18 March, 2007

Vaticano censura teólogo “da libertação” e arcebispo de San Salvador proíbe-o de ensinar

Terça-feira passada, foi publicada a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras do padre jesuíta Jon Sobrino. No Público de hoje, sai a notícia que escrevi sobre o tema. 

O padre Jon Sobrino, jesuíta de origem espanhola a trabalhar desde há décadas em El Salvador, viu partes de dois dos seus livros sobre Jesus serem censuradas pelo Vaticano. A notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), enviada a Jon Sobrino, um dos mais importantes teólogos contemporâneos, não prevê medidas disciplinares, deixando a questão para o bispo local. O arcebispo de San Salvador, Fernando Sanez Lacalle, que, de acordo com a AFP, é membro da Opus Dei, já interditou Sobrino de ensinar em nome da Igreja e publicar livros com autorização eclesiástica.
Sobrino, nascido em 1938, é um dos expoentes da teologia da libertação, uma corrente nascida na América Latina no final da década de 60. Os teólogos da libertação defendem que a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos deve ser uma prioridade da missão da Igreja, tomando como referência as atitudes de Jesus relatadas nos evangelhos.
Na opinião da CDF, as teses do padre jesuíta não estão "conformes à doutrina da Igreja" (www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/doc_doc_index_po.htm). Apesar de apreciar "a preocupação do autor com a sorte dos pobres", a congregação diz que as duas obras em questão "apresentam, em certos pontos, notáveis divergências com a fé da Igreja". Os "pressupostos metodológicos", a "divindade de Jesus", a "encarnação do filho de Deus", a "relação entre Jesus" e o tema do reino de Deus, a "autoconsciência" de Cristo e "o valor salvífico da sua morte" são os seis temas referidos pela CDF, que afirma não pretender "julgar as intenções subjectivas" do autor.
Estes enunciados têm a ver, por exemplo, com a insistência que, no entender da congregação, Sobrino faz da dimensão humana de Jesus em detrimento da sua divindade. Também a expressão "Igreja dos pobres" em vez de "opção preferencial pelos pobres", está em causa.
Método desconfiado
Os livros analisados pela CDF foram Jesus, o Libertador - A História de Jesus de Nazaré (1991) e A Fé em Jesus Cristo - Ensaio a Partir das Vítimas (1999), ambos publicados em português pela Vozes, do Brasil. No primeiro, Sobrino escreve que a realidade salvadorenha, a partir da qual reflecte, "ilumina o que é o divino e o que é o humano, e o Cristo que os unifica".
Numa carta ao superior geral dos jesuítas, Peter-Hans Kolvenbach (em www.redescristianas.net/2007/03/14), Sobrino recusa assinar a notificação, por não se reconhecer na leitura que é feita dos livros. Acrescenta que seria "uma falta de respeito para teólogos por ele consultados previamente e que não encontraram qualquer "erro doutrinal ou afirmação perigosa". Um dos colegas consultados, Bernard Sesboué, dizia que uma carta da congregação a Jon Sobrino, de 2004, era "tão exagerada que não tem valor". E acrescenta: "Com este método deliberadamente desconfiado, eu também podia ler heresias nas encíclicas de João Paulo II!".
Na mesma carta, Sobrino cita vários comentários aos seus livros do então cardeal Joseph Ratzinger - o agora Papa Bento XVI, que autorizou a notificação da CDF. Mas, no entender do teólogo da libertação, o cardeal citou erradamente várias passagens. Esses excertos serviriam, mesmo, para condenar determinadas perspectivas da teologia da libertação, em dois documentos sobre o tema publicados pela CDF, então presidida pelo agora Papa.
Na mesma carta, Sobrino conta que quando Alfonso López Trujillo foi nomeado cardeal, afirmou "num grupo que ia acabar com Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Ronaldo Muñoz e Jon Sobrino". De uma forma ou de outra, todos estes teólogos tiveram problemas com o Vaticano. No caso de Sobrino, o próprio conta que desde 1975 que teve que responder a várias interpelações do Vaticano. Até chegar a esta notificação.

20 November, 2006

Uma carta de Jon Sobrino a Ellacuría, sobre o futuro do catolicismo latino-americano

Está em preparação uma nova conferência geral do episcopado latino-americano - depois de Medellín, Puebla, Santo Domingo… Para muitos, a assembleia pode significar um retorno a Puebla ou Medellín, mas há o receio de que se repita Santo Domingo. Jon Sobrino, conhecido "teólogo da libertação", escreveu a propósito uma carta ao irmão mártir Ignácio Ellacuría, o jesuíta reitor da Universidade Centro-Americana, assassinado há anos. O texto vem referido numa pequena notícia da Adista:

La Chiesa latinoamericana ha, sì, perso la rotta - già a Puebla rispetto a Medellín, e in maniera molto più decisa a Santo Domingo rispetto a Puebla - ma, per quanto il compito non sia facile, "ad Aparecida Dio può tornare ad irrompere, come in monsignor Romero davanti al cadavere di Rutilio". Ad esprimere questa speranza - davvero contro ogni speranza, considerando le incredibili lacune del Documento di Partecipazione diffuso dal Celam nel settembre del 2005 - è il teologo della Liberazione Jon Sobrino, nella sua lettera annuale al "fratello martire" Ignácio Ellacuría, il rettore della Uca, l’Università centroamericana di San Salvador, assassinato il 16 novembre del 1989 insieme ad altri quattro gesuiti, alla cuoca della comunità, Julia Elba, e a sua figlia Celina (le 15 lettere scritte da Sobrino a Ellacuría nei 16 anni successivi al massacro sono state ora pubblicate dalla Emi con il titolo Scrivo a te fratello martire.