9 November, 2006

Católicos franceses exigem sinal de lealdade ao Concílio Vaticano II, por parte dos “lefevrianos”

De novo a questão dos ex-lefevrianos na Igreja Católica; um novo desenvolvimento é noticiado assim pela Reuters:

 
French Catholics want loyalty signal from rebels
    By Tom Heneghan, Religion Editor
    PARIS, Nov 9 (Reuters) - France’s Catholic bishops called on
rebel traditionalists on Thursday to show full loyalty to 1960s
Vatican reforms if they want to return to the Roman fold and
celebrate the old Latin mass with papal approval.
    Their message gave official support to a rare clerical
protest spreading across France against the Pope’s reported plan
to readmit the traditionalist Society of Saint Pius X (SSPX) to
the Church without requiring their support for the reforms.
    In a carefully worded statement the bishops, meeting in the
pilgrimage town of Lourdes in southwestern France, said they
shared with Pope Benedict an attachment to "the riches of the
teaching of the Second Vatican Council".
    The row has focused on use of the Tridentine mass in Latin,
which was replaced by updated liturgy in local languages, but
also concerns Council changes such as promoting respect for
Jews, dialogue with other faiths and more say for lay people.
    "The liturgical question is not the only source of
difficulties," the bishops said in a message expressing support
for their leader, Cardinal Jean-Pierre Ricard, in negotiations
with the Vatican on readmitting the SSPX.
    "The bishops expect from these faithful a gesture of
unequivocal assent to the teaching of the authentic magisterium
of the Church," they said, referring to the Catholic dogmas
updated by the 1962-1965 Second Vatican Council.

2 November, 2006

Clero francês prefere vernáculo na missa

Em França, há movimentações públicas entre bispos e padres contestando a possibilidade de o Vaticano autorizar a celebração da missa em latim para grupos como os lefèbvrianos. O Público traz hoje um trabalho sobre o tema, assinado por António Marujo

Bispos franceses manifestam-se contra regresso da missa em latim

Hipótese em estudo no Vaticano rejeitada por padres e membros do episcopado, que se queixam de não terem sido ouvidos

Cresce a contestação, em França, à hipótese de se poder voltar a celebrar a missa também em latim, regressando ao missal tridentino, anterior ao Concílio Vaticano II (1962-65). Bispos e padres assumiram a contestação a uma medida que está em preparação no Vaticano, destinada a acolher no recém-criado Instituto do Bom Pastor (IBP) os padres que deixaram a movimento integrista da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X para voltarem à comunhão plena com o Papa. As declarações e tomadas de posição têm-se sucedido desde há pouco mais de um mês, quando o Vaticano criou o IBP. A decisão implicou o estudo da concessão de autorização aos padres e católicos interessados para celebrarem a missa segundo o rito tridentino (o padre reza em latim, voltado de costas para as pessoas). As línguas vernáculas continuariam a ser, entretanto, o modo geral de celebração da missa. Nos últimos 15 dias, vários bispos franceses queixaram-se do facto de o Vaticano não os ter ainda ouvido acerca do assunto - a Fraternidade Pio X tem uma grande implantação em França e na Suíça. Na semana que findou, o La Croix noticiava que os seis bispos de toda a região eclesiástica da Normandia (norte) também se opõem a tal mudança. Os bispos enviaram uma carta a todos os padres das dioceses de Rouen, Sées, Le Havre, Évreux, Bayeux-Lisieux e Avranches. Nela, enaltecem a importância das reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II, alertando para os riscos de divisão na Igreja. "Os caminhos de diálogo e reconciliação recentemente abertos" levantam interrogações, dizem os bispos no documento. E, apesar da crise que se seguiu ao Concílio, muitos padres permaneceram fiéis ao seu ministério, enquanto outros aproveitaram "alguns erros ou faltas de habilidade" para "recusar o Concílio".

O ecumenismo é "uma confusão total", diz superior da Fraternidade S. Pio X em Portugal

Primeira posição colectiva de bispos, esta carta segue-se a um texto assinado por 30 padres "nascidos depois do Vaticano II" - ou seja, com menos de 40 anos - e oriundos de 15 dioceses diferentes. Na semana passada, uma carta colectiva foi enviada aos respectivos bispos, chamando a atenção para o "risco" que pode significar a decisão "simbólica de propor o regresso a um rito antigo", que ameaça "a unidade dos jovens padres" de sensibilidades "muito diferentes". Há duas semanas, o arcebispo de Toulouse, Robert Le Gall, responsável do episcopado para a liturgia, desabafava perante um grupo de jornalistas: "Os senhores sabem tanto como eu sobre o assunto…" Mas o bispo Le Gall não resistiu a comentar a possibilidade do regresso do missal tridentino: "Isto pode criar graves dificuldades, especialmente para aqueles que permaneceram leais ao Vaticano II." Em fundo, está a ruptura consumada pelo arcebispo Marcel Lefèbvre, quando ordenou quatro bispos à revelia do Vaticano para a sua Fraternidade Pio X. Lefèbvre contestava o fim da missa em latim, o diálogo ecuménico e a aproximação inter-religiosa, assumidos nos documentos do Vaticano II. O ecumenismo é "uma confusão total", mantém o padre Daniel Maret, único membro da Fraternidade presente em Portugal. Maret celebra missa para cerca de 100 pessoas em Lisboa, Fátima e Monforte. Para este padre, também "não está bem" que a Igreja Católica não se assuma como a única fé verdadeira e admita que "cada um possa escolher a sua religião": "Há uma verdade na matemática, na geografia, por isso é ir contra a inteligência de reconhecer Deus admitir que cada um pode escolher a sua religião." Por isso o padre Maret diz que "é um passo" o facto de o Vaticano estar a estudar o regresso do missal tridentino. "Mas vamos ver o que significa, ver se há bispos capazes de reconhecer o valor da tradição."

Especialista desvaloriza discussão

O padre carmelita Pedro Ferreira, director do Secretariado Nacional de Liturgia (SNL), comenta, a propósito das reacções de bispos e padres católicos franceses, que há o risco de divisão, sobretudo pensando na realidade daquele país: "Em França, este é um problema pastoral que pode dividir a Igreja e os fiéis." Mas acrescenta que é um falso problema: "Isto já foi vivido no século III, quando em Roma se passou do grego para o latim. Eu não gastaria latim com isso." Pedro Ferreira pensa que o tema surge de um mal-entendido: "A Igreja nunca proibiu a celebração em latim, mas para o bem dos fiéis e para que estes entendam a celebração, recomenda o uso das línguas vernáculas." E diz que, para a Igreja Católica, não há problema de se celebrar ou rezar em latim, se a herança e os documentos do Concílio Vaticano II forem aceites - o que os lefebvrianos não fazem.

Fonte: Público