16 October, 2007

Papa quer mais esforços contra a fome

No Dia Mundial da Alimentação, o Papa Bento XVI enviou uma mensagem à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura a falar do problema da fome. A notícia é da agência Ecclesia.
Bento XVI defende o direito de todos os seres humanos à alimentação, lamentando que os esforços levados por diante em todo o mundo não tenham permitido diminuir "significativamente" o número de pessoas atingidas pela fome. A mensagem enviada pelo Papa ao director-geral da FAO, Jacques Diouf, faz uma referência especial à situação das crianças, "primeiras vítimas desta tragédia que sofrem pela falta de desenvolvimento físico e psíquico".
Na celebração do Dia Mundial da Alimentação, dedicado este ano ao tema "O direito à alimentação", a mensagem papal assinala que esta questão tem uma "repercussão imediata na dimensão individual e comunitária dos seres humanos".
Bento XVI liga o drama da fome ao respeito pelos Direitos Humanos, frisando que os dados disponíveis mostram que a falta de alimentos não está ligada apenas a causas naturais, "mas sobretudo a comportamentos humanos e a uma deterioração geral de tipo social, económica e humana".
Segundo o Papa, "é necessária uma consciência de solidariedade que considere a alimentação como um direito universal, sem distinções nem discriminações".
A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU indica que mais de 850 milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer, muito longe do objectivo das Nações Unidas de reduzir para metade e até 2015 o número de pessoas afectadas por este problema. Mais de 150 países vão assinalar esta jornada, organizando eventos especiais, conferências, concursos, iniciativas desportivas e uma vigília global, à luz das velas, sobre o "direito à alimentação".
A mensagem de Bento XVI fala da urgência de eliminar a fome e garantir uma alimentação sã e eficiente, combinando os avanços da tecnológica com "os ciclos e o ritmo da natureza".

3 April, 2007

O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso

A acompanhar o texto sobre os 40 anos da Populorum progressio, a encíclica social do Papa Paulo VI, publiquei na edição do Público de dia 1 uma entrevista com o padre Calvez, um dos mais importantes especialistas em doutrina social da Igreja.

Jean-Yves Calvez, um dos redactores da encíclica de Paulo VI, esteve quarta-feira em Lisboa. E fez o balanço do que mudou no mundo. Não se deve generalizar o pessimismo, avisa.

É preciso fazer coisas positivas, diz Jean-Yves Calvez, e encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital.
Recordo três frases da encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos): "Em alguns continentes, são incontáveis os homens torturados pela fome." "O mundo está doente." "Os povos da fome apelam aos povos da opulência." Parece terem sido escritas hoje.
É verdade. Mas também eram verdadeiras naquela época.
Estamos melhor ou pior?
Há países que estão muito melhor. Creio que não se deve generalizar o pessimismo. Repare num país como a Coreia do Sul, que tinha o mesmo rendimento per capita que os Camarões, em 1950. Hoje, a Coreia do Sul tem um rendimento comparável à Europa Mediterrânica e é um país industrial bem avançado. Quando comecei a interessar-me por estas questões, nos anos 50, o Japão estava entre os países em vias de desenvolvimento. Há transformações profundas em muitos países. Hoje, na China, o desenvolvimento é um pouco caótico, mas o que se passa na parte oriental do país é espectacular.
Significa que há países ou políticas que colocaram em prática princípios da doutrina social da Igreja?
Sim, alguns países foram inspirados por ela. Por exemplo, através de um homem como o padre Lebret, que foi conselheiro de vários governos: Senegal, Brasil, Uruguai, Peru. Encontrei-o, no terreno, na Venezuela. Houve influência, claro. Não podemos pensar que a China escute muito as encíclicas, mas talvez escute algumas coisas do Ocidente que não são estranhas à doutrina social da Igreja.
Há, em toda a encíclica, um sentimento de urgência em resolver os problemas de quem sofre. Hoje, somos menos sensíveis ao sofrimento de outros?
É pior: por vezes estamos resignados. Há pessoas que têm a impressão de que se ensaiaram muitas coisas - em África, por exemplo -, que se desejaram políticas de desenvolvimento que falharam e já não há nada a fazer. Creio que estão erradas e exageram. Mas tenho alunos africanos, que estão condicionados por este afro-pessimismo ocidental.
Digo, por exemplo a alunos do Burkina Faso: "Conheço o vosso país há 50 anos. Regressei há pouco tempo a Ouagadougou. A transformação da cidade é extraordinária. É um país muito pobre, mas não se deve dizer que não há nada. O país é desigual, há muito a fazer, mas é preciso fazer um julgamento mais justo.
Há urgências ainda hoje?
Sim. Há países como esse, muito desnutridos no plano agrícola. Em alguns casos, perguntamos o que é preciso fazer. É urgente encontrar soluções novas.
Se pensarmos em alguns temas da encíclica - racismo, nacionalismos, distribuição da terra, guerra, fome, dívida externa, especulação financeira - parece que muitas coisas caminham à margem do que a Igreja propõe.
Em todos esses domínios há problemas, é verdade. Mas será que podemos dizer que está tudo pior? Não. Mesmo o racismo, se quiser. Há racismo na Europa, por causa do encontro das populações, da imigração. Mas na atitude com relação aos africanos, em geral, há muito menos racismo hoje do que há 50 anos.
Nessa altura havia uma espécie de crença de que a África estava condenada para sempre. Hoje, há muita gente que vê que a África é capaz de se desenvolver e educar. Há muitos africanos que demonstram uma capacidade intelectual notável e são reconhecidos como tal. Não podemos dizer que o racismo está generalizado. É preciso lutar, mas já se obtiveram alguns resultados: nas escolas, as crianças vivem juntas sem muitos problemas.
Paulo VI pedia a criação de um fundo de ajuda sustentado em parte por despesas militares, que não interferisse nos países. O Fundo Monetário Internacional [FMI] é acusado disso mesmo…
O FMI não é um organismo de ajuda, mas de gestão de dinheiro. Mas tem muita influência pelo julgamento que faz sobre as economias de diversos países. Os banqueiros, os financeiros agem tendo em conta o juízo do FMI. O fundo impõe medidas muito imperativas, para estabilizar a moeda, por vezes com algum desprezo para com a autonomia dos países. Isso é verdade.
É necessário ainda, então, criar esse fundo de que Paulo VI falava?
Sim. O melhor seria uma participação igualitária dos diversos países na sua gestão. Na realidade,
o FMI é gerido pelos países mais ricos.
A Igreja propõe os princípios do destino universal dos bens e do bem comum. Mas há políticos e empresários católicos que não têm em conta esses princípios e para os quais é mais fácil, por exemplo, enviar gente para o desemprego. Falta formação no campo da doutrina social?
Sim, falta. Há alguma coisa, mas é preciso ocuparmo-nos de toda a gente. Seria necessário este campo essencial estar presente na catequização: se isso não for algo comum a todos os católicos, é muito difícil falar apenas a especialistas e responsáveis. Se o conjunto da comunidade for mais consciente, teremos mais possibilidades de conseguir.
Tem um livro sobre os silêncios do pensamento social católico. Na sua conferência referiu a imigração. Que outros temas estão ausentes?
O sistema de economia financeira, o capitalismo - no sentido do carácter desigual da gestão do capital. Demasiado poucos homens intervêm para determinar o destino dos outros, por exemplo nas empresas. A maior parte das pessoas - mesmo quem tem responsabilidades - depende do capital financeiro exterior, que age sobre elas.
Pode dizer-se que o verdadeiro poder do mundo e dos países é o capital financeiro?
Não, mas joga um papel, por vezes, muito prejudicial. O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso. Mas não podemos dizer que seja a única coisa a actuar. As empresas também têm responsabilidade, a inteligência e a ciência, também actuam.
Como dizia, "não temos o direito de nos mostrarmos negligentes, resignados ou adormecidos". É preciso resistir?
Resistir, sim. Mas também trabalhar para fazer coisas positivas. Não apenas estar perante [os problemas], é preciso criar, encontrar soluções. A propósito do capital, é necessário encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital, e sendo por consequência capazes de intervir na gestão do capital, associando-se.

Quando o Papa Paulo VI surpreendeu o mundo

No passado dia 26 de Março, completaram-se 40 anos sobre a publicação da Populorum Progressio. No domingo, dia 1 de Abril, escrevi no Público um artigo a recordar o significado da ecncíclica social de Paulo VI. 

Há 40 anos, o mundo vivia optimista. O Papa Paulo VI surpreendeu toda a gente com uma encíclica sobre o desenvolvimento dos povos. "Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência", dizia. Passaram mesmo quatro décadas?

Em 1967, um documento do Papa Paulo VI surpreendeu meio mundo: nesse ano, o dia 26 de Março, fez segunda-feira passada 40 anos, era Domingo de Páscoa. Foi a data escolhida para divulgar uma encíclica que falava do desenvolvimento, da industrialização, da equidade nas relações comerciais entre povos, da importância de uma autoridade mundial eficaz e da necessidade de estabelecer um fundo de ajuda aos países mais pobres. E que, relida 40 anos depois, mantém uma actualidade premente em muitos dos seus enunciados.
O tema e o tempo escolhidos não eram esperados. A encíclica Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos) parecia mais um texto saído de alguma instituição económica. O Ocidente vivia um tempo de euforia: o crescimento económico antecipava a abundância, o processo de descolonização entrava na recta final (só Portugal mantinha colónias). Mas havia já sinais prenunciadores da crise: a difícil luta pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos, a agonia da guerra do Vietname. A revolta estudantil francesa chegaria em Maio de 1968…
Comungando de algum optimismo, a encíclica de Paulo VI não deixava de alertar: "Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência", escrevia o Papa Montini no terceiro parágrafo. O documento saía apenas 15 meses depois de terminado o Concílio Vaticano II, que iniciara a reforma da Igreja e retivera, entre 1962 e 1965, a atenção de muitos.
A surpresa será maior se se pensar, recorda Peter Stilwell, que nessa altura o papado - estamos antes de João Paulo II e da massificação televisiva - não atraía as atenções que depois conquistaria. Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, coordenou a edição de vários documentos de doutrina social católica (Caminhos da Justiça e da Paz, ed. Rei dos Livros), entre os quais a Populorum Progressio.
Já se começava a falar de neocolonialismo, lembra este especialista. Os países que tinham conquistado a independência após a II Guerra Mundial continuavam dependentes. Havia excepções: Leopold Senghor no Senegal, Julius Nyerere na Tanzânia. Mas a maioria das lideranças africanas mais não fazia que "reproduzir as estruturas das anteriores administrações coloniais", diz Stilwell.
Tal realidade era referida por Paulo VI: "Os povos que ainda há pouco tempo conseguiram a independência nacional sentem a necessidade de acrescentar a esta liberdade política um crescimento autónomo e digno, tanto social como económico."
"Liberalismo esmaga"
É neste contexto que, qual pedrada no charco, surge a encíclica. "O desenvolvimento é o novo nome da paz", escrevia então o Papa, num enunciado que ficaria célebre. E o desenvolvimento "não se reduz ao simples crescimento", acrescentava. A novidade "foi que o desenvolvimento foi compreendido como um processo universal", disse quarta-feira passada na Universidade Católica, em Lisboa, um dos peritos que foram convidados por Paulo VI a trabalhar na redacção da encíclica.
Jean-Yves Calvez, de 79 anos, padre jesuíta e teólogo, é um dos mais importantes especialistas no pensamento social católico, com uma larga lista de títulos publicados em campos como a filosofia política ou o marxismo. Na época em que participou na redacção da encíclica, Calvez admite que "toda a gente" imaginava que era uma questão de "curto prazo" acabar com a miséria.
Em entrevista ao PÚBLICO, o padre Calvez reafirma: "Toda a gente falhou: economistas, políticos, todos os que se implicaram na questão do desenvolvimento nos anos 50-60. Imaginavam que, com uma política monetarista e meios financeiros, se poderia elevar o nível de toda a população que tínhamos deixado ao abandono no tempo colonial." Mesmo assim, o teólogo tem uma perspectiva optimista: "Ao mesmo tempo, tivemos sucessos, não se pode dizer que fracassámos em toda a linha. Mas há problemas difíceis ."
Na conferência da Universidade Católica, Calvez situou: a "questão maior" era a da ""disparidade", da flagrante desigualdade quanto ao desenvolvimento". Mas não bastava recorrer aos mecanismos económicos para resolver os problemas. O Papa, diz, tinha consciência da importância da cultura. "Paulo VI tinha um sentido muito agudo dessa necessidade. Foi o que a encíclica trouxe de novo. Não trouxe grandes invenções sobre modos de financiamento ou industrialização, mas sim sobre os aspectos culturais e sociológicos."
Tal visão traduzia-se em alguns enunciados: um desenvolvimento integral e solidário; ambivalência do crescimento, já que "possuir mais não é o fim último"; o destino universal dos bens acima do direito à propriedade e do comércio livre; o risco de "esmagar" os países pobres com o peso da dívida; o "escândalo intolerável" do esbanjamento; a necessidade de "construir uma ordem jurídica internacionalmente reconhecida".
Pelo meio, Paulo VI anunciava a criação de uma comissão para favorecer as ideias da encíclica - "Justiça e Paz é o seu nome e o seu programa". E apelava à criação de um "fundo mundial, sustentado por uma parte da verba das despesas militares, para vir em auxílio dos mais deserdados".
Quarenta anos depois, Calvez verifica: "A repartição é mais desigual que nunca". E se "o liberalismo é eficaz de muitas maneiras, traz também o esmagamento e a exclusão de muitos". Mas a encíclica tem um "rico conjunto de princípios".
Um sentimento de urgência atravessava o documento: "Temos de nos apressar: há muitos homens a sofrer e cresce a distância que separa o progresso de uns da estagnação e até da regressão de outros." Esta frase tem mesmo 40 anos?
11 March, 2007

Fábrica de desejos, capitalismo e religião

Com o título "Fábrica de desejos", frei Bento Domingues escreve hoje no Público acerca das tentações entre capitalismo e religião. Excertos:

(…) Nos gritos do populismo político-religioso contra o capitalismo, corre-se o risco de esquecer o essencial. Repete-se, desde o século XIX, que, devido às suas contradições, o capitalismo não pode sobreviver. É certo que precisou, várias vezes, da mão visível do Estado - medidas de tipo político, fiscal e legal - para responder às incapacidades da "mão invisível" do mercado. Hoje, o capitalismo está globalizado e é nele que vivem, bem ou mal, americanos e europeus, indianos e chineses, oligarcas russos e príncipes sauditas. Por uma questão de sustentabilidade - e sem contar com as extravagâncias dos super-ricos - pensa-se que o nosso planeta não aguentaria 6 500 milhões de pessoas a viver, como é desejável e como já vivem hoje os consumidores da classe média do rico hemisfério norte.
O ser humano, movido pelo desejo do Ilimitado perde-se no labirinto dos desejos desgarrados e distorcidos, tornados mediaticamente inadiáveis como uma droga. A genialidade do capitalismo contemporâneo consiste precisamente em ser uma fábrica, em contínua produção, de novos desejos. A publicidade vive de nos tornar infelizes se os não satisfizermos.
O Budismo dispõe de uma resposta clara e radical: a supressão do desejo através de um caminho de auto-iluminação marcado por verdades e práticas bem estabelecidas e numeradas. Os paralelismos entre Buda e Jesus, entre o cristianismo e o budismo têm sido muito estudados. Mas também podem ser apontadas profundas diferenças. O percurso cristão não segue a via da auto-iluminação nem procura a supressão, mas a conversão do desejo como puro dom da graça divina, enquanto iluminante e transformante da condição humana. Mas a graça da conversão do desejo não suprime, reorienta as energias e paixões humanas. Pode e deve acolher sabedorias, regras de vida e métodos de espiritualidade de todas as proveniências para hierarquizar necessidades materiais e espirituais num mundo dominado pela fábrica de novos e insaciáveis desejos que nos devoram e alimentam ódios e violência. Paz com a Terra e o Céu, paz dentro de nós próprios, paz e a justiça com os que precisam da nossa solidariedade.

19 February, 2007

“Está a pensar engravidar?”

"Ana escutava surpreendida as questões que lhe eram colocadas "Está a pensar engravidar? Tem filhos pequenos? Que idades têm?". A possibilidade de obter o posto de trabalho dependeria inteiramente das respostas que desse. Ana é mulher, mãe e esposa. E, por tudo isso, operária potencialmente inválida para trabalhar (…)".

Esta história encabeça um texto da jornalista Helena Forte ("Operárias que ninguém quer") que o Jornal de Notícias hoje publica e que deveria motivar denúncias tão encarniçadas quanto as daqueles que se encarniçaram na luta contra a despenalização do aborto, no referendo do passado dia 11.

Todos sabemos que, na actual situação de precariedade que afecta uma enorme parcela dos trabalhadores, a maternidade constitui um dos grandes entraves à contratação ou ao sucesso no emprego. O problema parece ser muito mais grave do que as estatísticas oficiais fazem crer. E, no entanto, estamos longe de ver um igual empenhamento e mobilização dos cidadãos (e, designadamente dos católicos) na denúncia deste comportamento ignóbil e anti-vida de tantos empresários e gestores.

12 February, 2007

Ser vaca na Europa ou pobre no Terceiro Mundo?

Do texto do padre Anselmo Borges no Diário de Notícias de domingo, 11:
 

Quando se fala em fundamentalismo, é no fundamentalismo religioso que normalmente se pensa. Mas há outras formas. Pense-se concretamente no fundamentalismo económico. Já em 2001, ano em que recebeu o Prémio Nobel da Economia, J. Stiglitz, referindo-se sobretudo ao caso do Fundo Monetário Internacional, falava de "fundamentalismo neoliberal". Agora, no seu último livro - Making Globalization Work -, faz notar que mais vale ser uma vaca na Europa do que uma pessoa pobre num país em vias de desenvolvimento. Enquanto as vacas europeias recebem em média um subsídio diário de dois dólares, grande parte da Humanidade tem de viver com menos do que isso.

A globalização é inevitável. Ela é também ambivalente, isto é, tem ganhadores e perdedores. Ela pode levar ao milagre económico e ao descalabro. Mas, como sublinhou o teólogo Hans Küng, é sobretudo importante perceber que ela é "dirigível".
O facto de poder ser orientada significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético: impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes, critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global. (…) 
O que hoje se sabe é que nem o socialismo nem a mão invisível do mercado abriram as portas do paraíso à Humanidade. Assim, à economia de mercado tout court é preciso contrapor a economia de mercado com sentido social e ecológico à escala global. (…)
Continuam a morrer no mundo à fome milhões de seres humanos, o que é intolerável. É um imperativo ético ajudar os países pobres no seu desenvolvimento. Ora, sempre será preferível ajudar no desenvolvimento as pessoas nos seus próprios países a ter de levantar barreiras e muralhas à volta do mundo desenvolvido e assistir à entrada, sem controlo possível, de multidões à procura de uma vida melhor, com todos os efeitos de turbulência inevitável a médio prazo. (…)

 Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários com os países pobres por razões de ética e humanidade, sejamo-lo ao menos por razões de egoísmo esclarecido.

1 February, 2007

Esperança pelas ruas da amargura

O que é a injustiça institucionalizada mostra-o à saciedade este caso comentado pelo jornalista e editor Paulo Ferreira, do Jornal de Notícias. Mais palavras para quê? O que faz falta é mudar, agir.

Esperança Barrias, reformada de 70 anos, vive em Barredo, recôndito lugar do concelho de Santa Marta de Penaguião, no distrito do Vila Real. Na segunda-feira passada meteu- -se num táxi para ir marcar uma consulta ao centro de saúde. Gastou 20 euros. Em vão o centro esteve todo o dia fechado para que médicos, enfermeiros e pessoal administrativo pudessem assistir ao funeral de um clínico. Esperança, desconsolada, fez saber que só poderá deslocar- -se novamente a Santa Marta "quando receber a reforma outra vez".

Este episódio, exemplo emblemático do profundo desprezo pelos utentes que tão bem caracteriza uma boa parte da função pública portuguesa, poderia não passar de um lamentável equívoco dos responsáveis do centro de saúde de Santa Marta. Por muito atendível que seja o motivo, é errado fechar um dia inteiro um serviço público. Sucede que o acto teve a cobertura do director da Administração Regional de Saúde (ARS) de Vila Real. José Maria Andrade está "solidário" com os médicos e restantes profissionais.

Ou seja o director da ARS entende que a participação num funeral é mais importante do que a satisfação das necessidades dos utentes do concelho. Ou seja: José Maria Andrade está literalmente nas tintas para o tempo e o dinheiro gastos por Esperança Barrias, de cuja boca nunca ouvirá um lamento que lhe abale um bocadinho a consciência. Ou seja: se fosse presidente de uma escola, mandaria parar as aulas; se fosse chefe de uma cadeia, dava folga aos reclusos… O princípio é este: mais vale ser "solidário" com os colegas do que prestar serviços a quem precisa. Não está mal.

31 January, 2007

“Delicadeza de um dilema”

O "não" tem vindo a crescer nas sondagens e, embora continue ainda a alguma distância do "sim", já se admite a possibilidade de uma reviravolta nas previsões iniciais que favoreciam, claramente, a despenalização do aborto até às dez semanas. Surpreendente? Nem por isso. Apesar de estar pessoalmente convencido que o "sim" acabará por ganhar e que a abstenção será muito inferior àquela que se registou no referendo de há oito anos, a progressão do "não" reflecte a delicadeza de um dilema que divide profundamente a sociedade portuguesa (como tem dividido, aliás, todas as sociedades onde a questão foi colocada) e para o qual, com excepção dos fundamentalismos doutrinários e das simplificações demagógicas, não há saídas pacíficas, tranquilizadoras - e sem dor. (…)

Vicente Jorge Silva, in Diário de Notícias, 31.1.2007 [onde o autor defende que votar sim é -moralmente? -mais difícil do que votar não. Duvido da ponderação. De qualquer modo: um texto que merece ser lido com atenção]

24 January, 2007

Onde estão…?

 

"Onde estão todas as pessoas que vão votar ‘não’ no referendo sobre a despenalização do aborto, que dizem ser ‘pela vida’? Aqui temos uma menina, cuja mãe biológica não abortou, optando por lhe dar vida. Agora a vida dela está em risco e não vejo ninguém a manifestar-se pelas ruas, exigindo protecção para esta criança e justiça para os verdadeiros pais, que são os que a criam e amam. Estou muito agoniada com esta situação. Numa época de vale-tudo em que todos parecem funcionar com base na ganância, eis que aparece um gajo que se comporta de forma honrada, digna e justa. E? Vai preso!"

[carta de uma leitora, citada por Pedro Rolo Duarte, no Diário de Notícias de hoje] 

22 January, 2007

Abbé Pierre 1912-2007
O testemunho de uma vida

31 December, 2006

Barbaridade e cinismo

"(…) Sabemos todos, e há muito, que Saddam era um ditador sanguinário, conhecido por requintes de crueldade. Sabemos que cometeu crimes contra a humanidade e oprimiu o seu povo. Sabemos que após a invasão do seu país foi deposto, capturado e julgado num processo irregular, marcado por interferências políticas e assassínios de advogados. A justiça e os direitos humanos em nome dos quais se quis condenar Saddam foram aviltados com a pena capital. A forca é uma marca medieval, um retrocesso civilizacional que apenas coloca os "libertadores" do Iraque ao nível do tirano de Bagdad. O acrescento de civilização que seria a eliminação da pena de morte e da tortura frustrou-se uma vez mais. E dizer, como disse Bush, que a execução de Saddam é um marco importante no caminho do Iraque rumo à democracia é apenas mais uma barbaridade. Pior, só mesmo o cinismo de algumas diplomacias tão cheias de princípios como de compreensão pela "soberania" iraquiana…(…)

Confundir a forca com o caminho para a democracia ajuda apenas a perceber a irracionalidade do nosso tempo."

António José Teixeira, editorial in DN, 31.12.2006 

28 December, 2006

A evasão pelo consumo

 O editorial de hoje de António José Teixeira, director do Diário de Notícias, conjugado com as notícias de ontem que davam conta dos volumes "astronómicos" (*) do consumo nesta quadra natalícia e do esgotamento dos programas de férias mais caros, merece ficar registado e ser debatido.

Com a devida vénia ao autor e ao jornal, aqui o transcrevo:

"Evasões

António José Teixeira

 Não é Carnaval, mas, talvez para dar folga ao cinto apertado pela governação socialista, nunca os portugueses terão sido dados a tanto excesso. Não foi e não é necessariamente folguedo, foi e é muito dinheiro gasto em pouco tempo. O cartão multibanco não teve parança, muitos milhões de euros mudaram de mãos em poucos dias. Quase mil euros foram movimentados por segundo, o que demonstra a voragem consumista do nosso tempo. A constatação propicia moralismos diversos, seja porque somos um país pobre a fazer de rico, seja porque estamos demasiado endividados e só pensamos em aumentar as dívidas, seja porque transformamos todas as datas festivas em hinos ao consumo. A verdade é que tendemos a esquecer que o modelo produtivo e social em que vivemos, e a que pressupostamente não somos alheios, tem por base o estímulo ao consumo. De uma forma simplista podemos dizer que o crescimento do consumo faz crescer a produção e o comércio. O problema português não está no excesso consumista natalício, admitindo que é um excesso. O problema está na nossa fraca capacidade produtiva, na enorme dependência externa.

Portugal é um país de comerciantes, uma desproporcionada superfície mercantil. Bate recordes nos hipermercados. Projecta mais centros comerciais do que qualquer congénere europeu. O prazer e a felicidade de hoje já não se fazem de marcas simbólicas, de intercâmbios pessoais ou do mero convívio social. Ganha crescente protagonismo o sujeito consumidor, que vai destronando o cidadão preocupado com a comunidade. O desejo e o prazer realizam-se numa incessante procura e conquista de objectos, quantas vezes confundidos com sujeitos nossos iguais.

A cultura consumista vive do efémero, faz do passado um mero pretexto de diversão e evasão. Produz demasiado lixo, que não recicla. Vive da precariedade e na velocidade. Foge demasiadas vezes sem destino. Estampa-se insolvente numa qualquer estrada sem que a morte seja mais do que uma ocorrência ou calamidade sem especial significado.

A voragem do consumo não tem pensamento estratégico. Esgota-se em si própria, descrente em qualquer salvação. Num mundo de pouca esperança, goza–se o presente que os amanhãs já não cantam. O tempo é agora de saldos, promoções, pechinchas, oportunidades a não perder. Aproxima-se a passagem de ano e neste país sem direitos adquiridos, em défice continuado, nada como voar para o Brasil para esquecer o garrote de Sócrates. Para que conste, os voos já estão esgotados. Se nada mais houver, restará o comando da televisão…"

…………….. 

(*) O jornalista Paulo Ferreira sintetiza hoje no JN:

"Os portugueses levantaram, este Natal, mais dinheiro no multibanco e fizeram compras de valor mais elevado com os seus cartões de crédito. Os números assustam em sete dias, gastámos 1,35 mil milhões de euros; os pagamentos com os cartões subiram para 768,3 milhões de euros; os levantamentos atingiram 590,6 milhões de euros.

De onde vem o susto? Primeiro as cifras, já de si enormes, não incluem os valores gastos com cartões de crédito (os tradicionais, fornecidos sem medida pela Banca, e os criados pelas empresas). Segundo: convém não esquecer que as famílias portuguesas são as segundas mais endividadas da Zona Euro. Terceiro e seguramente mais importante: os portugueses não ouviram com atenção as últimas declarações do presidente do Banco Central Europeu, aquelas em que Trichet escancarou a porta para um novo aumento dos juros no primeiro trimestre do próximo ano."

10 December, 2006

Oferecer sacrifícios à divindade?

"Nas religiões, oferece-se sacrifícios à divindade - frutos, comida, animais, seres humanos -, para aplacá-la, agradecer, expiar os pecados, atrair bênçãos. A refeição sacrificial cultual criava relações de comunidade dos participantes com a divindade e entre si. Mas desgraçados dos seres humanos que foram oferecidos em sacrifício! Teria sido melhor não terem conhecido a religião. E que Deus seria esse que precisasse dos sacrifícios, sobretudo quando isso implicava a morte de homens ou mulheres?

A Bíblia, concretamente na sua linha profética, verberou os sacrifícios. Oseias põe na boca de Deus estas palavras: "Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos."

E Amós: "Eu conheço as vossas maldades e a enormidade dos vossos pecados. Sois opressores do justo, aceitais subornos e violais o direito dos pobres no tribunal. Eu detesto e rejeito as vossas festas. Se me ofereceis holocaustos, não os aceito nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca."

E o profeta Isaías escreve: "De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? - diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gorduras de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas."

Jesus retomou a palavra profética de Oseias: "Ide aprender, diz o Senhor, o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’." Ele enfrentou profeticamente a casta sacerdotal e expulsou os vendilhões do Templo, tendo sido este acontecimento determinante para a sua condenação à morte na cruz (…)".

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Anselmo Borges, Sacrifício e Misericórdia, in Diário de Notícias, 10.12.2006 

5 December, 2006

Manifesto por uma Economia Solidária

 Realiza-se quinta-feira, em França, o encontro de um vasto conjunto de organizações que pretende traduzir no terreno as orientações do Manifesto por uma Economia Solidária, apresentado em Setembro último.

No quadro da pré-campanha da eleição presidencial francesa, as individualidades eorganizações proponentes expressaram já a intenção de lançar um apelo público no sentido de "duplicar o peso da economia solidária nos próximos cinco anos". A reunião desta semana visa lançar uma campanha de mobilização nesse sentido.
O Manifesto arranca deste modo:

"Le profit ne peut être la finalité unique de l’activité économique.Dominée par le capitalisme financier, l’économie, dopée par les nouvelles technologies, les progrès fulgurants du commerce mondial, la surmultiplication des échanges financiers, tend à se libérer de toute contrainte sociale au nom de la compétitivité. Elle produit des richesses impressionnantes mais très inéquitablement réparties. Elle crée des emplois mais génère aussi précarité, insécurité et parfois exclusion des personnes. Elle ignore des besoins individuels et collectifs pressants s’ils ne lui semblent pas assez rentables. Elle fait dépendre l’avenir des hommes, leur emploi, leur revenu, leur rôle dans la cité, de décisions prises souvent sous la pression d’impératifs financiers.
Peut-on redonner du sens à notre engagement personnel et à notre vie collective ? Peut-on recréer un triangle vertueux entre l’emploi, la cohésion sociale et la démocratie participative ? Peut-on permettre aux plus fragiles de vivre dignement de leur travail sans dépendre des prestations d’assurance? (…)"

20 November, 2006

Pobreza e ambiente

Do artigo de frei Bento Domingues, intitulado "Há Mandamentos e Mandamentos!", no Público de dia 12 de Novembro:

Se, em muitos aspectos, o combate à pobreza se revela um fracasso, o governo britânico deu a conhecer, na passada semana, o relatório Stern sobre o impacto do aquecimento do planeta na economia: a economia mundial cairá em 20% se não forem tomadas medidas imediatas. Al Gore, ex-vice-presidente dos eua e autor do filme "Uma Verdade Inconveniente", sobre o aquecimento, veio em auxílio de Tony Blair, decidido a liderar um plano para reduzir em 60%, até 2050, as emissões de gazes, principalmente de óxido de carbono. Estamos, assim, sem vontade de acabar com a pobreza e sujeitos às mudanças climáticas impostas pelos países mais ricos e que a China imita da pior maneira.

Sabemos as causas da pobreza e as causas das alterações climáticas que afectam, de forma terrível, o meio ambiente. Ainda sabemos muito pouco acerca da formação da Terra e como surgiu, nela, a inteligência e a capacidade reflexiva do ser humano. Sabemos como a podemos destruir. Sabemos como a podemos salvar. Porque será que continuamos a fazer o mal que lamentamos e a não escolher o bem que seria desejável? Não há ciências ou técnicas que possam garantir, de forma automática, um futuro de esperança.

É preciso uma conversão dos indivíduos, dos povos e dos governos. A conversão implica aceitar a nossa condição: seres que não podem agir sem muito reflectir. Sem reflectir o que é bom para cada um, o que é bom para o próximo, o que é bom para o planeta. Não estamos, todavia, a zero. É certo que a história da humanidade, comparada com a história do Cosmos e com a história da Terra, é ainda muito breve. É, no entanto, suficientemente longa para podermos saber o que a desenvolveu e o que a envenenou. A história das religiões, das sabedorias, das espiritualidades, das filosofias, das ciências, das técnicas, das políticas, se for rigorosa, encurta o campo das ilusões e aumenta a possibilidade da lucidez.