quando reivindica o carácter pessoal e providente de Deus. De facto, embora se não saiba propriamente o que significa Deus enquanto o Absoluto pessoal, um Deus que fosse menos do que pessoa, isto é, da ordem do neutro, do isso, que poderia dizer ao Homem religioso? Também Heidegger viu que ao Deus Causa sui, impessoal, o Homem não pode rezar.
As razões do ateísmo são múltiplas.
Porque é que se há-de ir além da natureza ou da matéria, causa e mãe de todas as coisas? Não é Deus uma ilusão enquanto projecção das melhores possibilidades do Homem ou compensação para os seus fracassos e aspirações frustradas? Frequentemente, o que é apresentado como Deus, em vez de engrandecer o Homem, apenas o humilha aos seus próprios olhos. Deus, que pode não passar de outro nome para a ordem moral do mundo, foi e pode ser causa de violência e divisão entre os homens. Não é difícil constatar que o que se chamou Deus também foi causa de opressão, infantilismo e alienação. Se Deus existe, não fica o ser humano limitado e paralisado na sua liberdade? Se Deus é omnipotente e infinitamente bom, como se explica todo o horror do mundo? Precisamente o mal é talvez a maior fonte de ateísmo. Não é paradoxalmente o ateísmo também um produto do cristianismo mediante a distinção do sagrado e do profano e a proclamação da liberdade e da autonomia, de tal modo que não falta quem pense que o ateísmo é essencialmente um fenómeno pós-cristão?
Afinal, nem a existência nem a não existência de Deus podem ser demonstradas. Mesmo o crente mais fervoroso convive com a dúvida e até o ateu mais convicto não deixa de ser assaltado por um "talvez", como dizia Unamuno. Já não pode haver lugar para a fé inquisitorial nem para o ateísmo dogmático.
