Hoje, 17 de Outubro, assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Miséria. Às 10h00 da manhã, a Comissão Nacional Justiça e Paz entrega uma petição assinada por 20 mil pessoas a pedir que a pobreza seja declarada uma grave violação dos direitos humanos. Em Portugal, onde os últimos dados continuam a ser um escândalo – 20 por cento da população é pobre, 40 por cento está em risco de pobreza – esta petição pode ser uma grande pedra no charco que não quer enfrentar de vez o problema número um do país, o escândalo maior. Hoje, também por todo o país e por todo o mundo estão previstas manifestações e “levantamentos” contra a pobreza e a favor do cumprimento dos Objectivos do Milénio proclamados pelas Nações Unidas. Oxalá os políticos ouçam os cidadãos.
Erradicar a miséria
O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso
Recordo três frases da encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos): "Em alguns continentes, são incontáveis os homens torturados pela fome." "O mundo está doente." "Os povos da fome apelam aos povos da opulência." Parece terem sido escritas hoje.
É verdade. Mas também eram verdadeiras naquela época.
Estamos melhor ou pior?
Há países que estão muito melhor. Creio que não se deve generalizar o pessimismo. Repare num país como a Coreia do Sul, que tinha o mesmo rendimento per capita que os Camarões, em 1950. Hoje, a Coreia do Sul tem um rendimento comparável à Europa Mediterrânica e é um país industrial bem avançado. Quando comecei a interessar-me por estas questões, nos anos 50, o Japão estava entre os países em vias de desenvolvimento. Há transformações profundas em muitos países. Hoje, na China, o desenvolvimento é um pouco caótico, mas o que se passa na parte oriental do país é espectacular.
Significa que há países ou políticas que colocaram em prática princípios da doutrina social da Igreja?
Sim, alguns países foram inspirados por ela. Por exemplo, através de um homem como o padre Lebret, que foi conselheiro de vários governos: Senegal, Brasil, Uruguai, Peru. Encontrei-o, no terreno, na Venezuela. Houve influência, claro. Não podemos pensar que a China escute muito as encíclicas, mas talvez escute algumas coisas do Ocidente que não são estranhas à doutrina social da Igreja.
Há, em toda a encíclica, um sentimento de urgência em resolver os problemas de quem sofre. Hoje, somos menos sensíveis ao sofrimento de outros?
É pior: por vezes estamos resignados. Há pessoas que têm a impressão de que se ensaiaram muitas coisas - em África, por exemplo -, que se desejaram políticas de desenvolvimento que falharam e já não há nada a fazer. Creio que estão erradas e exageram. Mas tenho alunos africanos, que estão condicionados por este afro-pessimismo ocidental.
Digo, por exemplo a alunos do Burkina Faso: "Conheço o vosso país há 50 anos. Regressei há pouco tempo a Ouagadougou. A transformação da cidade é extraordinária. É um país muito pobre, mas não se deve dizer que não há nada. O país é desigual, há muito a fazer, mas é preciso fazer um julgamento mais justo.
Há urgências ainda hoje?
Sim. Há países como esse, muito desnutridos no plano agrícola. Em alguns casos, perguntamos o que é preciso fazer. É urgente encontrar soluções novas.
Se pensarmos em alguns temas da encíclica - racismo, nacionalismos, distribuição da terra, guerra, fome, dívida externa, especulação financeira - parece que muitas coisas caminham à margem do que a Igreja propõe.
Em todos esses domínios há problemas, é verdade. Mas será que podemos dizer que está tudo pior? Não. Mesmo o racismo, se quiser. Há racismo na Europa, por causa do encontro das populações, da imigração. Mas na atitude com relação aos africanos, em geral, há muito menos racismo hoje do que há 50 anos.
Nessa altura havia uma espécie de crença de que a África estava condenada para sempre. Hoje, há muita gente que vê que a África é capaz de se desenvolver e educar. Há muitos africanos que demonstram uma capacidade intelectual notável e são reconhecidos como tal. Não podemos dizer que o racismo está generalizado. É preciso lutar, mas já se obtiveram alguns resultados: nas escolas, as crianças vivem juntas sem muitos problemas.
Paulo VI pedia a criação de um fundo de ajuda sustentado em parte por despesas militares, que não interferisse nos países. O Fundo Monetário Internacional [FMI] é acusado disso mesmo…
O FMI não é um organismo de ajuda, mas de gestão de dinheiro. Mas tem muita influência pelo julgamento que faz sobre as economias de diversos países. Os banqueiros, os financeiros agem tendo em conta o juízo do FMI. O fundo impõe medidas muito imperativas, para estabilizar a moeda, por vezes com algum desprezo para com a autonomia dos países. Isso é verdade.
É necessário ainda, então, criar esse fundo de que Paulo VI falava?
Sim. O melhor seria uma participação igualitária dos diversos países na sua gestão. Na realidade,
o FMI é gerido pelos países mais ricos.
A Igreja propõe os princípios do destino universal dos bens e do bem comum. Mas há políticos e empresários católicos que não têm em conta esses princípios e para os quais é mais fácil, por exemplo, enviar gente para o desemprego. Falta formação no campo da doutrina social?
Sim, falta. Há alguma coisa, mas é preciso ocuparmo-nos de toda a gente. Seria necessário este campo essencial estar presente na catequização: se isso não for algo comum a todos os católicos, é muito difícil falar apenas a especialistas e responsáveis. Se o conjunto da comunidade for mais consciente, teremos mais possibilidades de conseguir.
Tem um livro sobre os silêncios do pensamento social católico. Na sua conferência referiu a imigração. Que outros temas estão ausentes?
O sistema de economia financeira, o capitalismo - no sentido do carácter desigual da gestão do capital. Demasiado poucos homens intervêm para determinar o destino dos outros, por exemplo nas empresas. A maior parte das pessoas - mesmo quem tem responsabilidades - depende do capital financeiro exterior, que age sobre elas.
Pode dizer-se que o verdadeiro poder do mundo e dos países é o capital financeiro?
Não, mas joga um papel, por vezes, muito prejudicial. O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso. Mas não podemos dizer que seja a única coisa a actuar. As empresas também têm responsabilidade, a inteligência e a ciência, também actuam.
Como dizia, "não temos o direito de nos mostrarmos negligentes, resignados ou adormecidos". É preciso resistir?
Resistir, sim. Mas também trabalhar para fazer coisas positivas. Não apenas estar perante [os problemas], é preciso criar, encontrar soluções. A propósito do capital, é necessário encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital, e sendo por consequência capazes de intervir na gestão do capital, associando-se.
Quando o Papa Paulo VI surpreendeu o mundo
O tema e o tempo escolhidos não eram esperados. A encíclica Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos) parecia mais um texto saído de alguma instituição económica. O Ocidente vivia um tempo de euforia: o crescimento económico antecipava a abundância, o processo de descolonização entrava na recta final (só Portugal mantinha colónias). Mas havia já sinais prenunciadores da crise: a difícil luta pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos, a agonia da guerra do Vietname. A revolta estudantil francesa chegaria em Maio de 1968…
Comungando de algum optimismo, a encíclica de Paulo VI não deixava de alertar: "Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência", escrevia o Papa Montini no terceiro parágrafo. O documento saía apenas 15 meses depois de terminado o Concílio Vaticano II, que iniciara a reforma da Igreja e retivera, entre 1962 e 1965, a atenção de muitos.
A surpresa será maior se se pensar, recorda Peter Stilwell, que nessa altura o papado - estamos antes de João Paulo II e da massificação televisiva - não atraía as atenções que depois conquistaria. Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, coordenou a edição de vários documentos de doutrina social católica (Caminhos da Justiça e da Paz, ed. Rei dos Livros), entre os quais a Populorum Progressio.
Já se começava a falar de neocolonialismo, lembra este especialista. Os países que tinham conquistado a independência após a II Guerra Mundial continuavam dependentes. Havia excepções: Leopold Senghor no Senegal, Julius Nyerere na Tanzânia. Mas a maioria das lideranças africanas mais não fazia que "reproduzir as estruturas das anteriores administrações coloniais", diz Stilwell.
Tal realidade era referida por Paulo VI: "Os povos que ainda há pouco tempo conseguiram a independência nacional sentem a necessidade de acrescentar a esta liberdade política um crescimento autónomo e digno, tanto social como económico."
"Liberalismo esmaga"
É neste contexto que, qual pedrada no charco, surge a encíclica. "O desenvolvimento é o novo nome da paz", escrevia então o Papa, num enunciado que ficaria célebre. E o desenvolvimento "não se reduz ao simples crescimento", acrescentava. A novidade "foi que o desenvolvimento foi compreendido como um processo universal", disse quarta-feira passada na Universidade Católica, em Lisboa, um dos peritos que foram convidados por Paulo VI a trabalhar na redacção da encíclica.
Jean-Yves Calvez, de 79 anos, padre jesuíta e teólogo, é um dos mais importantes especialistas no pensamento social católico, com uma larga lista de títulos publicados em campos como a filosofia política ou o marxismo. Na época em que participou na redacção da encíclica, Calvez admite que "toda a gente" imaginava que era uma questão de "curto prazo" acabar com a miséria.
Em entrevista ao PÚBLICO, o padre Calvez reafirma: "Toda a gente falhou: economistas, políticos, todos os que se implicaram na questão do desenvolvimento nos anos 50-60. Imaginavam que, com uma política monetarista e meios financeiros, se poderia elevar o nível de toda a população que tínhamos deixado ao abandono no tempo colonial." Mesmo assim, o teólogo tem uma perspectiva optimista: "Ao mesmo tempo, tivemos sucessos, não se pode dizer que fracassámos em toda a linha. Mas há problemas difíceis ."
Na conferência da Universidade Católica, Calvez situou: a "questão maior" era a da ""disparidade", da flagrante desigualdade quanto ao desenvolvimento". Mas não bastava recorrer aos mecanismos económicos para resolver os problemas. O Papa, diz, tinha consciência da importância da cultura. "Paulo VI tinha um sentido muito agudo dessa necessidade. Foi o que a encíclica trouxe de novo. Não trouxe grandes invenções sobre modos de financiamento ou industrialização, mas sim sobre os aspectos culturais e sociológicos."
Tal visão traduzia-se em alguns enunciados: um desenvolvimento integral e solidário; ambivalência do crescimento, já que "possuir mais não é o fim último"; o destino universal dos bens acima do direito à propriedade e do comércio livre; o risco de "esmagar" os países pobres com o peso da dívida; o "escândalo intolerável" do esbanjamento; a necessidade de "construir uma ordem jurídica internacionalmente reconhecida".
Pelo meio, Paulo VI anunciava a criação de uma comissão para favorecer as ideias da encíclica - "Justiça e Paz é o seu nome e o seu programa". E apelava à criação de um "fundo mundial, sustentado por uma parte da verba das despesas militares, para vir em auxílio dos mais deserdados".
Quarenta anos depois, Calvez verifica: "A repartição é mais desigual que nunca". E se "o liberalismo é eficaz de muitas maneiras, traz também o esmagamento e a exclusão de muitos". Mas a encíclica tem um "rico conjunto de princípios".
Um sentimento de urgência atravessava o documento: "Temos de nos apressar: há muitos homens a sofrer e cresce a distância que separa o progresso de uns da estagnação e até da regressão de outros." Esta frase tem mesmo 40 anos?
Papa convida jovens a serem testemunhas da não-violência
A Zenit noticia no seu serviço de hoje:
Bento XVI convidou os jovens, nesta quarta-feira, a serem testemunhas da não-violência. Ao despedir-se dos milhares de peregrinos que foram à audiência geral das quartas-feiras, o Papa dirigiu, como de costume, uma saudação especial aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. "Queridos jovens, sede por toda parte testemunhas de não-violência e de paz. Isso é importante precisamente hoje! E com este generoso compromisso, contribuireis a construir um futuro melhor para todos", exortou-os.
Esperança pelas ruas da amargura
O que é a injustiça institucionalizada mostra-o à saciedade este caso comentado pelo jornalista e editor Paulo Ferreira, do Jornal de Notícias. Mais palavras para quê? O que faz falta é mudar, agir.
Esperança Barrias, reformada de 70 anos, vive em Barredo, recôndito lugar do concelho de Santa Marta de Penaguião, no distrito do Vila Real. Na segunda-feira passada meteu- -se num táxi para ir marcar uma consulta ao centro de saúde. Gastou 20 euros. Em vão o centro esteve todo o dia fechado para que médicos, enfermeiros e pessoal administrativo pudessem assistir ao funeral de um clínico. Esperança, desconsolada, fez saber que só poderá deslocar- -se novamente a Santa Marta "quando receber a reforma outra vez".
Este episódio, exemplo emblemático do profundo desprezo pelos utentes que tão bem caracteriza uma boa parte da função pública portuguesa, poderia não passar de um lamentável equívoco dos responsáveis do centro de saúde de Santa Marta. Por muito atendível que seja o motivo, é errado fechar um dia inteiro um serviço público. Sucede que o acto teve a cobertura do director da Administração Regional de Saúde (ARS) de Vila Real. José Maria Andrade está "solidário" com os médicos e restantes profissionais.
Ou seja o director da ARS entende que a participação num funeral é mais importante do que a satisfação das necessidades dos utentes do concelho. Ou seja: José Maria Andrade está literalmente nas tintas para o tempo e o dinheiro gastos por Esperança Barrias, de cuja boca nunca ouvirá um lamento que lhe abale um bocadinho a consciência. Ou seja: se fosse presidente de uma escola, mandaria parar as aulas; se fosse chefe de uma cadeia, dava folga aos reclusos O princípio é este: mais vale ser "solidário" com os colegas do que prestar serviços a quem precisa. Não está mal.
Marcos de um itinerário

1912
Naissance d’Henri Grouès à Lyon (Rhône), le 5 août
1931
Renonce par acte notarié à sa part du patrimoine familial et distribue ce qu’il possède à diverses œuvres de charité. Entre chez les Capucins, mais renonce cinq ans après à cette voie.
1938
Ordination sacerdotale le 14 août.
1941
Dès le lendemain de la rafle du Vel’ d’Hiv à Paris, l’Abbé Pierre accueille des Juifs rescapés d’une première rafle en zone libre.
1942-44
Clandestinité : il participe à la résistance, crée des maquis en Chartreuse et dans le Vercors, qui deviendront une partie de "l’Armée du Vercors". Il prend le nom d’Abbé Pierre dans la clandestinité.
1943
Mai : Arrestation par l’armée allemande à Cambo-les-Bains (Pyrénées).
Evasion, par la traversée de l’Espagne et départ de Gilbratar vers Alger.
17 juin : première rencontre avec le Général de Gaulle, à Alger.
1945-51
Député apparenté MRP de Meurthe-et-Moselle.
Président du Comité Exécutif du Mouvement Universel pour une Confédération Mondiale.
1949
Avec André Philippe, Député, il dépose un projet de loi tendant à reconnaître l’objection de conscience. Il entreprend la construction (souvent illégale) de logements pour familles sans-abri et accueille chez lui un homme désespéré, Georges : cet événement marque la fondation de la première communauté des chiffonniers d’Emmaüs (Neuilly-Plaisance).
1954
Une femme puis un bébé meurent de froid en janvier et en février. L’Abbé lance un appel sur les ondes de RTL : c’est "l’insurrection de la bonté" à Paris et en province. Lors de cet hiver de froid terrible, l’Abbé Pierre demande au Parlement un milliard de francs, qui lui est d’abord refusé. Trois semaines plus tard, le Parlement adopte à l’unanimité non pas un, mais dix milliards de crédits pour réaliser immédiatement 12 000 logements d’urgence à travers toute la France, pour les plus défavorisés.
Fondation de la revue Faims et Soifs, de la S.A. HLM Emmaüs, de l’Union nationale d’aide aux sans-logis qui deviendra la Confédération Générale du Logement (association de locataires), ainsi que de l’Association Emmaüs de Paris.
1958
Victime de surmenage, délègue tous ses pouvoirs pour la direction d’Emmaüs et retrouve l’anonymat
1969
Première assemblée générale d’Emmaüs International à Berne (Suisse), qui adopte le Manifeste Universel du Mouvement Emmaüs.
1981
L’abbé Pierre est fait Officier de la Légion d’Honneur, au titre des Droits de l’homme.
1984
Lancement de la Banque Alimentaire en France, par Emmaüs, le Secours Catholique et l’Armée du Salut.
1985
Constitution d’Emmaüs France qui rassemble toutes les composantes d’Emmaüs en France.
1987
Décembre : Commandeur de la Légion d’Honneur, pour son action dans le domaine du logement.
1988
Création de la Fondation Abbé Pierre pour le logement des Défavorisés, reconnue d’utilité publique en 1992.
1989
Film Hiver 54, de Denis Amar
1991
Pentecôte : jeûne à l’église Saint-Joseph de Paris, avec les "déboutés du droit d’asile" qui font une grève de la faim dans l’indifférence générale.
1994
Publie Testament
1996
Son soutien à son "vieil ami" Roger Garaudy, auteur d’un livre révisionniste, suscite une polémique. L’abbé fera machine arrière et en juillet, dans La Croix, il demande pardon à ceux qu’il a pu blesser
2001
Remise des insignes de Grand Officier de la Légion d’Honneur par le Président de la République.
2004
Classé en tête des personnalités préférées des Français, obtient à sa demande de ne plus figurer dans le sondage IFOP-JFDD
2005
Publie Mon Dieu… pourquoi ?
2007
Décès de l’Abbé Pierre le 22 janvier.
Source : site de la Fondation Abbé Pierre
Abbé Pierre 1912-2007
O testemunho de uma vida
Itália pede abolição global da pena de morte
O Governo de Itália acaba de apresentar formalmente no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma iniciativa com vista a uma moratória internacional sobre a pena de morte. Actualmente membro daquele órgão, a Itália conseguiu, para já, o apoio da Alemanha que detém, neste primeiro semestre do ano, a presidência da União Europeia. Roma tomou já idêntica iniciativa em 1994 e 1999, mas sem sucesso.
Segundo a revista The Tablet, a proposta italiana foi já saudada por diversos grupos religiosos, designadamente pela Comunidade de Santo Egídio que há anos vem defendendo a mesma causa.
O Vaticano não comentou directamente a campanha de Itália, se bem que, após a recente execução do ex-líder iraquiano Saddam Hussein, o director do Gabinete de Imprensa do Vaticano, Federico Lombardi, tenha comentado que "uma condenação à morte é sempre uma notícia trágica e motivo de tristeza". Por sua vez o presidente do Consleho Pontifício da Justiça e Paz, cardeal Renato Martino, terá comentado, sobre o mesmo assunto, que o enforcamento de Saddam era "um erro, tal como era erro não situar o julgamento no âmbito de um Tribunal Criminal Internacional".
Ainda segundo The Tablet, a pena de morte vigora em 54 estados, entre os quais a China, Arábia Saudita, Irão e Estados Unidos da América.
Assim fala o Senhor
“Assim fala o Senhor que outrora abriu um caminho através do mar,
uma estrada nas torrentes das águas;
que pôs em campanha carros e cavalos, tropa de soldados e chefes;
caíram para nunca mais se levantarem,
extinguiram-se como um pavio que se apaga:
Não vos lembreis dos acontecimentos de outrora, não penseis mais no passado,
pois vou realizar algo de novo que já está a aparecer: não o notais?
Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr rios na estepe.
Glorificar-me-ão os animais selvagens, os chacais e as avestruzes,
porque hei-de fazer brotar água no deserto e rios na terra árida,
para dar de beber ao meu povo e meu eleito."
Isaías, 43, 16-21
Barbaridade e cinismo
"(…) Sabemos todos, e há muito, que Saddam era um ditador sanguinário, conhecido por requintes de crueldade. Sabemos que cometeu crimes contra a humanidade e oprimiu o seu povo. Sabemos que após a invasão do seu país foi deposto, capturado e julgado num processo irregular, marcado por interferências políticas e assassínios de advogados. A justiça e os direitos humanos em nome dos quais se quis condenar Saddam foram aviltados com a pena capital. A forca é uma marca medieval, um retrocesso civilizacional que apenas coloca os "libertadores" do Iraque ao nível do tirano de Bagdad. O acrescento de civilização que seria a eliminação da pena de morte e da tortura frustrou-se uma vez mais. E dizer, como disse Bush, que a execução de Saddam é um marco importante no caminho do Iraque rumo à democracia é apenas mais uma barbaridade. Pior, só mesmo o cinismo de algumas diplomacias tão cheias de princípios como de compreensão pela "soberania" iraquiana…(…)
Confundir a forca com o caminho para a democracia ajuda apenas a perceber a irracionalidade do nosso tempo."
António José Teixeira, editorial in DN, 31.12.2006
A evasão pelo consumo
O editorial de hoje de António José Teixeira, director do Diário de Notícias, conjugado com as notícias de ontem que davam conta dos volumes "astronómicos" (*) do consumo nesta quadra natalícia e do esgotamento dos programas de férias mais caros, merece ficar registado e ser debatido.
Com a devida vénia ao autor e ao jornal, aqui o transcrevo:
"Evasões
António José Teixeira
Não é Carnaval, mas, talvez para dar folga ao cinto apertado pela governação socialista, nunca os portugueses terão sido dados a tanto excesso. Não foi e não é necessariamente folguedo, foi e é muito dinheiro gasto em pouco tempo. O cartão multibanco não teve parança, muitos milhões de euros mudaram de mãos em poucos dias. Quase mil euros foram movimentados por segundo, o que demonstra a voragem consumista do nosso tempo. A constatação propicia moralismos diversos, seja porque somos um país pobre a fazer de rico, seja porque estamos demasiado endividados e só pensamos em aumentar as dívidas, seja porque transformamos todas as datas festivas em hinos ao consumo. A verdade é que tendemos a esquecer que o modelo produtivo e social em que vivemos, e a que pressupostamente não somos alheios, tem por base o estímulo ao consumo. De uma forma simplista podemos dizer que o crescimento do consumo faz crescer a produção e o comércio. O problema português não está no excesso consumista natalício, admitindo que é um excesso. O problema está na nossa fraca capacidade produtiva, na enorme dependência externa.
Portugal é um país de comerciantes, uma desproporcionada superfície mercantil. Bate recordes nos hipermercados. Projecta mais centros comerciais do que qualquer congénere europeu. O prazer e a felicidade de hoje já não se fazem de marcas simbólicas, de intercâmbios pessoais ou do mero convívio social. Ganha crescente protagonismo o sujeito consumidor, que vai destronando o cidadão preocupado com a comunidade. O desejo e o prazer realizam-se numa incessante procura e conquista de objectos, quantas vezes confundidos com sujeitos nossos iguais.
A cultura consumista vive do efémero, faz do passado um mero pretexto de diversão e evasão. Produz demasiado lixo, que não recicla. Vive da precariedade e na velocidade. Foge demasiadas vezes sem destino. Estampa-se insolvente numa qualquer estrada sem que a morte seja mais do que uma ocorrência ou calamidade sem especial significado.
A voragem do consumo não tem pensamento estratégico. Esgota-se em si própria, descrente em qualquer salvação. Num mundo de pouca esperança, goza–se o presente que os amanhãs já não cantam. O tempo é agora de saldos, promoções, pechinchas, oportunidades a não perder. Aproxima-se a passagem de ano e neste país sem direitos adquiridos, em défice continuado, nada como voar para o Brasil para esquecer o garrote de Sócrates. Para que conste, os voos já estão esgotados. Se nada mais houver, restará o comando da televisão…"
……………..
(*) O jornalista Paulo Ferreira sintetiza hoje no JN:
"Os portugueses levantaram, este Natal, mais dinheiro no multibanco e fizeram compras de valor mais elevado com os seus cartões de crédito. Os números assustam em sete dias, gastámos 1,35 mil milhões de euros; os pagamentos com os cartões subiram para 768,3 milhões de euros; os levantamentos atingiram 590,6 milhões de euros.
De onde vem o susto? Primeiro as cifras, já de si enormes, não incluem os valores gastos com cartões de crédito (os tradicionais, fornecidos sem medida pela Banca, e os criados pelas empresas). Segundo: convém não esquecer que as famílias portuguesas são as segundas mais endividadas da Zona Euro. Terceiro e seguramente mais importante: os portugueses não ouviram com atenção as últimas declarações do presidente do Banco Central Europeu, aquelas em que Trichet escancarou a porta para um novo aumento dos juros no primeiro trimestre do próximo ano."
Quantas vidas?
Quantas vidas se não vão com as mais de 3000 armas (não legalizadas) voluntariamente entregues às forças policiais, nas últimas semanas?
Ler, no Lx Repórter, do jornalista Miguel Marujo: Armas ilegais apresentadas ultrapassaram as 3000.
Oferecer sacrifícios à divindade?
"Nas religiões, oferece-se sacrifícios à divindade - frutos, comida, animais, seres humanos -, para aplacá-la, agradecer, expiar os pecados, atrair bênçãos. A refeição sacrificial cultual criava relações de comunidade dos participantes com a divindade e entre si. Mas desgraçados dos seres humanos que foram oferecidos em sacrifício! Teria sido melhor não terem conhecido a religião. E que Deus seria esse que precisasse dos sacrifícios, sobretudo quando isso implicava a morte de homens ou mulheres?
A Bíblia, concretamente na sua linha profética, verberou os sacrifícios. Oseias põe na boca de Deus estas palavras: "Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos."
E Amós: "Eu conheço as vossas maldades e a enormidade dos vossos pecados. Sois opressores do justo, aceitais subornos e violais o direito dos pobres no tribunal. Eu detesto e rejeito as vossas festas. Se me ofereceis holocaustos, não os aceito nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca."
E o profeta Isaías escreve: "De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? - diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gorduras de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas."
Jesus retomou a palavra profética de Oseias: "Ide aprender, diz o Senhor, o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’." Ele enfrentou profeticamente a casta sacerdotal e expulsou os vendilhões do Templo, tendo sido este acontecimento determinante para a sua condenação à morte na cruz (…)".
Continuar a ler AQUI.
Anselmo Borges, Sacrifício e Misericórdia, in Diário de Notícias, 10.12.2006
Manifesto por uma Economia Solidária
Realiza-se quinta-feira, em França, o encontro de um vasto conjunto de organizações que pretende traduzir no terreno as orientações do Manifesto por uma Economia Solidária, apresentado em Setembro último.
No quadro da pré-campanha da eleição presidencial francesa, as individualidades eorganizações proponentes expressaram já a intenção de lançar um apelo público no sentido de "duplicar o peso da economia solidária nos próximos cinco anos". A reunião desta semana visa lançar uma campanha de mobilização nesse sentido.
O Manifesto arranca deste modo:
"Le profit ne peut être la finalité unique de l’activité économique.Dominée par le capitalisme financier, l’économie, dopée par les nouvelles technologies, les progrès fulgurants du commerce mondial, la surmultiplication des échanges financiers, tend à se libérer de toute contrainte sociale au nom de la compétitivité. Elle produit des richesses impressionnantes mais très inéquitablement réparties. Elle crée des emplois mais génère aussi précarité, insécurité et parfois exclusion des personnes. Elle ignore des besoins individuels et collectifs pressants s’ils ne lui semblent pas assez rentables. Elle fait dépendre l’avenir des hommes, leur emploi, leur revenu, leur rôle dans la cité, de décisions prises souvent sous la pression d’impératifs financiers.
Peut-on redonner du sens à notre engagement personnel et à notre vie collective ? Peut-on recréer un triangle vertueux entre l’emploi, la cohésion sociale et la démocratie participative ? Peut-on permettre aux plus fragiles de vivre dignement de leur travail sans dépendre des prestations d’assurance? (…)"
Liberdade religiosa na Turquia
Sobre o problema da liberdade religiosa na Turquia, um dos temas que se prevê que o papa abordará na viagem ao país, escreve-se no Destaque do Público de domingo:
Será um tema para abordar com pinças, mas o Papa Bento XVI não deverá deixar de se referir à questão da liberdade religiosa na Turquia. Ainda mais delicado, porque constitui também uma pedra de toque nas negociações para a eventual entrada da Turquia na União Europeia. O problema é vasto. No relatório de 2005 sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) assinala que a Turquia não reconhece juridicamente as confissões religiosas minoritárias. De acordo com a AIS, organização dependente do Vaticano e vocacionada para apoiar crentes perseguidos e a viver em países pobres, não há na Turquia qualquer lei sobre o direito de propriedade das comunidades religiosas que lhes permita “manter as actuais e recuperar as que foram confiscadas ao longo dos últimos 70 anos”. As dificuldades não acabam no plano formal. A Constituição turca garante a liberdade de consciência, de expressão e de religião, mas qualquer conversão de um muçulmano ao cristianismo é muito mal encarada num país com 72,5 milhões de habitantes, dos quais 97 por cento são muçulmanos (dois por cento são agnósticos e menos de um por cento são cristãos). E, como nota o relatório da AIS, nem os muçulmanos escapam às leis que proíbem a pregação do Alcorão fora dos lugares actualmente permitidos ou o uso do véu pelas mulheres que o desejem.
