16 October, 2007

“O ouro é para fazer ver que a eternidade é um contínuo movimento”

Filed under: Cultura, Espiritualidade

Esloveno, Marko Ivan Rupnik nasceu em Novembro de 1954, é padre jesuíta e vive desde 1991 em Roma, onde dirige o Centro Aletti, dedicado à arte e espiritualidade. Estudou na Academia de Belas-Artes de Roma e tem-se destacado pelo trabalho em mosaico, premiado internacionalmente. A Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico do Vaticano (1999), é uma das suas obras marcantes. A partir de agora, o mesmo acontecerá provavelmente com o grande painel de 500 metros quadrados, em ouro e terracota, que criou para o altar da Igreja da Santíssima Trindade, onde trabalharam, durante um mês, 20 artistas de oito países e várias confissões religiosas. Em entrevista ao Público e à agência Ecclesia, Rupnik, que é também um autor importante de livros sobre Bíblia e espiritualidade, explica o sentido desta obra apocalíptica. O texto foi publicado dia 12 de Outubro em ambas as edições, utilizando-se aqui a versão integral da entrevista, publicada na agência Ecclesia, onde aliás há um dossiê variado sobre a nova Igreja da Santíssima Trindade.

PÚBLICO/ECCLESIA – Que sentido dá ao grande painel do altar, que espiritualidade está por detrás?
MARKO IVAN RUPNIK – Como ponto de partida tomei dois elementos das aparições de Fátima: a mensagem é uma mensagem apocalíptica. Mas este apocalipse é comunicado, expresso, com uma enorme compaixão, misericórdia e amor pelos mais fracos, ou seja, pelos pecadores. Parto do capítulo 22 do Apocalipse de São João: a praça toda em ouro, com o trono de Deus e do Cordeiro e, dos lados, como se se visse através de uma pequena abertura, os santos como na antiga tradição: à direita do Cordeiro a Senhora, à esquerda João Baptista que apontou Cristo como o Cordeiro de Deus. A Senhora está com Jacinta, Francisco e Lúcia ao lado; depois estão os apóstolos, os santos e os anjos. Há um canto franciscano, com a presença de Francisco [de Assis], Clara [de Assis] e o padre Pio. Do outro lado, está Isabel de Portugal, muito visível, e Madre Teresa de Calcutá. A outra coisa interessante é que nas aparições de Fátima aparece uma grande familiaridade com o céu que hoje, neste mundo, é uma coisa estranha, mas muito importante. Estes miúdos. por exemplo, Lúcia quase desiludida por não ir para o céu, Francisco [que] quer ir depressa. Por isso, tomei em consideração um outro dado importante: na liturgia, há uma convocação universal. Rompem-se o espaço e o tempo, todos somos contemporâneos e sucede uma coisa bonita: no meio está o altar, daqui está a Igreja da história, de lá está a Igreja do céu. Repete-se quase a cena de Fátima: as crianças que têm uma abertura ao céu. Nós estamos do lado das crianças, ainda que não nos encontremos lá, estamos face a face com a Igreja do céu e a Igreja da história.

P. – Artisticamente, teve também uma intencionalidade.
R. – Quis representar um painel de luz. Tomei como fundo o ouro, que já desde João Damasceno [teólogo, 675-749] representa sempre a fidelidade e a santidade de Deus que não falha, uma luz que não se apaga. Com o ouro, basta pouquíssima luz para que brilhe. Toda a matéria de suporte está colocada de tal modo que surge um grande dinamismo, que não é estático. Mesmo para fazer ver que a vida eterna é um contínuo movimento, é uma comunhão, uma convergência, um encontro.

P. – Teve uma grande preocupação em ligar a expressão artística à Bíblia, que nem sempre está presente no fenómeno à volta de Fátima.
R. – Para mim, é importantíssimo. A arte litúrgica tem de ter três pernas para estar em pé. Senão, não se manterá de pé: a Palavra de Deus [é a primeira], que não devo tomar como a compreendo subjectivamente, mas deve haver um eco, uma correspondência na liturgia que pertence a toda a Igreja, não apenas a mim. Ambas estas coisas - a liturgia, a palavra de Deus - se quero compreendê-las bem, devo estar dentro da memória das gerações. A memória, a Tradição, com maiúscula. Tentei fazer algo assim: está a Bíblia (o Apocalipse), está o discurso da liturgia que expliquei, e a composição e uso das cores segundo a memória da Igreja.
Com três pernas já se mantém de pé, mas falta uma quarta, importante: o tempo em que se trabalha, uma abertura ao contemporâneo. Na liturgia há sempre qualquer coisa que não muda e algo que muda com o tempo. É uma dimensão mais ligada à pessoa, ao sujeito, à cultura, ao lugar, ao tempo. Creio que se compreende ali que os meus mestres são também artistas do século XX, como Kandinsky.

P. – Essa é uma perna que nem sempre está presente na arte cristã contemporânea…
R. – Sim, esse é um ponto muito débil. Se [a arte] se baseia apenas na imitação do passado, não diz nada e é sempre uma arte anémica, porque não está atenta à comunicação, está atenta a si mesma. Se se baseia apenas no diálogo contemporâneo, arrisca-se a ficar por diversas emoções imediatas.

P. – É possível perceber uma influência da arte oriental, pelo menos visualmente. Há uma tradição cristã oriental que se torna presente aqui em Fátima. Foi intencional?
R. – Não. Desligando de Fátima, creio que chegou o tempo de uma troca de dons entre Oriente e Ocidente: a arte litúrgica ocidental perdeu-se num subjectivismo que as pessoas já não percebem. A arte oriental perdeu-se numa esclerose e numa fossilização, já não está viva. Quando na história se encontraram estes dois grandes pulmões, foi sempre um bem. Veja-se o que aconteceu na Sicília, Ravena, ou o que fizeram El Greco ou Matisse, o último exemplo. Pessoalmente, procuro sempre ver como poderei, com os olhos de um iconógrafo, pintar com linguagens que eu conheço, contemporâneas, modernas. Não se trata de uma imitação do Oriente, não são ícones.
Por outro lado, penso que em Fátima quase não poderia haver uma arte exclusivamente ocidental, porque Fátima teve esta marca importante de tudo o que respeita a Rússia, ateísmo, comunismo, Leste. Uma influência dos dois pulmões em Fátima é importante. Aliás, basta ver como João Paulo II está ligado a Fátima.

P. – Foi difícil a concepção de uma obra desta envergadura?
R. – Digamos que não foi fácil. O arquitecto Tombazis foi muito exigente, não queria arcos, não queria figuras, só abstracto, não figurativo. Mas como poderia em Fátima, aquela gente de joelhos, chegar a uma igreja e não ver um rosto da Senhora, um santo? Como é possível? Não o imagino. A época que mais estudo como artista, para inspiração, é o pré-românico, o primeiro românico e o primeiro bizantino, no primeiro milénio. Aqui, propus uma figuração a que cheguei depois de muitos anos, uma figuração não agressiva, mas que pôde ser também aceite pelo arquitecto. No final, chegámos a acordo, a uma comunhão. Acabei por fazer algo que nunca tinha feito, pois os meus mosaicos são feitos de pedra, mármore, esmalte, ouro sobre vidro, nunca em ouro e terracota. Foi algo completamente inédito.

P. – Foi muito difícil do ponto de vista técnico?
R. – Sim, foi muito complexo, dado que cada peça do painel passou pelas nossas mãos nove vezes, é um trabalho enorme. Quando, no início, nos fomos distribuindo pelo espaço, era impressionante, parecíamos formigas. É precisa, verdadeiramente, uma força criadora, uma vontade muito forte para não desanimarmos após um mês num ritmo tremendo. O domínio espacial não foi fácil, porque é grandíssimo. Só chegando mais perto percebemos: 500 metros quadrados…

P. – O painel dominará visualmente o ambiente do altar, mas tem a companhia de uma cruz de 7,5 metros, em bronze. Os dois elementos convivem bem?
R. – Sim, teologicamente, deveria ser perfeito, porque primeiro está o crucifixo e depois o Cordeiro da vitória. Neste momento, o Cristo está um pouco baixo, sobretudo para o celebrante, é enorme e muito escuro, tem um certo peso. Apesar disso, sobre um fundo dourado, luminoso, emergirá ainda mais. Não sei se as pessoas vão olhar mais para o crucifixo ou para o Cordeiro, a Senhora, os santos que estão por trás…

António Marujo (Público) e Octávio Carmo (Ecclesia)

4 September, 2007

Madre Teresa (7)

A 29 de Agosto, o New York Times publicou um texto bem interessante do padre James Martin, jesuíta, autor do livro “My Life With the Saints”. Aqui fica:

The stunning revelations contained in a new book, which show that Mother Teresa doubted God’s existence, will delight her detractors and confuse her admirers. Or is it the other way around? The private journals and letters of the woman now known as Blessed Teresa of Calcutta will be released next month as “Mother Teresa: Come Be My Light,” and some excerpts have been published in Time magazine. The pious title of the book, however, is misleading. Most of its pages reveal not the serene meditations of a Catholic sister confident in her belief, but the agonized words of a person confronting a terrifying period of darkness that lasted for decades. “In my soul I feel just that terrible pain of loss,” she wrote in 1959, “of God not wanting me — of God not being God — of God not existing.” According to the book, this inner turmoil, known by only a handful of her closest colleagues, lasted until her death in 1997. Gleeful detractors may point to this as yet another example of the hypocrisy of organized religion. The woman widely known in her lifetime as a “living saint” apparently didn’t even believe in God. It was not always so. In 1946, Mother Teresa, then 36, was hard at work in a girls school in Calcutta when she fell ill. On a train ride en route to some rest in Darjeeling, she had heard what she would later call a “voice” asking her to work with the poorest of the poor, and experienced a profound sense of God’s presence. A few years later, however, after founding the Missionaries of Charity and beginning her work with the poor, darkness descended on her inner life. In 1957, she wrote to the archbishop of Calcutta about her struggles, saying, “I find no words to express the depths of the darkness.” But to conclude that Mother Teresa was a crypto-atheist is to misread both the woman and the experience that she was forced to undergo. Even the most sophisticated believers sometimes believe that the saints enjoyed a stress-free spiritual life — suffering little personal doubt. For many saints this is accurate: St. Francis de Sales, the 17th-century author of “An Introduction to the Devout Life,” said that he never went more than 15 minutes without being aware of God’s presence. Yet the opposite experience is so common it even has a name. St. John of the Cross, the Spanish mystic, labeled it the “dark night,” the time when a person feels completely abandoned by God, and which can lead even ardent believers to doubt God’s existence. During her final illness, St. Thérèse of Lisieux, the 19th-century French Carmelite nun who is now widely revered as “The Little Flower,” faced a similar trial, which seemed to center on doubts about whether anything awaited her after death. “If you only knew what darkness I am plunged into,” she said to the sisters in her convent. But Mother Teresa’s “dark night” was of a different magnitude, lasting for decades. It is almost unparalleled in the lives of the saints. In time, with the aid of the priest who acted as her spiritual director, Mother Teresa concluded that these painful experiences could help her identify not only with the abandonment that Jesus Christ felt during the crucifixion, but also with the abandonment that the poor faced daily. In this way she hoped to enter, in her words, the “dark holes” of the lives of the people with whom she worked. Paradoxically, then, Mother Teresa’s doubt may have contributed to the efficacy of one of the more notable faith-based initiatives of the last century. Few of us, even the most devout believers, are willing to leave everything behind to serve the poor. Consequently, Mother Teresa’s work can seem far removed from our daily lives. Yet in its relentless and even obsessive questioning, her life intersects with that of the modern atheist and agnostic. “If I ever become a saint,” she wrote, “I will surely be one of ‘darkness.’ ” Mother Teresa’s ministry with the poor won her the Nobel Prize and the admiration of a believing world. Her ministry to a doubting modern world may have just begun.

14 February, 2007

A sedução monástica de Philip Gröning

Além de uma crítica ao filme O Grande Silêncio e da entrevista de Paulo Moura ao realizador, há ainda um comentário que assinei no Y de sexta-feira, no Público:
Quase no final, um dos planos de "O Grande Silêncio" sintetiza todo o filme: um monge acabado de chegar, ainda em fase de adaptação ao convento, pega na corda do sino, puxa, toca a campana da igreja, o olhar fixo num ponto que apenas adivinhamos. Só o braço se movimenta num ritmo igual, provocando o som ritmado. Permanece o rosto voltado para algures, o olhar seduzido por algo que vem do fundo.
"O Grande Silêncio", de Philip Gröning, mostra que o realizador se deixou seduzir pela vida da Grande Chartreuse, próximo de Grenoble. Ali, São Bruno fundou, há pouco mais de 900 anos, a Ordem da Cartuxa, onde os monges procuram aliar a vida eremítica (cada um vive sozinho numa cela) à vida cenobítica (a experiência comunitária, com tempos em comum). "Tu me seduziste, Senhor, e eu deixei-me seduzir", diz a frase do livro bíblico do profeta Jeremias, repetida como uma legenda.
Durante quase três horas (Gröning filmou 120 horas de película em seis meses de permanência na Cartuxa), o sino soa como um refrão: passam os tempos e as estações, enquanto os monges rezam, rapam o cabelo, meditam, tratam do jardim. Neva e os religiosos cortam lenha, brincam, cantam, escorregam na neve, prepararam comida. A primavera explode e os monges riem, cantam, rezam, cuidam do jardim, trabalham na carpintaria.
Essa passagem do tempo e de uma experiência que se mostra marcam decisivamente o filme. Há apenas duas interferências do realizador: a captação de cada um dos rostos, durante breves segundos, como um adágio do olhar que se repete ao longo do filme; e uma curta entrevista (só se escutam as respostas) a um monge que cegou. Philip Gröning já afirmou que quis redescobrir o lado "mais luminoso, mais puro" do catolicismo, por contraste com o triângulo pecado-culpabilidade-contrição que conhecera. As declarações do monge cego mostram a oscilação do próprio realizador: o religioso está feliz com a sua vida, diz que "Deus é infinitamente bom e ajuda", mas também agradece "todos os dias" a Deus o facto de ter cegado…
Mas os olhares que nos desafiam através da objectiva do realizador - quase todos a fixam sem pestanejar - são olhares de pessoas que vivem "quase sem medo, que não receiam a morte, que confiam em absoluto em que Deus se ocupa de tudo", como também já testemunhou o realizador. A doença e a morte estão também presentes: um dos monges mais idosos é filmado enquanto outro o trata delicadamente; quase no final do filme, vê-se o monge moribundo na cama. Tudo é captado com a mesma poesia de quem filma a natureza envolvente. O corpo - na oração, no trabalho, no divertimento, na doença - assume uma dimensão estética, ascética e transcendente, porque liberta.
A mesma transcendência e harmonia é dada aos objectos, gestos e espaços do quotidiano: a gota do lava-louça, o claustro, um avião, o automóvel que passa, os gatos, as plantas, o lavar das mãos, a mesa, o jarro, uma maçã cortada, o espaço vazio, a chuva… "A terra, o ar e o oceano são abençoados pelo Senhor", diz uma das frases-legenda do filme.
Há um problema na versão portuguesa, comum a outros filmes que abordam ao fenómeno religioso: os cantos e as orações quase não são legendados. Num filme em que a palavra escrita e falada não abunda, a palavra cantada e rezada tem uma função primordial que fica ocultada por essa ausência.
Gröning sintetiza o espírito deste convento feito cinema numa outra frase: "Eis o silêncio: deixai que o Senhor pronuncie em nós uma palavra igual a Ele."
10 February, 2007

A Oração dos Homens

Filed under: Espiritualidade

"Ó pai, criador, deus-pai, ajuda-me!
Invoco-te, ó pai!
É a ti, ó pai, que eu me dirijo,
é para ti, meu deus, que eu me volto,
pai criador, é para ti que eu volto."

Assim começa "Orações a Nhialic", a prece de Denka, baixo vale do Nilo, que inaugura A Oração dos Homens. Uma Antologia das Tradições Espirituais,
uma obra com apresentação, selecção e tradução de Armando Silva Carvalho e José Tolentino Mendonça, recentemente editada pela Assírio & Alvim.

A antologia colige orações dos Povos Primeiros, da América Pré-Colombiana, da China, do Tibete, do Japão, da Índia, do Egipto, da Mesopotâmia, do Irão, da Tradição Hebraica, dos Gregos e dos Romanos, da Tradição Cristã e do Islão.

Uma das preces portuguesas que o livro inclui destina-se a ser rezada antes de se sair de casa:

"Jesus vai comigo,
eu vou com ele.
Ele vai adiante de mim.
eu vou atrás dele.
Ah! Jesus, Filho de Deus vivo,
andas sempre comigo,
no caminho que eu sigo.
Livrai-me de todo o perigo,
anjo da minha guarda,
pois Deus me enviou.
Guardai a minha alma,
guardai o meu corpo,
que eu não sei para o que vou.
Santo António,
andai sempre comigo,
livrai-me de todo o perigo,
de cão danado e por danar,
do mau encontro,
do homem vivo e do homem morto,
da mulher morta e da mulher viva.
Ó milagroso Santo António!
Livrai-me de todo o perigo,
e andai sempre comigo."

9 February, 2007

Comunicar ou dar a saber?

Filed under: Cultura, Espiritualidade

No jornal Le Monde (9.Fev.2007), esta nota de Robert Solé, intitulada "Com-mu-ni-quer":

"On connaît les ‘Justes’, ces citoyens qui, au péril de leur vie, ont sauvé des juifs pendant le nazisme. Mais comment qualifier ceux d’entre eux qui ont refusé d’en parler après la guerre ? Un rabbin britannique, cité par le Financial Times, révèle que le patron de la célèbre firme Leica, Ernst Leitz II, a aidé des centaines de ses employés juifs à fuir l’Allemagne dans les années 1930. Ce protestant ne s’en est jamais vanté par la suite : même ses petits-fils l’ignoraient. ‘Faites du bien, leur disait-il, et n’en parlez pas.’
Aujourd’hui, cette discrétion passerait pour pathologique. Il faut absolument "communiquer" ce que l’on a fait. Com-mu-ni-quer, pour défendre des idées, promouvoir une image ou gagner de l’argent. Tout le monde s’y est mis : partis, entreprises, syndicats, Eglises, ONG… Sans compter les mendiants dans le métro et, bien sûr, les terroristes. "Communiquer" ne signifie plus entrer en relation avec quelqu’un, mais le conquérir, le séduire, voire le piéger. Agir ne sert plus à rien si l’on ne sait pas en parler. A la limite, il n’est pas nécessaire de faire : l’important est de faire savoir."

 

5 February, 2007

Uma escrita de fogo, os livros do irmão Roger de Taizé

Sexta-feira, no Público, dei conta de alguns livros que foram publicados nos dois últimos anos em Portugal, do ou sobre o irmão Roger de Taizé. Dois deles saíram antes do Natal e são o pretexto para uma chamada de atenção para esta pequena biblioteca de Taizé que começa a surgir (finalmente!!) em Portugal.


Uma escrita povoada com palavras de fogo. O irmão Roger, fundador da comunidade monástica de Taizé (França), foi uma personalidade invulgar no cristianismo contemporâneo. Jovem pastor protestante, decidiu iniciar uma experiência comunitária de monges, uma tradição longínqua do protestantismo. O acolhimento de jovens, a forma de rezar esteticamente bela, a atenção ao sofrimento das pessoas e dos povos são apenas algumas das marcas de água da comunidade que, ao fim de poucos anos, se alargou a monges oriundos do catolicismo, convertendo-se numa experiência ecuménica.

Roger Schutz, de seu nome de baptismo, acabou por se revelar também um autor límpido, cujos textos marcam profundamente quem o lê. Os seus textos, as orações que escrevia, as cartas anuais que serviam para a reflexão de muitos cristãos à roda do mundo constituem hoje um dos patrimónios mais ricos do cristianismo contemporâneo. Uma escrita de fogo, mesmo quando fala das dúvidas e das noites da fé: “na tua escuridão acende-se um fogo que nunca se apaga. Tu, que gostarias de ser portador de um fogo, mesmo nas noites da humanidade, deixarás crescer em ti uma vida interior que não tem princípio nem fim? Ela é uma terra de fogo.”

Para variar, quase não se conheciam textos do irmão Roger em Portugal, até há pouco tempo. A situação começou a mudar com a realização do encontro europeu de jovens em Lisboa, há dois anos (o último em que o fundador de Taizé participou) e, depois, a com a notícia da sua morte, às mãos de uma mulher perturbada, em Agosto de 2005.

Dois novos livros acabam de ser publicados, para poder começar a construir uma pequena biblioteca de Taizé: “Oração: Frescura de uma Fonte”, com textos do irmão Roger e de Madre Teresa de Calcutá (ed. Paulus, 9,90 €); e “Irmão Roger de Taizé”, uma biografia (de Christian Feldmann, ed. Paulinas, 11 €). Este último apresenta uma síntese do percurso pessoal deste místico contemporâneo, acompanhada de fotografias (várias delas, sobretudo as da juventude, pouco conhecidas) e de uma selecção de textos do irmão Roger. “Palavras de Confiança” é o título desse capítulo, acertando com uma das palavras-chave da vida do fundador de Taizé. “Se a confiança do coração estivesse no princípio de tudo… irias longe, muito longe.”

Esta obra vem somar-se a outras duas biografias saídas recentemente: “A Vida do Irmão Roger”, de Kathryn Spink (ed. AO – Apostolado da Oração), é um texto original que apresenta traços e histórias até aqui desconhecidas na vida do fundador de Taizé e da própria comunidade; “Taizé Um Sentido Para a Vida” (ed. Paulus), do teólogo ortodoxo francês Olivier Clément faz uma leitura singular do significado profundo de Taizé, não só em termos eclesiais como sociais.

Os outros textos publicados recentemente são “O Seu Amor é um Fogo” (ed. Paulistas) e “Deus Só Pode Amar” (ed. Gráfica de Coimbra), obras do irmão Roger. E ainda dois outros livros do irmão John, sobre temas bíblicos, a especificidade deste membro da comunidade: “À Beira da Fonte – Jesus e a Samaritana” e “A Caminho da Terra da Liberdade – Uma Releitura dos Dez Mandamentos”. E que releitura! A Bíblia aparece, aqui, como água fresca e limpa, como poucas vezes temos oportunidade de ler em português. Vale a pena cair em tentação e ler.

1 February, 2007

Premiado filme sobre arrependimento de monge ortodoxo

Um filme sobre o arrependimento, centrado na figura de um monge ortodoxo atormentado pelo seu passado, venceu várias categorias do mais importante prémio de cinema russo. Sophia Kishkovsky, do serviço de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas, deu a notícia: «A feature film about repentance - as embodied by a Russian Orthodox monk tormented by his wartime past - has swept top prizes at Russia’s main film awards ceremony. "Ostrov," or "Island," took six Zolotoi Oryol, or Golden Eagle awards, including best film, director and actor at a ceremony on 27 January. The film stars Pyotr Mamonov, a Soviet-era underground rock star who has become a devout Orthodox believer and now lives in an isolated village. It was directed by Pavel Lungin, previously most famous for "Taxi Blues", a perestroika-era film also starring Mamonov, and "Tycoon: A New Russian," a fictionalised take on the rise of Boris Berezovsky, a controversial magnate now living in British exile.»

“O Grande Silêncio”: estreia dia 8

Chega agora a Portugal o documentário "O Grande Silêncio", de Philip Gröning, sobre os monges da Cartuxa, que, contra todas as previsões, está a ser um (relativo) sucesso de bilheteira em França. Fica a apresentação feita pelo site da Renascença . Caso o leitor vá ver, pode partilhar aqui as suas impressões.

"Entre num local envolto em mistério e silêncio

cartuxaOs momentos de silêncio podem ser raros no seu dia-a-dia.
Mas já imaginou como será viver num local onde a palavra é a excepção?
O Grande Silêncio é um documentário sobre os Monges da Ordem da Cartuxa, filmado na Grande Chartreuse, nos Alpes franceses.

Depois de 17 anos a tentar fazer este documentário, o realizador Philip Gröning finalmente conseguiu autorização para filmar dentro do mosteiro.
O resultado são as filmagens de 6 meses a acompanhar os rituais diários dos Monges da Cartuxa.
Um privilégio que Philip demorou mais de uma década a conquistar e que agora chega até si através da Renascença.

Prepare-se para subir aos Alpes franceses, acompanhar a passagem do tempo num mosteiro onde reina o silêncio e descobrir por que é que este documentário foi tão premiado.
O Grande Silêncio foi considerado o Melhor Documentário no European Film Awards, recebeu o Prémio especial do júri no festival de Sundance e foi também o Melhor Documentário nos Bavarian Film Awards".

 

Textos do jornal La Croix sobre o filme:

- Une expérience unique d’intériorité

- "J’ai voulu que ce film devienne une expérience", entrevista com o realizador

- L’incroyable succès du Grand Silence.

22 January, 2007

Marcos de um itinerário

 [de um dossier publicado hoje pelo jornal La Croix]
 
L’Abbé Pierre en dates (1912-2007)

1912
Naissance d’Henri Grouès à Lyon (Rhône), le 5 août

1931
Renonce par acte notarié à sa part du patrimoine familial et distribue ce qu’il possède à diverses œuvres de charité. Entre chez les Capucins, mais renonce cinq ans après à cette voie.

1938
Ordination sacerdotale le 14 août.

1941
Dès le lendemain de la rafle du Vel’ d’Hiv à Paris, l’Abbé Pierre accueille des Juifs rescapés d’une première rafle en zone libre.

1942-44
Clandestinité : il participe à la résistance, crée des maquis en Chartreuse et dans le Vercors, qui deviendront une partie de "l’Armée du Vercors". Il prend le nom d’Abbé Pierre dans la clandestinité.

1943
Mai : Arrestation par l’armée allemande à Cambo-les-Bains (Pyrénées).
Evasion, par la traversée de l’Espagne et départ de Gilbratar vers Alger.
17 juin : première rencontre avec le Général de Gaulle, à Alger.

1945-51
Député apparenté MRP de Meurthe-et-Moselle.
Président du Comité Exécutif du Mouvement Universel pour une Confédération Mondiale.

1949
Avec André Philippe, Député, il dépose un projet de loi tendant à reconnaître l’objection de conscience. Il entreprend la construction (souvent illégale) de logements pour familles sans-abri et accueille chez lui un homme désespéré, Georges : cet événement marque la fondation de la première communauté des chiffonniers d’Emmaüs (Neuilly-Plaisance).

1954
Une femme puis un bébé meurent de froid en janvier et en février. L’Abbé lance un appel sur les ondes de RTL : c’est "l’insurrection de la bonté" à Paris et en province. Lors de cet hiver de froid terrible, l’Abbé Pierre demande au Parlement un milliard de francs, qui lui est d’abord refusé. Trois semaines plus tard, le Parlement adopte à l’unanimité non pas un, mais dix milliards de crédits pour réaliser immédiatement 12 000 logements d’urgence à travers toute la France, pour les plus défavorisés.
Fondation de la revue Faims et Soifs, de la S.A. HLM Emmaüs, de l’Union nationale d’aide aux sans-logis qui deviendra la Confédération Générale du Logement (association de locataires), ainsi que de l’Association Emmaüs de Paris.

1958
Victime de surmenage, délègue tous ses pouvoirs pour la direction d’Emmaüs et retrouve l’anonymat

1969
Première assemblée générale d’Emmaüs International à Berne (Suisse), qui adopte le Manifeste Universel du Mouvement Emmaüs.

1981
L’abbé Pierre est fait Officier de la Légion d’Honneur, au titre des Droits de l’homme.

1984
Lancement de la Banque Alimentaire en France, par Emmaüs, le Secours Catholique et l’Armée du Salut.

1985
Constitution d’Emmaüs France qui rassemble toutes les composantes d’Emmaüs en France.

1987
Décembre : Commandeur de la Légion d’Honneur, pour son action dans le domaine du logement.

1988
Création de la Fondation Abbé Pierre pour le logement des Défavorisés, reconnue d’utilité publique en 1992.

1989
Film Hiver 54, de Denis Amar

1991
Pentecôte : jeûne à l’église Saint-Joseph de Paris, avec les "déboutés du droit d’asile" qui font une grève de la faim dans l’indifférence générale.

1994
Publie Testament

1996
Son soutien à son "vieil ami" Roger Garaudy, auteur d’un livre révisionniste, suscite une polémique. L’abbé fera machine arrière et en juillet, dans La Croix, il demande pardon à ceux qu’il a pu blesser

2001
Remise des insignes de Grand Officier de la Légion d’Honneur par le Président de la République.

2004
Classé en tête des personnalités préférées des Français, obtient à sa demande de ne plus figurer dans le sondage IFOP-JFDD

2005
Publie Mon Dieu… pourquoi ?

2007
Décès de l’Abbé Pierre le 22 janvier.

Source : site de la Fondation Abbé Pierre

16 January, 2007

“Mudar o Olhar para Mudar o Mundo”

Filed under: Cultura, Espiritualidade
A Fundação Betânia realizará no dia 3 de Fevereiro próximo o Encontro Mudar o Olhar para Mudar o Mundo, dinamizado por António Marujo, um dos animadores deste blogue. O programa e a ficha de inscrição estão disponíveis em www.fundacao-betania.org
Os interessados em participar devem inscrever-se através do Site, ou por correio electrónico.
A Fundação Betânia existe para "catalisar formas de vivenciar e testemunhar estilos de vida fraterna, inspirados pela primazia do Ser, a simplicidade, a gratuidade, a disponibilidade e uma atitude contemplativa activa na fidelidade ao Amor".
12 January, 2007

“Dois amores, duas cidades”

Filed under: Cultura, Espiritualidade

"Para quem se pergunta se é possível a fé sem compromisso; para quem procura caminhos de integração e entrega; para quem se inquieta até onde esse compromisso pode ou deve levar", vai decorrer em Palmela, de 26 a 28 Janeiro próximo, um encontro sobre o tema "Dois amores, duas cidades: A cidade de Deus e a cidade dos Homens - Espiritualidade e compromisso social e político". Sob a coordenação do P. António Vaz Pinto, s.j., a iniciativa contará com conferências e paineis em que participam Alfredo Bruto da Costa, António Bagão Félix, Carlos de Sousa, Carlos Zorrinho, Guilherme Oliveira Martins, Jorge Braga de Macedo, José Souto de Moura, Manuel Braga da Cruz, Paula Moura Pinheiro, Roberto Carneiro, Rui Marques e Zita Seabra. A iniciativa é da Casa de Oração Santa Rafaela Maria, das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, Palmela.

Contacto:casadeoracao@aciportugal.org