20 February, 2007

Os alçapões da doutrina católica sobre o aborto

No Público de hoje (a edição em pdf destes primeiros números do novo jornal contina disponível, passe a publicidade), saiu um artigo de opinião que escrevi ainda no rescaldo do referendo. O texto foi redigido antes da nota pastoral da Conferência Episcopal de sexta-feira passada, disponível na Ecclesia. No entanto, como vou por outros caminhos, a nota apenas me teria levado a alterar pequenos pormenores.

A doutrina oficial católica e de alguns sectores da Igreja em matéria de aborto tem vários alçapões, antes de tocar o problema maior. Essa foi uma razão para a derrota do “não” no referendo do passado domingo
1. A recusa da educação sexual nas escolas, com medo dos “valores” que se perdem, da “ameaça” à família, da “redução” à biologia.
O resultado desta atitude é que nem (muit)as famílias estão preparadas para educar os filhos nesta matéria nem a escola faz o que poderia fazer. Certo: há também falta de maturidade em muitos professores, predomina em Portugal uma visão estatizante da educação e o sistema de ensino não pode fazer tudo. No seu quarto texto sobre o referendo, o cardeal-patriarca de Lisboa escreveu que a educação sexual “é bem-vinda e necessária”. Mas essa não é a ideia de muitos responsáveis católicos. E melhor seria que, em vez da guerrilha, se instalasse um clima de colaboração entre o Ministério da Educação, as escolas, os pais, as comunidades religiosas…
2. A recusa da contracepção e do planeamento familiar.
É conhecido que a encíclica que regula esta posição oficial da Igreja, a “Humanae Vitae” (1968), foi publicada pelo Papa Paulo VI sob forte pressão da Cúria Romana contra a opinião de outros sectores da católicos, incluindo casais. O resultado está à vista: a aceitação exclusiva dos métodos “naturais” de planeamento familiar e a recusa do preservativo ou da pílula são um dos motivos mais fortes para que muitos católicos se afastem da Igreja. Hoje, não faz sentido continuar a investir contra esses moinhos de vento, questão de pormenor no tema mais vasto e esse sim fundamental que é o modo de viver a relação com o outro, a sexualidade e a felicidade. O planeamento familiar não é um problema do método que se utiliza, mas uma questão de como se educa para a maternidade e a paternidade responsáveis. Na prática, aliás, sabe-se que muitos católicos não ligam ao que a doutrina diz nesta matéria e que muitos agentes da Igreja – padres, bispos, mesmo cardeais – não lhe dão em privado a importância que afirmam em público.
3. O discurso católico fala da pessoa como um todo, reflectindo um paradigma personalista. Mas, nas matérias relacionadas com a sexualidade (relações pré-matrimoniais, contracepção, homossexualidade, erotismo, sensualidade), o modo como as coisas são ditas aproximam-se mais de um paradigma biológico.
4. No aborto, há dramas sérios que as pessoas vivem, situações que só cada um, perante a sua consciência (perante Deus, para os crentes) pode avaliar. Em 1994, o Papa João Paulo II beatificou a italiana Gianna Beretta Molla que, em 1962, decidiu levar até ao fim uma gravidez de risco, sabendo que podia morrer e deixar viúvo o marido (que a apoiou) e órfãos os outros três filhos que já tinha. Uma decisão difícil e legítima.
Uma mulher que decidisse abortar para não morrer e poder, assim, acompanhar marido e filhos, não deveria merecer o mesmo respeito da parte de quem anuncia, como se diz, o evangelho da misericórdia? (Para o padre João Seabra, como se ouviu segunda-feira, na RTP2, a questão mais importante é insistir no “pecado mortal”. Ideias infelizes como esta é que continuam a afastar as pessoas do centro da mensagem cristã.)
Outros dramas sérios podem atravessar-se à consciência de cada mulher e de cada homem na questão do aborto. Mas enquanto não se entender que cada pessoa deve ter a consciência (“santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus”, como diz o Concílio Vaticano II) no centro da decisão, a Igreja continuará a lutar sempre contra o mal menor, a reboque de leis e dos costumes.
5. O discurso católico poderia ter sido o da compreensão perante o drama do aborto (por exemplo, para com os casos previstos na lei em vigor desde 1984). Poderia, mesmo, ter sido o de exigir que a lei fosse cumprida de forma a evitar o recurso ao aborto clandestino – esse, um mal maior. Mas ele foi sempre o de se opor ao que viria a seguir. Por tudo isto, o discurso oficial católico perdeu – o oficial, porque na acção prática as coisas são (felizmente) diferentes em muitos casos.
6. A mesma preocupação com o início da vida deveria existir para a vida em processo. É que ela só é digna com possibilidade de cada um se poder realizar, com comida, casa e trabalho acessíveis a todos. É bom ver a Associação dos Empresários Católicos pronunciar-se “a favor da vida”, como o fez no fim da campanha. Seria bom ver alguns dos nomes dessa associação recordarem-se desse compromisso na hora de fazer pressões para que as mulheres não engravidem, de decidir ordenados ou despedimentos.
Num âmbito diferente, dois aspectos merecem reflexão: a) outra razão que ajudou ao insucesso do “não” foi o silêncio mediático sobre o trabalho feito pelas associações criadas depois do referendo de 1998 e que têm uma acção meritória de apoio a grávidas, a mães adolescentes e a crianças. Muitos católicos estão empenhados nessas associações, várias delas nascidas à sombra de instituições da Igreja, mas isso é pouco divulgado e conhecido. b) Em 1984, quando a primeira lei sobre o aborto foi aprovada no Parlamento, o objectivo era o de acabar com o aborto clandestino. Oxalá que o país seja capaz, agora, de resolver o problema. Para que, daqui a mais 10 anos, não se esteja a votar num novo referendo.
P.S. – Será lamentável se o PS não legislar no sentido de haver uma consulta de aconselhamento e apoio às grávidas; não foi isso que destacados membros do partido andaram a prometer e o próprio primeiro-ministro garantiu na noite de domingo?

12 February, 2007

Ser vaca na Europa ou pobre no Terceiro Mundo?

Do texto do padre Anselmo Borges no Diário de Notícias de domingo, 11:
 

Quando se fala em fundamentalismo, é no fundamentalismo religioso que normalmente se pensa. Mas há outras formas. Pense-se concretamente no fundamentalismo económico. Já em 2001, ano em que recebeu o Prémio Nobel da Economia, J. Stiglitz, referindo-se sobretudo ao caso do Fundo Monetário Internacional, falava de "fundamentalismo neoliberal". Agora, no seu último livro - Making Globalization Work -, faz notar que mais vale ser uma vaca na Europa do que uma pessoa pobre num país em vias de desenvolvimento. Enquanto as vacas europeias recebem em média um subsídio diário de dois dólares, grande parte da Humanidade tem de viver com menos do que isso.

A globalização é inevitável. Ela é também ambivalente, isto é, tem ganhadores e perdedores. Ela pode levar ao milagre económico e ao descalabro. Mas, como sublinhou o teólogo Hans Küng, é sobretudo importante perceber que ela é "dirigível".
O facto de poder ser orientada significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético: impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes, critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global. (…) 
O que hoje se sabe é que nem o socialismo nem a mão invisível do mercado abriram as portas do paraíso à Humanidade. Assim, à economia de mercado tout court é preciso contrapor a economia de mercado com sentido social e ecológico à escala global. (…)
Continuam a morrer no mundo à fome milhões de seres humanos, o que é intolerável. É um imperativo ético ajudar os países pobres no seu desenvolvimento. Ora, sempre será preferível ajudar no desenvolvimento as pessoas nos seus próprios países a ter de levantar barreiras e muralhas à volta do mundo desenvolvido e assistir à entrada, sem controlo possível, de multidões à procura de uma vida melhor, com todos os efeitos de turbulência inevitável a médio prazo. (…)

 Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários com os países pobres por razões de ética e humanidade, sejamo-lo ao menos por razões de egoísmo esclarecido.

Bem-aventuranças, fonte de alegria

Do texto de frei Bento Domingues no Público deste domingo, 11, sobre as bem-aventuranças, destaca-se:

(…) S. Paulo tinha por médico o evangelista S. Lucas e este fala de Jesus, precisamente, através da figura do médico de todas as doenças espirituais, físicas e sociais, mas implacável com quem não quer ter olhos nem coração para as vítimas das suas políticas e do seu arrogante estilo de vida. Para que não se diga que isso só valia na "era dos milagres", o autor dos Actos dos Apóstolos apresentou a Igreja através de uma comunidade exemplar, sem indigentes, na qual, os bens deste mundo eram distribuídos segundo as necessidades de cada um (Act 4, 32-35). Isto significa que a mudança dos tempos exige imaginação social na utilização de todos os recursos naturais, científicos e técnicos, em todos os sectores da vida, realizando o que a linguagem dos milagres anunciava.

As "bem-aventuranças", segundo S. Lucas, não são palavras de resignação alienante: tu que sofres, aguenta e cala; terás, no céu, uma grande recompensa; e tu, rico que agora te regalas, terás que prestar contas no outro mundo. Quer dizer, tudo adiado…

Ao falar de "bem-aventuranças", o caminho cristão surge como uma fonte de alegria num mundo fechado na tristeza. Porque será, então, que se apresenta sempre semeado de crucifixos?

Desde o começo até hoje, não faltaram as propostas para descrucificar o cristianismo. Paulo de Tarso, judeu e bem instruído na cultura helenista, foi dos primeiros a resistir a essa tentação: “Os judeus pedem sinais e os gregos andam à procura de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado que, para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 22-24). (…)

1 December, 2006

Opinião
Sinais

Há, no modo de agir do papa Bento XVI, aspectos inovadores, cujo significado e alcance o tempo se encarregará de revelar.

De entre eles, destaco dois: o modo como assumiu o seu livro sobre Cristo, recentemente anunciado, e a separação que mostrou querer fazer, na visita à Turquia, entre a sua posição enquanto cardeal Ratzinger  e enquanto papa quanto à possibilidade de aquele país vir a integrar a União Europeia.

Relativamente a este último ponto, é sabido que o então cardeal Joseph Ratzinger manifestou, por mais de uma vez, sérias reticências ao sentido que possa ter o acolhimento da Turquia na UE.  Seguindo uma lógica que não suscitaria, provavelmente, demasiadas resistências, Ratzinger, uma vez eleito papa, poderia procurar impor a sua visão das coisas, reorientando a diplomacia do Vaticano. Não foi essa a via que seguiu. As responsabilidades da condução da Igreja levaram-no a reavaliar a posição a adoptar.

Mais interessante foi o que se passou com o livro de que é autor - "Jesus de Nazaré - do Batismo à Transfiguração" - e que terá escrito nos tempos livres das suas funções papais. O seu porta-voz, além do panegírico ao pensamento teológico do autor, fez questão de sublinhar algo que certamente lhe foi recomendado: que os teólogos eram livres de discutir a obra, visto que ela era publicada pelo papa, certamente, mas não enquanto papa, mas, antes «, enquanto académico e teólogo.

Nos tempos que vivemos, fará certamente sorrir muitos esta distinção entre o que pode e não pode ser objecto de debate. Tudo pode e deve - diria eu - ser questionado, aprofundado, confrontado. Mas enfim! É aí que ainda estamos. Porém, a novidade - creio que notável e relativamente inédita, nos tempos modernos, é que Bento XVI aceite submeter o seu pensamento teológico desligado das suas responsabilidades papais.

É, certamente, um sinal positivo. 

 

Nota complementar:

Este livro - escreve o Papa no prefácio - “non è assolutamente un atto magisteriale, ma è unicamente espressione della mia ricerca personale del ‘volto del Signore’ (Salmo 27,8). Perciò ognuno è libero di contraddirmi. Chiedo solo alle lettrici e ai lettori quell’anticipo di simpatia senza la quale non c’è alcuna comprensione”. 

21 November, 2006

Não-violência, solução para o Médio Oriente (comentário)

A notícia já é conhecida: o exército israelita desistiu de bombardear a casa de um dos líderes dos comités de resistência popular da Gaza (Palestina), depois de dezenas de palestinianos civis terem servido de escudo humano na casa desse combatente. Durante o dia de segunda-feira, muitos continuaram a revesar-se na casa, como forma de evitar o ataque da aviação israelita.
Há muito que se percebeu que a escalada de violência não resolverá problema nenhum no Médio Oriente. Com lideranças adeptas da não-violência em Israel e na Palestina, o caminho da paz seria certamente outro. Rabin entendeu-o quando celebrou o acordo de paz com Arafat e, recordando a Bíblia, gritou: "Há um tempo para a guerra e um tempo para a paz. Este é o tempo da paz. Não mais lágrimas, não mais sangue."
Pode ser que, por um acaso e por causa de um combatente armado, os palestinianos tenham descoberto uma alternativa à violência que os tolhe. Vale a pena recordar aqui João Paulo II, nas vésperas da invasão norte-americana do Iraque: "A guerra é uma derrota da humanidade." A não-violência, prova-se de novo neste pequeno episódio escondido na avalanche noticiosa, pode ser o caminho redentor. Gandhi, Luther King e Nelson Mandela continuam a ser exemplos das possibilidades abertas por essa via. Aliás, em pleno Israel, há nomes que se destacam na defesa dessa via, mas que são sistematicamente obliterados pelos grandes impérios mediáticos: André Charouqui ou Elias Chacour são dois, entre muitos outros. Chacour esteve já nomeado por três vezes para o Nobel da Paz. Perto de Haifa, ele construiu, nas duas últimas décadas, uma escola onde leccionam e estudam judeus israelitas, árabes cristãos e muçulmanos, e druzos. Costuma dizer este homem, bispo da Igreja Melquita desde Fevereiro, que, quando se nasce, não se é judeu nem muçulmano nem cristão. Chacour é um homem frontal com todos, mas adepto acérrimo de um caminho de paz, que também recorda uma coisa óbvia (ou nem tanto): Deus não é cristão, nem muçulmano, nem judeu.
O Médio Oriente continuará, provavelmente, afogado no sangue. Mas vale a pena destacar gestos como o destes palestinianos anónimos. São eles que mostram que outro caminho é possível.
António Marujo