26 November, 2007

Juan Masiá Este padre só quer salvar o Papa

No Público de domingo, 25 (caderno P2), é publicada uma entrevista ao padre e teólogo jesuíta Juan Masiá Clavel, que há ano e meio foi obrigado a deixar uma cátedra em Espanha depois de pressões do arcebispo de Madrid. A entrevista é de António Marujo

 

Manifesta opiniões sobre temas como o aborto, o divórcio ou a bioética que, dentro da Igreja, estão muito longe das teses oficiais. Apesar disso, o padre Juan Masiá diz que não se cala. Esta semana, em Lisboa, explicou ao P2 as suas razões

 

 

 


Apesar das suas opiniões dissonantes da doutrina oficial católica, Juan Masiá, 66 anos, diz que o que propõe é o caminho de futuro e que apenas pretende "salvar o Papa" dos que querem impor a sua moral como um dogma. Após 35 anos no Japão a ensinar teologia moral, o teólogo e padre jesuíta espanhol foi pressionado, há ano e meio - pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, disse-se na altura - a deixar a cátedra que tinha em Espanha, por causa das teses defendidas no livro Tertúlias de Bioética (ed. Trotta). Voltou a Kobe (Japão), onde ensina na Universidade Católica e trabalha em organismos da Igreja. Esteve em Portugal esta semana num colóquio sobre o cristianismo no Japão e na conferência Debates de Bioética: novos desafios políticos e religiosos. Em Portugal tem publicado A Sabedoria do Oriente.

Sente-se expulso?

Não. Os superiores da Companhia [de Jesus] e da universidade tiveram necessidade de proteger a instituição e demasiado medo dos cardeais e bispos. Pude voltar ao meu trabalho no Japão e falar com mais liberdade, não estou condenado nem proibido…

Tem dito que é mais natural ser padre no Japão que em Espanha. Porquê?

No meu país, se um teólogo fosse chamado a uma comissão nacional de bioética, algumas pessoas considerariam isso um privilégio, outras diriam que a Igreja não se devia meter. No Japão, o facto de ser teólogo ou padre não dá nenhum privilégio, mas também não é objecto de preconceito. Estou com naturalidade num mundo plural.

Teve essa experiência?

Sim, estive num comité de bioética da Faculdade de Medicina da universidade civil de Tóquio, em representação do mundo das religiões, porque o budista convidado não pôde e o protestante também não. Isto é tomar com naturalidade o pluralismo, a laicidade bem entendida.

É essa a experiência que falta à Igreja na Europa?

Em Espanha, percebi isso. O caso em que a hierarquia eclesiástica se opôs à lei de reprodução assistida ou à legislação biomédica não era possível discuti-lo por razões políticas ou religiosas. Se digo que sim a uma lei porque o meu partido diz que sim ou se digo que não porque a Igreja diz que não, isso é ideologia. Não se deve impor a ideologia de um partido ou igreja, mas debater as questões civicamente, antes que se politizem no parlamento.

As questões de bioética não estão muito partidarizadas?

Sim, e também muito "religiosizadas", quer dizer, tanto pela política como pela religião se faz ideologia, não se permite pensar.

O que o separa dos bispos que pressionaram a sua saída?

Se me tivessem dito, eu teria agradecido. Não disseram nada. Isto ocorre muito dentro da Igreja. Se tivessem sido leais numa carta, pedindo para explicar ou corrigir seis ou sete pontos de um livro… Mas nunca disseram nada. Suspeito que [a razão] não foi o preservativo, citado pelos jornalistas, mas o tema da dissensão na Igreja, que não agrada nada ao cardeal Rouco Varela [arcebispo de Madrid], nem a muitos bispos espanhóis. Não lhes agrada ouvir que a Igreja no Japão tem outro modo de dizer e fazer. E têm muito medo dos meios de comunicação. Dizem que escreva a minha opinião num livro, com muitas notas, mas na imprensa, na Internet, numa entrevista…

Essa atitude de pressionar alguém…

É muito típica e o Vaticano utiliza-a muito, também.

Não é contrária ao evangelho?

Totalmente.

E porque é tão utilizada?

Isso também me pergunto. Desgraçadamente, usou-se muito ao longo da história. É uma questão de poder.

Dá a impressão que, por vezes, alguns argumentos que a Igreja propõe perdem força porque predomina o dedo apontado a dizer não.

É um semáforo vermelho, que é uma lástima, perde-se credibilidade. É o que dizia o Papa João XXIII acerca dos profetas da desgraça: parece que se sentem obrigados a queixar-se do mal que há no mundo. Como se o papel da Igreja fosse o de ser polícia da moralidade, em vez de dar esperança.

A religião tem que aparecer como algo que trava a ciência?

Não, pelo contrário. Tanto a ciência como a mística, que parecem opostas, coincidem em deixar-se mudar pela realidade. O autêntico cientista não presume ter a totalidade da verdade, está disposto a mudar. E o autêntico teólogo tem que ser humilde e admitir que a realidade vai mudando. Religião e ciência têm que ter uma atitude de busca e de caminho e não de dizer que têm as respostas todas.

Isso significa que a ciência pode fazer tudo o que a técnica permite?
Não, a pergunta do cientista é: "Devemos fazer tudo o que podemos?" O mesmo do ponto de vista religioso ou ético. Temos que a responder debatendo.

A partir dos diferentes pontos de vista?

Admitindo todos os pontos de vista. Primeiro, temos que ter os dados da ciência. Se a ciência se torna um dogma ou quer impor uma visão da vida, converte-se em ideologia. A religião ou a ética, quando querem impor as suas respostas, também estão a fazer ideologia. O problema não é religião ou ciência, mas a ciência e a religião convertidas em ideologia. Isso é fundamentalismo. O autêntico cientista e o autêntico religioso são abertos a uma ética de perguntas: descobrimos algo novo, como usá-lo para bem da humanidade e da vida?

O que propõe no subtítulo do seu livro - Manejar a vida, cuidar das pessoas - é para situar os limites da ética?

Primeiro, há que cuidar das pessoas, os limites vêm depois. Podemos manejar a vida mais que antes, mas isso deve ser feito para favorecer a vida, as pessoas, a ecologia, o planeta. Antes das normas, temos os valores da vida, da pessoa, do futuro da humanidade e do planeta. Porque damos importância a esses valores, aparece a ética e fazemos perguntas. Por vezes haverá que colocar limites, outras há que fomentar novas descobertas.

No centro deve estar a pessoa?

A pessoa, incluindo as gerações futuras e o planeta. Não podemos destruir o que nos rodeia. Temos que cuidar o planeta. Isto foi enfatizado pela bioética desde o início.

A regulação da natalidade deve ser natural ou artificial?
Essa definição natural/artificial é um equívoco que deveria estar superado há mais de 40 anos. O natural é, muitas vezes, muito pouco natural. E o artificial não é mau por isso. Ambos estão bem, se forem usados responsavelmente.

Mas a doutrina da Igreja insiste na distinção.

Há que ter cuidado em dizer "a Igreja". Sobre os métodos naturais ou artificiais há um dissentimento na Igreja que, por desgraça, está por resolver. É uma questão secundária, não é matéria de fé, de obediência ao Papa, nem de pecado. Em bioética não há dogmas. Esta é uma questão de eclesiologia mal aprendida: muita gente tem uma visão da Igreja como se fosse dogma tudo o que diz o Papa.

A selecção de embriões pode ser uma utopia biologista? Há um risco de criar discriminação?

Há esse risco. Conheço um caso de um casal muito a favor da vida, a quem recomendaram abortar e que não o fez. Tiveram um filho com deficiência. Quiseram o segundo e o médico disse que poderiam ter o mesmo problema. Mas disse-lhes que havia possibilidade de fazer fertilização in vitro e eles optaram por isso. Vendo esse caso, não diria que esta família está contra a vida.

No Japão, as associações de deficientes perguntaram se, ao tornar rotina a selecção de embriões, isso não seria dizer que pessoas como eles não são necessárias nesta sociedade, que seria melhor que não tivessem nascido. Isto faz pensar e devemos ver como é que muda a nossa maneira de ver. Mas dizer que de nenhuma maneira se pode fazer é exagerado.

Os transplantes podem dar a ilusão do homem perfeito?

Há esse perigo. Mas, por existir o perigo, não tem que se dizer não a todas essas situações. Nos transplantes, mesmo que aumentasse o número de doadores e de pessoas que não queriam receber, não haveria número suficiente de órgãos. Criámos uma expectativa que antes não havia. Não haverá nunca órgãos suficientes, veremos o que sucede com os artificiais ou as células estaminais. Há um problema na nossa cultura, de como vemos o corpo. Isso deve fazer-nos pensar. Mas, por essa razão, dizer que não aos transplantes, é exagerado.

O aborto deve ser despenalizado ou liberalizado?

É discutível. Uma pessoa contra a liberalização ou a despenalização não tem o direito de dizer que quem é a favor é assassino. É como na eutanásia: como crente, não digo que a minha fé me obriga a não optar por isso, mas que me sinto chamado a deixar o final da minha vida nas mãos do Deus em quem creio. Mas não iria a uma manifestação contra a despenalização da eutanásia. Opor-me, em nome da Igreja ou da fé, à despenalização do aborto ou da eutanásia não vejo [possível]. Se há um debate cívico, posso dar as minhas razões, chamar a atenção para os riscos ou…

Não se pode cair na tentação da facilidade?

Sim, mas a tentação é de ambos os extremos. Quando se diz "não haverá perigo de…?", não se faz nada? Se há perigo, evite-se o perigo.

O divórcio é o fim de um compromisso ou a possibilidade de recomeçar?

É muito interessante a maneira como os bispos japoneses falaram do problema. Primeiro, dedicam várias páginas ao ideal. Depois referem: dito isto, a realidade é que esse ideal foi rompido, por circunstâncias que são culpa de ambos ou de nenhum. E dizem três coisas: que os casais sejam acolhidos como Cristo os acolheria; que sejam acolhidos calorosamente; e que se caminhe com eles nos passos que dão para refazer a vida.

Não chegam a dizer que quem volta a casar pode comungar.

Em japonês, pode ser-se muito claro sem ser explícito. Se o dissessem, provavelmente criariam problemas em Roma. De facto, ao dizerem aquela frase, disseram-no. E é isso que se está a praticar.

Pode-se dissentir na Igreja?

Alguém me dizia: "E a tua fidelidade ao Papa?" A fidelidade ao Papa não é lealdade feudal, obriga-me a uma fidelidade criativa, a defender o Papa de tudo o que o rodeia e que impede que se façam todas estas mudanças que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Por fidelidade criativa, sentimo-nos obrigados a dissentir na Igreja - não da Igreja.

Como jesuíta, tem o voto de obediência ao Papa, tal como o seu colega, padre Jon Sobrino. Ambos foram "castigados"…

Avisados. Recebemos o aviso, com todo o respeito, mas estamos convencidos…
Sente-se a desobedecer ao Papa?

Não, não, não. Sinto-me obrigado a continuar dizendo, com muito respeito e humildade, sem querer impor a minha opinião, mas… a salvar o Papa.

Às vezes não seria mais prudente não criticar algumas coisas?

Seria mais prudente, mas a questão da prudência leva-nos ao perigo contrário. Daqui a dez ou 20 anos, iriam dizer-nos: porque estavam calados, porque não falaram?

Seria imoral?

Calar é imoral. Se falar é imprudente, calar é manter uma situação. É uma responsabilidade muito grande. Fazem falta mais bispos que não aspirem ao poder e falem com toda a liberdade.

O que defende não é minoritário entre os católicos?

Em alguns lugares, sim, noutros não. É verdade que houve retrocesso em relação ao Vaticano II, mas por isso é preciso continuar afirmando-o.

Esse é o caminho do futuro?

Creio que sim, mesmo se gerações de neoconservadores e de alguns padres jovens vão por outra linha, atrás deles virá outra geração que aproveitará as sementes já lançadas. Há que continuar com optimismo e esperança. Sem crispação e com espírito evangélico, é preciso falar admitindo o pluralismo.

Já compreendeu o pontificado de Bento XVI?

Não. Dão-me mais medo pessoas ao redor dele. Confio que Ratzinger não é fanático. Tivemos vinte e tantos anos de documentos numa linha distinta, de repressão de teólogos, controlo de seminários, fomento de determinado tipo de vocações…

Apesar de tudo, continua optimista e sorrindo.

Se não fosse assim, não estaríamos aqui. A ideia de Jesus é essa. O [antigo] padre [geral dos jesuítas] Pedro Arrupe dizia isso: o cristianismo, mais que religião do amor, é religião de esperança.

24 February, 2007

Enigmas

Isabelle de Gaulmyn, correspondente em Roma do jornal católico La Croix colocava há dias, no seu blogue, um post que levanta uma questão interessante. Começa assim:

"Quand on est journaliste française d’un quotidien chrétien, il est une question qui, depuis quelques semaines, revient avec insistance de la part des interlocuteurs du Vatican, qu’ils soient monseigneur, prêtre, séminariste, ou laïc. « Comment se fait-il qu’un pays très sécularisé comme la France arrive au premier rang de l’Europe pour le nombre de naissances ? ». La question, en réalité, en cache une autre, qui préoccupe sérieusement ici les responsables de l’Eglise: Pourquoi l’Italie catholique arrive-t-elle au dernier rang pour le nombre d’enfants par femme ? Comment se fait-il que l’Italie, nation la plus pratiquante de l’Europe occidentale, refuse de faire des enfants ? "

Ler  a continuação e os comentários aqui.

20 February, 2007

Os alçapões da doutrina católica sobre o aborto

No Público de hoje (a edição em pdf destes primeiros números do novo jornal contina disponível, passe a publicidade), saiu um artigo de opinião que escrevi ainda no rescaldo do referendo. O texto foi redigido antes da nota pastoral da Conferência Episcopal de sexta-feira passada, disponível na Ecclesia. No entanto, como vou por outros caminhos, a nota apenas me teria levado a alterar pequenos pormenores.

A doutrina oficial católica e de alguns sectores da Igreja em matéria de aborto tem vários alçapões, antes de tocar o problema maior. Essa foi uma razão para a derrota do “não” no referendo do passado domingo
1. A recusa da educação sexual nas escolas, com medo dos “valores” que se perdem, da “ameaça” à família, da “redução” à biologia.
O resultado desta atitude é que nem (muit)as famílias estão preparadas para educar os filhos nesta matéria nem a escola faz o que poderia fazer. Certo: há também falta de maturidade em muitos professores, predomina em Portugal uma visão estatizante da educação e o sistema de ensino não pode fazer tudo. No seu quarto texto sobre o referendo, o cardeal-patriarca de Lisboa escreveu que a educação sexual “é bem-vinda e necessária”. Mas essa não é a ideia de muitos responsáveis católicos. E melhor seria que, em vez da guerrilha, se instalasse um clima de colaboração entre o Ministério da Educação, as escolas, os pais, as comunidades religiosas…
2. A recusa da contracepção e do planeamento familiar.
É conhecido que a encíclica que regula esta posição oficial da Igreja, a “Humanae Vitae” (1968), foi publicada pelo Papa Paulo VI sob forte pressão da Cúria Romana contra a opinião de outros sectores da católicos, incluindo casais. O resultado está à vista: a aceitação exclusiva dos métodos “naturais” de planeamento familiar e a recusa do preservativo ou da pílula são um dos motivos mais fortes para que muitos católicos se afastem da Igreja. Hoje, não faz sentido continuar a investir contra esses moinhos de vento, questão de pormenor no tema mais vasto e esse sim fundamental que é o modo de viver a relação com o outro, a sexualidade e a felicidade. O planeamento familiar não é um problema do método que se utiliza, mas uma questão de como se educa para a maternidade e a paternidade responsáveis. Na prática, aliás, sabe-se que muitos católicos não ligam ao que a doutrina diz nesta matéria e que muitos agentes da Igreja – padres, bispos, mesmo cardeais – não lhe dão em privado a importância que afirmam em público.
3. O discurso católico fala da pessoa como um todo, reflectindo um paradigma personalista. Mas, nas matérias relacionadas com a sexualidade (relações pré-matrimoniais, contracepção, homossexualidade, erotismo, sensualidade), o modo como as coisas são ditas aproximam-se mais de um paradigma biológico.
4. No aborto, há dramas sérios que as pessoas vivem, situações que só cada um, perante a sua consciência (perante Deus, para os crentes) pode avaliar. Em 1994, o Papa João Paulo II beatificou a italiana Gianna Beretta Molla que, em 1962, decidiu levar até ao fim uma gravidez de risco, sabendo que podia morrer e deixar viúvo o marido (que a apoiou) e órfãos os outros três filhos que já tinha. Uma decisão difícil e legítima.
Uma mulher que decidisse abortar para não morrer e poder, assim, acompanhar marido e filhos, não deveria merecer o mesmo respeito da parte de quem anuncia, como se diz, o evangelho da misericórdia? (Para o padre João Seabra, como se ouviu segunda-feira, na RTP2, a questão mais importante é insistir no “pecado mortal”. Ideias infelizes como esta é que continuam a afastar as pessoas do centro da mensagem cristã.)
Outros dramas sérios podem atravessar-se à consciência de cada mulher e de cada homem na questão do aborto. Mas enquanto não se entender que cada pessoa deve ter a consciência (“santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus”, como diz o Concílio Vaticano II) no centro da decisão, a Igreja continuará a lutar sempre contra o mal menor, a reboque de leis e dos costumes.
5. O discurso católico poderia ter sido o da compreensão perante o drama do aborto (por exemplo, para com os casos previstos na lei em vigor desde 1984). Poderia, mesmo, ter sido o de exigir que a lei fosse cumprida de forma a evitar o recurso ao aborto clandestino – esse, um mal maior. Mas ele foi sempre o de se opor ao que viria a seguir. Por tudo isto, o discurso oficial católico perdeu – o oficial, porque na acção prática as coisas são (felizmente) diferentes em muitos casos.
6. A mesma preocupação com o início da vida deveria existir para a vida em processo. É que ela só é digna com possibilidade de cada um se poder realizar, com comida, casa e trabalho acessíveis a todos. É bom ver a Associação dos Empresários Católicos pronunciar-se “a favor da vida”, como o fez no fim da campanha. Seria bom ver alguns dos nomes dessa associação recordarem-se desse compromisso na hora de fazer pressões para que as mulheres não engravidem, de decidir ordenados ou despedimentos.
Num âmbito diferente, dois aspectos merecem reflexão: a) outra razão que ajudou ao insucesso do “não” foi o silêncio mediático sobre o trabalho feito pelas associações criadas depois do referendo de 1998 e que têm uma acção meritória de apoio a grávidas, a mães adolescentes e a crianças. Muitos católicos estão empenhados nessas associações, várias delas nascidas à sombra de instituições da Igreja, mas isso é pouco divulgado e conhecido. b) Em 1984, quando a primeira lei sobre o aborto foi aprovada no Parlamento, o objectivo era o de acabar com o aborto clandestino. Oxalá que o país seja capaz, agora, de resolver o problema. Para que, daqui a mais 10 anos, não se esteja a votar num novo referendo.
P.S. – Será lamentável se o PS não legislar no sentido de haver uma consulta de aconselhamento e apoio às grávidas; não foi isso que destacados membros do partido andaram a prometer e o próprio primeiro-ministro garantiu na noite de domingo?

19 February, 2007

“Está a pensar engravidar?”

"Ana escutava surpreendida as questões que lhe eram colocadas "Está a pensar engravidar? Tem filhos pequenos? Que idades têm?". A possibilidade de obter o posto de trabalho dependeria inteiramente das respostas que desse. Ana é mulher, mãe e esposa. E, por tudo isso, operária potencialmente inválida para trabalhar (…)".

Esta história encabeça um texto da jornalista Helena Forte ("Operárias que ninguém quer") que o Jornal de Notícias hoje publica e que deveria motivar denúncias tão encarniçadas quanto as daqueles que se encarniçaram na luta contra a despenalização do aborto, no referendo do passado dia 11.

Todos sabemos que, na actual situação de precariedade que afecta uma enorme parcela dos trabalhadores, a maternidade constitui um dos grandes entraves à contratação ou ao sucesso no emprego. O problema parece ser muito mais grave do que as estatísticas oficiais fazem crer. E, no entanto, estamos longe de ver um igual empenhamento e mobilização dos cidadãos (e, designadamente dos católicos) na denúncia deste comportamento ignóbil e anti-vida de tantos empresários e gestores.

9 February, 2007

As dissonâncias católicas e outras variantes

 Uma das notas desta campanha do referendo sobre o aborto foi o aparecimento de vozes de católicos, publicamente reconhecidos como tal, a defender o "sim". Opiniões diversificadas de católicos mesmo no campo do "não" também se fizeram notar. Um debate que procurei trazer hoje às páginas do Público.

Uma “carta aberta de crentes para crentes”, vozes de católicos reconhecidos como tal a defender o “sim” no referendo, opiniões diferenciadas de vários católicos, quer no campo do “não” quer do “sim”, artigos de opinião a criticar posições oficiais. Desta vez, ao contrário do que se passou em 1998, em que a voz dos católicos e da Igreja falou com grande unanimidade, apareceram dissonâncias.

A atitude não passou despercebida à hierarquia e foi uma das razões que terá pesado para a decisão de intervenção de alguns bispos. O patriarca de Lisboa criticou mesmo essas vozes desalinhadas do discurso oficial. “Como havia confusão e dissidência de gente que se afastou da doutrina da Igreja, era preciso esclarecer”, diz D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

O bispo considera que os católicos defensores do “sim” na resposta ao referendo manifestam “alguma infidelidade à doutrina da Igreja”, onde existe uma “quase unanimidade” sobre o aborto. Carlos Azevedo admite, no entanto, que o aparecimento dessas vozes se fique a dever também a uma reacção das pessoas à oposição da Igreja a questões como a contracepção. “É um dos pontos que obriga a [hierarquia a] pensar e a fazer autocrítica”, afirma.

A psiquiatra Margarida Neto, da Plataforma Não, Obrigada!, diz que a intervenção de católicos em defesa do “sim” é “legítima”. “Mas não compreendo. Percebo o sentimento de compreensão e empatia pelas mulheres em dificuldade, mas a pergunta é sobre o direito à vida. E o ‘não’ é o único que representa os dois lados: o direito à vida e a compreensão pelas mulheres.”

Diferente é a posição de José Manuel Pureza, militante católico e membro do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. “Há um distanciamento cultural em relação a este problema específico e à questão mais vasta da moral sexual.” O “fosso cada vez maior” entre a “rigidez da moral privada” e a “prática de muitos católicos” é um dos factores apontados por este professor universitário para esse distanciamento.

“Este discurso da Igreja tem sido baseado numa moral a preto e branco, em que os bons seriam obedientes e os maus os que não cumprem”, diz. “Mas cada um de nós sabe que isso não é assim.” E, acrescenta, “não se trata de um afastamento da Igreja.

Ana Vicente, investigadora em assuntos de mulheres e mandatária do Cidadania e Responsabilidade, acrescenta que a diferença em relação ao que se passou em 1998 é que, desta vez, apareceram mais pessoas, publicamente, a assumir a sua maturidade e sem medo de contradizer a instituição.

“O travão à contracepção” e a “repressão da sexualidade” como uma dimensão fundamental do ser humano merecem reservas a Ana Vicente. “Pessoalmente, não reconheço autoridade a um colectivo de pessoas que exclui as mulheres e que, de forma tão veemente, se pronunciam sobre os comportamentos reprodutores das mulheres”, diz.

Sobre a veemência, Carlos Azevedo não tem dúvidas de que ela deveria continuar em outros campos: “A insistência no campo da moral pessoal esquece, por vezes, a moral social. Por isso, eu gostaria de ver todos estes movimentos [que agora militam pelo ‘não’] a lutar também contra o desemprego, contra a fome, contra a violência”, afirma o bispo. “Espero que todos sejam coerentes, porque se trata da mesma exigência”, diz.

Houve uma estratégia da Igreja na campanha do referendo?

Hoje, no Público, procurei fazer um balanço do que foi a posição da Igreja institucional na campanha do referendo.


Estratégia da Igreja preparada para “esclarecimento das consciências”

Houve uma estratégia da hierarquia da Igreja no sentido de “esclarecer as consciências”, reconhece o porta-voz dos bispos. Uma estratégia natural, admite Ana Vicente, católica e defensora do “sim”. Que gostava de ver as mesmas energias orientadas para outras causas. Mas só os católicos pelo “sim” falaram como católicos, contrapõe Margarida Neto, apoiante do “não”.

Houve uma estratégia da Igreja Católica nesta campanha do referendo sobre o aborto? Com pequenas diferenças, a avaliação é coincidente. “Houve uma estratégia preparada com orientação da Conferência Episcopal Portuguesa: que o debate fosse esclarecedor, sereno, moderado, sem extremismos de posições” e procurando que “os católicos tivessem intervenção na formação das consciências”, diz ao PÚBLICO D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

Onde o bispo vê que esse trabalho não fez mais que corresponder ao “esclarecimento das consciências” como “trabalho próprio da missão evangelizadora da Igreja”, José Manuel Pureza, do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, observa a “mobilização assumida do ‘povo católico’ por parte do clero, promovendo sessões e a distribuição de folhetos”.

No princípio, uma frase do cardeal-patriarca ainda criou alguma “perplexidade”, recorda José Pureza. No início de Outubro, D. José Policarpo afirmou, respondendo a uma pergunta de uma jornalista, que o aborto não era “uma questão religiosa” e que, “se tivesse dúvidas acerca de um problema tão fundamental”, se absteria.

José Pureza recorda que as declarações do patriarca, “remetendo para a consciência” a decisão sobre a matéria, provocaram naturais interrogações entre “os mais conservadores do ‘não’ e os adeptos do ‘sim’”. Mas essas declarações “fizeram adivinhar algo que rapidamente foi corrigido”, quando o cardeal esclareceu que apenas fez a afirmação para responder à pergunta que lhe fora formulada.

Ambos, Carlos Azevedo e José Pureza, estão de acordo em outro aspecto: “Nem precisava de ser nada combinado” entre os bispos e os adeptos do “não”, porque “é quase espontânea esta tendência” de muitos católicos participarem em iniciativas sobre o aborto, diz o defensor do “sim”. “Este é um sentimento generalizado.”

Carlos Azevedo acrescenta que “desde a Acção Católica”, o movimento que agregava milhares de católicos até à década de 60 e onde havia focos de oposição ao Estado Novo, “não se assistia a uma tão grande mobilização por uma causa”. “É significativo que tenha aparecido um tão grande número de movimentos pelo ‘não’, cobrindo todo o território nacional, com pessoas que não querem qualquer tipo de poder, capaz de defender uma causa.”

Um debate positivo, diz o bispo

Ana Vicente, mandatária do Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, também diz que “houve uma estratégia” e que isso “é normal”. Já Margarida Neto, psiquiatra e um dos rostos da Plataforma Não, Obrigada!, diz que não esteve na campanha como católica. “Os católicos do ‘sim’ é que entenderam falar como católicos. Este não é um problema religioso, mas ético e de direitos humanos. Estou nisto muito mais por ser médica do que por ser católica”, insiste.

A psiquiatra admite que “quando a Igreja está claramente de um dos lados, isso dá mais conforto”. Mas não houve nada acertado entre a hierarquia e os movimentos do “não”. “A Igreja veio a terreiro colocar a questão doutrinal, onde ela deve ser colocada.” E, num tom entre a verificação e o lamento, Margarida Neto afirma: “Em 1998, a [hierarquia da] Igreja proclamou-se mais fortemente do que agora sobre o tema.”

E que avaliação se pode fazer da estratégia e da campanha que está a terminar? Carlos Azevedo faz um balanço positivo: “Houve algumas vozes mais excessivas de ambos os lados, que nunca se consegue evitar, mas o debate entre o ‘sim’ e o ‘não’ foi positivo.” As atitudes isoladas a que o porta-voz dos bispos se refere – um padre a falar de excomunhão de quem aborta, por exemplo – são “atitudes isoladas”, diz, apenas “amplificadas pela comunicação social”.

Sobre esses extremismos “de certas pessoas”, Ana Vicente pensa que eles “dão um mau testemunho e têm um efeito perverso”, afastando as pessoas e “descredibilizando” a Igreja. A investigadora fica mais incomodada com “toda esta energia para que não se mude a lei” do aborto. “Gostava de ver toda esta energia dos baptizados ser orientada para o bem dos que não nasceram, sim, mas também das muitas crianças maltratadas, dos idosos, dos mais vulneráveis”.

6 February, 2007

Bispo italiano aponta para modelo francês sobre uniões de facto

AFP trazia, ontem, a notícia de uma "voz original", no interior da Igreja Católica, acerca das uniões de facto: o bispo Guseppe Anfossi, citado pelo La Repubblica, dizia que se devia tomar o exemplo da França, do Pacto Civil de Solidariedade, acompanhado de uma política familiar eficaz:

Un évêque italien a fait entendre une voix originale dans le concert de condamnations de tout projet d’union civile par l’Eglise et souhaité que son pays prenne modèle sur "la France laïque", où l’existence du PACS s’accompagne d’une politique familiale efficace.

 "La recherche de solutions sur d’autres formes d’unions (que le mariage) ne serait pas à exclure à priori, à condition que ce soit dans un cadre législatif qui place vraiment au centre les intérêts de la famille", a déclaré l’archevêque d’Aoste (nord), Mgr Giuseppe Anfossi, cité lundi par La Repubblica.

"Il faudrait d’abord faire comme la France, pays notoirement laïque, dont la législation en faveur de la famille peut être prise en modèle", a ajouté le prélat, président de la commission épiscopale italienne sur la famille.
La France, qui a créé en 1999 le Pacte civile de solidarité (PACS) pour les couples non mariés homosexuels et hétérosexuels, est la championne de la natalité en Europe avec deux enfants par femme - contre 1,33 dans la très catholique Italie - grâce notamment à une politique nataliste volontariste.
"Ici, parler de politique familale est presque impossible, presque personne ne semble se préoccuper d’un problème aussi grave que la chute de la natalité", a déploré Mgr Anfossi.
Cependant l’apparente ouverture de l’évêque d’Aoste à "d’autres formes d’union" n’est pas partagée par ses confrères de la Péninsule: l’évêque de Viterbe (centre) Mgr Chiarinelli a déclaré que le PACS "minerait dans ses fondations l’institution du mariage".
Le cardinal Carlo Caffarra, archevêque de Bologne, a même estimé que les questions sur la vie, la famille et le mariage constituent "le point de confrontation le plus fort entre la proposition chrétienne et les autres formes de culture".
(…)

31 January, 2007

“Delicadeza de um dilema”

O "não" tem vindo a crescer nas sondagens e, embora continue ainda a alguma distância do "sim", já se admite a possibilidade de uma reviravolta nas previsões iniciais que favoreciam, claramente, a despenalização do aborto até às dez semanas. Surpreendente? Nem por isso. Apesar de estar pessoalmente convencido que o "sim" acabará por ganhar e que a abstenção será muito inferior àquela que se registou no referendo de há oito anos, a progressão do "não" reflecte a delicadeza de um dilema que divide profundamente a sociedade portuguesa (como tem dividido, aliás, todas as sociedades onde a questão foi colocada) e para o qual, com excepção dos fundamentalismos doutrinários e das simplificações demagógicas, não há saídas pacíficas, tranquilizadoras - e sem dor. (…)

Vicente Jorge Silva, in Diário de Notícias, 31.1.2007 [onde o autor defende que votar sim é -moralmente? -mais difícil do que votar não. Duvido da ponderação. De qualquer modo: um texto que merece ser lido com atenção]

28 January, 2007

Referendo sobre o aborto: “jogar a feijões”

Dos melhores textos que tenho lido de reflexão sobre os argumentos a favor do sim e do não no próximo referendo sobre o aborto é este "jogar a feijões", de Helena Araújo (os amantes de um pensamento rico e de uma escrita fluente ganham em fixar este nome), do blogue 2 Dedos de Conversa.

A autora inseriu também a tradução de alguns textos do site alemão Donum Vitae, uma rede de centros animados por católicos, que acolhem mulheres em situação de gravidez indesejada. Estes centros eram até ao final dos anos 90 assumidos oficialmente pela Igreja Católica. Uma tomada de posição de João Paulo II de crítica ao trabalho ali desenvolvido levou os bispos a afastar-se. Muitos católicos consideraram que seria trágico interromper esse trabalho pelo que criaram uma instituição própria que deu continuidade à actividade dos centros de aconselhamento.

24 January, 2007

Onde estão…?

 

"Onde estão todas as pessoas que vão votar ‘não’ no referendo sobre a despenalização do aborto, que dizem ser ‘pela vida’? Aqui temos uma menina, cuja mãe biológica não abortou, optando por lhe dar vida. Agora a vida dela está em risco e não vejo ninguém a manifestar-se pelas ruas, exigindo protecção para esta criança e justiça para os verdadeiros pais, que são os que a criam e amam. Estou muito agoniada com esta situação. Numa época de vale-tudo em que todos parecem funcionar com base na ganância, eis que aparece um gajo que se comporta de forma honrada, digna e justa. E? Vai preso!"

[carta de uma leitora, citada por Pedro Rolo Duarte, no Diário de Notícias de hoje] 

9 November, 2006

Vatican urges Israel to ban Jerusalem gay parade

A posição do Vaticano sobre a marcha do orgulho gay em Jerusalém foi notícia na Reuters:

    By Robin Pomeroy
    VATICAN CITY, Nov 8 (Reuters) - The Vatican has condemned a gay pride parade due to be held in Jerusalem on Friday as offensive to religious believers and urged Israeli authorities to stop it taking place.
    "It is with bitterness that we have learned that the day after tomorrow, Nov. 10, 2006, there is scheduled in Jerusalem a so-called ‘gay pride parade’," the Vatican said in a statement issued on Wednesday.
    In a letter to Israel’s Foreign Ministry, the Vatican urged authorities to withdraw permission for the parade which is expected to attract up to 8,000 people.
    "The Holy See has reiterated on many occasions that the right to freedom of expression, sanctioned by the Universal Declaration of Human Rights, is subject to just limits, in particular when the exercise of this right would offend the religious sentiments of believers," the letter said.
    "It is clear that the gay parade scheduled to take place in Jerusalem will prove offensive to the great majority of Jews, Muslims and Christians, given the sacred character of the City of Jerusalem."
    Gay pride festivals have been held each year in Jerusalem since 2001, but this year’s, bigger and with international participation, has caused greater outrage than before.
    Ultra-Orthodox Jews, dressed in black suits and hats, have protested in the city, burning tyres and pelting the police with stones. Organisers say the parade will promote understanding, tolerance and open-mindedness.
    The Vatican has often criticised the rise of gay rights as a potential threat to the traditional model of the family.
    In June, it said gay marriage, abortion, lesbians wanting to bear children and a host of other practices it saw as threats to the traditional family, were signs of "the eclipse of God".

Fonte: REUTERS