26 November, 2007

A liberdade religiosa quando os cristãos são minoria

No Público de domingo, 25 de Novembro, frei Bento Domingues vem “em defesa” da liberdade religiosa e, concretamente, “de minorias cristãs”

 

1. É normal que, para as gerações mais novas, o Concílio Vaticano II (1962-1965) não evoque a viragem espectacular que representou nos anos 60 quanto à reorientação da Igreja católica, no mundo contemporâneo, libertando-a de muitos desvios, reconduzindo-a à sua fonte e tentando abrir-lhe os olhos para os sinais dos tempos em permanente mudança.

 

A declaração Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, embora de parto difícil – dada a forma negativa como tinha sido encarada durante séculos –, foi um acontecimento profético, uma bênção para a própria Igreja. Fê-la compreender que não pode ser livre se não lutar pela liberdade de todos. Uma instituição religiosa, que não respeita e valoriza, de forma crítica, a religião dos outros, desqualifica-se precisamente enquanto religião. Quando, pelo contrário, vai até ao ponto de reconhecer e respeitar as minorias – religiosas ou não – confessa uma divindade que não faz acepção de pessoas ou de grupos porque já se curou da vontade de poder, do desejo de dominar.

 

2. Mesmo depois da catástrofe interminável da invasão do Iraque, pelas tropas anglo-americanas, a coberto de uma grande mentira e da vontade de dominar, continua-se a defender a invasão do Irão, facilitada pela retórica dos seus dirigentes em relação à bomba atómica. A verdade é que esta nunca esteve em boas mãos e não deve ser tolerada em nenhum país. Enquanto for o privilégio de alguns, será sempre a cobiça de outros. O Conselho Ecuménico das Igrejas, num comunicado de 28 de Setembro, fez muito bem em recusar a regulação, pela força, de uma crise relativa ao programa nuclear do Irão.

 

É neste contexto que o filósofo Régis Debray – presidente honorário do Instituto Europeu Ciência das Religiões – organizou, neste mês, em Paris, um colóquio sobre “O futuro dos cristãos no Oriente”. Estamos habituados à antítese: Oriente muçulmano / Ocidente cristão. Urge quebrar essa antítese.

 

Antes da invasão do Iraque – há dez anos – havia 500 mil cristãos. Metade teve de se exilar… e, por ironia, esta catástrofe foi desencadeada por um país que se julga cristão. Os árabes cristãos, postos contra a parede de um Ocidente imperial e a espada da ascensão do islamismo, são considerados o cavalo de Tróia de um Ocidente pouco preocupado com os danos colaterais. Nos seminários que dirigiu em Jerusalém, Amã, Beirute e Damasco, R. Debray compreendeu que todas estas comunidades árabo-cristãs – católicas, ortodoxas, coptas ou maronitas – desempenham um papel insubstituível de traço de união e de mediador entre o exterior e o interior, o Ocidente e o Oriente. Além disso, não são apenas um elemento de equilíbrio, evitando que o mundo árabo-muçulmano se feche sobre si mesmo, mas também factor de modernização. Enquanto o arabismo era um elemento de federação (depois do fim do império otomano), os cristãos do Oriente tinham, de facto, o seu lugar. Agora, que esse elemento já não é cultural, mas religioso (o islão), os cristãos já não são encarados como uma família, enquanto os turcos e iranianos reencontram o seu espaço.

 

Isto começou com a chegada de Khomeyni ao Irão (1978) e com a derrota do arabismo político. Paradoxalmente, foi o Ocidente que contribuiu para a derrota do progressismo árabe, tendo arrastado os cristãos para a marginalização, tanto na Palestina como no Egipto. Por este caminho, é de temer que, na Terra Santa, os cristãos acabem por se tornarem apenas figuras exóticas.

 

3. Segundo este filósofo, nós, ocidentais, estamos colocados perante um conflito de deveres: ou intervimos abertamente a favor deles e desacreditamo-nos em relação ao mundo que os rodeia, ou abandonamo-los à sua sorte… É preciso encontrar uma terceira via entre a ingerência e a indiferença!

 

Para exercer a nossa solidariedade, não é preciso esconder a cara… Quando os países do Golfo distribuem dinheiro às comunidades muçulmanas da região, fazem-no com milhões de dólares; quando a comunidade judaica americana apoia uma instituição em Israel, é também com milhões de dólares; quando a Europa ajuda uma instituição cristã no Oriente, não ultrapassa a ordem do milhar.

 

No entanto, para saber ajudar os cristãos do Oriente, é preciso escutá-los e compreender porque é que não os escutamos e acolhemos a suspeita de anti-semitismo que sobre eles pesa. Segundo R. Debray, os cristãos do Oriente poderão ser anti-sionistas, mas não podem ser considerados anti-semitas. Representam a minoria mais portadora de tolerância, de laicidade, de cidadania. Situam-se na vanguarda da coexistência das minorias que se vai tornar o principal desafio civil do século XXI. A questão dos cristãos do Oriente é exemplar: se as minorias cristãs do Oriente forem asfixiadas nas sociedades de maioria muçulmana, é um mau sinal para o islão de amanhã e não estará longe o choque de civilizações.

 

O Parlamento Europeu aprovou, no passado dia 15, uma resolução que denuncia as violências contra os cristãos, particularmente na Ásia, na África e no Médio Oriente.

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