11 September, 2007
Carlos Valério Bellieni, do Departamento de Terapia Intensiva Neonatal da Policlínica Universitária Le Scotte, de Siena, e membro da Academia Pontifícia para a Vida, fez, para a agência Zenit, uma leitura da série Dr. House, estreada nos Estados Unidos, em 2004, pela rede Fox, e presentemente transmitida pela TVI:
“É uma série que mostra algo interessante: saindo do rebanho, o médico não se deixa levar pelos elogios ao bem conhecido jargão do relativismo ético na Medicina”, que Bellieni descreve assim: “o paciente é o último tribunal; o médico um ‘provedor de um serviço’; não existe capacidade alguma para emitir juízos morais sobre os comportamentos na Medicina”.
House, na sua autonomia de juízo, é “politicamente incorrecto” – “ainda que com alguma excepção” –, acrescenta o cientista. O interessante é que esses juízos procedem de uma personagem “em constante luta com o mundo”. “A força da série está precisamente na transformação do protagonista, nas suas dúvidas e nos seus limites.”
O seriado parece ser uma apologia da frieza ante o paciente: narra a história de um médico (Gregory House) misantropo e antipático, que não quer ter contacto humano com os pacientes. “Esta distância, provocada pelo seu próprio sofrimento existencial e físico, é, contudo, só aparente. Ainda que permanecendo descortês e anti-social, em cada momento e com insistência, ele procura chegar ao fundo da pessoa que deve curar”, explica o Dr. Bellieni.
“Parte de seu próprio sofrimento consiste em reconhecer o dos demais, e às vezes é justamente esta reflexão que o faz ver coisas que não são vistas por aqueles que o rodeiam.”
“Fala de maneira brusca com os pacientes para convencê-los de que aceitem um determinado tratamento, não para agradá-los. Sabe que existe um bom comportamento médico e um equivocado, e quer que seus pacientes escolham o bom.”
Alguns poderiam acusar o doutor House de paternalismo. Mas o seu colega na vida real considera que este defeito poderia ser muito melhor “que quem deixa o paciente sozinho ante um diagnóstico feito de palavras e números, ‘livre’ para escolher se quer morrer ou viver”.
“Em resumo: com frequência as palavras, e certas palavras doces e piedosas muito na moda – diz-nos com um paradoxo o autor do seriado –, servem para disfarçar a distância entre as pessoas”, declara.
“Tudo isso – constata o especialista em bioética – se sublinha muito bem com a banda sonora, muito rica em músicas de cariz religioso, e que mostra a insatisfação de uma vida sem sentido; entre as peças musicais estão, por exemplo, a belíssima Desire de Ryan Adams ou Hallellujah, de Jeff Buckley”, indica.
Bellieni percebeu os valores presentes nesta série. O primeiro, explica, é que “o médico não é o ‘provedor de um serviço’, para quem cada petição de um paciente é igual a qualquer outra, mas que sabe distinguir entre uma boa resposta e uma má, e sabe encontrar a força para não proporcionar a segunda”.
Por exemplo, explica, “House mantém o músico de jazz entubado, apesar de todos terem medo de transgredir seu ‘testamento biológico’; e também sua colega ‘Cuddy’ faz algo similar: ao pedido de uma injecção de morfina, na realidade lhe injecta um placebo”.
Em segundo lugar, recorda, “a relação entre médico e paciente nunca tem um só sentido. Não está somente o que dá (o médico) e o que recebe (o enfermo), mas o médico, ou se coloca numa atitude de aprender do enfermo, da sua força e do seu empenho – percebendo os sinais escondidos que lança … –, ou, ao contrário, daria um tratamento truncado, ineficaz”.
“House cura uma criança autista conseguindo, só ele, entrar em contacto com o menino; e não só isso, mas, no final – quando parece deixar-se envolver pelo pensamento de que talvez curar uma criança autista, que é muito difícil de guiar, seja uma espécie de obstinação terapêutica –, a criança se aproxima dele, olha nos seus olhos e lhe dá seu brinquedo…”
“Surpreende todos – uma criança autista dificilmente fixa o olhar em outro nem mantém relações – e alegra seus pais, apesar da certeza da enormíssima dificuldade; inclusive dá ao doutor House uma oportunidade para reflectir sobre si mesmo.”
“O protagonista vai inclusive falar com uma mulher da empresa, deprimida, que espera que a coloquem na lista de espera para um transplante de coração, e lhe pergunta gritando: ‘Mas você quer viver? Diga-me, porque mesmo eu ainda não sei!’. E não o faz para que ela faça um ‘testamento biológico’, mas para despertar nela (em si mesmo!) o amor à vida.”
“Certamente, House, como pessoa, não é um santo, e às vezes equivoca-se nas suas decisões morais. Mas se fosse um santo, seria surpreendente assim ouvi-lo argumentar, como de facto acontece, contra a droga ou o sexo incestuoso, ou contra a fundação heteróloga [na qual participa uma terceira pessoa diferente aos pais legais]? Seria tão ‘forte’ ouvi-lo fazer-se perguntas sobre a humanidade de um feto?”
“Em alguns momentos, os comentários positivos vêm de outras personagens da série. Por exemplo, quando, frente ao cinismo de House, a ajudante pergunta: ‘Mas é preciso ser religioso para compreender que um feto é vida?’. Ou a colega – a quem perguntam por uma menina que perderá o braço, ‘que qualidade de vida terá’ e ela responde: ‘A vida tem sempre qualidades’.”
“O doutor House deixa-se surpreender. Equivoca-se, mas sabe reconhecer o humano quando o encontra. Este é um aspecto importante, com frequência esquecido na actividade médica: o estupor ante a misteriosa humanidade de um paciente.”
“House deixa-se abraçar pela menina com tumor, a quem prolongou a vida por um ano, e impressionado pela força moral da pequena, chega a mudar o seu estilo de vida.”
“Fica maravilhado ante a mãozinha do feto que sai do útero materno, durante uma operação, e toca a sua. Fica o dia todo olhando o dedo com o qual tocou a mãozinha, perguntando-se quem é essa vida que ninguém conhece como humana (talvez nem sequer ele), mas que o acariciou”.
“House parece não estar nunca disponível para os pacientes… Não é um médico bondoso, está cheio de dor; mas guarda uma exigência de significado que não lhe permite desesperar-se. Por isso impressiona, num momento em que parece que só o próprio capricho tem valor, em especial na Medicina”, conclui o especialista em bioética.
27 February, 2007
No Público de hoje, noticia-se a descoberta de um sepulcro que conteria os ossos de Jesus e de vários membros da sua família. O achado foi assumido pelo realizador de Holywood, James Cameron (Titanic, Exterminador Implacável) e sua equipa, para um documentário a exibir pelo Discovery Channel. Além dos elementos referidos no Público, a AFP ouviu um arqueólogo israelita que não poupa nas críticas a Cameron. "Farfelu", que significa "bizarro" ou "louco", é o adjectivo que o cientista utiliza para falar da descoberta. Alguns excertos:
Un des plus éminents archéologues israéliens a jugé farfelu un documentaire américain prétendant avoir découvert le tombeau de Jésus et affirmant que ce dernier avait eu un fils. Les hypothèses avancées dans "La tombe perdue de Jésus", réalisé par James Cameron ("Titanic") et Simcha Jacobovici, se basent sur la découverte en 1980 d’un tombeau contenant dix cercueils dans le quartier de Talpiot, à Jérusalem. (…)
Mais le professeur Amos Kloner est catégorique: Il n’y a "pas de preuve scientifique" démontrant qu’il pourrait s’agir de la tombe de Jésus et de sa famille. "C’est tout simplement un tombeau juif du premier siècle après Jésus Christ".
"Les noms visibles sur six des ossuaires sont très intéressants, car ils rappellent ceux des principaux personnages du Nouveau Testament. Mais malgré la ressemblance, qui dit que +Marie+ est Madeleine et que +Judah+ est le fils de Jésus? C’est impossible à prouver. Il s’agit de noms très populaires et communs à cette période", a expliqué à l’AFP l’archéologue de l’Université de Bar-Ilan. (…)
"Il est impossible de prendre un épisode religieux et de le transformer en quelque chose de scientifique. Ou alors il faut faire des tests ADN et vérifier que l’ADN des ossements appartenant soi-disant au fils de Jésus est le même que celui de Dieu"!, plaisante-t-il.
Sur les 900 tombeaux de la même époque retrouvés dans un rayon de quatre kilomètres de la vieille ville de Jérusalem, le nom Jésus ou Yéshu a été retrouvé 71 fois et celui de "Jésus, fils de Joseph" a également été retrouvé, a-t-il fait valoir.
Le service des Antiquités israéliennes s’est refusé à tout commentaire. En 1996, l’un de ses porte-parole avait cependant estimé que la probabilité que les ossuaires appartiennent à la famille de Jésus étaient "proche de zéro".
Mais selon la chaîne américaine Discovery, qui doit diffuser le documentaire début mars, de nouvelles données scientifiques, notamment des analyses d’ADN, laissent penser que les tombeaux ont pu, à un moment donné, contenir les ossements de Jésus et de sa famille. (…)
26 February, 2007
O cardeal Justin Rigali saiu à busca de novas audiências nesta Quaresma, oferecendo comentários semanais ao Evangelho no site de intercâmbio de vídeos «You Tube». O arcebispo da Filadélfia, Estados Unidos, enviou seu primeiro vídeo de dois minutos e meio na Quarta-Feira de Cinzas. No vídeo, titulado «Viver a Quaresma: Primeiro Domingo», o cardeal de 71 anos explica os benefícios do jejum, comenta o Evangelho do Domingo e convida os ouvintes a unir-se a um grupo de estudo da Bíblia.
Donna Farrell, porta-voz da Arquidiocese, disse ao «Philadelphia Inquirer» que o cardeal Rigali «não sabia nada do ‘You Tube’» até que sua equipe lhe propôs experimentá-lo. «Ele disse: ‘Devemos fazer tudo que possamos para chegar a mais pessoas, aonde elas estão’. Ele nos disse repetidamente: ‘Estamos na evangelização. Saiamos. Temos de ir a qualquer parte’», disse Farrel ao diário. A porta-voz disse que o cardeal prevê continuar enviando mensagens ao longo da Quaresma. No momento da publicação desta notícia, o vídeo foi já visto por cerca de seis mil pessoas, foi situado 17 vezes como favorito, e suscitou vários comentários.
(Fonte: Agência Zenit.org)
16 January, 2007
Como nasceu, quem protagonizou e o que pretendeu quem esteve na base do lançamento do H2O News TV, novo serviço televisivo distribuído a partir do Vaticano? A intervenção do seu principal responsável, Jesus Colina, no congresso mundial das televisões católicas, realizado em Outubro último em Madrid, traça um esboço de resposta a essas perguntas.
O projecto tem vindo a ser desenvolvido nos últimos meses, sem que se percebam ainda em toda a extensão quais os seus contornos, apoios e alcance. De qualquer modo, fica claro que o Vaticano está formalmente envolvido na iniciativa, como de resto Colina havia tornado claro, na sua intervenção de há três meses.
Parece ser preocupação da equipa responsável demarcar-se de comentários que dão o projecto ora como ligado à agência Zenit ora como próxima da organização Legionários de Cristo.
Um aspecto interessante que aparentemente se mantém de pé é a possibilidade de acesso gratuito a conteúdos vídeo disponibilizados pela nova agência por parte de sites da Internet.
(Cf. o que aqui se publicou em 16 de Dezembro sobre este assunto).
16 December, 2006
Está desde quinta-feira, 14, operacional na rede de banda larga da Internet a agência televisiva de notícias "Rome Reports" . Os promotores da iniciativa caracterizam este serviço como "próximo das fontes, conhecedor da instituição, profissionalmente criativo e procurando a excelência do ponto de vista técnico". "Como em qualquer outro campo da informação", sublinham.
Com sede em Roma, a agência disponibiliza a todo o tipo de media e a particulares informação especializada não confessional, em distintos géneros e formatos: informação diária, documentários semanais e reportagens mais extensas com ritmo mensal.
Para já em ingês e espanhol, o serviço é disponibilizado de forma gratuita até fins de Janeiro, após o que os interessados poderão aceder mediante o pagamento de oito euros mensais.
Segundo o director da iniciativa, que é docente na Faculdade de Comunicação Institucional da Universidade da Santa Cruz em Roma,não se trata de informação religiosa, mas, antes, de «informação política, social e económica tendo por base o ponto de vista do Vaticano».
A "Rome Reports" já difundia desde há algum tempo informação sobre o Vaticano para os media confessionais e não confessionais.
Cf., a este propósito, o que escreve o jornalista John Allen, no seu blogue:
News agency with ties to Legionaries to launch video service (Updated with reply)
11 December, 2006
Aproveitando a quadra, as salas de cinema oferecem, este ano, "A História de Natal", um filme acabado de produzir, realizado por Catherine Hardwicke. O filme parece ter algum interesse documental, a avaliar por uma extensa análise crítica que o site da Signis - Associação Católica Internacional para a Comunicação divulga [Interessante, este texto, entre outros motivos pelo facto de traçar um quadro histórico acerca da presença de Maria no cinema].
As edições Paulistas norte-americanas não perderam tempo e já têm no mercado um guia para aproveitamento pastoral do filme.
Site Oficial do filme: http://www.thenativitystory.com/
O Filme na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Nativity_Story
4 December, 2006
O assunto parece vir a destempo, mas continua a fazer todo o sentido. Trata-se de sugerir a leitura de um estudo sobre o fenómeno Código da Vinci, pensado e enunciado do ponto de vista de como reagir ao impacte do livro e do filme. Intitula-se "Et vous, qui dites-vous que je suis? Annoncer Jésus-Christ après le tsunami Da Vinci". É seu autor Bertrand Ouellet, director geral de Communications et Société.
O passo seguinte resume o espírito do texto:
" (…) la question la plus importante n’est peut-être pas de savoir comment ‘répondre’ au Code Da Vinci, comment réfuter les innombrables faussetés, demi-vérités et affirmations sans fondement qu’il contient; comment expliquer ce que sont la gnose, les apocryphes, les institutions de l’Église, les conciles; comment rétablir les faits et la vérité de l’histoire… Nombreux déjà sont les articles, livres, sites Web, documentaires et émissions qui le font et leur impact est modeste, au mieux. (…) Non. Nous entrons dans un nouveau chantier. La vraie question est de savoir quel ajustement pastoral, catéchétique et missionnaire sera nécessaire pour parler à tout ce monde qui a aimé et accueilli les idées véhiculées par le roman de Dan Brown. Autrement dit, comment annoncer Jésus-Christ après le tsunami Da Vinci."
E as perguntas a que, segundo o autor, será necessário responder:
"Pourquoi ce roman connaît-il un tel succès? Qu’est-ce que cela veut dire? Qu’est-ce que cela nous révèle des aspirations et des préoccupations de nos contemporains? Qu’est-ce que cela nous apprend des sensibilités et des questionnements religieux actuels?"
E, já que vem a propósito, fica a sugestão de uma visita ao site Communications et Société. Vale a pena. Trata-se de um organismo sem fins lucrativos dedicado à "promoção da qualidade, do sentido crítico e dos valores éticos e espirituais no mundo dos media e da comunicação, numa perspectiva cristã". Consulte-se, a título de exemplo, o capítulo dedicado a documentos de estudo e reflexão.
22 November, 2006
Acaba de vir a lume o segundo número da revista electrónica "Online - Heidelberg Journal of Religions on the Internet", da iniciativa de uma equipa de investigação da Universidade de Heidelberg (Alemanha). A revista é nova e ainda relativamente desconhecida, mas merecedora de visita.
Este número tem por tema genérico "Rituals on the Internet" (está já anunciado um novo sobre "Mundos virtuais") e compreende, entre outros, os seguintes artigos:
- Radde-Antweiler, Kerstin:Rituals Online: Transferring and Designing Rituals.
- Casey, Cheryl Anne: Virtual Faith - the Revirtualization of Religious Ritual in Cyberspace.
- MacWilliams, Marc:Techno-Ritualization - the Gohozon Controversy on the Internet.
26 October, 2006
"1) O jornalismo português revela muita ignorância e preconceito em relação ao fenómeno religioso; 2) as instituições religiosas continuam a encarar os media com desconfiança e a não entender o fundamental da linguagem jornalística nem os desafios colocados pelos últimos avanços tecnológicos". Foram estas as duas premissas enunciadas e desenvolvidas pelo jornalista do Público António Marujo, na conferência que proferiu na passada segunda-feira, no Grémio Literário, em Lisboa, intitulada "
Religião e Media: equívocos e possibilidades".
O jornalista, que falou na qualidade de
galardoado com o Prémio John Templeton para o Jornalista Europeu de Assuntos Religiosos do ano 2005 (administrado pelo Departamento de Comunicações da Conferência das Igrejas Europeias e atribuído a este profissional pela segunda vez), apresentou um largo conjunto de casos e de experiências que lhe permitiram mostrar os preconceitos recíprocos que continuam a existir entre as Igrejas, designadamente a Católica, e os jornalistas.
A intervenção foi, na altura, comentada por Adelino Gomes, igualmente jornalista do Público, o qual recordou uma série de casos e de experiências ilustrativos do que era a relação entre a religião e os media até à altura do 25 de Abril de 1974.
O texto integral da conferência de António Marujo pode ser consultado no
site da Conferência das Igrejas Europeias. A ele haveremos de voltar, pelas questões que coloca em debate.