No Público de domingo, 25 (caderno P2), é publicada uma entrevista ao padre e teólogo jesuíta Juan Masiá Clavel, que há ano e meio foi obrigado a deixar uma cátedra em Espanha depois de pressões do arcebispo de Madrid. A entrevista é de António Marujo
Manifesta opiniões sobre temas como o aborto, o divórcio ou a bioética que, dentro da Igreja, estão muito longe das teses oficiais. Apesar disso, o padre Juan Masiá diz que não se cala. Esta semana, em Lisboa, explicou ao P2 as suas razões
Apesar das suas opiniões dissonantes da doutrina oficial católica, Juan Masiá, 66 anos, diz que o que propõe é o caminho de futuro e que apenas pretende "salvar o Papa" dos que querem impor a sua moral como um dogma. Após 35 anos no Japão a ensinar teologia moral, o teólogo e padre jesuíta espanhol foi pressionado, há ano e meio - pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, disse-se na altura - a deixar a cátedra que tinha em Espanha, por causa das teses defendidas no livro Tertúlias de Bioética (ed. Trotta). Voltou a Kobe (Japão), onde ensina na Universidade Católica e trabalha em organismos da Igreja. Esteve em Portugal esta semana num colóquio sobre o cristianismo no Japão e na conferência Debates de Bioética: novos desafios políticos e religiosos. Em Portugal tem publicado A Sabedoria do Oriente.
Sente-se expulso?
Não. Os superiores da Companhia [de Jesus] e da universidade tiveram necessidade de proteger a instituição e demasiado medo dos cardeais e bispos. Pude voltar ao meu trabalho no Japão e falar com mais liberdade, não estou condenado nem proibido…
Tem dito que é mais natural ser padre no Japão que em Espanha. Porquê?
No meu país, se um teólogo fosse chamado a uma comissão nacional de bioética, algumas pessoas considerariam isso um privilégio, outras diriam que a Igreja não se devia meter. No Japão, o facto de ser teólogo ou padre não dá nenhum privilégio, mas também não é objecto de preconceito. Estou com naturalidade num mundo plural.
Teve essa experiência?
Sim, estive num comité de bioética da Faculdade de Medicina da universidade civil de Tóquio, em representação do mundo das religiões, porque o budista convidado não pôde e o protestante também não. Isto é tomar com naturalidade o pluralismo, a laicidade bem entendida.
É essa a experiência que falta à Igreja na Europa?
Em Espanha, percebi isso. O caso em que a hierarquia eclesiástica se opôs à lei de reprodução assistida ou à legislação biomédica não era possível discuti-lo por razões políticas ou religiosas. Se digo que sim a uma lei porque o meu partido diz que sim ou se digo que não porque a Igreja diz que não, isso é ideologia. Não se deve impor a ideologia de um partido ou igreja, mas debater as questões civicamente, antes que se politizem no parlamento.
As questões de bioética não estão muito partidarizadas?
Sim, e também muito "religiosizadas", quer dizer, tanto pela política como pela religião se faz ideologia, não se permite pensar.
O que o separa dos bispos que pressionaram a sua saída?
Se me tivessem dito, eu teria agradecido. Não disseram nada. Isto ocorre muito dentro da Igreja. Se tivessem sido leais numa carta, pedindo para explicar ou corrigir seis ou sete pontos de um livro… Mas nunca disseram nada. Suspeito que [a razão] não foi o preservativo, citado pelos jornalistas, mas o tema da dissensão na Igreja, que não agrada nada ao cardeal Rouco Varela [arcebispo de Madrid], nem a muitos bispos espanhóis. Não lhes agrada ouvir que a Igreja no Japão tem outro modo de dizer e fazer. E têm muito medo dos meios de comunicação. Dizem que escreva a minha opinião num livro, com muitas notas, mas na imprensa, na Internet, numa entrevista…
Essa atitude de pressionar alguém…
É muito típica e o Vaticano utiliza-a muito, também.
Não é contrária ao evangelho?
Totalmente.
E porque é tão utilizada?
Isso também me pergunto. Desgraçadamente, usou-se muito ao longo da história. É uma questão de poder.
Dá a impressão que, por vezes, alguns argumentos que a Igreja propõe perdem força porque predomina o dedo apontado a dizer não.
É um semáforo vermelho, que é uma lástima, perde-se credibilidade. É o que dizia o Papa João XXIII acerca dos profetas da desgraça: parece que se sentem obrigados a queixar-se do mal que há no mundo. Como se o papel da Igreja fosse o de ser polícia da moralidade, em vez de dar esperança.
A religião tem que aparecer como algo que trava a ciência?
Não, pelo contrário. Tanto a ciência como a mística, que parecem opostas, coincidem em deixar-se mudar pela realidade. O autêntico cientista não presume ter a totalidade da verdade, está disposto a mudar. E o autêntico teólogo tem que ser humilde e admitir que a realidade vai mudando. Religião e ciência têm que ter uma atitude de busca e de caminho e não de dizer que têm as respostas todas.
Isso significa que a ciência pode fazer tudo o que a técnica permite?
Não, a pergunta do cientista é: "Devemos fazer tudo o que podemos?" O mesmo do ponto de vista religioso ou ético. Temos que a responder debatendo.
A partir dos diferentes pontos de vista?
Admitindo todos os pontos de vista. Primeiro, temos que ter os dados da ciência. Se a ciência se torna um dogma ou quer impor uma visão da vida, converte-se em ideologia. A religião ou a ética, quando querem impor as suas respostas, também estão a fazer ideologia. O problema não é religião ou ciência, mas a ciência e a religião convertidas em ideologia. Isso é fundamentalismo. O autêntico cientista e o autêntico religioso são abertos a uma ética de perguntas: descobrimos algo novo, como usá-lo para bem da humanidade e da vida?
O que propõe no subtítulo do seu livro - Manejar a vida, cuidar das pessoas - é para situar os limites da ética?
Primeiro, há que cuidar das pessoas, os limites vêm depois. Podemos manejar a vida mais que antes, mas isso deve ser feito para favorecer a vida, as pessoas, a ecologia, o planeta. Antes das normas, temos os valores da vida, da pessoa, do futuro da humanidade e do planeta. Porque damos importância a esses valores, aparece a ética e fazemos perguntas. Por vezes haverá que colocar limites, outras há que fomentar novas descobertas.
No centro deve estar a pessoa?
A pessoa, incluindo as gerações futuras e o planeta. Não podemos destruir o que nos rodeia. Temos que cuidar o planeta. Isto foi enfatizado pela bioética desde o início.
A regulação da natalidade deve ser natural ou artificial?
Essa definição natural/artificial é um equívoco que deveria estar superado há mais de 40 anos. O natural é, muitas vezes, muito pouco natural. E o artificial não é mau por isso. Ambos estão bem, se forem usados responsavelmente.
Mas a doutrina da Igreja insiste na distinção.
Há que ter cuidado em dizer "a Igreja". Sobre os métodos naturais ou artificiais há um dissentimento na Igreja que, por desgraça, está por resolver. É uma questão secundária, não é matéria de fé, de obediência ao Papa, nem de pecado. Em bioética não há dogmas. Esta é uma questão de eclesiologia mal aprendida: muita gente tem uma visão da Igreja como se fosse dogma tudo o que diz o Papa.
A selecção de embriões pode ser uma utopia biologista? Há um risco de criar discriminação?
Há esse risco. Conheço um caso de um casal muito a favor da vida, a quem recomendaram abortar e que não o fez. Tiveram um filho com deficiência. Quiseram o segundo e o médico disse que poderiam ter o mesmo problema. Mas disse-lhes que havia possibilidade de fazer fertilização in vitro e eles optaram por isso. Vendo esse caso, não diria que esta família está contra a vida.
No Japão, as associações de deficientes perguntaram se, ao tornar rotina a selecção de embriões, isso não seria dizer que pessoas como eles não são necessárias nesta sociedade, que seria melhor que não tivessem nascido. Isto faz pensar e devemos ver como é que muda a nossa maneira de ver. Mas dizer que de nenhuma maneira se pode fazer é exagerado.
Os transplantes podem dar a ilusão do homem perfeito?
Há esse perigo. Mas, por existir o perigo, não tem que se dizer não a todas essas situações. Nos transplantes, mesmo que aumentasse o número de doadores e de pessoas que não queriam receber, não haveria número suficiente de órgãos. Criámos uma expectativa que antes não havia. Não haverá nunca órgãos suficientes, veremos o que sucede com os artificiais ou as células estaminais. Há um problema na nossa cultura, de como vemos o corpo. Isso deve fazer-nos pensar. Mas, por essa razão, dizer que não aos transplantes, é exagerado.
O aborto deve ser despenalizado ou liberalizado?
É discutível. Uma pessoa contra a liberalização ou a despenalização não tem o direito de dizer que quem é a favor é assassino. É como na eutanásia: como crente, não digo que a minha fé me obriga a não optar por isso, mas que me sinto chamado a deixar o final da minha vida nas mãos do Deus em quem creio. Mas não iria a uma manifestação contra a despenalização da eutanásia. Opor-me, em nome da Igreja ou da fé, à despenalização do aborto ou da eutanásia não vejo [possível]. Se há um debate cívico, posso dar as minhas razões, chamar a atenção para os riscos ou…
Não se pode cair na tentação da facilidade?
Sim, mas a tentação é de ambos os extremos. Quando se diz "não haverá perigo de…?", não se faz nada? Se há perigo, evite-se o perigo.
O divórcio é o fim de um compromisso ou a possibilidade de recomeçar?
É muito interessante a maneira como os bispos japoneses falaram do problema. Primeiro, dedicam várias páginas ao ideal. Depois referem: dito isto, a realidade é que esse ideal foi rompido, por circunstâncias que são culpa de ambos ou de nenhum. E dizem três coisas: que os casais sejam acolhidos como Cristo os acolheria; que sejam acolhidos calorosamente; e que se caminhe com eles nos passos que dão para refazer a vida.
Não chegam a dizer que quem volta a casar pode comungar.
Em japonês, pode ser-se muito claro sem ser explícito. Se o dissessem, provavelmente criariam problemas em Roma. De facto, ao dizerem aquela frase, disseram-no. E é isso que se está a praticar.
Pode-se dissentir na Igreja?
Alguém me dizia: "E a tua fidelidade ao Papa?" A fidelidade ao Papa não é lealdade feudal, obriga-me a uma fidelidade criativa, a defender o Papa de tudo o que o rodeia e que impede que se façam todas estas mudanças que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Por fidelidade criativa, sentimo-nos obrigados a dissentir na Igreja - não da Igreja.
Como jesuíta, tem o voto de obediência ao Papa, tal como o seu colega, padre Jon Sobrino. Ambos foram "castigados"…
Avisados. Recebemos o aviso, com todo o respeito, mas estamos convencidos…
Sente-se a desobedecer ao Papa?
Não, não, não. Sinto-me obrigado a continuar dizendo, com muito respeito e humildade, sem querer impor a minha opinião, mas… a salvar o Papa.
Às vezes não seria mais prudente não criticar algumas coisas?
Seria mais prudente, mas a questão da prudência leva-nos ao perigo contrário. Daqui a dez ou 20 anos, iriam dizer-nos: porque estavam calados, porque não falaram?
Seria imoral?
Calar é imoral. Se falar é imprudente, calar é manter uma situação. É uma responsabilidade muito grande. Fazem falta mais bispos que não aspirem ao poder e falem com toda a liberdade.
O que defende não é minoritário entre os católicos?
Em alguns lugares, sim, noutros não. É verdade que houve retrocesso em relação ao Vaticano II, mas por isso é preciso continuar afirmando-o.
Esse é o caminho do futuro?
Creio que sim, mesmo se gerações de neoconservadores e de alguns padres jovens vão por outra linha, atrás deles virá outra geração que aproveitará as sementes já lançadas. Há que continuar com optimismo e esperança. Sem crispação e com espírito evangélico, é preciso falar admitindo o pluralismo.
Já compreendeu o pontificado de Bento XVI?
Não. Dão-me mais medo pessoas ao redor dele. Confio que Ratzinger não é fanático. Tivemos vinte e tantos anos de documentos numa linha distinta, de repressão de teólogos, controlo de seminários, fomento de determinado tipo de vocações…
Apesar de tudo, continua optimista e sorrindo.
Se não fosse assim, não estaríamos aqui. A ideia de Jesus é essa. O [antigo] padre [geral dos jesuítas] Pedro Arrupe dizia isso: o cristianismo, mais que religião do amor, é religião de esperança.
No Público de hoje (a edição em pdf destes primeiros números do novo jornal contina disponível, passe a publicidade), saiu um artigo de opinião que escrevi ainda no rescaldo do referendo. O texto foi redigido antes da nota pastoral da Conferência Episcopal de sexta-feira passada, disponível na Ecclesia. No entanto, como vou por outros caminhos, a nota apenas me teria levado a alterar pequenos pormenores.
A doutrina oficial católica e de alguns sectores da Igreja em matéria de aborto tem vários alçapões, antes de tocar o problema maior. Essa foi uma razão para a derrota do “não” no referendo do passado domingo
1. A recusa da educação sexual nas escolas, com medo dos “valores” que se perdem, da “ameaça” à família, da “redução” à biologia.
O resultado desta atitude é que nem (muit)as famílias estão preparadas para educar os filhos nesta matéria nem a escola faz o que poderia fazer. Certo: há também falta de maturidade em muitos professores, predomina em Portugal uma visão estatizante da educação e o sistema de ensino não pode fazer tudo. No seu quarto texto sobre o referendo, o cardeal-patriarca de Lisboa escreveu que a educação sexual “é bem-vinda e necessária”. Mas essa não é a ideia de muitos responsáveis católicos. E melhor seria que, em vez da guerrilha, se instalasse um clima de colaboração entre o Ministério da Educação, as escolas, os pais, as comunidades religiosas…
2. A recusa da contracepção e do planeamento familiar.
É conhecido que a encíclica que regula esta posição oficial da Igreja, a “Humanae Vitae” (1968), foi publicada pelo Papa Paulo VI sob forte pressão da Cúria Romana contra a opinião de outros sectores da católicos, incluindo casais. O resultado está à vista: a aceitação exclusiva dos métodos “naturais” de planeamento familiar e a recusa do preservativo ou da pílula são um dos motivos mais fortes para que muitos católicos se afastem da Igreja. Hoje, não faz sentido continuar a investir contra esses moinhos de vento, questão de pormenor no tema mais vasto e esse sim fundamental que é o modo de viver a relação com o outro, a sexualidade e a felicidade. O planeamento familiar não é um problema do método que se utiliza, mas uma questão de como se educa para a maternidade e a paternidade responsáveis. Na prática, aliás, sabe-se que muitos católicos não ligam ao que a doutrina diz nesta matéria e que muitos agentes da Igreja – padres, bispos, mesmo cardeais – não lhe dão em privado a importância que afirmam em público.
3. O discurso católico fala da pessoa como um todo, reflectindo um paradigma personalista. Mas, nas matérias relacionadas com a sexualidade (relações pré-matrimoniais, contracepção, homossexualidade, erotismo, sensualidade), o modo como as coisas são ditas aproximam-se mais de um paradigma biológico.
4. No aborto, há dramas sérios que as pessoas vivem, situações que só cada um, perante a sua consciência (perante Deus, para os crentes) pode avaliar. Em 1994, o Papa João Paulo II beatificou a italiana Gianna Beretta Molla que, em 1962, decidiu levar até ao fim uma gravidez de risco, sabendo que podia morrer e deixar viúvo o marido (que a apoiou) e órfãos os outros três filhos que já tinha. Uma decisão difícil e legítima.
Uma mulher que decidisse abortar para não morrer e poder, assim, acompanhar marido e filhos, não deveria merecer o mesmo respeito da parte de quem anuncia, como se diz, o evangelho da misericórdia? (Para o padre João Seabra, como se ouviu segunda-feira, na RTP2, a questão mais importante é insistir no “pecado mortal”. Ideias infelizes como esta é que continuam a afastar as pessoas do centro da mensagem cristã.)
Outros dramas sérios podem atravessar-se à consciência de cada mulher e de cada homem na questão do aborto. Mas enquanto não se entender que cada pessoa deve ter a consciência (“santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus”, como diz o Concílio Vaticano II) no centro da decisão, a Igreja continuará a lutar sempre contra o mal menor, a reboque de leis e dos costumes.
5. O discurso católico poderia ter sido o da compreensão perante o drama do aborto (por exemplo, para com os casos previstos na lei em vigor desde 1984). Poderia, mesmo, ter sido o de exigir que a lei fosse cumprida de forma a evitar o recurso ao aborto clandestino – esse, um mal maior. Mas ele foi sempre o de se opor ao que viria a seguir. Por tudo isto, o discurso oficial católico perdeu – o oficial, porque na acção prática as coisas são (felizmente) diferentes em muitos casos.
6. A mesma preocupação com o início da vida deveria existir para a vida em processo. É que ela só é digna com possibilidade de cada um se poder realizar, com comida, casa e trabalho acessíveis a todos. É bom ver a Associação dos Empresários Católicos pronunciar-se “a favor da vida”, como o fez no fim da campanha. Seria bom ver alguns dos nomes dessa associação recordarem-se desse compromisso na hora de fazer pressões para que as mulheres não engravidem, de decidir ordenados ou despedimentos.
Num âmbito diferente, dois aspectos merecem reflexão: a) outra razão que ajudou ao insucesso do “não” foi o silêncio mediático sobre o trabalho feito pelas associações criadas depois do referendo de 1998 e que têm uma acção meritória de apoio a grávidas, a mães adolescentes e a crianças. Muitos católicos estão empenhados nessas associações, várias delas nascidas à sombra de instituições da Igreja, mas isso é pouco divulgado e conhecido. b) Em 1984, quando a primeira lei sobre o aborto foi aprovada no Parlamento, o objectivo era o de acabar com o aborto clandestino. Oxalá que o país seja capaz, agora, de resolver o problema. Para que, daqui a mais 10 anos, não se esteja a votar num novo referendo.
P.S. – Será lamentável se o PS não legislar no sentido de haver uma consulta de aconselhamento e apoio às grávidas; não foi isso que destacados membros do partido andaram a prometer e o próprio primeiro-ministro garantiu na noite de domingo?
Uma das notas desta campanha do referendo sobre o aborto foi o aparecimento de vozes de católicos, publicamente reconhecidos como tal, a defender o "sim". Opiniões diversificadas de católicos mesmo no campo do "não" também se fizeram notar. Um debate que procurei trazer hoje às páginas do Público.
Uma “carta aberta de crentes para crentes”, vozes de católicos reconhecidos como tal a defender o “sim” no referendo, opiniões diferenciadas de vários católicos, quer no campo do “não” quer do “sim”, artigos de opinião a criticar posições oficiais. Desta vez, ao contrário do que se passou em 1998, em que a voz dos católicos e da Igreja falou com grande unanimidade, apareceram dissonâncias.
A atitude não passou despercebida à hierarquia e foi uma das razões que terá pesado para a decisão de intervenção de alguns bispos. O patriarca de Lisboa criticou mesmo essas vozes desalinhadas do discurso oficial. “Como havia confusão e dissidência de gente que se afastou da doutrina da Igreja, era preciso esclarecer”, diz D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.
O bispo considera que os católicos defensores do “sim” na resposta ao referendo manifestam “alguma infidelidade à doutrina da Igreja”, onde existe uma “quase unanimidade” sobre o aborto. Carlos Azevedo admite, no entanto, que o aparecimento dessas vozes se fique a dever também a uma reacção das pessoas à oposição da Igreja a questões como a contracepção. “É um dos pontos que obriga a [hierarquia a] pensar e a fazer autocrítica”, afirma.
A psiquiatra Margarida Neto, da Plataforma Não, Obrigada!, diz que a intervenção de católicos em defesa do “sim” é “legítima”. “Mas não compreendo. Percebo o sentimento de compreensão e empatia pelas mulheres em dificuldade, mas a pergunta é sobre o direito à vida. E o ‘não’ é o único que representa os dois lados: o direito à vida e a compreensão pelas mulheres.”
Diferente é a posição de José Manuel Pureza, militante católico e membro do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. “Há um distanciamento cultural em relação a este problema específico e à questão mais vasta da moral sexual.” O “fosso cada vez maior” entre a “rigidez da moral privada” e a “prática de muitos católicos” é um dos factores apontados por este professor universitário para esse distanciamento.
“Este discurso da Igreja tem sido baseado numa moral a preto e branco, em que os bons seriam obedientes e os maus os que não cumprem”, diz. “Mas cada um de nós sabe que isso não é assim.” E, acrescenta, “não se trata de um afastamento da Igreja.
Ana Vicente, investigadora em assuntos de mulheres e mandatária do Cidadania e Responsabilidade, acrescenta que a diferença em relação ao que se passou em 1998 é que, desta vez, apareceram mais pessoas, publicamente, a assumir a sua maturidade e sem medo de contradizer a instituição.
“O travão à contracepção” e a “repressão da sexualidade” como uma dimensão fundamental do ser humano merecem reservas a Ana Vicente. “Pessoalmente, não reconheço autoridade a um colectivo de pessoas que exclui as mulheres e que, de forma tão veemente, se pronunciam sobre os comportamentos reprodutores das mulheres”, diz.
Sobre a veemência, Carlos Azevedo não tem dúvidas de que ela deveria continuar em outros campos: “A insistência no campo da moral pessoal esquece, por vezes, a moral social. Por isso, eu gostaria de ver todos estes movimentos [que agora militam pelo ‘não’] a lutar também contra o desemprego, contra a fome, contra a violência”, afirma o bispo. “Espero que todos sejam coerentes, porque se trata da mesma exigência”, diz.
Hoje, no Público, procurei fazer um balanço do que foi a posição da Igreja institucional na campanha do referendo.
Estratégia da Igreja preparada para “esclarecimento das consciências”
Houve uma estratégia da hierarquia da Igreja no sentido de “esclarecer as consciências”, reconhece o porta-voz dos bispos. Uma estratégia natural, admite Ana Vicente, católica e defensora do “sim”. Que gostava de ver as mesmas energias orientadas para outras causas. Mas só os católicos pelo “sim” falaram como católicos, contrapõe Margarida Neto, apoiante do “não”.
Houve uma estratégia da Igreja Católica nesta campanha do referendo sobre o aborto? Com pequenas diferenças, a avaliação é coincidente. “Houve uma estratégia preparada com orientação da Conferência Episcopal Portuguesa: que o debate fosse esclarecedor, sereno, moderado, sem extremismos de posições” e procurando que “os católicos tivessem intervenção na formação das consciências”, diz ao PÚBLICO D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
Onde o bispo vê que esse trabalho não fez mais que corresponder ao “esclarecimento das consciências” como “trabalho próprio da missão evangelizadora da Igreja”, José Manuel Pureza, do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, observa a “mobilização assumida do ‘povo católico’ por parte do clero, promovendo sessões e a distribuição de folhetos”.
No princípio, uma frase do cardeal-patriarca ainda criou alguma “perplexidade”, recorda José Pureza. No início de Outubro, D. José Policarpo afirmou, respondendo a uma pergunta de uma jornalista, que o aborto não era “uma questão religiosa” e que, “se tivesse dúvidas acerca de um problema tão fundamental”, se absteria.
José Pureza recorda que as declarações do patriarca, “remetendo para a consciência” a decisão sobre a matéria, provocaram naturais interrogações entre “os mais conservadores do ‘não’ e os adeptos do ‘sim’”. Mas essas declarações “fizeram adivinhar algo que rapidamente foi corrigido”, quando o cardeal esclareceu que apenas fez a afirmação para responder à pergunta que lhe fora formulada.
Ambos, Carlos Azevedo e José Pureza, estão de acordo em outro aspecto: “Nem precisava de ser nada combinado” entre os bispos e os adeptos do “não”, porque “é quase espontânea esta tendência” de muitos católicos participarem em iniciativas sobre o aborto, diz o defensor do “sim”. “Este é um sentimento generalizado.”
Carlos Azevedo acrescenta que “desde a Acção Católica”, o movimento que agregava milhares de católicos até à década de 60 e onde havia focos de oposição ao Estado Novo, “não se assistia a uma tão grande mobilização por uma causa”. “É significativo que tenha aparecido um tão grande número de movimentos pelo ‘não’, cobrindo todo o território nacional, com pessoas que não querem qualquer tipo de poder, capaz de defender uma causa.”
Um debate positivo, diz o bispo
Ana Vicente, mandatária do Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, também diz que “houve uma estratégia” e que isso “é normal”. Já Margarida Neto, psiquiatra e um dos rostos da Plataforma Não, Obrigada!, diz que não esteve na campanha como católica. “Os católicos do ‘sim’ é que entenderam falar como católicos. Este não é um problema religioso, mas ético e de direitos humanos. Estou nisto muito mais por ser médica do que por ser católica”, insiste.
A psiquiatra admite que “quando a Igreja está claramente de um dos lados, isso dá mais conforto”. Mas não houve nada acertado entre a hierarquia e os movimentos do “não”. “A Igreja veio a terreiro colocar a questão doutrinal, onde ela deve ser colocada.” E, num tom entre a verificação e o lamento, Margarida Neto afirma: “Em 1998, a [hierarquia da] Igreja proclamou-se mais fortemente do que agora sobre o tema.”
E que avaliação se pode fazer da estratégia e da campanha que está a terminar? Carlos Azevedo faz um balanço positivo: “Houve algumas vozes mais excessivas de ambos os lados, que nunca se consegue evitar, mas o debate entre o ‘sim’ e o ‘não’ foi positivo.” As atitudes isoladas a que o porta-voz dos bispos se refere – um padre a falar de excomunhão de quem aborta, por exemplo – são “atitudes isoladas”, diz, apenas “amplificadas pela comunicação social”.
Sobre esses extremismos “de certas pessoas”, Ana Vicente pensa que eles “dão um mau testemunho e têm um efeito perverso”, afastando as pessoas e “descredibilizando” a Igreja. A investigadora fica mais incomodada com “toda esta energia para que não se mude a lei” do aborto. “Gostava de ver toda esta energia dos baptizados ser orientada para o bem dos que não nasceram, sim, mas também das muitas crianças maltratadas, dos idosos, dos mais vulneráveis”.