11 March, 2007

Fábrica de desejos, capitalismo e religião

Com o título "Fábrica de desejos", frei Bento Domingues escreve hoje no Público acerca das tentações entre capitalismo e religião. Excertos:

(…) Nos gritos do populismo político-religioso contra o capitalismo, corre-se o risco de esquecer o essencial. Repete-se, desde o século XIX, que, devido às suas contradições, o capitalismo não pode sobreviver. É certo que precisou, várias vezes, da mão visível do Estado - medidas de tipo político, fiscal e legal - para responder às incapacidades da "mão invisível" do mercado. Hoje, o capitalismo está globalizado e é nele que vivem, bem ou mal, americanos e europeus, indianos e chineses, oligarcas russos e príncipes sauditas. Por uma questão de sustentabilidade - e sem contar com as extravagâncias dos super-ricos - pensa-se que o nosso planeta não aguentaria 6 500 milhões de pessoas a viver, como é desejável e como já vivem hoje os consumidores da classe média do rico hemisfério norte.
O ser humano, movido pelo desejo do Ilimitado perde-se no labirinto dos desejos desgarrados e distorcidos, tornados mediaticamente inadiáveis como uma droga. A genialidade do capitalismo contemporâneo consiste precisamente em ser uma fábrica, em contínua produção, de novos desejos. A publicidade vive de nos tornar infelizes se os não satisfizermos.
O Budismo dispõe de uma resposta clara e radical: a supressão do desejo através de um caminho de auto-iluminação marcado por verdades e práticas bem estabelecidas e numeradas. Os paralelismos entre Buda e Jesus, entre o cristianismo e o budismo têm sido muito estudados. Mas também podem ser apontadas profundas diferenças. O percurso cristão não segue a via da auto-iluminação nem procura a supressão, mas a conversão do desejo como puro dom da graça divina, enquanto iluminante e transformante da condição humana. Mas a graça da conversão do desejo não suprime, reorienta as energias e paixões humanas. Pode e deve acolher sabedorias, regras de vida e métodos de espiritualidade de todas as proveniências para hierarquizar necessidades materiais e espirituais num mundo dominado pela fábrica de novos e insaciáveis desejos que nos devoram e alimentam ódios e violência. Paz com a Terra e o Céu, paz dentro de nós próprios, paz e a justiça com os que precisam da nossa solidariedade.

5 December, 2006

Manifesto por uma Economia Solidária

 Realiza-se quinta-feira, em França, o encontro de um vasto conjunto de organizações que pretende traduzir no terreno as orientações do Manifesto por uma Economia Solidária, apresentado em Setembro último.

No quadro da pré-campanha da eleição presidencial francesa, as individualidades eorganizações proponentes expressaram já a intenção de lançar um apelo público no sentido de "duplicar o peso da economia solidária nos próximos cinco anos". A reunião desta semana visa lançar uma campanha de mobilização nesse sentido.
O Manifesto arranca deste modo:

"Le profit ne peut être la finalité unique de l’activité économique.Dominée par le capitalisme financier, l’économie, dopée par les nouvelles technologies, les progrès fulgurants du commerce mondial, la surmultiplication des échanges financiers, tend à se libérer de toute contrainte sociale au nom de la compétitivité. Elle produit des richesses impressionnantes mais très inéquitablement réparties. Elle crée des emplois mais génère aussi précarité, insécurité et parfois exclusion des personnes. Elle ignore des besoins individuels et collectifs pressants s’ils ne lui semblent pas assez rentables. Elle fait dépendre l’avenir des hommes, leur emploi, leur revenu, leur rôle dans la cité, de décisions prises souvent sous la pression d’impératifs financiers.
Peut-on redonner du sens à notre engagement personnel et à notre vie collective ? Peut-on recréer un triangle vertueux entre l’emploi, la cohésion sociale et la démocratie participative ? Peut-on permettre aux plus fragiles de vivre dignement de leur travail sans dépendre des prestations d’assurance? (…)"