1 December, 2007

Bento XVI propõe esperança cristã contra limites do marxismo, ateísmo e progresso

No Público de hoje, António Marujo apresenta aspectos da nova encíclica do Papa, já aqui transcrita na íntegra.

Texto intimista, uma longa reflexão bíblica e filosófica, que "parece especialmente dirigido à Europa", como admite o arcebispo de Milão, e merece reparos de protestantes.

Dirigida só aos católicos, recusa que a humanidade será salva pelas revoluções políticas (como o marxismo), pelo progresso científico ou pelo ateísmo. É uma reflexão pessoal e intimista a segunda encíclica do Papa Bento XVI, Spe Salvi, dedicada à esperança, e ontem apresentada no Vaticano. O título em latim do documento significa "Salvos pela esperança". Foi retirado da Carta aos Romanos, texto atribuído a São Paulo: "Foi na esperança que fomos salvos." Bento XVI desenvolve uma longa reflexão bíblica, teológica e filosófica. A esperança é uma das três virtudes teologais, consideradas pela doutrina católica como dons de Deus, que sintetizam o cristianismo: fé, esperança, amor. A primeira encíclica, Deus Caritas Est, tratou do amor. É de prever que uma próxima seja dedicada à fé - antes, deverá escrever uma sobre questões sociais. Não faltam, no texto, nomes do pensamento europeu (Emmanuel Kant, Karl Marx, Fiodor Dostoïevski) e exemplos de pessoas que, para o Papa, testemunharam a esperança cristã (ver caixa). "Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos perguntar-nos: o que posso fazer para que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então terei feito o máximo pela minha salvação pessoal." Talvez pelo seu carácter doutrinário, o Papa dirige esta encíclica, tal como a anterior, apenas aos católicos. A fórmula "e a todas as pessoas de boa vontade", utilizada pelos anteriores papas, sobretudo em encíclicas de dimensão mais política ou social, não foi ainda usada por Bento XVI. É um texto em que o Papa exprime "a convicção de que a recusa da fé e da esperança cristã, a recusa de Deus, levam o homem a perder-se a si mesmo", disse o porta-voz do Vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi. "Parece especialmente dirigido à Europa", admitiu o arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi. "O Papa quer despertar a esperança dos países da velha cristandade, em especial a Europa, mas a sua perspectiva não se limita a este continente", disse o cardeal francês Albert Vanhoye.

O erro de Marx

A crítica de ser uma reflexão demasiado centrada na Europa foi feita já à primeira encíclica. Bento XVI tem um vasto pensamento sobre a presença do cristianismo no contexto europeu e a escolha do seu nome de Papa reflecte a preocupação com o futuro do cristianismo no Velho Continente. O Papa dirige reparos à ambiguidade do progresso, capaz do bem e do mal, ao "erro fundamental de Marx", que não disse o que fazer depois do derrube das injustiças do seu tempo, ou ao ateísmo, que surgiu nos séculos XIX e XX como "um moralismo", um "protesto contra as injustiças do mundo e da história universal". A par de parágrafos intensos sobre o que é a vida eterna (na peugada de Santo Agostinho), sobre a oração como "escola de esperança", ou sobre o sofrimento (que "faz parte da existência humana", mas contra o qual se pode "lutar") e o agir, o Papa propõe a necessidade de uma "autocrítica da idade moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção de esperança". E diz que os cristãos devem aprender de novo o que têm para "oferecer ao mundo". A esperança cristã tem "os outros" como horizonte, insiste Bento XVI. Um texto intimista, que procura recentrar a fé cristã no que lhe é central. Mas que inclui referências que não são consideradas centrais por outros cristãos. A parte final é dedicada à figura da mãe de Jesus, "Maria, estrela da esperança". O pastor Gill Daude, da Federação dos Protestantes de França, perguntava ontem no sítio da Internet do jornal La Croix: "Porquê invocá-la no final, mais que a Cristo, ele que se fez próximo de nós (…), ele que é "mais íntimo a nós mesmos que nós mesmos" (Santo Agostinho)."

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