16 October, 2007

“O ouro é para fazer ver que a eternidade é um contínuo movimento”

Filed under: Cultura, Espiritualidade

Esloveno, Marko Ivan Rupnik nasceu em Novembro de 1954, é padre jesuíta e vive desde 1991 em Roma, onde dirige o Centro Aletti, dedicado à arte e espiritualidade. Estudou na Academia de Belas-Artes de Roma e tem-se destacado pelo trabalho em mosaico, premiado internacionalmente. A Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico do Vaticano (1999), é uma das suas obras marcantes. A partir de agora, o mesmo acontecerá provavelmente com o grande painel de 500 metros quadrados, em ouro e terracota, que criou para o altar da Igreja da Santíssima Trindade, onde trabalharam, durante um mês, 20 artistas de oito países e várias confissões religiosas. Em entrevista ao Público e à agência Ecclesia, Rupnik, que é também um autor importante de livros sobre Bíblia e espiritualidade, explica o sentido desta obra apocalíptica. O texto foi publicado dia 12 de Outubro em ambas as edições, utilizando-se aqui a versão integral da entrevista, publicada na agência Ecclesia, onde aliás há um dossiê variado sobre a nova Igreja da Santíssima Trindade.

PÚBLICO/ECCLESIA – Que sentido dá ao grande painel do altar, que espiritualidade está por detrás?
MARKO IVAN RUPNIK – Como ponto de partida tomei dois elementos das aparições de Fátima: a mensagem é uma mensagem apocalíptica. Mas este apocalipse é comunicado, expresso, com uma enorme compaixão, misericórdia e amor pelos mais fracos, ou seja, pelos pecadores. Parto do capítulo 22 do Apocalipse de São João: a praça toda em ouro, com o trono de Deus e do Cordeiro e, dos lados, como se se visse através de uma pequena abertura, os santos como na antiga tradição: à direita do Cordeiro a Senhora, à esquerda João Baptista que apontou Cristo como o Cordeiro de Deus. A Senhora está com Jacinta, Francisco e Lúcia ao lado; depois estão os apóstolos, os santos e os anjos. Há um canto franciscano, com a presença de Francisco [de Assis], Clara [de Assis] e o padre Pio. Do outro lado, está Isabel de Portugal, muito visível, e Madre Teresa de Calcutá. A outra coisa interessante é que nas aparições de Fátima aparece uma grande familiaridade com o céu que hoje, neste mundo, é uma coisa estranha, mas muito importante. Estes miúdos. por exemplo, Lúcia quase desiludida por não ir para o céu, Francisco [que] quer ir depressa. Por isso, tomei em consideração um outro dado importante: na liturgia, há uma convocação universal. Rompem-se o espaço e o tempo, todos somos contemporâneos e sucede uma coisa bonita: no meio está o altar, daqui está a Igreja da história, de lá está a Igreja do céu. Repete-se quase a cena de Fátima: as crianças que têm uma abertura ao céu. Nós estamos do lado das crianças, ainda que não nos encontremos lá, estamos face a face com a Igreja do céu e a Igreja da história.

P. – Artisticamente, teve também uma intencionalidade.
R. – Quis representar um painel de luz. Tomei como fundo o ouro, que já desde João Damasceno [teólogo, 675-749] representa sempre a fidelidade e a santidade de Deus que não falha, uma luz que não se apaga. Com o ouro, basta pouquíssima luz para que brilhe. Toda a matéria de suporte está colocada de tal modo que surge um grande dinamismo, que não é estático. Mesmo para fazer ver que a vida eterna é um contínuo movimento, é uma comunhão, uma convergência, um encontro.

P. – Teve uma grande preocupação em ligar a expressão artística à Bíblia, que nem sempre está presente no fenómeno à volta de Fátima.
R. – Para mim, é importantíssimo. A arte litúrgica tem de ter três pernas para estar em pé. Senão, não se manterá de pé: a Palavra de Deus [é a primeira], que não devo tomar como a compreendo subjectivamente, mas deve haver um eco, uma correspondência na liturgia que pertence a toda a Igreja, não apenas a mim. Ambas estas coisas - a liturgia, a palavra de Deus - se quero compreendê-las bem, devo estar dentro da memória das gerações. A memória, a Tradição, com maiúscula. Tentei fazer algo assim: está a Bíblia (o Apocalipse), está o discurso da liturgia que expliquei, e a composição e uso das cores segundo a memória da Igreja.
Com três pernas já se mantém de pé, mas falta uma quarta, importante: o tempo em que se trabalha, uma abertura ao contemporâneo. Na liturgia há sempre qualquer coisa que não muda e algo que muda com o tempo. É uma dimensão mais ligada à pessoa, ao sujeito, à cultura, ao lugar, ao tempo. Creio que se compreende ali que os meus mestres são também artistas do século XX, como Kandinsky.

P. – Essa é uma perna que nem sempre está presente na arte cristã contemporânea…
R. – Sim, esse é um ponto muito débil. Se [a arte] se baseia apenas na imitação do passado, não diz nada e é sempre uma arte anémica, porque não está atenta à comunicação, está atenta a si mesma. Se se baseia apenas no diálogo contemporâneo, arrisca-se a ficar por diversas emoções imediatas.

P. – É possível perceber uma influência da arte oriental, pelo menos visualmente. Há uma tradição cristã oriental que se torna presente aqui em Fátima. Foi intencional?
R. – Não. Desligando de Fátima, creio que chegou o tempo de uma troca de dons entre Oriente e Ocidente: a arte litúrgica ocidental perdeu-se num subjectivismo que as pessoas já não percebem. A arte oriental perdeu-se numa esclerose e numa fossilização, já não está viva. Quando na história se encontraram estes dois grandes pulmões, foi sempre um bem. Veja-se o que aconteceu na Sicília, Ravena, ou o que fizeram El Greco ou Matisse, o último exemplo. Pessoalmente, procuro sempre ver como poderei, com os olhos de um iconógrafo, pintar com linguagens que eu conheço, contemporâneas, modernas. Não se trata de uma imitação do Oriente, não são ícones.
Por outro lado, penso que em Fátima quase não poderia haver uma arte exclusivamente ocidental, porque Fátima teve esta marca importante de tudo o que respeita a Rússia, ateísmo, comunismo, Leste. Uma influência dos dois pulmões em Fátima é importante. Aliás, basta ver como João Paulo II está ligado a Fátima.

P. – Foi difícil a concepção de uma obra desta envergadura?
R. – Digamos que não foi fácil. O arquitecto Tombazis foi muito exigente, não queria arcos, não queria figuras, só abstracto, não figurativo. Mas como poderia em Fátima, aquela gente de joelhos, chegar a uma igreja e não ver um rosto da Senhora, um santo? Como é possível? Não o imagino. A época que mais estudo como artista, para inspiração, é o pré-românico, o primeiro românico e o primeiro bizantino, no primeiro milénio. Aqui, propus uma figuração a que cheguei depois de muitos anos, uma figuração não agressiva, mas que pôde ser também aceite pelo arquitecto. No final, chegámos a acordo, a uma comunhão. Acabei por fazer algo que nunca tinha feito, pois os meus mosaicos são feitos de pedra, mármore, esmalte, ouro sobre vidro, nunca em ouro e terracota. Foi algo completamente inédito.

P. – Foi muito difícil do ponto de vista técnico?
R. – Sim, foi muito complexo, dado que cada peça do painel passou pelas nossas mãos nove vezes, é um trabalho enorme. Quando, no início, nos fomos distribuindo pelo espaço, era impressionante, parecíamos formigas. É precisa, verdadeiramente, uma força criadora, uma vontade muito forte para não desanimarmos após um mês num ritmo tremendo. O domínio espacial não foi fácil, porque é grandíssimo. Só chegando mais perto percebemos: 500 metros quadrados…

P. – O painel dominará visualmente o ambiente do altar, mas tem a companhia de uma cruz de 7,5 metros, em bronze. Os dois elementos convivem bem?
R. – Sim, teologicamente, deveria ser perfeito, porque primeiro está o crucifixo e depois o Cordeiro da vitória. Neste momento, o Cristo está um pouco baixo, sobretudo para o celebrante, é enorme e muito escuro, tem um certo peso. Apesar disso, sobre um fundo dourado, luminoso, emergirá ainda mais. Não sei se as pessoas vão olhar mais para o crucifixo ou para o Cordeiro, a Senhora, os santos que estão por trás…

António Marujo (Público) e Octávio Carmo (Ecclesia)

1 October, 2007

António Lobo Antunes

Filed under: Cultura

A literatura e a morte foram alguns dos temas de uma entrevista com o António Lobo Antunes, que o Diário de Notícias publicou ontem. Nela, o escritor falou também sobre Deus.
Aqui ficam alguns extractos:

Como contrariar a morte?
Ela corre mais depressa do que qualquer um de nós e a única coisa que posso fazer para contrariar é escrever, a única duração que posso ter é a que os livros tiverem. E aborrece-me que seja assim, é injusto que seja assim, embora haja momentos em que todos nós desejamos morrer, de desânimo e solidão. Há momentos em que quase temos inveja dos mortos porque a vida nem sempre é agradável e fácil mas, agora depois de ver as pessoas lutarem no hospital, senti que muitos pensamentos que tinha eram indignos perante tanta grandeza.

Isso alterou a sua forma de ser?
Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.

Qual é a sua atitude perante Deus?
Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.

Como é essa relação?
É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo… Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.

Então à noite também acredita?
Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me será que existe? É óbvio que sim.

Recentemente foram reveladas as dúvidas de madre Teresa sobre a sua própria fé…
Todos os teólogos as tiveram, Sto. Ambrósio dizia "não busco compreender para crer, creio para compreender"; Sto. Agostinho esteve cheio de dúvidas toda a vida e o Sto. António… O mesmo se passa em relação aos livros, pergunto-me será que isto está bem feito? Não é esta palavra ainda, será que é possível fazer aquilo que eu quero fazer ou será demasiado ambicioso?

O título do seu último livro vem da Bíblia?
Estava a passear no Evangelho e apareceu-me. Foi a primeira vez que fui à Bíblia, não tinha título nenhum, não sabia como havia de o chamar e de repente tropeço naqueles versículos do Evangelho de São Lucas e pensei: é isto.

3 April, 2007

Por que acreditam em Deus os filhos de Abraão (VII, último)

Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento do padre José Tolentino Mendonça – Católico, doutorado em Teologia Bíblica, é professor do Departamento de Estudos Bíblicos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e director da revista de teologia Didaskalia. É também poeta, ensaísta e tradutor

A fé é experimental, dá-nos e pede-nos tudo

Importante não é ajudar a demonstrar, mas a ver. Melhor do que análises sofisticadas para provar, numa sala escura, a excelência das cores, é abrir uma janela que aproxime a  luz e, assim, a visão das cores se torne possível. A fé não está do lado dos enunciados: é experimental, incita à construção de narrativas, coloca em relação. Os que vivem o risco e a alegria de acreditar, porventura balbuciarão perante os porquês. Podem testemunhar razões, mas sentem-se incapazes de circunscrever a razão. O coração humano, contudo, precisa desse “não sei quê”, que depois o Espírito socorre “com gemidos inefáveis”, como lembra São Paulo. O teólogo católico Romano Guardini dizia que “a fé é uma tipologia do olhar”. Ela representa, talvez, a mais extrema e a mais modesta das organizações do olhar, porque ao mesmo tempo que nos dá tudo, nos pede tudo. A fé inscreve o olhar humano no ponto de vista de Deus. Nesse sentido, constitui a possibilidade inédita de um olhar total: abarcando o provisório e o eterno, o exterior e o interior, o recôndito e o próximo, o eu e o outro, o visível e o invisível. Como é vasta a vida contemplada do monte para o qual Abraão, e cada um dos crentes, é chamado a subir! Mas também lhes é pedido que esta visão se realize na itinerância radical do olhar, na sede e no desejo, na abertura mais do que na certeza, na confiança em vez de confirmações, no reconhecimento do silêncio de Deus como epifania de Deus. Sem esquecer que a fé, imperscrutável dom, chega através do caminho diverso e inesperado. Habituei-me a repetir uma oração que Paul Claudel escreveu: “É justo, ó Deus, que vos peça por Artur Rimbaud, sem o qual os meus olhos não se teriam aberto para o vosso Rosto”.

Por que acreditam em Deus os filhos de Abraão (VI)

Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de Ivan Moody – Ortodoxo, nasceu em Londres em 1964. Estudou música e teologia, e é actualmente presidente da Sociedade Internacional de Música Ortodoxa. Tem servido como cantor na catedral russa de Londres e nas paróquias grega e búlgara de Lisboa

Não posso dizer por que acredito

Posso dizer, com toda a honestidade, que sempre tive fé. Percebo que para outros não é assim, mas nunca duvidei da existência ou da bondade de Deus. (É claro que isto não quer dizer que na prática da Ortodoxia eu seja perfeito – são duas questões distintas.) Por isso, de certa forma, não posso dizer por que acredito em Deus, embora também pudesse responder que nunca poderia acreditar que o complexíssimo e belíssimo milagre da criação do Universo e da vida fosse um mero acaso. Quanto às descobertas científicas, até agora não vi nenhuma que pusesse em causa a minha fé; admiro o trabalho dos cientistas, e, longe de ver a minha fé contradita nele, vejo uma confirmação – e que seja claro que não me refiro aqui a literalismos como acreditar em oito dias (como nós os ordenamos) para a criação do mundo. No cepticismo vejo mais perigo – embora, mais uma vez, eu pessoalmente tenha sempre conseguido resistir –, pois é muito fácil sobretudo para um jovem, ainda a absorver o mundo à sua volta, ser infectado por um não-crente, mesmo que cresça num meio religioso. É claro também que hoje em dia este fenómeno é reforçado não pelo secularismo dominante – eu acredito na separação do estado e das instituições religiosas –, mas pela “correcção política”, que faz com que, por exemplo, em certas zonas dos Estados Unidos não se  possa ter o símbolo da Cruz, enquanto símbolos judaicos e muçulmanos são aceitáveis. Se me perguntar “mas não pode provar a virgindade de Maria ou a acção histórica do Logos, pois não?”, então é óbvio que vou ter de responder que não. Mas é a pergunta errada, pois parte da necessidade de uma prova científica segundo o modelo supostamente moderno da ciência. A fé começa noutro sítio, num complexo que é capaz de integrar uma visão cósmica e o destino do homem, essa criatura profundamente doxológica.

Por que acreditam em Deus os filhos de Abraão (V)

Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de AbdoolKarim Vakil - muçulmano, é professor de História Contemporânea no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, tendo trabalhado sobre as representações do Islão e muçulmanos no imaginário português.

Não é acreditar, mas testemunhar Deus

Suponho que entendo a lógica que adivinho por trás da pergunta: sendo que Deus é objecto e fundamento da crença, querendo compreender os crentes que pergunta poderia ir mais directamente ao âmago da questão? Reconheço-lhe o intuito bem intencionado de abrir um jorro de luz sobre o universo da crença, mas é um abrir sobre, que não é um abrir-se a. Pede respostas mas não aprende primeiro que perguntas fariam sentido. (…) A pergunta afigura-se-me problemática por quatro razões. Primeiro, por assumir que as religiões são religiões todas da mesma forma; que a questão da crença, o lugar do credo e das doutrinas, e o “acreditar” em Deus têm a mesma relevância, para já não dizer o mesmo sentido e função, em cada uma das religiões e para os seus crentes. No entanto, o que define o muçulmano não é acreditar em Deus, mas testemunhar Deus. Depois, porque privilegia a crença sobre a prática; o discurso, o intelectualismo, as razões e fundamentação da “crença” por sobre outras formas de conhecimento do Divino; do experienciar, e quotidianamente testemunhar, louvar e implementar a Vontade de Deus; privilegia a palavra sobre o gesto (…). Em terceiro lugar, porque não reconhece que a relação com Deus se vive na relação com os outros em sociedade; na obrigação, no serviço, na solidariedade com os outros o acreditar se vive no creditar. Menos generosamente, por último, suspeito na pergunta o que ela reflecte da intolerância do tempo que é o nosso, traduzida numa atitude de provinciana e arrogante curiosidade perante o exotismo e atavismo de ‘como se pode [ainda] ser crente?’ Trai algo do  pressuposto ideológico da normatividade epistemológica da não-crença. Sendo que é o crente que se reveste do artifício da crença; ao crente compete justificar-se ou explicar-se.

25 March, 2007

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (IV)

Este é o depoimento de Silas Oliveira, a propósito do ciclo da Culturgest, e que foi publicado há duas semanas no Público.

É no texto bíblico que escutamos o apelo

Silas Oliveira – Protestante, nasceu em 1945 na Guarda, onde o pai era pastor da Igreja Baptista local. Licenciado em Filologia Românica, tem trabalhado como jornalista e  assessor de imprensa. Vive a sua fé na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa 

Em última instância, a minha fonte de fé, realmente, é o texto bíblico. É no testemunho dos povos que o viveram e o escreveram, que foram interpelados por ele – e, por fim, na vida e na palavra do Verbo que “habitou entre nós” (Ev. João 1:14) – que podemos continuar a escutar esse apelo de um Deus que fala, e nos propõe uma aliança e uma reconciliação (com Ele e entre nós). Pode parecer um alicerce frágil, ou demasiado subjectivo, mas a Bíblia é um texto surpreendente, que tem sobrevivido até mesmo às nossas teologias mais desastradas. A sua proposta essencial é sólida e continua a fazer sentido. A cultura está sempre a sugerir-nos deuses “concorrentes”, que não têm esta dimensão. Os ateísmos oficiais desembocaram em regimes “teocráticos” à sua maneira, erigindo ídolos que esmagam a nossa condição humana. O Deus “derrotado” mas disponível do Cristianismo bíblico, o que encontramos no “sermão da montanha” (Ev. Mateus 5-7), dá espaço, deixa respirar, converte-nos pela persuasão. A questão de fundo no Cristianismo (como, antes dele, no testemunho dos profetas hebraicos) é que  acabamos por ter de escolher, e só esse Deus verdadeiro nos salva do culto dos deuses a fingir – que se torna sempre um culto de sacrifícios humanos.

22 March, 2007

Bento XVI, Habermas e a razão

Filed under: Papa, Cultura, Europa

Através do blogue de Isabelle de Gaulmyn, jornalista correspondente de La Croix em Roma, tomei contacto com a continuidade do debate sobre as proposições de Bento XVI, sobre a fé e a razão, aquando do seu discurso em Ratisbona, em Outubro último. No mês passado, em artigo publicado num jornal suiço de expressão alemã, o filósofo Jurgen Habermas, que já em 2004 tinha protagonizado um debate com o então cardeal Ratzinger, apontou algumas críticas que segundo ele, o discurso do papa lhe suscitava. A resposta, curiosamente, acabou por chegar do cardeal e teólogo Ruini, que recentemente deixou a presidência da Conferência Episcopal Italiana.

Os documentos de referência para este debate são os seguintes: 

21 March, 2007

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (III)

A criação da vida não pode ser obra do acaso - Samuel Levy

Este é o terceiro texto dos depoimentos publicados no dia 11 de Março, no Público (ver mais abaixo), a propósito do ciclo na Culturgest.

Judeu, nascido em Lisboa a 7 de Julho de 1929. Foi presidente do Centro Israelita de Portugal de 1955 a 1957 e da Comunidade Israelita de Lisboa nas décadas de 50 e 60, e mais tarde de 2000 a 2002

Em primeiro lugar: a Fé é uma convicção que, por definição, não carece de explicação racional. Apesar disso posso dizer que acredito em Deus, porque sinto (e até reconheço  racionalmente) que a criação do Universo e o seu funcionamento, a criação da Vida na Terra, em especial da vida humana, são de tal complexidade e harmonia que não podem ser obra do acaso. Não consigo acreditar que tudo isto seja obra do acaso. Acredito serem criações resultantes de uma vontade superior que também as faz funcionar  segundo leis precisas necessárias e suficientes. Acredito num Deus (seja o que isso significar), como dizia Moisés Maimonides – 1135 ou 1138-1204, nasceu em Córdova e está enterrado em Tiberíades (Israel) –, Ser Primordial, infinito, incorpóreo, sem composição, eterno e único. De modo algum [é difícil ter fé hoje]. Sobretudo no caso da religião que professo – o Judaísmo – em que a definição de Deus que dei acima é clara e me parece absolutamente evidente. Aceito que haja cépticos que não consigam acreditar, mas que também não têm qualquer alternativa de explicação. Conforme referi na minha conferência na Culturgest, “pouca ciência afasta de Deus, muita ciência aproxima de Deus” (Einstein?). Quanto mais descobertas científicas mais admiração se tem pelas maravilhas da Criação. O Judaísmo não tem dogmas e não aceita a divinização de nada (nem coisas, nem seres vivos ou mortos). Deus é único.

18 March, 2007

19 de Março, o dia do pai

Na sua coluna de domingo no DN, o padre Anselmo Borges fala da figura do Pai, a propósito do seu dia, e das imagens de Deus.

O génio de Kant não estaria num dos seus momentos mais altos, quando, num texto célebre, pôs esta pergunta na boca de Deus: "Não conseguimos libertar-nos deste pensamento, mas também não podemos suportá-lo: que um ser, que nos representamos como o supremo entre todos os possíveis, de certo modo se diga a si mesmo: ‘Eu sou de eternidade em eternidade, fora de mim não existe senão o que existe por minha vontade; mas então donde venho eu?’ Aqui, tudo se afunda debaixo dos nossos pés."
Há realmente uma pergunta vertiginosa, que constitui um abismo para a razão humana: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Mas essa é uma pergunta do Homem e para o Homem, não de Deus e para Deus. Deus não pergunta, porque é Deus. O animal não pergunta, porque é animal. A pergunta é própria do Homem, e a razão é que ele é ao mesmo tempo finito e abertura ao infinito. Perguntar é constitutivo do Homem, e a pergunta radical é precisamente: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Porque ao mesmo tempo que se manifesta esconde-se - revela-se e oculta-se simultaneamente.
Na tentativa de balbuciarem algo sobre o Mistério último da realidade, a fé e a teologia cristãs falam de Deus como comunhão de diferentes - Pai, Filho e Espírito Santo -, sendo o Pai o Princípio sem princípio, a Fonte originária, Criador de tudo o que existe e Mistério abissal, invisível e inexprimível. Ele diz-se no Filho, que é o Verbo, a Palavra do Pai, e o Espírito Santo é o Amor que une o Pai e o Filho.
Pai é alguém que está na origem de, algo ou alguém que é força criadora do novo.
O pai humano é criador - com-criador, juntamente com a mãe (o óvulo feminino só foi descoberto em 1827) - de um ser livre. E isto é misterioso. O mistério é este: como pode um ser humano estar na origem de um ser livre? Neste sentido, Kant escreveu: "É impossível compreender a produção de um ser dotado de liberdade por uma operação física. Não se pode nem mesmo compreender como é possível Deus criar seres livres; de facto, parece que todas as suas acções futuras deveriam ser predeterminadas por esse primeiro acto e compreendidas na cadeia da necessidade natural e, consequentemente, elas não seriam livres."
Não basta, porém, criar fisicamente. A palavra pai (Vater, papa, father, padre…) talvez tenha como étimo o indo-europeu "po(i)", com o sentido de proteger, defender. Criar é educar: alimentar, física, psíquica, cultural, social, espiritual e religiosamente, ajudar a vir à luz da consciência um novo ser humano único e irrepetível em relação. Há pais que investem na carreira e no dinheiro, esquecendo que a obra mais importante são os filhos.
Base da educação é o afecto e o amor sem condições, para que a criança cresça segura. Sem esse amor, não haverá confiança nem em si nem nos outros nem na realidade, de tal modo que o que poderá sobrar é a violência da destruição: como amar, se não se foi amado, como entregar-se confiadamente à construção de si e do mundo, se a confiança de base não foi assegurada e a realidade apareceu, desde o início, desfavorável e agressiva?
Em ordem à constituição e desenvolvimento harmónico da pessoa, a tradição psicanalítica sublinhou a importância determinante da figura da mãe, mas fê-lo igualmente em relação ao princípio antropológico do pai, independentemente das suas concretizações históricas nas diferentes sociedades e épocas. A figura do pai é fundamental para a necessária ruptura da unidade íntima, quase não dual, de mãe-filho/filha. O pai representa o transpessoal e social e, portanto, a disciplina, o direito, a autoridade, a consciência dos limites, a coragem para o sacrifício. A criança que não aprende que há regras e limites torna-se anárquica e com pretensões de omnipotência.
O teólogo Leonardo Boff, numa obra inesperada: São José. A Personificação do Pai - não se esqueça que o Dia do Pai está ligado à festa da Igreja em honra de São José -, para sublinhar as consequências dramáticas da ausência do pai para os filhos e filhas na actual sociedade de enfraquecimento do pai e até do seu eclipse, apresenta estatísticas oficiais recentes dos Estados Unidos: 90% dos filhos fugidos de casa, 70% da criminalidade juvenil, 85% dos jovens nas prisões, 63% de jovens suicidas provinham de famílias sem pai ou onde o pai era ausente.
Também no domínio religioso é reconhecida a importância da imagem da figura e das experiências com o pai e com a mãe para a imagem que se tem de Deus.

Análise evolutiva da religião

No seu artigo do Público de hoje, frei Bento Domingues fala de algumas recentes iniciativas que têm sido realizadas em Lisboa a propósito do fenómeno religioso.

Dizia-me, há dias, um amigo pouco devoto: já só falta Deus aparecer, em directo, na televisão. É verdade que este ano, em Lisboa, devido às questões levantadas pela religião, além da boa figura que tem feito em alguns livros notáveis, Ele tem sido muito falado em lugares onde se julgava que não era especialmente apreciado.
De 29 de Janeiro a 4 de Março, todas as semanas, muitos “descendentes de Abraão” (judeus, cristãos e muçulmanos) foram à Culturgest partilhar impressões e razões da sua fé monoteísta. Cientistas e fi lósofos estiveram, nos dias 12 e 13, na Gulbenkian para fazer a Análise evolutiva da religião. Ontem e anteontem, a Comissão da Liberdade Religiosa marcou, no Centro Ismaeli, um colóquio com o tema A religião fora dos templos. O Grande Oriente Lusitano vai organizar, a 5 de Maio, um encontro sobre Religiões, violência e razão.
Acerca do que se passou na Culturgest António Marujo já deu conta do seu alcance aqui no PÚBLICO. O Encontro da Gulbenkian teve outro conteúdo e seguiu outro método. Apesar do pequeno espaço de que disponho, quero destacar – com palavras dos conferencistas – a grande importância do tema e a responsabilidade académica que ele assumiu.
David Sloan, da Universidade de Binghawton (EUA), o primeiro conferencista, realçou  uma mudança significativa na abordagem da religião. Se durante quase todo o século XX, a teoria evolutiva esteve apenas confiada às ciências biológicas, hoje os temas geralmente  associados às ciências humanas e humanidades passaram também eles a ser analisados  numa perspectiva evolutiva. Para esta tendência, o estudo da religião, assim como os seus vários elementos podem ser estudados do mesmo modo que os evolucionistas investigam as  várias características das espécies humanas e não humanas.
Para Keith Parsons, da Universidade de Houston (EUA), existem várias evidências de que a religião se apresenta como um fenómeno natural. É actualmente objecto de investigação  científica e de tentativas de explicação através das neurociências e da biologia evolutiva. Estes avanços têm uma enorme relevância para as apologéticas teístas, isto é, para o esforço de mostrar que a fé teística é totalmente fundamentada ou racionalmente justificada. Alvin Plantinga, talvez o mais avançado dos actuais filósofos da religião, argumentou que os  seres humanos possuem uma faculdade cognitiva natural que, ao operar de acordo com a sua função, e em circunstâncias apropriadas, nos providencia um sensus divinitatis, ou seja, uma sabedoria básica e fundamentada acerca da realidade de Deus. Keith Parsons  examinou, na sua conferência, o impacto das mais recentes descobertas sobre as origens evolucionistas da religiosidade.
Para Lewis Wolpert, do University College de Londres, os seres humanos são diferentes de todos os outros animais por possuírem crenças causais acerca do mundo físico. As crianças têm estas crenças desde muito cedo. Por contraste, os chimpanzés têm uma ideia muito limitada acerca das relações de causa-efeito de base física. A vantagem evolutiva para os seres humanos foi a habilidade para construir ferramentas e foi esta tecnologia que levou à evolução humana. Quiseram perceber as causas das coisas que afectavam as suas vidas. Um Deus semelhante ao ser humano providenciava uma resposta clara e era vantajoso. Esta foi a origem de muitas religiões.
Richard Sosis, da Universidade Hebraica de Jerusalém, centrou-se no debate dos  investigadores que estudam a religião em perspectiva evolutiva, tentando saber se ela é ou não adaptativa. Os adaptativos demonstraram duas vantagens primárias: promover a cooperação no grupo e reduzir o stress. R. Sosis discutiu as principais teorias e dados empíricos que as suportam. Apontou caminhos possíveis à investigação futura que os investigadores evolutivos deveriam explorar para resolver adequadamente o debate adaptativo.
Depois das verosímeis explicações evolucionistas das crenças religiosas – no momento em que escrevo ainda não me posso referir ao colóquio sobre a A religião fora dos templos –, quero sugerir uma visita à parábola “do filho pródigo” (Lc 15) que é lida hoje na Eucaristia. E apresentada na Bíblia de Jerusalém como “O Evangelho dentro do Evangelho”. Com toda a razão. Esta peça literária é uma novidade impressionante no panorama da experiência religiosa sempre que as práticas das Igrejas cristãs a esquecem, em vez de evoluírem, regridem para os critérios da moral convencional e para a prisão de rituais sem sentido.
A parábola supõe que, para Jesus, um Deus que não respeitasse a liberdade dos seus filhos, nem fosse compassivo, não seria Deus. E sem liberdade não é possível ser humano, nem religioso. Nesta parábola, Deus é a casa da festa para todos os que regressam do mundo onde se perderam da alegria.

A sérvia ex-jugoslava ensina na escola portuguesa como se faz mussaca

Filed under: Cultura, Europa, Portugal

Na edição de hoje do Público, sai uma reportagem que escrevi sobre um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados que, com a participação de uma actriz imigrante, envolve 40 estabelecimentos de ensino; o objectivo é sensibilizar os alunos para a questão das migrações. Uma gala do projecto decorre hoje à tarde no Colégio São João de Brito, em Lisboa.

E a mussaca? Ah, a mussaca! Alguém sabe como se cozinha a mussaca? "Pega-se numa cebola e corta-se cebola aos pedaços - tac, tac, tac. Nem muito grandes nem muito pequenos. Pega-se numa panela com bocadinho de óleo. Põe-se cebola no óleo e faz-se um refugiado. Perdão, um refogado." Primeiros risos.
Natasha Marjanovic, actriz sérvia (ex-jugoslava, corrige, mas já lá vamos) há sete anos radicada em Portugal, está numa turma de 10.º ano do colégio St. Peters, em Palmela, a participar numa acção de sensibilização sobre os imigrantes. Ao fim de hora e meia, os alunos são surpreendidos com a troca: a "técnica de uma empresa de inquéritos", como Natasha se apresentara, deu lugar à actriz que passa receitas culinárias, encena o cozinhado, toca acordeão e põe alunos a dançar.
A receita da mussaca, prato típico sérvio, continua (ver caixa). Antes de desvendar quem é, Natasha pega num acordeão. Cresce a perplexidade dos alunos. Um convite: "Vou ensinar uma dança tradicional." Cristina Pessanha, que integra o projecto Bem-Vindos à Nossa Terra, dança com dois alunos. "Um dia vão embora os pássaros/ e as ruas vão ficar sem sol./ Um homem vai despedir-se de uma mulher/ e muito tempo, no vento, vai ficar sozinho."
A iniciativa é do JRS - Serviço Jesuíta aos Refugiados, organização ligada aos padres da Companhia de Jesus. No início, Cristina explica, com imagens: "190 milhões de pessoas residem num país diferente daquele em que nasceram." "Eu sou um deles", ouve-se do fundo da sala. Pedro, 15 anos, nasceu em França quando os pais lá trabalhavam.
Natasha bate à porta, pergunta se é ali a aula sobre migrações. "Sou da empresa Igualdade Para Todos, falei com o professor." Sim, sim. Alguns risos - o sotaque? -, mas não se pressente desconfiança. Chama-se "teatro de infiltração" e envolve 40 escolas das regiões de Lisboa, Porto e Setúbal. "Pensam que estou a fazer entrevistas", explicara antes a actriz. "Eu vou interrompendo, troco o nome à Cristina, só no fim a dúvida acaba."
Bombas em Belgrado
Cristina passa os slides do computador. As origens das migrações podem ser várias. Alguns alunos intervêm. Há guerras, pessoas discriminadas. Primeira interrupção: "Eu, por exemplo, venho de um país de leste, onde dominava um regime comunista. Lembro-me de me terem levado de noite para baptizar. No Natal, só havia almoço melhorado em casa da avó, como se fosse um encontro casual."
Variam as formas das migrações. Voluntárias, forçadas, legais, ilegais. "Eu sou refugiada? Tinha de ter provas. Em 2004, 105 pessoas pediram asilo em Portugal. Quantas tiveram? Duas. Em 2005 já mudou tudo: cinco conseguiram. Tem que ter prova. Eu estava em Belgrado quando houve bombardeamentos da NATO. Tinha de ir pedir: "Senhor, assine aqui, para eu ter prova de que está a bombardear."" Os alunos entram no jogo, riem, acenam, a perturbação inicial dá lugar à participação.
Natural de Sarajevo, na Bósnia, filha de pais sérvios, Natasha casou com um croata. Com a guerra, marido e irmão ficaram em campos opostos. Por isso, diz que é de um país que já não existe: a Jugoslávia. Fugiu para casa dos pais em Belgrado, as bombas empurraram-na para Portugal.
Os imigrantes são contribuintes e têm direito a ir a um centro de saúde, mesmo ilegalizados. "Porque é tão difícil legalizar?" - pergunta Pedro. Natasha já centra a discussão: "Há gente que não existe, não tem documentos." Maria, muito activa, pergunta como chega comida aos refugiados. A Europa, recorda uma frase de Kofi Annan no ecrã, não está a cumprir os seus deveres: África é o continente que mais protecção dá aos refugiados. Portugal tem pouco mais de 400 mil imigrantes; espalhados pelo mundo, há 4,5 milhões de portugueses. "É razão para respeitarem dez vezes mais os imigrantes." E não respeitamos? "Não oferecem ajuda à primeira, mas depois fazem tudo o que se pede." A resposta de Natasha recorda os primeiros três dias de solidão. Quebrada por um cesto de cerejas do senhor Joaquim.
Natasha gosta do país que a acolhe: "Vocês têm um país bonito, não dão valor, eu fiquei porque estou nove meses com sol." A mussaca, a dança, a campainha para o final da aula. Pouco antes, diria o que não gosta em Portugal, que reparou por causa da escola das filhas: "Não lêem Tolstoi, não lêem nada. Leiam, leiam."
A dança terminava assim: "Um dia cada um vai atrás da sua vida/ no fim, só, o coração diz:/ eu vou voltar!/ Agora, adeus./ E quem sabe quando…/ E quem sabe onde…"

Mussaca para quatro pessoas

A mussaca precisa de 1 kg de beringelas, 400 gramas de carne picada, duas cebolas grandes, dois dentes de alho, queijo ralado e molho bechamel (ou um iogurte natural e três/quatro ovos batidos). Enquanto se faz o refogado (ver texto principal), está outra panela a "fazer glu glu - o que é isto? Água a ferver, à espera de quê? Da beringela."
"Pegas na beringela e pluc, colocas dentro dessa água, em cima da cebola. Pegas na carne picada, de qualquer animal que encontres no caminho, juntas sal, pimenta e pegas numa travessa grande, para toda a gente comer. Quanto mais gente houver, mais saborosa é a mussaca. Colocas uma camada de beringela, outra de carne picada, uma de beringela, outra de carne, outra de beringela. Abres o forno, colocas a mussaca e não perdes tempo: três, quatro ovos, iogurte natural, um bocadinho de sal. Abres o forno, regas a mussaca, devolves ao forno. Ah!, já cheira a mussaca!"
O projecto Bem-Vindos à Nossa Terra tem hoje um ponto culminante com uma gala que inclui uma peça encenada por Natasha Marjanovic. É no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, a partir das 17h00 (entrada livre).

11 March, 2007

O gosto da Igreja

Chama-se Salve Regina e é o painel que agora decora o altar-mor da cripta do Santuário do Sameiro. Nele, pode ver-se uma cena em que está presente Nossa Senhora do Sameiro (à direita) e, entre outros, o cónego Melo (à esquerda, hélas). A coisa está a dar polémica como contou na sexta-feira e no sábado o Jornal de Notícias.

Sobre o assunto, publiquei hoje, no Diário do Minho, o texto seguinte:

A propósito de um quadro do Sameiro

No domínio do gosto artístico, digamos assim, a Igreja, em Braga, parece viver em dois mundos. Um é o que aprecia pinturas como a que está na basílica do Sameiro – que o Jornal de Notícias exibiu, na sexta-feira, na primeira página – que apresenta uma cena em que estão Nossa Senhora do Sameiro e, entre outros, o Papa João Paulo II, o arcebispo primaz, D. Jorge Ortiga (que, dizia o jornal, não conhecia a obra) e o cónego Melo. O outro mundo é o que anima o blogue O Bom Pastor – Formação do Clero da Arquidiocese de Braga (http://o-bom-pastor.blogspot.com/) onde, há dias, se podia ver The Stations of the Cross, de Barnett Newman (e onde, regularmente, se podem ler textos de enorme qualidade).
O primeiro mundo é o do mau gosto; no segundo, regista-se uma atenção ao que de mais significativo a arte contemporânea oferece. Estes dois mundos estéticos são, evidentemente, incompatíveis. Quem quiser compreender por que é que o são e, já agora, por que é que uma obra como a que está no Sameiro é de tão mau gosto pode ler com grande proveito o instrutivo O Mau Gosto e a Piedade Cristã (Lisboa: Aster, 1960), da autoria de Richard Egenter.
Poderia referir-se bibliografia mais actualizada, mas este livro fala com particular autoridade (nestas coisas, nunca fiando…), embora seja certo que alguns apenas apreciam a autoridade quando a autoridade são eles. Fala, em todo o caso, com a autoridade de estar incluído numa colecção, a Éfeso, que não suscitará qualquer desconfiança relativamente à conformidade em relação ao respeito pela ortodoxia religiosa, e de ter o imprimatur de um arcebispo-bispo, o de Coimbra.
“O mau gosto será pecado?”, pergunta o autor na primeira linha do prólogo. “Pessoas há que se limitarão a sorrir, perguntando por sua vez: a estupidez será um pecado? A voz do povo fala de estupidez culpada. Também há um mau gosto culpado”, afirma Richard Egenter, que julga, aliás, que o mau gosto produz um efeito mais nocivo do que as “manifestações escandalosas”. O mau gosto é mesmo considerado culpado do afastamento de muitas pessoas da Igreja.
“Talvez fosse necessário em primeiro lugar o panfleto, a ironia cortante, para desmascarar a inércia do espírito e a mediocridade do gosto. Aqui, onde o demónio cultiva a seu modo a homeopatia e mistura em pequenas doses a mediocridade moral com empreendimentos de ‘boa finalidade’, talvez as palavras fustigantes devessem sacudir todos aqueles que não vêem e, na sua indolência, não querem ver que no mau gosto não residem apenas problemas de estética. O mau gosto vai afectar o homem, a sua saúde moral e a sua salvação”, diz Richard Egenter, que, como é óbvio, não se estava a referir ao tal quadro que está no Sameiro.
Poucas páginas adiante, o autor dá uma resposta a uma questão óbvia: “Que vem a ser mau gosto?”, uma resposta, aliás, bastante simples, mas eficaz: “diremos apenas que é uma obra com pretensões a artística, embora não consiga atingir o nível desejado”. Richard Egenter não deixa de dizer que a definição é algo vaga, para, assim, excluir do lote de produtos de mau gosto certas obras, como os quadros votivos antigos, que podem sofrer de uma ou outra imperfeição.
Num dos capítulos de O Mau Gosto e a Piedade Cristã, Richard Egenter faz um convite: “trabalha, artista, e não tentes catequizar”. É que, sublinha, “a verdade é que o artista não é nem moralista nem pedagogo”. No melhor dos casos, observa ainda o autor, uma obra pode ter valor artístico apesar de possuir finalidades pedagógicas ou moralistas, mas nunca o possui em consequência dessas finalidades.
De resto, “o artista não tem obrigação de tomar algo de moralmente bom para objecto da formação artística”. Realmente, “os objectos amorais e imorais também se contam entre os possíveis para uma finalidade artística”. O que é decisivo é “o modo como o artista trabalhar esses motivos e lhes der forma”.
A este propósito, Richard Egenter dá como bom exemplo A Estrada, um dos mais conhecidos filmes de Federico Fellini: “O realizador apresenta uma atmosfera na qual nos parece não existirem Deus nem leis morais. E, no entanto, depreende-se do filme o poder dos valores pessoais, a convicção de que aquele mundo também se encontra aberto a uma realidade superior, no desabrochar da rapariguinha em mulher amorosa e altruísta, com o desejo intenso de poder significar algo de querido para uma pessoa qualquer”.
Mas talvez seja pouco provável que quem gosta dessa peça kitsch, que é o quadro do Sameiro, compreenda o exemplo; e é certo que o compreende quem descobriu The Stations of the Cross, de Barnett Newman. É que o gosto de cada um, como se sabe, também diz muito sobre a sua capacidade de compreender e de descobrir.

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (II)

A longa viagem que “inventou” o monoteísmo

A acompanhar os depoimentos dos cinco crentes abraâmicos, escrevi no Público de hoje um texto sobre a viagem de Abraão.

Andrei Rubliov, A Hospitalidade de Abraão, 1411 

Referência fundadora para judeus, cristãos e muçulmanos, não se sabe se Abraão é a personificação de um clã ou uma personagem concreta. Mas sabe-se, sim, que a sua aventura mudou a História. A ele se deve o início do monoteísmo.

No princípio, foi um mito, personificação de um grupo ou uma personagem concreta? Viveu há 1500 anos ou mais? Ao aceitar uma proposta de aliança com Deus, Abraão mudou a história. Deixou o culto politeísta da sua tribo e intuiu, “inventou” o Deus único. A sua viagem mudou a História. Tornou-se a referência inaugural para judeus, cristãos e muçulmanos.
Naquele tempo, seria uma viagem quase impossível. Seis mil quilómetros a pé e com animais de carga, um clã inteiro pelo deserto, entre territórios hostis: de Ur, na Suméria (actual Iraque), até Canaã (onde está Israel), passando por regiões que hoje constituem a Síria, a Turquia, o Egipto, a Arábia Saudita.
Singular foi também a viagem espiritual deste homem: alguém que se põe a caminho, escuta uma promessa, que se torna “amigo de Deus”, espera pacientemente um filho, exercita a hospitalidade e intercede pelos condenados. E que, no fim, ainda é posto à prova: conseguirá abdicar do bem mais precioso, a vida do filho que tanto tardara? Nesta aventura, vêem a Bíblia e o Alcorão a Aliança fundadora da relação entre Deus e a humanidade. A Bíblia narra a história, o Alcorão interpreta a vida do patriarca na revelação de Deus.
Pier Giorgio Borbone, professor de Língua e Literatura Hebraica em Pisa, evoca (Abramo Padre di Tutti i Credenti, ed. ETS, Pisa, Itália) a “relação específica e única” entre Abraão e Deus. Uma proximidade intensamente pessoal. Os judeus invocam o Deus “de Abraão, de Isaac e de Jacob”, um Deus único evocado na pluralidade. Tal como no Alcorão, onde Ibrahim (o nome árabe) é referido 69 vezes (apenas Moisés é mais citado): “Cremos em Deus, no que nos foi revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacob e às tribos.” Sintetiza Borbone: “Íntimo de Deus, eleito e destinatário da promessa.”
Abraão, este nome evoca uma promessa. Há dúvidas quanto às datas – foi há 3500 anos? há cerca de 4000? – mas a maioria dos investigadores aponta um tempo algures por volta do século XVIII a.E.C. (antes da Era Comum). Abraão vive em Ur com o seu clã. Ur é, na época, o centro económico e cultural da Mesopotâmia, pouco mais de 10 mil pessoas num porto à beira do Eufrates e nas cercanias do Golfo Pérsico (o mar afastou-se entretanto uns 150 quilómetros). Só em Ur foram descobertos milhares de textos em escrita cuneiforme, inventada na região à volta de 3200 a.E.C.
Em 2000, o escritor polaco Tad Szulc (autor de biografias de João Paulo II e Fidel Castro publicadas em português) percorreu o trilho de Abraão. E falou sobre Ur com Piotr Michalowski, director da revista Journal of Cuneiform Studies e especialista na civilização mesopotâmica. “Imagino uma cidade próspera, de ruas fervilhantes cheias de lojas”, disse o especialista, na reportagem publicada em Dezembro de 2001 na National Geographic.
Uma guerra terá forçado Tera, pai de Abrão (o nome Abraão ser-lhe-à dado mais tarde), a deixar Ur com o seu clã. Mil quilómetros até Haran (actual Turquia). Em Ur e em Haran era a Lua que as pessoas adoravam, sob a invocação de Sin. Em Haran, escutou Abrão um Deus diferente, que lhe ordenava: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo”, conta a Bíblia, no livro dos Génesis.
A viagem de Abraão é mesmo, para os muçulmanos, a matriz da peregrinação a Meca. Varios dos ritos do hajj evocam episódios da vida de Abraão, desde a construção da Caaba até ao ritual do sacrifício.
O patriarca passa um tempo no Egipto, no Négueb, em Betel, até se fixar “junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hebron”, onde “construiu um altar ao Senhor”. Aí, Deus promete-lhe o filho que ainda não tem e uma descendência incontável: “Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar. Pois bem, será assim a tua descendência.
Abrão está velho – terá cerca de 90 anos – e Sarai, sua mulher, também. Hesita: como será isso? A própria mulher propõe-lhe: “Visto que o Senhor me tornou uma estéril, peço-te que vás ter com a minha escrava. Talvez, por ela, eu consiga ter filhos.” Um gesto permitido pelo código de Hammurabi, para que um homem tivesse descendência. Agar engravida e nasce Ismael. Aqui radica uma divergência entre judeus e muçulmanos: para estes, Ismael é o filho herdeiro de Ibrahim.
É que mais tarde nasce Isaac, filho de Sara. Na Bíblia, é Isaac e não Ismael o filho com legitimidade para herdar. O nascimento de Isaac é anunciado pelo próprio Deus, que aparece a Abraão sob a forma de três visitantes misteriosos, aos quais ele oferece água e pão. A hospitalidade de Abraão será tema omnipresente. Na espiritualidade, o andaluz Ibn Arabi, considerado o maior xeque sufi, fala dela a propósito da relação entre Deus e o crente. Na arte, Andrei Rubliov, celebrizado no filme homónimo de Tarkovski, pintará em 1411 o ícone que se tornará a obra russa mais comentada de sempre.
Antes, tinha Abrão 99 anos, já Deus selara com ele a sua aliança: “Serás pai de inúmeros povos. Já não te chamarás Abrão, mas sim Abraão, porque Eu farei de ti o pai de inúmeros povos.” Esse é o significado do nome: pai de uma multidão. Abraão ganha a universalidade, reflecte Borbone, já não é apenas Abrão, um “pai excelso”. A mesma dimensão que São Paulo, no cristianismo nascente, lhe dará, ao chamá-lo pai de circuncisos (os judeus) e incircuncisos (os não-judeus). Os textos do Novo Testamento cristão olham-no como modelo de fé, confiança e disponbilidade, recorda Jean Louis Ska, professor do Instituto Bíblico Pontifício, no livro citado.
No seu diálogo com Deus, Abraão chega a ser quase impertinente. Como quando interpela a destruição de Sodoma e tenta salvar a cidade: E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? (…) Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir?“Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, (…) se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco homens?” E a insistência final: “Que o meu Senhor não se irrite (…) Talvez lá não se encontrem senão dez.” O atrevimento resulta: “Em atenção a esses dez justos, não a destruirei.”
À prova de paciência a que Abraão se sujeitara, Deus acrescenta-lhe uma última: pede-lhe que sacrifique aquele por quem tanto esperara: “Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto.” Isaac é poupado, in extremis, pelo próprio Deus, quando Abraão já se preparava para cumprir o ritual – um momento imortalizado em muitas obras de arte ao longo dos séculos.
Este é o acto de fé radical e fundador. Abraão confia até final na presença de Deus. Abandonando-se à promessa, sabe que, no fim, Deus providenciará. Na reportagem citada, Tad Szulc cita o poema “Hino à bênção de Abraão”, do muçulmano Cengizham Mutlu: “Não sente dor, não se lamenta./ Diz: “O meu Deus salvar-me-à.”/ Dois anjos tinham-no previsto com acerto.// Brasas transformam-se em cinzas./ Faíscas transformam-se em rosas.”

Por que acreditam em Deus os “filhos de Abraão”? (I)

No caderno P2 do Público de hoje, Alexandra Prado Coelho recolheu depoimentos de cinco "filhos de Abraão", a propósito do ciclo que durante mês e meio decorreu na Culturgest. Os cinco depoimentos - Sam Levy, Silas Oliveira, AbdoolKarim Vakil, Ivan Moody e José Tolentino Mendonça - serão aqui reproduzidos nos próximos dias. Para já, fica a introdução ao trabalho.

Durante cinco semanas, de 29 de Janeiro a 5 de Março, cinco crentes de cinco religiões monoteístas descendentes de Abraão falaram na Culturgest no ciclo de conferências As Religiões dos Filhos de Abraão. Filas enormes para levantar senha de acesso, o auditório principal cheio, durante cinco segundas-feiras ao final da tarde a Culturgest encheu-se para ouvir estes homens falarem da sua fé.O que se lhes pedia, no texto de apresentação, era “que viessem dizer, por palavras que todos entendam, que acreditam, porque acreditam e como acreditam. Talvez porque, sabendo, nós possamos compreender melhor”.
Eles falaram, explicaram, contaram histórias, enumeraram regras e dogmas, esclareceram diferenças. Mas também trouxeram músicas, cânticos, imagens, e tentaram que não fossem só as palavras a explicar a fé. Quiserem partilhar experiências, sensações, mostrar, como disse José Tolentino Mendonça no último dia, que “o percurso da beleza é um percurso que nos transforma” e que “cada beleza guarda a promessa de uma beleza sem fim”.
O PÚBLICO pediu-lhes que, em poucas palavras, respondessem apenas a uma pergunta: porque acreditam? E porque acreditam hoje, num mundo em que o cepticismo é forte e em que as descobertas científicas abalam dogmas. Eles aceitaram responder, embora pensem que aquilo de que aqui se fala não é algo que se explique. Como disse ainda Tolentino Mendonça: “O verdadeiro encontro religioso transforma-nos em solitários, porque o que atingimos é da ordem do indizível”.

Religiões e teologia: libertação e sentido

No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, Anselmo Borges fala da busca de um novo paradigma teológico. Alguns excertos:

(…) Procura-se um "Novo Paradigma Teológico para Outro Mundo Possível", dentro de horizontes teológicos novos como resposta aos novos desafios.
O horizonte intercultural implica a passagem da cultura única ao pluralismo cultural e, concretamente, da inculturação da teologia, que continua ainda a manter os princípios e as categorias teológicas da cultura dominante, à elaboração de uma teologia intercultural, que assuma o diálogo entre culturas baseado na igualdade.
O horizonte inter-religioso requer a passagem da religião única à elaboração de uma teologia ecuménica das religiões para a paz, a partir das vítimas e com a praxis de libertação, que não é assunto de uma religião, mas de todas.
O horizonte hermenêutico é a chave de toda a teologia, implicando a passagem da mera exegese dos textos sagrados a uma teologia toda ela hermenêutica enquanto procura de sentido, na nossa experiência de mundo.
Dentro do horizonte hermenêutico, é preciso sublinhar a perspectiva teológica de género, pondo em questão a estrutura androcêntrica e patriarcal das doutrinas e teorias religiosas e teológicas. Neste contexto, surge a teologia feminista, não como teologia regional, no sentido de ocupar-se de questões relativas às mulheres, mas como teologia fundamental, que procura dar razão da fé em Deus sem a submissão ao modelo divino patriarcal.
Há o horizonte ecológico, exigindo que se ouça o grito da Terra em busca de libertação. O Credo cristão confessa a criação amorosa do mundo por Deus, de tal modo que se impõe também uma leitura ecológico-festiva da criação. (…)
Indissociável do horizonte utópico, ético-praxístico e anamnético aparece o horizonte político e económico, que exige uma praxis libertadora e inclusiva das pessoas, dos povos, dos países e continentes. Ainda seria teologia aquela que contemporizasse com a globalização da rapina e da exclusão, ignorando a justiça e a solidariedade?
Não se pode esquecer o horizonte simbólico, porque, pela sua própria natureza, a teologia, se quiser manter-se fiel ao Sagrado que se revela e oculta, tem de substituir a linguagem dogmática pela linguagem simbólica. Como dizia Ricoeur, "o símbolo dá que pensar", enquanto o dogma tende a fechar o horizonte do pensamento e do sentido. Embora não seja o único, o compromisso com os direitos humanos e a salvaguarda da criação é critério decisivo da verdade de uma religião e das religiões.
A teologia é teologia das religiões empenhadas na libertação, portanto, teologia libertadora das religiões. O horizonte do diálogo inter-religioso é a libertação-salvação enquanto experiência radical de sentido frente ao sem sentido dos explorados, dos humilhados, das vítimas e da morte.