Compras de Natal
Erradicar a miséria
Hoje, 17 de Outubro, assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Miséria. Às 10h00 da manhã, a Comissão Nacional Justiça e Paz entrega uma petição assinada por 20 mil pessoas a pedir que a pobreza seja declarada uma grave violação dos direitos humanos. Em Portugal, onde os últimos dados continuam a ser um escândalo – 20 por cento da população é pobre, 40 por cento está em risco de pobreza – esta petição pode ser uma grande pedra no charco que não quer enfrentar de vez o problema número um do país, o escândalo maior. Hoje, também por todo o país e por todo o mundo estão previstas manifestações e “levantamentos” contra a pobreza e a favor do cumprimento dos Objectivos do Milénio proclamados pelas Nações Unidas. Oxalá os políticos ouçam os cidadãos.
Papa quer mais esforços contra a fome
No Dia Mundial da Alimentação, o Papa Bento XVI enviou uma mensagem à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura a falar do problema da fome. A notícia é da agência Ecclesia.
Bento XVI defende o direito de todos os seres humanos à alimentação, lamentando que os esforços levados por diante em todo o mundo não tenham permitido diminuir "significativamente" o número de pessoas atingidas pela fome. A mensagem enviada pelo Papa ao director-geral da FAO, Jacques Diouf, faz uma referência especial à situação das crianças, "primeiras vítimas desta tragédia que sofrem pela falta de desenvolvimento físico e psíquico".
Na celebração do Dia Mundial da Alimentação, dedicado este ano ao tema "O direito à alimentação", a mensagem papal assinala que esta questão tem uma "repercussão imediata na dimensão individual e comunitária dos seres humanos".
Bento XVI liga o drama da fome ao respeito pelos Direitos Humanos, frisando que os dados disponíveis mostram que a falta de alimentos não está ligada apenas a causas naturais, "mas sobretudo a comportamentos humanos e a uma deterioração geral de tipo social, económica e humana".
Segundo o Papa, "é necessária uma consciência de solidariedade que considere a alimentação como um direito universal, sem distinções nem discriminações".
A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU indica que mais de 850 milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer, muito longe do objectivo das Nações Unidas de reduzir para metade e até 2015 o número de pessoas afectadas por este problema. Mais de 150 países vão assinalar esta jornada, organizando eventos especiais, conferências, concursos, iniciativas desportivas e uma vigília global, à luz das velas, sobre o "direito à alimentação".
A mensagem de Bento XVI fala da urgência de eliminar a fome e garantir uma alimentação sã e eficiente, combinando os avanços da tecnológica com "os ciclos e o ritmo da natureza".
É bom e ecológico descansar ao domingo, diz o Papa
Bento XVI liga descanso semanal à preocupação pelo ambiente e diz que o sentido do domingo como “festa semanal da criação” deve ser preservado.
É bom e faz bem ao ambiente reencontrar o sentido do descanso de domingo. Foi esse o tom da homilia do Papa Bento XVI, ontem, na despedida da Áustria, após três dias de visita ao país, naquela que foi a sua sétima viagem fora de Itália desde o início do pontificado em Abril de 2005. Na missa que celebrou de manhã na catedral de Santo Estêvão, em Viena, o Papa defendeu a dimensão religiosa do descanso semanal, acrescentando-lhe uma preocupação ecológica.
“Numa época em que, por causa das intervenções humanas, a criação parece exposta a múltiplos perigos”, é necessário reencontrar o sentido do domingo que comemora a criação do mundo por Deus”, afirmou o Papa, citado pela AFP.
Lamentando que o tempo de lazer seja cada vez mais “vazio”, que não dá às pessoas o revigoramento de que necessitam, Bento XVI acrescentou que “o apetite desenfreado de viver que não dá nenhuma paz aos homens acaba no vazio de uma vida perdida”. a missa de domingo, ao contrário, é uma “necessidade interior” para os cristãos, “um espaço de liberdade que nos faz olhar para lá do activismo da vida quotidiana”. Do mesmo modo, o repouso semanal permite entender “qualquer coisa da liberdade e igualdade de todas as criaturas de Deus”.
As palavras de Bento XVI entraram a direito num dos actuais debates político-sociais da Áustria. A hierarquia católica tem defendido o repouso dominical, numa altura em que diversos grupos económicos e comerciais reclamam poder abrir neste dia. O próprio cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse ontem perante o Papa, ao acolhê-lo na catedral, que estava contente por se ter constituído uma espécie de “aliança pelo domingo”, que reúne grupos católicos e organizações da sociedade civil.
“Dar à alma o seu domingo, dar ao domingo a sua alma”, pediu o Papa, citado pela Reuters, repetindo uma frase de um bispo alemão do século XX. O dia semanal de descanso é uma “festa semanal da criação”, afirmou Bento XVI, e deve ser uma recordação semanal dos perigos que o planeta enfrenta, acrescentou.
A celebração presidida pelo Papa Ratzinger foi ritmada pela “Missa Celensis”, obra composta em 1782 por Joseph Haydn em honra da Virgem de Mariazell. Oito mil pessoas estiavam dentro da igreja, outras dezenas de milhar tiveram que ficar fora, suportando o frio e a chuva que não deixaram de acompanhar esta viagem papal.
Nos primeiros balanços desta curta visita de três dias, dois jornais expressavam ontem sentimentos diferentes: o popular Österreich dizia que, apesar do mau tempo, o Papa entusiasmou a Áustria. Já o conservador Die Presse salientava a “intimidade” da visita, que não incluiu nenhuma grande celebração. Tão pouco as críticas de vários grupos católicos obtiveram qualquer eco ou reacção durante a visita. Numa sondagem publicada ontem pelo Österreich, citada pela AFP, 47 por cento dos austríacos estão satisfeitos pela forma como Bento XVI dirige a Igreja Católica.
António Marujo
Uma proposta para a Quaresma: deixar o carro na garagem
Deixar os automóveis na garagem é a proposta quaresmal do presidente da Conferência Episcopal da Alemanha.
O jejum do carro, deixando os automóveis na garagem como gesto de respeito pela natureza. "O tempo de penitência da Quaresma convida-nos a repensar o nosso estilo de vida. Negligenciamos demasiadas vezes as coisas que são nefastas para o nosso ambiente e para os nossos próximos", refere o Cardeal Karl Lehmann, em entrevista ao Bild citada pela AFP. "Aproveitemos o período da Quaresma para contribuir para a melhoria do clima, por exemplo, fazendo o jejum do automóvel", disse.
O Cardeal Lehmann junta-se, assim, aos apelos lançados por vários responsáveis católicos e protestantes da Alemanha e Luzembrugo, pedindo aos fiéis que renunciem completamente ao automóvel durante a Quaresma, deslocando-se a pé, nos transportes públicos ou de bicicleta.
(Fonte: Agência Ecclesia)
As religiões comprometidas com o ambiente
Os jornalistas Paul Majendie e Philip Pullella, da Reuters, resumem, num despacho datado de dia 6, o compromisso das Igrejas cristãs e das religiões monoteístas em relação ao ambiente. Além dos elementos aqui apontados, podem referir-se outros; recordo dois: a primeira assembleia ecuménica europeia nesse ano da esperança que foi 1989, em Basileia, sobre "Justiça, paz e integridade da criação"; e os simpósios "Religião, Ciência, Ambiente" já promovidos pelo patriarca ecuménico de Constantinopla, o último dos quais foi na Amazónia, em Julho de 2006 (o próximo aparece referido no texto). O despacho da Reuters aqui fica:
For Christians, Jews and Muslims, the message is the same - mankind has "stewardship" of the earth which it has a duty to protect for future generations.
And environmentalists hailed churches for stepping up to the plate with a real sense of urgency.
"Caring for the environment is a key part of many religions. Any contribution which highlights and tackles issues such as climate change is very welcome," said Mike Childs of Friends of the Earth.
Last week’s Doomsday warning from a U.N. panel of scientists - temperatures are rising inexorably and mankind is the culprit - dramatically underlined how the clock is ticking.
That gave added impetus to the campaign and religious environmentalists say pious words of intent are not enough.
Martin Robra, climate change spokesman for the World Council of Churches grouping 560 million Protestant, Orthodox and Anglican Christians, said the debate "must now shift from denial and delays to responsibility and remedies well within humanity’s grasp."
So what are the churches doing?
The tide shows signs of turning in the United States, which is responsible for one quarter of the world’s emissions of carbon dioxide and uses one quarter of the world’s crude oil.
A group of 85 evangelical Christian leaders this month kicked off a campaign to mobilise religious conservatives to combat global warming.
With full-page newspaper advertisements and a television ad, they declared "With God’s help, we can stop global warming for our kids, our world and our Lord."
CREATION CARE NEEDED
The push for "creation care" - the idea that the environment is a divine creation that must be protected by humans - was highly successful with its "What Would Jesus Drive?" campaign to get Americans to use more fuel-efficient vehicles.
Archbishop of Canterbury Rowan Williams, spiritual leader of the world’s 77 million Anglicans, drives an eco-friendly car, bangs the green drum and argues "We are consumers of what God has made. We are in communion with it."
Catholics are also very much singing from the same hymn sheet with Pope Benedict making protection of the environment one of the keynotes of his papacy.
He has called on every Catholic to become environmentally friendly and dedicated an entire section of his 2007 World Day of Peace message to what he called "the ecology of peace," saying that disregard for the environment harms human existence.
"The destruction of the environment, its improper or selfish use, and the violent hoarding of the earth’s resources cause grievances, conflicts and wars, precisely because they are the consequences of an inhumane concept of development," he wrote.
Orthodox Patriarch Bartholomew, the Istanbul-based spiritual head of all Orthodox Churches, is planning to take a ship full of religious leaders to the Arctic Circle this summer to focus on global warming.
The Big Green Jewish Website seeks to galvanise British Jews into environmental action. The Greening Synagogues initiative in the United States opts for the practical - programmable thermostats, energy-saving light bulbs.
And for Muslims, the issue is just as pressing.
"It is a question of trusteeship," said Shaykh Ibrahim Mogra, chairman of the Muslim Council of Britain’s inter-faith relations committee.
"We believe that we are God’s deputies on the planet and we have been given the responsibility to ensure we use God’s gift in the correct manner and leave it in a fit state which can be passed on to future generations," he said.
Words were matched by actions in December when a meeting in Saudi Arabia of environment ministers from the Organisation of the Islamic Conference issued a 12-point plan - including calls for water, soil and land preservation.
Onde estão…?
"Onde estão todas as pessoas que vão votar ‘não’ no referendo sobre a despenalização do aborto, que dizem ser ‘pela vida’? Aqui temos uma menina, cuja mãe biológica não abortou, optando por lhe dar vida. Agora a vida dela está em risco e não vejo ninguém a manifestar-se pelas ruas, exigindo protecção para esta criança e justiça para os verdadeiros pais, que são os que a criam e amam. Estou muito agoniada com esta situação. Numa época de vale-tudo em que todos parecem funcionar com base na ganância, eis que aparece um gajo que se comporta de forma honrada, digna e justa. E? Vai preso!"
[carta de uma leitora, citada por Pedro Rolo Duarte, no Diário de Notícias de hoje]
A evasão pelo consumo
O editorial de hoje de António José Teixeira, director do Diário de Notícias, conjugado com as notícias de ontem que davam conta dos volumes "astronómicos" (*) do consumo nesta quadra natalícia e do esgotamento dos programas de férias mais caros, merece ficar registado e ser debatido.
Com a devida vénia ao autor e ao jornal, aqui o transcrevo:
"Evasões
António José Teixeira
Não é Carnaval, mas, talvez para dar folga ao cinto apertado pela governação socialista, nunca os portugueses terão sido dados a tanto excesso. Não foi e não é necessariamente folguedo, foi e é muito dinheiro gasto em pouco tempo. O cartão multibanco não teve parança, muitos milhões de euros mudaram de mãos em poucos dias. Quase mil euros foram movimentados por segundo, o que demonstra a voragem consumista do nosso tempo. A constatação propicia moralismos diversos, seja porque somos um país pobre a fazer de rico, seja porque estamos demasiado endividados e só pensamos em aumentar as dívidas, seja porque transformamos todas as datas festivas em hinos ao consumo. A verdade é que tendemos a esquecer que o modelo produtivo e social em que vivemos, e a que pressupostamente não somos alheios, tem por base o estímulo ao consumo. De uma forma simplista podemos dizer que o crescimento do consumo faz crescer a produção e o comércio. O problema português não está no excesso consumista natalício, admitindo que é um excesso. O problema está na nossa fraca capacidade produtiva, na enorme dependência externa.
Portugal é um país de comerciantes, uma desproporcionada superfície mercantil. Bate recordes nos hipermercados. Projecta mais centros comerciais do que qualquer congénere europeu. O prazer e a felicidade de hoje já não se fazem de marcas simbólicas, de intercâmbios pessoais ou do mero convívio social. Ganha crescente protagonismo o sujeito consumidor, que vai destronando o cidadão preocupado com a comunidade. O desejo e o prazer realizam-se numa incessante procura e conquista de objectos, quantas vezes confundidos com sujeitos nossos iguais.
A cultura consumista vive do efémero, faz do passado um mero pretexto de diversão e evasão. Produz demasiado lixo, que não recicla. Vive da precariedade e na velocidade. Foge demasiadas vezes sem destino. Estampa-se insolvente numa qualquer estrada sem que a morte seja mais do que uma ocorrência ou calamidade sem especial significado.
A voragem do consumo não tem pensamento estratégico. Esgota-se em si própria, descrente em qualquer salvação. Num mundo de pouca esperança, goza–se o presente que os amanhãs já não cantam. O tempo é agora de saldos, promoções, pechinchas, oportunidades a não perder. Aproxima-se a passagem de ano e neste país sem direitos adquiridos, em défice continuado, nada como voar para o Brasil para esquecer o garrote de Sócrates. Para que conste, os voos já estão esgotados. Se nada mais houver, restará o comando da televisão…"
……………..
(*) O jornalista Paulo Ferreira sintetiza hoje no JN:
"Os portugueses levantaram, este Natal, mais dinheiro no multibanco e fizeram compras de valor mais elevado com os seus cartões de crédito. Os números assustam em sete dias, gastámos 1,35 mil milhões de euros; os pagamentos com os cartões subiram para 768,3 milhões de euros; os levantamentos atingiram 590,6 milhões de euros.
De onde vem o susto? Primeiro as cifras, já de si enormes, não incluem os valores gastos com cartões de crédito (os tradicionais, fornecidos sem medida pela Banca, e os criados pelas empresas). Segundo: convém não esquecer que as famílias portuguesas são as segundas mais endividadas da Zona Euro. Terceiro e seguramente mais importante: os portugueses não ouviram com atenção as últimas declarações do presidente do Banco Central Europeu, aquelas em que Trichet escancarou a porta para um novo aumento dos juros no primeiro trimestre do próximo ano."
Manifesto por uma Economia Solidária
Realiza-se quinta-feira, em França, o encontro de um vasto conjunto de organizações que pretende traduzir no terreno as orientações do Manifesto por uma Economia Solidária, apresentado em Setembro último.
No quadro da pré-campanha da eleição presidencial francesa, as individualidades eorganizações proponentes expressaram já a intenção de lançar um apelo público no sentido de "duplicar o peso da economia solidária nos próximos cinco anos". A reunião desta semana visa lançar uma campanha de mobilização nesse sentido.
O Manifesto arranca deste modo:
"Le profit ne peut être la finalité unique de l’activité économique.Dominée par le capitalisme financier, l’économie, dopée par les nouvelles technologies, les progrès fulgurants du commerce mondial, la surmultiplication des échanges financiers, tend à se libérer de toute contrainte sociale au nom de la compétitivité. Elle produit des richesses impressionnantes mais très inéquitablement réparties. Elle crée des emplois mais génère aussi précarité, insécurité et parfois exclusion des personnes. Elle ignore des besoins individuels et collectifs pressants s’ils ne lui semblent pas assez rentables. Elle fait dépendre l’avenir des hommes, leur emploi, leur revenu, leur rôle dans la cité, de décisions prises souvent sous la pression d’impératifs financiers.
Peut-on redonner du sens à notre engagement personnel et à notre vie collective ? Peut-on recréer un triangle vertueux entre l’emploi, la cohésion sociale et la démocratie participative ? Peut-on permettre aux plus fragiles de vivre dignement de leur travail sans dépendre des prestations d’assurance? (…)"
Pobreza e ambiente
Do artigo de frei Bento Domingues, intitulado "Há Mandamentos e Mandamentos!", no Público de dia 12 de Novembro:
Se, em muitos aspectos, o combate à pobreza se revela um fracasso, o governo britânico deu a conhecer, na passada semana, o relatório Stern sobre o impacto do aquecimento do planeta na economia: a economia mundial cairá em 20% se não forem tomadas medidas imediatas. Al Gore, ex-vice-presidente dos eua e autor do filme "Uma Verdade Inconveniente", sobre o aquecimento, veio em auxílio de Tony Blair, decidido a liderar um plano para reduzir em 60%, até 2050, as emissões de gazes, principalmente de óxido de carbono. Estamos, assim, sem vontade de acabar com a pobreza e sujeitos às mudanças climáticas impostas pelos países mais ricos e que a China imita da pior maneira.
Sabemos as causas da pobreza e as causas das alterações climáticas que afectam, de forma terrível, o meio ambiente. Ainda sabemos muito pouco acerca da formação da Terra e como surgiu, nela, a inteligência e a capacidade reflexiva do ser humano. Sabemos como a podemos destruir. Sabemos como a podemos salvar. Porque será que continuamos a fazer o mal que lamentamos e a não escolher o bem que seria desejável? Não há ciências ou técnicas que possam garantir, de forma automática, um futuro de esperança.
É preciso uma conversão dos indivíduos, dos povos e dos governos. A conversão implica aceitar a nossa condição: seres que não podem agir sem muito reflectir. Sem reflectir o que é bom para cada um, o que é bom para o próximo, o que é bom para o planeta. Não estamos, todavia, a zero. É certo que a história da humanidade, comparada com a história do Cosmos e com a história da Terra, é ainda muito breve. É, no entanto, suficientemente longa para podermos saber o que a desenvolveu e o que a envenenou. A história das religiões, das sabedorias, das espiritualidades, das filosofias, das ciências, das técnicas, das políticas, se for rigorosa, encurta o campo das ilusões e aumenta a possibilidade da lucidez.
