21 October, 2007
No Público de domingo, dia 21, frei Bento Domingues debate a religião em Portugal, a partir de dois textos recentes da sociologia. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola.
1. Para perceber a evolução religiosa dos portugueses, não basta ter em conta as promessas de Fátima. O recurso às investigações dos sociólogos é preferível aos palpites e às observações puramente subjectivas. Millán Arroyo Menéndez, da Universidade Complutense de Madrid, aventurou-se a opinar sobre “Religiosidade e valores em Portugal: comparação com a Espanha e a Europa católica” (1). Sem pretender circunscrevê-lo neste espaço, permito-me alguns destaques.
Por falta de indicadores acerca das outras religiões, o grau de proximidade ou de distanciamento da população portuguesa em relação às crenças, práticas e identidades toma, apenas, por referência, a Igreja católica. Servem-lhe de enquadramento os países da Europa Ocidental de ampla maioria católica: Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Irlanda e Polónia. Dá especial atenção à Espanha, pelo facto de partilhar com Portugal afinidades históricas, políticas, económicas e culturais. Isto irá permitir que as diferenças, em termos de religiosidade e valores, sejam mais nítidas.
Na abordagem de temáticas tão complexas como são as identidades, as crenças, os valores e as sensibilidades, a aproximação quantitativa não é a mais adequada, embora, nesse artigo, seja a mais presente.
No âmbito das crenças, os portugueses situam-se, em geral, acima dos austríacos, belgas, espanhóis e franceses, à excepção da crença na vida depois da morte, da qual duvidam bastante. Tendo em conta várias comparações, chega à conclusão de que, entre nós, a ideia de um Deus pessoal continua a ter muita força, embora com uma intensidade algo inferior, mas parecida à observada na Polónia e claramente superior à da Irlanda e da Itália. Os traços que caracterizam a religiosidade portuguesa seriam os seguintes: uma elevada confiança na instituição eclesiástica; uma alta identificação religiosa com o catolicismo; uma prática religiosa não tão elevada como a sua identidade católica – embora superior à média dos oito países observados – expressa mais na oração individual do que na assistência à missa; um elevado nível de crença em Deus, claramente relacionado com o Deus pessoal da tradição católica, embora mantendo, em simultâneo, mais cepticismo do que fé nas crenças do além.
2. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola. Enquanto que, entre nós, verificamos a transição de uma religiosidade mais forte para uma mais intensa, em Espanha, a mudança religiosa – em termos de secularização – encontra-se num estádio mais adiantado: vai-se passando de uma religiosidade light para a saída da religião de Igreja ou da religião institucional. O que muda essencialmente, em Espanha, é a intensidade e a velocidade com que a população se afasta da Igreja e dos aspectos relacionados com a dimensão institucional da religiosidade. Pelo contrário, Portugal é o país mais ligado a essa instituição em toda a Europa. Esta tendência, relativamente recente em Espanha, não só não foi ainda detectada em Portugal, como não há indícios de que venha a acontecer num curto ou médio prazo.
Não cabe, neste apontamento, identificar as causas que explicam as importantes diferenças observadas nos níveis de religiosidade de Espanha e de Portugal. Para o autor, a principal causa está nos diferentes graus de modernização cultural de ambos os países, presentes no processo histórico e social, onde os valores, as crenças, as atitudes e os comportamentos são orientados por escolhas individuais e menos dependentes da tradição e das instituições. A doutrina da Igreja opõe-se, hoje, a determinados valores e comportamentos assumidos no seio de mentalidades modernas, por exemplo, no campo da sexualidade, mas também noutros, como o divórcio, a bioética, a eutanásia, a homossexualidade, os novos modelos familiares, etc.
A tese de M. Arroyo Menéndez é simples: as fricções vão-se agravando à medida que a sociedade avança em direcção a uma constelação de valores, crenças e sensibilidades, não especificamente religiosos, a que a Igreja se opõe porque os considera negativos. Nos outros países, isto conduz ao progressivo abandono da religião católica. Acerca deste ponto, o autor não dispõe de investigação que lhe permita saber o está a acontecer em Portugal. Sobre o que está a acontecer entre os jovens, nomeadamente, no distrito de Braga, Eduardo Duque conclui o seu importante estudo com estas palavras: “Apesar desta ‘crise’ das instituições, a Igreja de Braga conserva ainda uma maioria de jovens, não obstante o facto de irem dando sinais de uma certa desvalorização da mediação eclesial e da frágil observância das suas orientações” (2).
Não foi considerada a diferença entre a ostensiva beligerância do episcopado espanhol e a atitude dialogante do episcopado português. Esta talvez não seja indiferente à “elevada confiança na instituição eclesiástica” que os sociólogos notam em Portugal.
(1)Análise Social, vol. XLII (184), 2007, 757-787.
(2)Os Jovens e a Religião na Sociedade Actual, Instituto Português da Juventude, 2007.
14 September, 2007
O Dalai Lama está já há três dias em Portugal. Tenho acompanhado alguns dos actos para o Público. No dia da chegada, publiquei um texto sobre as recentes edições de livros fundamentais da espiritualidade budista que saíram recentemente. Aqui fica.
O monge idiota, afinal, escreveu a obra mais bela
Uma mão-cheia de livros fundamentais do budismo acaba de sair em Portugal, quando Lisboa se prepara para receber o Dalai Lama. O budismo volta a estar na moda? E que diferenças e semelhanças há entre esta espiritualidade nascida na Índia há dois milénios e meio e o cristianismo?
António Marujo
Pode um monge budista da primeira metade do século VIII, que só se preocupava em comer, dormir e deambular, ser o autor de uma das mais belas obras da espiritualidade dos seguidores de Buda? Muitos séculos depois, Paulo Borges, professor de Filosofia e presidente da União Budista Portuguesa (UBP), responde que sim.
Shantideva surpreendeu todos os outros monges que no mosteiro o achavam pouco menos que um idiota. E assim, diz a tradição budista, nasceu A Via do Bodhisattva (ver texto nestas páginas). Deste livro, diz o actual Dalai Lama, que hoje chega a Lisboa para uma visita de quatro dias: “Se tenho alguma compreensão da compaixão e da via do Bodhisattva, é inteiramente com base neste texto que a possuo.”
Paulo Borges, 47 anos, descobriu o budismo em 1981. “Tomou refúgio” (que é como quem diz, fez o ritual de adesão, como um baptismo) em 1983. Caracteriza A Via do Bodhisattva (que significa o “ser iluminado”) como “um livro síntese” da espiritualidade budista, que traduz “o ensinamento de um grande mestre”.
Este é um dos últimos títulos (será apresentado quinta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), de alguns textos fundamentais do budismo tibetano publicados nos últimos meses em Portugal. Um regresso da moda budista? Não, responde Paulo Borges. Essa moda – dos anos 1960 e 70, quando no Ocidente se viveu uma “grande sedução pelo que é exótico” – passou.
Nessa altura, houve um “primeiro impulso de muita gente” que viu no budismo um estilo de vida alternativo aos modos ocidentais. Depois da primeira vaga, ficaram sementes. Que “começam a frutificar”. E se, de acordo com as suas estimativas, haveria uns cinco mil portugueses que tinham aderido ao budismo desde a década de 60 até ao início do século XXI, desde 2001 para cá esse número terá duplicado.
“As pessoas procuram a meditação, nós não pretendemos que elas se tornem budistas, apenas queremos ser úteis.” Mas muitos acabam por ficar. Claro que há sempre o “factor mediático” dos actores e actrizes que revelam a sua adesão ao budismo, admite. Mas Paulo Borges só tem uma certeza: “Vejo que o budismo tem modificado a vida das pessoas que a ele aderem”
De que falamos, então, quando falamos de budismo – sabendo que o budismo tibetano é uma das correntes do universo budista? E que diferenças e semelhanças têm budismo e cristianismo? Compaixão, sabedoria, “duas asas de uma ave” como diz uma imagem da tradição tibetana, são expressões fundamentais no budismo. E também no judeo-cristianismo…
Na primeira metade do século V antes da actual era, na zona da actual fronteira da Índia com o Nepal, o príncipe Siddharta Gautama vivia feliz no palácio. Quatro encontros (um velho, um doente, um morto e um religioso) levaram-no a ver outras realidades e a deixar o palácio do seu pai procurando respostas para o sofrimento que via à sua volta.
Apesar de ter procurado junto de vários mestres, acabou por ser o próprio príncipe a descobrir as respostas que procurava no seu interior. Atingiu o estado de iluminação, o estado de Buda.
Várias obras agora publicadas apresentam, em português, o caminho proposto por Buda Gautama e os ensinamentos dos seus seguidores. “Até agora, não havia grandes clássicos da literatura budista disponíveis em português”, nota Paulo Borges. Um deles, O Livro Tibetano dos Mortos, é mesmo a segunda tradução integral deste texto fora do Tibete – a primeira foi em inglês, em 2005.
O padre Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e responsável do Patriarcado para o diálogo inter-religioso, olha para a edição destas obras como um marco cultural importante: “Até agora, conhecíamos do budismo aquilo que outros ocidentais apreendiam e depois divulgavam da sua experiência. Mas esta está sempre influenciada pela cultura ocidental que as pessoas tinham.”
A importância destes “textos fundantes e de outros que traduzem a forma como a tradição budista se foi interpretando” é destacada por Peter Stilwell. Também no âmbito inter-religioso: “Para um contacto verdadeiro é preciso um conhecimento das fontes e uma aproximação efectiva aos textos sagrados”, afirma.
Em Dhammapada – As Palavras de Buda, lê-se: “Aqueles cujas mentes estão firmes nos elementos da iluminação, que não desejando nada se glorificam na renúncia, que não têm preconceitos (e) que estão cheios de luz, esses atingiram realmente a felicidade do Nibbana [nirvana] neste mundo” (Dhammapada, 89).
Destas obras, Peter Stilwell retira a ideia de que o budismo é uma “mundivisão completamente distinta da abraâmica”, judaico-cristã. “A diferença mais significativa é que o judeo-cristianismo sublinha a dimensão da alteridade: Deus é a fonte da relação com o outro, e ao qual se estabelece uma relação. O budismo, nesse sentido, está mais perto do neoplatonismo, em que toda a realidade é uma emanação do ser”, explica Peter Stilwell.
Neste sentido, Stilwell descobre nas obras agora publicadas e nos textos fundamentais do budismo uma aproximação ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos. Nesta corrente, a busca do conhecimento era o centro da experiência. “Há um caminho proposto à consciência do crente. A tradição bíblica, que acabou por se destacar, entende a experiência crente mais como uma relação com os outros e menos como um percurso interior”, afirma.
Paulo Borges verifica uma outra perspectiva: “Os textos gnósticos cristãos têm mais proximidade com o budismo pela ênfase que colocam no conhecimento, comparável à sabedoria do budismo. Os gnósticos atendem menos ao aspecto da compaixão, mais característica do cristianismo tradicional. O cristianismo separou duas coisas que o budismo uniu harmoniosamente.”
Naquele que é entendido como o primeiro ciclo dos ensinamentos de Buda, a iluminação é entendida como condição de uma maior sensibilidade em relação aos outros “seres sensíveis”, como escreve o Dalai Lama no prefácio de A Via do Bodhisattva. Lê-se nesta obra (II, 18): “Àqueles cuja própria natureza é compaixão/ Oferecerei vastos palácios, ressoando com belos louvores,/ Todos recobertos de preciosas pérolas e lindas gemas pendentes,/ Cintilantes jóias a revestir a amplidão do espaço.”
Sim, claro, há enunciados que sintetizam a espiritualidade budista: ele é “uma via para libertar a mente do sofrimento que ela causa a si própria e aos outros”, diz Paulo Borges.
O ensinamento de Buda baseia-se, explica, nas quatro nobres verdades. “Não são dogmas, mas hipóteses para cada um confirmar: todas as experiências são condicionadas e insatisfatórias; as causas do sofrimento são interiores à própria mente; existe um estado (nirvana) para lá do sofrimento; e há uma via para lá chegar, que implica um discurso ético, um discurso mental, e a sabedoria e a compaixão.”
No Livro Tibetano dos Mortos, lê-se no capítulo sobre “Prática Quotidiana”: “Quando experimentarmos o sofrimento, como resultado de acções passadas negativas, possam as nossas divindades de meditação dissipar completamente toda esta aflição. E, quando o som natural da realidade reverberar como mil trovoadas, possam [todos os sons] ser escutados como a sagrada ressonância.”
4 September, 2007
A visita do Dalai Lama a Portugal, enre 13 e 16 de Setembro, é o pretexto para algumas iniciativas paralelas. Aqui se registam duas:
PRESENÇA DO BUDISMO NA CULTURA PORTUGUESA, 6 de Setembro - 18h 30 - Lançamento da "Revista Lusófona de Ciência das Religiões", número dedicado à Presença do Budismo na Cultura Portuguesa, no Auditório Vítor Sá da Universidade Lusófona (Campo Grande). Serão oradores o Director Dr. Paulo Pinto, o organizador, Prof. Paulo Borges, e o Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Dr. Mário Soares.
PENSANDO NOS OUTROS, 10 de Setembro – 18h30 - Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (ao Campo Grande / metro: Cidade Universitária) – Duas intervenções sobre a importância da defesa dos Direitos Humanos no mundo e no Tibete.
Na mesma ocasião será apresentado o livro de Raimon Pannikar, "O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões" (Lisboa, Zéfiro, 2007). O autor, referência fundamental do diálogo inter-cultural e inter-religioso, foi recentemente nomeado candidato ao Prémio Nobel da Paz 2007.
Programa:
* "Direitos humanos, mais do que nunca necessários" - Fernando Nobre,
Fundador e Presidente da AMI
* "Os Direitos Humanos no Tibete" - Maria Teresa Nogueira -
ex-Presidente da Amnistia Internacional e especialista da situação
sino-tibetana)
* Apresentação de "O Diálogo Indispensável. Paz entre as Religiões", de
Raimon Pannikar – Prof. Paulo Borges, professor do Deptº de Filosofia da UL, Presidente da União Budista Portuguesa e Vice-Presidente da Songtsen-Casa
da Cultura do Tibete
Entrada Livre
18 March, 2007
Na edição de hoje do Público, sai uma reportagem que escrevi sobre um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados que, com a participação de uma actriz imigrante, envolve 40 estabelecimentos de ensino; o objectivo é sensibilizar os alunos para a questão das migrações. Uma gala do projecto decorre hoje à tarde no Colégio São João de Brito, em Lisboa.
E a mussaca? Ah, a mussaca! Alguém sabe como se cozinha a mussaca? "Pega-se numa cebola e corta-se cebola aos pedaços - tac, tac, tac. Nem muito grandes nem muito pequenos. Pega-se numa panela com bocadinho de óleo. Põe-se cebola no óleo e faz-se um refugiado. Perdão, um refogado." Primeiros risos.
Natasha Marjanovic, actriz sérvia (ex-jugoslava, corrige, mas já lá vamos) há sete anos radicada em Portugal, está numa turma de 10.º ano do colégio St. Peters, em Palmela, a participar numa acção de sensibilização sobre os imigrantes. Ao fim de hora e meia, os alunos são surpreendidos com a troca: a "técnica de uma empresa de inquéritos", como Natasha se apresentara, deu lugar à actriz que passa receitas culinárias, encena o cozinhado, toca acordeão e põe alunos a dançar.
A receita da mussaca, prato típico sérvio, continua (ver caixa). Antes de desvendar quem é, Natasha pega num acordeão. Cresce a perplexidade dos alunos. Um convite: "Vou ensinar uma dança tradicional." Cristina Pessanha, que integra o projecto Bem-Vindos à Nossa Terra, dança com dois alunos. "Um dia vão embora os pássaros/ e as ruas vão ficar sem sol./ Um homem vai despedir-se de uma mulher/ e muito tempo, no vento, vai ficar sozinho."
A iniciativa é do JRS - Serviço Jesuíta aos Refugiados, organização ligada aos padres da Companhia de Jesus. No início, Cristina explica, com imagens: "190 milhões de pessoas residem num país diferente daquele em que nasceram." "Eu sou um deles", ouve-se do fundo da sala. Pedro, 15 anos, nasceu em França quando os pais lá trabalhavam.
Natasha bate à porta, pergunta se é ali a aula sobre migrações. "Sou da empresa Igualdade Para Todos, falei com o professor." Sim, sim. Alguns risos - o sotaque? -, mas não se pressente desconfiança. Chama-se "teatro de infiltração" e envolve 40 escolas das regiões de Lisboa, Porto e Setúbal. "Pensam que estou a fazer entrevistas", explicara antes a actriz. "Eu vou interrompendo, troco o nome à Cristina, só no fim a dúvida acaba."
Bombas em Belgrado
Cristina passa os slides do computador. As origens das migrações podem ser várias. Alguns alunos intervêm. Há guerras, pessoas discriminadas. Primeira interrupção: "Eu, por exemplo, venho de um país de leste, onde dominava um regime comunista. Lembro-me de me terem levado de noite para baptizar. No Natal, só havia almoço melhorado em casa da avó, como se fosse um encontro casual."
Variam as formas das migrações. Voluntárias, forçadas, legais, ilegais. "Eu sou refugiada? Tinha de ter provas. Em 2004, 105 pessoas pediram asilo em Portugal. Quantas tiveram? Duas. Em 2005 já mudou tudo: cinco conseguiram. Tem que ter prova. Eu estava em Belgrado quando houve bombardeamentos da NATO. Tinha de ir pedir: "Senhor, assine aqui, para eu ter prova de que está a bombardear."" Os alunos entram no jogo, riem, acenam, a perturbação inicial dá lugar à participação.
Natural de Sarajevo, na Bósnia, filha de pais sérvios, Natasha casou com um croata. Com a guerra, marido e irmão ficaram em campos opostos. Por isso, diz que é de um país que já não existe: a Jugoslávia. Fugiu para casa dos pais em Belgrado, as bombas empurraram-na para Portugal.
Os imigrantes são contribuintes e têm direito a ir a um centro de saúde, mesmo ilegalizados. "Porque é tão difícil legalizar?" - pergunta Pedro. Natasha já centra a discussão: "Há gente que não existe, não tem documentos." Maria, muito activa, pergunta como chega comida aos refugiados. A Europa, recorda uma frase de Kofi Annan no ecrã, não está a cumprir os seus deveres: África é o continente que mais protecção dá aos refugiados. Portugal tem pouco mais de 400 mil imigrantes; espalhados pelo mundo, há 4,5 milhões de portugueses. "É razão para respeitarem dez vezes mais os imigrantes." E não respeitamos? "Não oferecem ajuda à primeira, mas depois fazem tudo o que se pede." A resposta de Natasha recorda os primeiros três dias de solidão. Quebrada por um cesto de cerejas do senhor Joaquim.
Natasha gosta do país que a acolhe: "Vocês têm um país bonito, não dão valor, eu fiquei porque estou nove meses com sol." A mussaca, a dança, a campainha para o final da aula. Pouco antes, diria o que não gosta em Portugal, que reparou por causa da escola das filhas: "Não lêem Tolstoi, não lêem nada. Leiam, leiam."
A dança terminava assim: "Um dia cada um vai atrás da sua vida/ no fim, só, o coração diz:/ eu vou voltar!/ Agora, adeus./ E quem sabe quando…/ E quem sabe onde…"
Mussaca para quatro pessoas
A mussaca precisa de 1 kg de beringelas, 400 gramas de carne picada, duas cebolas grandes, dois dentes de alho, queijo ralado e molho bechamel (ou um iogurte natural e três/quatro ovos batidos). Enquanto se faz o refogado (ver texto principal), está outra panela a "fazer glu glu - o que é isto? Água a ferver, à espera de quê? Da beringela."
"Pegas na beringela e pluc, colocas dentro dessa água, em cima da cebola. Pegas na carne picada, de qualquer animal que encontres no caminho, juntas sal, pimenta e pegas numa travessa grande, para toda a gente comer. Quanto mais gente houver, mais saborosa é a mussaca. Colocas uma camada de beringela, outra de carne picada, uma de beringela, outra de carne, outra de beringela. Abres o forno, colocas a mussaca e não perdes tempo: três, quatro ovos, iogurte natural, um bocadinho de sal. Abres o forno, regas a mussaca, devolves ao forno. Ah!, já cheira a mussaca!"
O projecto Bem-Vindos à Nossa Terra tem hoje um ponto culminante com uma gala que inclui uma peça encenada por Natasha Marjanovic. É no Colégio S. João de Brito, em Lisboa, a partir das 17h00 (entrada livre).
10 March, 2007
No Público de sexta, saiu a notícia da nomeação do novo bispo do Funchal. Depois do Porto, há duas semanas, a diocese madeirense tem também um novo responsável, que terá um desafio essencial: desfazer a imagem de conivência entre os poderes político e religioso. A notícia, assinada por Natália Faria, fala do problema.
Novo bispo do Funchal espera manter diálogo adulto” com Alberto João Jardim
O novo bispo de Funchal, D. António Carrilho, prometeu ontem pautar as suas relações com Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, pelos princípios da “autonomia e cooperação”. “Estou convencido que haverá um diálogo maduro e adulto. Tendo as pessoas consciência daquilo que lhes compete, penso que não haverá dificuldades”, declarou aos jornalistas, no Paço Episcopal do Porto, onde foi bispo auxiliar nos últimos oito anos. Dizendo que uma das prioridades quando pisar a Madeira será recensear-se no Funchal, António Carrilho lembrou que só assumirá o novo cargo a 19 de Maio, já com o próximo acto eleitoral realizado. E, porque “as eleições não dizem directamente respeito ao bispo”, prometeu acatar as regras democráticas. “Se o povo elege alguém, assume essa responsabilidade e temos que respeitar essa decisão”. Quanto às críticas de quem acusa a subserviência da Igreja Católica relativamente ao Governo Regional da Madeira, D. António Carrilho escudou-se no desconhecimento. “Só depois de lá chegar poderei dizer se há ou não subjugação, mas estou convencido que os princípios de autonomia que me norteiam são os mesmos do bispo que lá está”. O melindre da relação entre Igreja e Governo Regional pode ter sido uma das razões para a dificuldade em encontrar sucessor para D. Teodoro Faria, o actual bispo: nos meios eclesiásticos, sabe-se que houve pelo menos um convidado para o lugar – Samuel Ornelas, actual responsável máximo dos Padres Dehonianos – que recusou a hipótese, tendo em conta também o cargo internacional que ocupa. Com 64 anos e origens algarvias, António José Cavaco Carrilho vai substituir Teodoro Faria, que atingiu o limite de idade. Durante doze anos exerceu actividade pastoral em Faro, depois em Lisboa. Em Fevereiro de 1999 foi nomeado bispo auxiliar do Porto. Aos que o rotulam como ortodoxo e apagado, D. António responde com um encolher de ombros. “Se for ortodoxo no sentido de que sou fiel ao evangelho sem preocupações de protagonismo, até considero um elogio”, reagiu, dizendo-se “perseverante no meio do povo” e avesso ao mediatismo. Uma característica que poderá ser-lhe útil enquanto bispo de origem continental num arquipélago onde a crispação política se alia ao problema da pedofilia. Sobre esta questão, declarou preferir “ter nas mãos elementos concretos para poder fazer juízos”. “Sei que esse problema existe na Madeira, como existe cá [no Continente], e merece-nos condenação, sem condenar as pessoas em si mas apontando comportamentos digno de pessoas humanas e de respeito pelos mais frágeis”, declarou.
1 March, 2007
É já este fim-de-semana que o Metanoia – Movimento Católico de Profissionais realiza a sua Sessão de Estudos sobre "As Religiões num Mundo Globalizado". O Seminário de Vilar no Porto, a 3 e 4 de Março, acolherá um debate que pretende evitar "juízos precipitados a partir de pontos de vista culturalmente enviesados", contextualizando o fenómeno religioso nos dias de hoje, num mundo pós-11 de Setembro. A Sessão de Estudos terá como principais intervenientes AbdoolKarim Vakil, muçulmano e professor no King’s College, de Londres, e António Matos Ferreira, membro do Metanoia e professor da Universidade Católica. Haverá ainda uma comunicação da socióloga Helena Vilaça, que parte da sua tese sobre o pluralismo religioso em Portugal – com o título "Da Torre de Babel às Terras Prometidas" – para questionar o Estado, as religiões e a construção do espaço público na actualidade. O fenómeno religioso nos dias de hoje, cruzado com a imigração, no mundo dilacerado por conflitos que se reivindicam de Deus, parece ser um tema cada vez mais dominante nos debates que cruzam a sociedade. Depois da Semana de Estudos Teológicos da Faculdade de Teologia de Lisboa ter optado por abordar "as novas procuras de Deus" – sabendo que "o cristianismo deve estar historicamente preparado para responder aos novos desafios" – e antes do Fórum Gulbenkian Imigração, na próxima semana, esta Sessão de Estudos do Metanoia é mais uma etapa na "construção de uma sociedade mais livre e democrática e de um mundo mais justo, solidário e sustentável".
(adaptado de Fátima Missionária)
25 February, 2007
No Público de hoje, publiquei um perfil do novo bispo do Porto, D. Manuel Clemente.
Pacificador, homem de consensos, afectivamente próximo. Historiador, leitor compulsivo, sempre pronto para um bom debate. Devotado ao diálogo entre a Igreja e a cultura, com um percurso dentro de estruturas eclesiásticas – seminário, Universidade Católica Portuguesa (UCP) – mas em permanente contacto com meios académicos e culturais não católicos. Manuel Clemente, 58 anos, foi nomeado quinta-feira para bispo do Porto.
Até agora a desempenhar o cargo de bispo auxiliar de Lisboa, Manuel José Macário do Nascimento Clemente nasceu em 16 de Julho de 1948. Antes de decidir ingressar no seminário, em 1973, Manuel Clemente tinha já concluído a licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa.
Os dois apelos – a historiografia e o catolicismo – acabariam por coincidir no seu percurso de investigador, iniciado com a defesa da tese em Teologia Histórica. Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal – A ‘Sociedade Católica’ (1843-1853) era o título da sua dissertação, entretanto publicada (ed. UCP).
Com um percurso eclesial feito essencialmente em instituições ligadas ao ensino – o Seminário Maior de Cristo-Rei, nos Olivais (Lisboa) e a Faculdade de Teologia da UCP – D. Manuel tem agora, pela frente, um desafio maior: o de dar uma nova dinâmica pastoral a uma diocese adormecida à sombra do passado.
A cátedra episcopal do Porto tem, na sua história, uma lista de grandes nomes, como António Barroso ou António Ferreira Gomes. Este último, condenado ao exílio por Salazar durante a década de 60, acabou por deixar uma imagem do homem intelectual, extremamente culto (é dele, por exemplo, o prefácio dos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner), mas que não conseguiu gerir da melhor forma a relação com alguns padres e a organização da acção da Igreja.
Manuel Clemente sucede, agora, a D. Armindo Lopes Coelho, que atingiu os 75 anos (data canónica para a saída) e se encontra hospitalizado. O novo bispo do Porto, que tomará posse a 25 de Março, recupera essa dimensão de relação com a cultura e os meios académicos que ficou ligada à personalidade de Ferreira Gomes. Não por acaso, Manuel Clemente é, desde 2002, responsável da comissão da Conferência Episcopal para a Cultura e as Comunicações Sociais. Na Rádio Renascença e no programa Ecclesia, da RTP 2, mantém desde há anos uma presença regular.
A comparação com Ferreira Gomes não o assusta, como dizia ontem ao PÚBLICO: “Passaram 50 anos e a atenção à cultura continua a ser fundamental. Terei muita gente que pensa e escreve a ajudar-me. Não será difícil ler os sinais dos tempos e estar atento à realidade.”
Para o seu governo, o novo bispo tem, para já, uma prioridade: “Conhecer, amar e servir” a diocese, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, dos quais 98 por cento se consideram católicos mas em que a média de pessoas que vai à missa está pouco acima dos 20 por cento. Apesar desta taxa, o número de baptizados (quase 17 mil, dados de 2004) e de casamentos pela Igreja (quase 7500) continua a ser dos mais elevados entre as dioceses portuguesas.
Com uma grande diversidade social e geográfica – mais urbana na faixa litoral, mais rural e desertificada em zonas como Arouca, Baião ou Castelo de Paiva – a diocese tem quase 400 padres a trabalhar em 477 paróquias agrupadas em 34 vigararias (equivalentes aos concelhos civis). Além da vastidão e diversidade sócio-religiosa da diocese – “equivalente a Lisboa”, diz o próprio – Manuel Clemente enfrenta outro desafio importante: conseguir impor decisões e restabelecer a unidade num clero dividido em grupos onde, por vezes, o que conta mais são fidelidades antigas ou uma espécie de estratificação eclesiástica, tendo em conta os títulos canónicos.
A capacidade do novo bispo para o diálogo e o consenso, a sua “proximidade afectiva” – a expressão é do director da Faculdade de Teologia da UCP, Peter Stilwell – podem ser trunfos de Manuel Clemente na nova tarefa que tem pela frente.
Cultura e capacidade intelectual continuarão a ser pontos que o distinguem. A paixão pela História traduz-se nas várias obras já publicadas: além da tese, onde estuda aquela que foi a primeira tentativa, em Portugal, de organização de apostolado católico autónomo da hierarquia eclesiástica, também outras como Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República (ed. Grifo) consubstanciam a sua atenção prioritária ao século XIX, tempo em que a Igreja Católica deixou de dominar o espaço público.
Também a religiosidade popular tem sido objecto da investigação de Manuel Clemente, padre desde Junho de 1979 e bispo auxiliar de Lisboa desde Janeiro de 2000. No patriarcado, foi ele o responsável directo pela organização do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, cuja sessão de Lisboa decorreu em Novembro de 2005.
Na sua primeira saudação, D. Manuel incluía todos os crentes de outras confissões e todas as instâncias públicas e sociais (incluindo desportivas) da diocese.
Em Abril de 2005, a propósito da eleição do novo Papa Bento XVI, dizia: “A Igreja preza muito uma consciência bem informada que tenha capacidade de decisão, e nesse santuário da consciência a Igreja não se mete, mas não pode prescindir de dar à consciência de cada um todos os elementos da questão, até em nome da humanidade total que a Igreja defende.”
19 February, 2007
"Ana escutava surpreendida as questões que lhe eram colocadas "Está a pensar engravidar? Tem filhos pequenos? Que idades têm?". A possibilidade de obter o posto de trabalho dependeria inteiramente das respostas que desse. Ana é mulher, mãe e esposa. E, por tudo isso, operária potencialmente inválida para trabalhar (…)".
Esta história encabeça um texto da jornalista Helena Forte ("Operárias que ninguém quer") que o Jornal de Notícias hoje publica e que deveria motivar denúncias tão encarniçadas quanto as daqueles que se encarniçaram na luta contra a despenalização do aborto, no referendo do passado dia 11.
Todos sabemos que, na actual situação de precariedade que afecta uma enorme parcela dos trabalhadores, a maternidade constitui um dos grandes entraves à contratação ou ao sucesso no emprego. O problema parece ser muito mais grave do que as estatísticas oficiais fazem crer. E, no entanto, estamos longe de ver um igual empenhamento e mobilização dos cidadãos (e, designadamente dos católicos) na denúncia deste comportamento ignóbil e anti-vida de tantos empresários e gestores.
9 February, 2007
Uma das notas desta campanha do referendo sobre o aborto foi o aparecimento de vozes de católicos, publicamente reconhecidos como tal, a defender o "sim". Opiniões diversificadas de católicos mesmo no campo do "não" também se fizeram notar. Um debate que procurei trazer hoje às páginas do Público.
Uma “carta aberta de crentes para crentes”, vozes de católicos reconhecidos como tal a defender o “sim” no referendo, opiniões diferenciadas de vários católicos, quer no campo do “não” quer do “sim”, artigos de opinião a criticar posições oficiais. Desta vez, ao contrário do que se passou em 1998, em que a voz dos católicos e da Igreja falou com grande unanimidade, apareceram dissonâncias.
A atitude não passou despercebida à hierarquia e foi uma das razões que terá pesado para a decisão de intervenção de alguns bispos. O patriarca de Lisboa criticou mesmo essas vozes desalinhadas do discurso oficial. “Como havia confusão e dissidência de gente que se afastou da doutrina da Igreja, era preciso esclarecer”, diz D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.
O bispo considera que os católicos defensores do “sim” na resposta ao referendo manifestam “alguma infidelidade à doutrina da Igreja”, onde existe uma “quase unanimidade” sobre o aborto. Carlos Azevedo admite, no entanto, que o aparecimento dessas vozes se fique a dever também a uma reacção das pessoas à oposição da Igreja a questões como a contracepção. “É um dos pontos que obriga a [hierarquia a] pensar e a fazer autocrítica”, afirma.
A psiquiatra Margarida Neto, da Plataforma Não, Obrigada!, diz que a intervenção de católicos em defesa do “sim” é “legítima”. “Mas não compreendo. Percebo o sentimento de compreensão e empatia pelas mulheres em dificuldade, mas a pergunta é sobre o direito à vida. E o ‘não’ é o único que representa os dois lados: o direito à vida e a compreensão pelas mulheres.”
Diferente é a posição de José Manuel Pureza, militante católico e membro do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. “Há um distanciamento cultural em relação a este problema específico e à questão mais vasta da moral sexual.” O “fosso cada vez maior” entre a “rigidez da moral privada” e a “prática de muitos católicos” é um dos factores apontados por este professor universitário para esse distanciamento.
“Este discurso da Igreja tem sido baseado numa moral a preto e branco, em que os bons seriam obedientes e os maus os que não cumprem”, diz. “Mas cada um de nós sabe que isso não é assim.” E, acrescenta, “não se trata de um afastamento da Igreja.
Ana Vicente, investigadora em assuntos de mulheres e mandatária do Cidadania e Responsabilidade, acrescenta que a diferença em relação ao que se passou em 1998 é que, desta vez, apareceram mais pessoas, publicamente, a assumir a sua maturidade e sem medo de contradizer a instituição.
“O travão à contracepção” e a “repressão da sexualidade” como uma dimensão fundamental do ser humano merecem reservas a Ana Vicente. “Pessoalmente, não reconheço autoridade a um colectivo de pessoas que exclui as mulheres e que, de forma tão veemente, se pronunciam sobre os comportamentos reprodutores das mulheres”, diz.
Sobre a veemência, Carlos Azevedo não tem dúvidas de que ela deveria continuar em outros campos: “A insistência no campo da moral pessoal esquece, por vezes, a moral social. Por isso, eu gostaria de ver todos estes movimentos [que agora militam pelo ‘não’] a lutar também contra o desemprego, contra a fome, contra a violência”, afirma o bispo. “Espero que todos sejam coerentes, porque se trata da mesma exigência”, diz.
Hoje, no Público, procurei fazer um balanço do que foi a posição da Igreja institucional na campanha do referendo.
Estratégia da Igreja preparada para “esclarecimento das consciências”
Houve uma estratégia da hierarquia da Igreja no sentido de “esclarecer as consciências”, reconhece o porta-voz dos bispos. Uma estratégia natural, admite Ana Vicente, católica e defensora do “sim”. Que gostava de ver as mesmas energias orientadas para outras causas. Mas só os católicos pelo “sim” falaram como católicos, contrapõe Margarida Neto, apoiante do “não”.
Houve uma estratégia da Igreja Católica nesta campanha do referendo sobre o aborto? Com pequenas diferenças, a avaliação é coincidente. “Houve uma estratégia preparada com orientação da Conferência Episcopal Portuguesa: que o debate fosse esclarecedor, sereno, moderado, sem extremismos de posições” e procurando que “os católicos tivessem intervenção na formação das consciências”, diz ao PÚBLICO D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
Onde o bispo vê que esse trabalho não fez mais que corresponder ao “esclarecimento das consciências” como “trabalho próprio da missão evangelizadora da Igreja”, José Manuel Pureza, do movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, observa a “mobilização assumida do ‘povo católico’ por parte do clero, promovendo sessões e a distribuição de folhetos”.
No princípio, uma frase do cardeal-patriarca ainda criou alguma “perplexidade”, recorda José Pureza. No início de Outubro, D. José Policarpo afirmou, respondendo a uma pergunta de uma jornalista, que o aborto não era “uma questão religiosa” e que, “se tivesse dúvidas acerca de um problema tão fundamental”, se absteria.
José Pureza recorda que as declarações do patriarca, “remetendo para a consciência” a decisão sobre a matéria, provocaram naturais interrogações entre “os mais conservadores do ‘não’ e os adeptos do ‘sim’”. Mas essas declarações “fizeram adivinhar algo que rapidamente foi corrigido”, quando o cardeal esclareceu que apenas fez a afirmação para responder à pergunta que lhe fora formulada.
Ambos, Carlos Azevedo e José Pureza, estão de acordo em outro aspecto: “Nem precisava de ser nada combinado” entre os bispos e os adeptos do “não”, porque “é quase espontânea esta tendência” de muitos católicos participarem em iniciativas sobre o aborto, diz o defensor do “sim”. “Este é um sentimento generalizado.”
Carlos Azevedo acrescenta que “desde a Acção Católica”, o movimento que agregava milhares de católicos até à década de 60 e onde havia focos de oposição ao Estado Novo, “não se assistia a uma tão grande mobilização por uma causa”. “É significativo que tenha aparecido um tão grande número de movimentos pelo ‘não’, cobrindo todo o território nacional, com pessoas que não querem qualquer tipo de poder, capaz de defender uma causa.”
Um debate positivo, diz o bispo
Ana Vicente, mandatária do Cidadania e Responsabilidade pelo Sim, também diz que “houve uma estratégia” e que isso “é normal”. Já Margarida Neto, psiquiatra e um dos rostos da Plataforma Não, Obrigada!, diz que não esteve na campanha como católica. “Os católicos do ‘sim’ é que entenderam falar como católicos. Este não é um problema religioso, mas ético e de direitos humanos. Estou nisto muito mais por ser médica do que por ser católica”, insiste.
A psiquiatra admite que “quando a Igreja está claramente de um dos lados, isso dá mais conforto”. Mas não houve nada acertado entre a hierarquia e os movimentos do “não”. “A Igreja veio a terreiro colocar a questão doutrinal, onde ela deve ser colocada.” E, num tom entre a verificação e o lamento, Margarida Neto afirma: “Em 1998, a [hierarquia da] Igreja proclamou-se mais fortemente do que agora sobre o tema.”
E que avaliação se pode fazer da estratégia e da campanha que está a terminar? Carlos Azevedo faz um balanço positivo: “Houve algumas vozes mais excessivas de ambos os lados, que nunca se consegue evitar, mas o debate entre o ‘sim’ e o ‘não’ foi positivo.” As atitudes isoladas a que o porta-voz dos bispos se refere – um padre a falar de excomunhão de quem aborta, por exemplo – são “atitudes isoladas”, diz, apenas “amplificadas pela comunicação social”.
Sobre esses extremismos “de certas pessoas”, Ana Vicente pensa que eles “dão um mau testemunho e têm um efeito perverso”, afastando as pessoas e “descredibilizando” a Igreja. A investigadora fica mais incomodada com “toda esta energia para que não se mude a lei” do aborto. “Gostava de ver toda esta energia dos baptizados ser orientada para o bem dos que não nasceram, sim, mas também das muitas crianças maltratadas, dos idosos, dos mais vulneráveis”.
21 November, 2006
A Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres em Beja, um dos mais importantes monumentos religiosos da capital do Baixo Alentejo, reabriu segunda-feira como museu, concluindo a Rede Museológica Diocesana. A inauguração do Museu Episcopal coincide com uma exposição temporária, intitulada "Nas Asas da Aurora", que revela alguns dos tesouros ocultos das igrejas de Beja, sem esquecer as antigas casas religiosas da cidade. Entre as peças que vêm agora à luz do dia, pela primeira vez, encontra-se um raro conjunto de disciplinas e cilícias dos séculos XVIII e XIX, recentemente inventariado pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja.
Mais pormenores sobre a exposição e o trabalho que tem sido feito por este organismo da diocese de Beja na agência Ecclesia.