26 November, 2007
No DN de sábado, 24 de Novembro, o padre e teólogo Anselmo Borges dedica a sua coluna semanal ao tema do diálogo entre fé e ciência.
A história das relações entre a religião e a ciência está cheia de conflitos. Por vezes, foi a guerra declarada.
Falando desses conflitos, é inevitável que venham à ideia sobretudo os casos de Galileu e Darwin. Ora, na raiz do equívoco, esteve - e ainda está, quando se pensa nos criacionistas americanos, que defendem o ridículo de uma leitura literal da Bíblia - o facto de se não ter percebido que a Bíblia não é um livro de ciência, mas de carácter religioso. Nisso, Galileu foi mais avisado do que os seus censores: a Bíblia não diz "come va il cielo, ma come si va in cielo", pois não é um livro de astronomia, mas de religião.
Percebeu-se, finalmente, a autonomia de cada uma das esferas e dos respectivos campos de intervenção. Esta compreensão também significa que a ciência, apesar da acumulação dos seus sucessos gigantescos, não pode reivindicar o monopólio da racionalidade, como se fosse a única via de conhecimento verdadeiro. A razão é multidimensional.
O fim dos conflitos não significa que não possam e devam dialogar, com vantagens mútuas. É sabido, por exemplo, que o cristianismo, ao desdivinizar o mundo, pela fé bíblica na criação, abriu espaço à investigação científica livre. Por outro lado, também a partir da lição que ela própria teve de aprender, a teologia prevenirá para o perigo de imperialismo da ciência.
A religião tem de colocar-se no seu domínio próprio e saber claramente que não pode contradizer a ciência. Também aprendeu que a experiência religiosa tem um carácter "verificável-plausível": a fé não pode ser cega nem irracional e tem de dar razões, que convencerão uns e não outros, mas são razões publicamente argumentáveis.
A teologia está atenta aos avanços da ciência e respeita a sua autonomia, que a impede de utilizações apologéticas indevidas. Mas, como escreve o teólogo A. Torres Queiruga, "tendo em conta o enriquecimento do conhecimento do real trazido pela ciência, reelabora a partir de si mesma e na sua lógica específica os seus próprios conceitos".
Assim, por exemplo, se, tradicionalmente, se pensou que, enquanto a realidade sublunar estava submetida à mudança e à corrupção, a supralunar era incorruptível, imutável e perfeita, desde Galileu sabemos que não há esta diferença e que a realidade empírica toda é contingente, impondo-se com mais intensidade a pergunta: porque existe algo e não nada? Precisamente a contingência radical leva a pensar o Absoluto, fundamento último da realidade contingente.
Também os cientistas são humanos e, por isso, põem inevitavelmente perguntas que transcendem o domínio da ciência: qual a origem última do mundo, o seu fundamento e o seu sentido? Estas perguntas não têm resposta científica, pois, referindo-se ao todo, ultrapassam a capacidade do método científico da verificação empírica. Trata-se de questões de ordem metafísica e religiosa, para as quais, simplificando, há três respostas.
Uma é a do agnosticismo quase místico. É assim que o filósofo Luc Ferry diz: "Como todos os crentes, tenho, sem dúvida, o sentimento de que há um mistério neste mundo. Mas não desejo ir além desta constatação."
Outra, no limite, diviniza a Natureza como força criadora do novo. O filósofo M. Conche acaba de escrever que Deus é inútil, pois a própria Natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria Natureza. Não se trata, porém, da "natureza oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade, mas da Natureza omni-englobante, a physis grega, que inclui o Homem nela. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito."
Ao crente monoteísta parece mais razoável uma interpretação da realidade que co-implica a presença do Deus transcendente, amor pessoal e criador. Afirma-se desse modo a infinita transcendência de Deus e a sua mais íntima presença à criatura, tornando-se então claro o que parece paradoxal: precisamente porque Deus está sempre presente como criador, faz o mundo fazer-se autonomamente, seguindo as leis próprias da natureza e a liberdade.
21 October, 2007
Este domingo iniciou-se em Nápoles mais um encontro inter-religioso promovido anualmente pela comunidade de Santo Egídio. O deste ano ganha especial relevo, pois volta a reunir, ao fim de alguns anos, líderes como o Papa Bento XVI, o patriarca ortodoxo Bartolomeu I, de Constantinopla, o primaz anglicano, Rowan Williams, além do secretário-geral do Conselho Ecuménico das Igrejas, do presidente da Federação Luterana Mundial e vários teólogos islâmicos, entre outros. O Papa só esteve este domingo – celebrou uma missa de manhã, os trabalhos do encontro propriamente dito começam ao fim da tarde. Entre outras pessoas, participam também, enquanto conferencistas, Mário Soares (segunda de manhã), Romano Prodi (esta tarde de domingo), Michel Camdessus, Massimo D’Alema, Adolfo Pérez Esquivel, por exemplo. O encontro pode ser seguido através do site
No Público de domingo, dia 21, frei Bento Domingues debate a religião em Portugal, a partir de dois textos recentes da sociologia. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola.
1. Para perceber a evolução religiosa dos portugueses, não basta ter em conta as promessas de Fátima. O recurso às investigações dos sociólogos é preferível aos palpites e às observações puramente subjectivas. Millán Arroyo Menéndez, da Universidade Complutense de Madrid, aventurou-se a opinar sobre “Religiosidade e valores em Portugal: comparação com a Espanha e a Europa católica” (1). Sem pretender circunscrevê-lo neste espaço, permito-me alguns destaques.
Por falta de indicadores acerca das outras religiões, o grau de proximidade ou de distanciamento da população portuguesa em relação às crenças, práticas e identidades toma, apenas, por referência, a Igreja católica. Servem-lhe de enquadramento os países da Europa Ocidental de ampla maioria católica: Áustria, Bélgica, Espanha, França, Itália, Irlanda e Polónia. Dá especial atenção à Espanha, pelo facto de partilhar com Portugal afinidades históricas, políticas, económicas e culturais. Isto irá permitir que as diferenças, em termos de religiosidade e valores, sejam mais nítidas.
Na abordagem de temáticas tão complexas como são as identidades, as crenças, os valores e as sensibilidades, a aproximação quantitativa não é a mais adequada, embora, nesse artigo, seja a mais presente.
No âmbito das crenças, os portugueses situam-se, em geral, acima dos austríacos, belgas, espanhóis e franceses, à excepção da crença na vida depois da morte, da qual duvidam bastante. Tendo em conta várias comparações, chega à conclusão de que, entre nós, a ideia de um Deus pessoal continua a ter muita força, embora com uma intensidade algo inferior, mas parecida à observada na Polónia e claramente superior à da Irlanda e da Itália. Os traços que caracterizam a religiosidade portuguesa seriam os seguintes: uma elevada confiança na instituição eclesiástica; uma alta identificação religiosa com o catolicismo; uma prática religiosa não tão elevada como a sua identidade católica – embora superior à média dos oito países observados – expressa mais na oração individual do que na assistência à missa; um elevado nível de crença em Deus, claramente relacionado com o Deus pessoal da tradição católica, embora mantendo, em simultâneo, mais cepticismo do que fé nas crenças do além.
2. A religiosidade em Portugal está em mudança, mas contrasta com a evolução espanhola. Enquanto que, entre nós, verificamos a transição de uma religiosidade mais forte para uma mais intensa, em Espanha, a mudança religiosa – em termos de secularização – encontra-se num estádio mais adiantado: vai-se passando de uma religiosidade light para a saída da religião de Igreja ou da religião institucional. O que muda essencialmente, em Espanha, é a intensidade e a velocidade com que a população se afasta da Igreja e dos aspectos relacionados com a dimensão institucional da religiosidade. Pelo contrário, Portugal é o país mais ligado a essa instituição em toda a Europa. Esta tendência, relativamente recente em Espanha, não só não foi ainda detectada em Portugal, como não há indícios de que venha a acontecer num curto ou médio prazo.
Não cabe, neste apontamento, identificar as causas que explicam as importantes diferenças observadas nos níveis de religiosidade de Espanha e de Portugal. Para o autor, a principal causa está nos diferentes graus de modernização cultural de ambos os países, presentes no processo histórico e social, onde os valores, as crenças, as atitudes e os comportamentos são orientados por escolhas individuais e menos dependentes da tradição e das instituições. A doutrina da Igreja opõe-se, hoje, a determinados valores e comportamentos assumidos no seio de mentalidades modernas, por exemplo, no campo da sexualidade, mas também noutros, como o divórcio, a bioética, a eutanásia, a homossexualidade, os novos modelos familiares, etc.
A tese de M. Arroyo Menéndez é simples: as fricções vão-se agravando à medida que a sociedade avança em direcção a uma constelação de valores, crenças e sensibilidades, não especificamente religiosos, a que a Igreja se opõe porque os considera negativos. Nos outros países, isto conduz ao progressivo abandono da religião católica. Acerca deste ponto, o autor não dispõe de investigação que lhe permita saber o está a acontecer em Portugal. Sobre o que está a acontecer entre os jovens, nomeadamente, no distrito de Braga, Eduardo Duque conclui o seu importante estudo com estas palavras: “Apesar desta ‘crise’ das instituições, a Igreja de Braga conserva ainda uma maioria de jovens, não obstante o facto de irem dando sinais de uma certa desvalorização da mediação eclesial e da frágil observância das suas orientações” (2).
Não foi considerada a diferença entre a ostensiva beligerância do episcopado espanhol e a atitude dialogante do episcopado português. Esta talvez não seja indiferente à “elevada confiança na instituição eclesiástica” que os sociólogos notam em Portugal.
(1)Análise Social, vol. XLII (184), 2007, 757-787.
(2)Os Jovens e a Religião na Sociedade Actual, Instituto Português da Juventude, 2007.
No Diário de Notícias de sábado, dia 20, Anselmo Borges debate a questão do ateísmo: é-se ateu em relação a que Deus?
Que se quer dizer, quando se fala de ateísmo? É-se ateu em relação a que Deus? O que é ou quem é Deus? O que faz que haja crentes e não crentes, que ao longo dos tempos se perseguiram e mataram uns aos outros? O que muda na vida das pessoas e no mundo, acreditando em Deus ou não? Afinal, Deus não é uma questão meramente teórica, pois implica uma praxis. Não é a mesma coisa dizer: "Aquela árvore existe" e "Deus existe", pois a fé tem de ter consequências na transformação da existência e da sociedade. Também há ateus que lutam pela justiça, e até mais do que muitos crentes. Assim, quando se fala em ateísmo, também aparece a distinção fundamental entre ateísmo teórico e ateísmo prático.
O que entender por ateísmo? Perante o mistério da existência, talvez alguns não ponham sequer a questão da fé. Outros têm respostas prontas, claras e indiscutíveis. Há também os que não compreendem e, porque, no meio de um mundo ambíguo, grandioso e inquietante, se não satisfazem com nenhuma resposta, se interrogam angustiados: porquê? G. Minois, na sua História do Ateísmo, pensa que é tarefa do historiador explorar o passado destas três atitudes com "compreensão e compaixão". Assim, ele "fala da história dos descrentes, agrupando sob esse vocábulo todos os que não reconhecem a existência de um Deus pessoal que intervenha na sua vida: ateus, panteístas, cépticos, agnósticos, mas também deístas".
Não será esta uma concepção demasiado ampla de ateísmo? O teólogo Hans Küng tem uma visão mais estrita: "O autêntico ateísmo nega todo o tipo de Deus e todo o divino, tanto entendidos em sentido mitológico como concebidos de forma teológica ou filosófica." Mas G. Minois pode ter razão, quando reivindica o carácter pessoal e providente de Deus. De facto, embora se não saiba propriamente o que significa Deus enquanto o Absoluto pessoal, um Deus que fosse menos do que pessoa, isto é, da ordem do neutro, do isso, que poderia dizer ao Homem religioso? Também Heidegger viu que ao Deus Causa sui, impessoal, o Homem não pode rezar.
As razões do ateísmo são múltiplas.
Porque é que se há-de ir além da natureza ou da matéria, causa e mãe de todas as coisas? Não é Deus uma ilusão enquanto projecção das melhores possibilidades do Homem ou compensação para os seus fracassos e aspirações frustradas? Frequentemente, o que é apresentado como Deus, em vez de engrandecer o Homem, apenas o humilha aos seus próprios olhos. Deus, que pode não passar de outro nome para a ordem moral do mundo, foi e pode ser causa de violência e divisão entre os homens. Não é difícil constatar que o que se chamou Deus também foi causa de opressão, infantilismo e alienação. Se Deus existe, não fica o ser humano limitado e paralisado na sua liberdade? Se Deus é omnipotente e infinitamente bom, como se explica todo o horror do mundo? Precisamente o mal é talvez a maior fonte de ateísmo. Não é paradoxalmente o ateísmo também um produto do cristianismo mediante a distinção do sagrado e do profano e a proclamação da liberdade e da autonomia, de tal modo que não falta quem pense que o ateísmo é essencialmente um fenómeno pós-cristão?
Afinal, nem a existência nem a não existência de Deus podem ser demonstradas. Mesmo o crente mais fervoroso convive com a dúvida e até o ateu mais convicto não deixa de ser assaltado por um "talvez", como dizia Unamuno. Já não pode haver lugar para a fé inquisitorial nem para o ateísmo dogmático.
Afastados os dogmatismos, Deus é uma questão aberta. Então, talvez se possa seguir a comparação do jovem filósofo Charles Pépin. Fazemos uma travessia num barco, que pode terminar numa terra maravilhosa. No quadro de uma fé dogmática, há o perigo de esquecer a beleza da travessia. Com a certeza absoluta de que essa terra não existe, isto é, de que não há Deus, estar-se-ia condenado a vaguear eternamente sem destino e entregue ao absurdo. Mas a esperança no Deus vivo e na vida eterna liberta do fanatismo e da angústia, não aliena do mundo e abre horizontes de sentido último.
16 October, 2007
A partir das reflexões de especialistas de diferentes saberes – sociologia, genética, neurobiologia, filosofia, teologia, psiquiatria, ciências da comunicação, história, ética e bioética, politologia – Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo, coordenado por Anselmo Borges, e acabado de editar pela Campo das Letras, propõe-se reflectir sobre o futuro de Deus e a Humanidade.

Sobre a obra que inclui textos de Adriano Moreira, Alexandre Castro Caldas, Andrés Torres Queiruga, Frei Bento Domingues, Daniel Serrão, Edward Schilllebeeckx, Enrique Dussel, Fernando J. Regateiro, João Maria André, Joaquim Fernandes, Johann Baptist Metz, José María Mardones, Juan Martín Velasco, Juan Masiá Clavel, Manuel Pinto, Teresa Martinho Toldy, escreve o seu coordenador, Anselmo Borges:
“Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo. Aí está um tema paradoxal. Não é Deus sempre o mesmo? Há um Deus próprio do século XXI? E será legítimo pôr em causa o futuro do cristianismo?
Deus é sempre o mesmo, mas transformou-se e transforma-se no encontro com os homens e as mulheres, como estes e estas, no encontro com Deus, se transformaram e transformam. Há múltiplas figuras de Deus por causa da sua história com os homens e as mulheres, e a história dos homens e das mulheres e as suas figuras e autocompreensão também não seriam as mesmas sem a sua história com Deus.
Possivelmente, a revolução em curso neste início de século e milénio só tem comparação com as revoluções do neolítico e da modernidade, e tem múltiplos contornos e domínios.
São tais as perspectivas nos campos da genética e das neurociências e, consequentemente, das biotecnologias que se chega a pensar na possibilidade de uma bifurcação da Humanidade, a caminho do pós-humano. Pela primeira vez, a Humanidade tem nas suas mãos o seu segredo. O que pode e quer fazer com ele? É humano-ético tudo quanto é tecnicamente possível?
A globalização, que tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, obriga a pensar uma governança mundial e coloca de modo novo a problemática do multiculturalismo.
Se se quiser evitar o ‘choque das civilizações’, impõe-se o diálogo intercultural no horizonte da mestiçagem, com todos os problemas de personalidades cada vez mais compósitas.”
15 October, 2007
Mais de uma centena de académicos muçulmanos de todo o mundo endereçou ao Papa Bento XVI e a outros líderes cristãos uma missiva contendo um apelo à paz e ao entendimento entre as duas religiões. A carta não é um gesto que se pode dispensar pois "está em causa a própria sobrevivência do mundo".
3 April, 2007
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento do padre José Tolentino Mendonça – Católico, doutorado em Teologia Bíblica, é professor do Departamento de Estudos Bíblicos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica e director da revista de teologia Didaskalia. É também poeta, ensaísta e tradutor
A fé é experimental, dá-nos e pede-nos tudo
Importante não é ajudar a demonstrar, mas a ver. Melhor do que análises sofisticadas para provar, numa sala escura, a excelência das cores, é abrir uma janela que aproxime a luz e, assim, a visão das cores se torne possível. A fé não está do lado dos enunciados: é experimental, incita à construção de narrativas, coloca em relação. Os que vivem o risco e a alegria de acreditar, porventura balbuciarão perante os porquês. Podem testemunhar razões, mas sentem-se incapazes de circunscrever a razão. O coração humano, contudo, precisa desse “não sei quê”, que depois o Espírito socorre “com gemidos inefáveis”, como lembra São Paulo. O teólogo católico Romano Guardini dizia que “a fé é uma tipologia do olhar”. Ela representa, talvez, a mais extrema e a mais modesta das organizações do olhar, porque ao mesmo tempo que nos dá tudo, nos pede tudo. A fé inscreve o olhar humano no ponto de vista de Deus. Nesse sentido, constitui a possibilidade inédita de um olhar total: abarcando o provisório e o eterno, o exterior e o interior, o recôndito e o próximo, o eu e o outro, o visível e o invisível. Como é vasta a vida contemplada do monte para o qual Abraão, e cada um dos crentes, é chamado a subir! Mas também lhes é pedido que esta visão se realize na itinerância radical do olhar, na sede e no desejo, na abertura mais do que na certeza, na confiança em vez de confirmações, no reconhecimento do silêncio de Deus como epifania de Deus. Sem esquecer que a fé, imperscrutável dom, chega através do caminho diverso e inesperado. Habituei-me a repetir uma oração que Paul Claudel escreveu: “É justo, ó Deus, que vos peça por Artur Rimbaud, sem o qual os meus olhos não se teriam aberto para o vosso Rosto”.
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de Ivan Moody – Ortodoxo, nasceu em Londres em 1964. Estudou música e teologia, e é actualmente presidente da Sociedade Internacional de Música Ortodoxa. Tem servido como cantor na catedral russa de Londres e nas paróquias grega e búlgara de Lisboa
Não posso dizer por que acredito
Posso dizer, com toda a honestidade, que sempre tive fé. Percebo que para outros não é assim, mas nunca duvidei da existência ou da bondade de Deus. (É claro que isto não quer dizer que na prática da Ortodoxia eu seja perfeito – são duas questões distintas.) Por isso, de certa forma, não posso dizer por que acredito em Deus, embora também pudesse responder que nunca poderia acreditar que o complexíssimo e belíssimo milagre da criação do Universo e da vida fosse um mero acaso. Quanto às descobertas científicas, até agora não vi nenhuma que pusesse em causa a minha fé; admiro o trabalho dos cientistas, e, longe de ver a minha fé contradita nele, vejo uma confirmação – e que seja claro que não me refiro aqui a literalismos como acreditar em oito dias (como nós os ordenamos) para a criação do mundo. No cepticismo vejo mais perigo – embora, mais uma vez, eu pessoalmente tenha sempre conseguido resistir –, pois é muito fácil sobretudo para um jovem, ainda a absorver o mundo à sua volta, ser infectado por um não-crente, mesmo que cresça num meio religioso. É claro também que hoje em dia este fenómeno é reforçado não pelo secularismo dominante – eu acredito na separação do estado e das instituições religiosas –, mas pela “correcção política”, que faz com que, por exemplo, em certas zonas dos Estados Unidos não se possa ter o símbolo da Cruz, enquanto símbolos judaicos e muçulmanos são aceitáveis. Se me perguntar “mas não pode provar a virgindade de Maria ou a acção histórica do Logos, pois não?”, então é óbvio que vou ter de responder que não. Mas é a pergunta errada, pois parte da necessidade de uma prova científica segundo o modelo supostamente moderno da ciência. A fé começa noutro sítio, num complexo que é capaz de integrar uma visão cósmica e o destino do homem, essa criatura profundamente doxológica.
Na série sobre a fé dos filhos de Abraão, este é o depoimento de AbdoolKarim Vakil - muçulmano, é professor de História Contemporânea no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, tendo trabalhado sobre as representações do Islão e muçulmanos no imaginário português.
Não é acreditar, mas testemunhar Deus
Suponho que entendo a lógica que adivinho por trás da pergunta: sendo que Deus é objecto e fundamento da crença, querendo compreender os crentes que pergunta poderia ir mais directamente ao âmago da questão? Reconheço-lhe o intuito bem intencionado de abrir um jorro de luz sobre o universo da crença, mas é um abrir sobre, que não é um abrir-se a. Pede respostas mas não aprende primeiro que perguntas fariam sentido. (…) A pergunta afigura-se-me problemática por quatro razões. Primeiro, por assumir que as religiões são religiões todas da mesma forma; que a questão da crença, o lugar do credo e das doutrinas, e o “acreditar” em Deus têm a mesma relevância, para já não dizer o mesmo sentido e função, em cada uma das religiões e para os seus crentes. No entanto, o que define o muçulmano não é acreditar em Deus, mas testemunhar Deus. Depois, porque privilegia a crença sobre a prática; o discurso, o intelectualismo, as razões e fundamentação da “crença” por sobre outras formas de conhecimento do Divino; do experienciar, e quotidianamente testemunhar, louvar e implementar a Vontade de Deus; privilegia a palavra sobre o gesto (…). Em terceiro lugar, porque não reconhece que a relação com Deus se vive na relação com os outros em sociedade; na obrigação, no serviço, na solidariedade com os outros o acreditar se vive no creditar. Menos generosamente, por último, suspeito na pergunta o que ela reflecte da intolerância do tempo que é o nosso, traduzida numa atitude de provinciana e arrogante curiosidade perante o exotismo e atavismo de ‘como se pode [ainda] ser crente?’ Trai algo do pressuposto ideológico da normatividade epistemológica da não-crença. Sendo que é o crente que se reveste do artifício da crença; ao crente compete justificar-se ou explicar-se.
25 March, 2007
Este é o depoimento de Silas Oliveira, a propósito do ciclo da Culturgest, e que foi publicado há duas semanas no Público.
É no texto bíblico que escutamos o apelo
Silas Oliveira – Protestante, nasceu em 1945 na Guarda, onde o pai era pastor da Igreja Baptista local. Licenciado em Filologia Românica, tem trabalhado como jornalista e assessor de imprensa. Vive a sua fé na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa
Em última instância, a minha fonte de fé, realmente, é o texto bíblico. É no testemunho dos povos que o viveram e o escreveram, que foram interpelados por ele – e, por fim, na vida e na palavra do Verbo que “habitou entre nós” (Ev. João 1:14) – que podemos continuar a escutar esse apelo de um Deus que fala, e nos propõe uma aliança e uma reconciliação (com Ele e entre nós). Pode parecer um alicerce frágil, ou demasiado subjectivo, mas a Bíblia é um texto surpreendente, que tem sobrevivido até mesmo às nossas teologias mais desastradas. A sua proposta essencial é sólida e continua a fazer sentido. A cultura está sempre a sugerir-nos deuses “concorrentes”, que não têm esta dimensão. Os ateísmos oficiais desembocaram em regimes “teocráticos” à sua maneira, erigindo ídolos que esmagam a nossa condição humana. O Deus “derrotado” mas disponível do Cristianismo bíblico, o que encontramos no “sermão da montanha” (Ev. Mateus 5-7), dá espaço, deixa respirar, converte-nos pela persuasão. A questão de fundo no Cristianismo (como, antes dele, no testemunho dos profetas hebraicos) é que acabamos por ter de escolher, e só esse Deus verdadeiro nos salva do culto dos deuses a fingir – que se torna sempre um culto de sacrifícios humanos.
21 March, 2007
A criação da vida não pode ser obra do acaso - Samuel Levy
Este é o terceiro texto dos depoimentos publicados no dia 11 de Março, no Público (ver mais abaixo), a propósito do ciclo na Culturgest.
Judeu, nascido em Lisboa a 7 de Julho de 1929. Foi presidente do Centro Israelita de Portugal de 1955 a 1957 e da Comunidade Israelita de Lisboa nas décadas de 50 e 60, e mais tarde de 2000 a 2002
Em primeiro lugar: a Fé é uma convicção que, por definição, não carece de explicação racional. Apesar disso posso dizer que acredito em Deus, porque sinto (e até reconheço racionalmente) que a criação do Universo e o seu funcionamento, a criação da Vida na Terra, em especial da vida humana, são de tal complexidade e harmonia que não podem ser obra do acaso. Não consigo acreditar que tudo isto seja obra do acaso. Acredito serem criações resultantes de uma vontade superior que também as faz funcionar segundo leis precisas necessárias e suficientes. Acredito num Deus (seja o que isso significar), como dizia Moisés Maimonides – 1135 ou 1138-1204, nasceu em Córdova e está enterrado em Tiberíades (Israel) –, Ser Primordial, infinito, incorpóreo, sem composição, eterno e único. De modo algum [é difícil ter fé hoje]. Sobretudo no caso da religião que professo – o Judaísmo – em que a definição de Deus que dei acima é clara e me parece absolutamente evidente. Aceito que haja cépticos que não consigam acreditar, mas que também não têm qualquer alternativa de explicação. Conforme referi na minha conferência na Culturgest, “pouca ciência afasta de Deus, muita ciência aproxima de Deus” (Einstein?). Quanto mais descobertas científicas mais admiração se tem pelas maravilhas da Criação. O Judaísmo não tem dogmas e não aceita a divinização de nada (nem coisas, nem seres vivos ou mortos). Deus é único.
18 March, 2007
No seu artigo do Público de hoje, frei Bento Domingues fala de algumas recentes iniciativas que têm sido realizadas em Lisboa a propósito do fenómeno religioso.
Dizia-me, há dias, um amigo pouco devoto: já só falta Deus aparecer, em directo, na televisão. É verdade que este ano, em Lisboa, devido às questões levantadas pela religião, além da boa figura que tem feito em alguns livros notáveis, Ele tem sido muito falado em lugares onde se julgava que não era especialmente apreciado.
De 29 de Janeiro a 4 de Março, todas as semanas, muitos “descendentes de Abraão” (judeus, cristãos e muçulmanos) foram à Culturgest partilhar impressões e razões da sua fé monoteísta. Cientistas e fi lósofos estiveram, nos dias 12 e 13, na Gulbenkian para fazer a Análise evolutiva da religião. Ontem e anteontem, a Comissão da Liberdade Religiosa marcou, no Centro Ismaeli, um colóquio com o tema A religião fora dos templos. O Grande Oriente Lusitano vai organizar, a 5 de Maio, um encontro sobre Religiões, violência e razão.
Acerca do que se passou na Culturgest António Marujo já deu conta do seu alcance aqui no PÚBLICO. O Encontro da Gulbenkian teve outro conteúdo e seguiu outro método. Apesar do pequeno espaço de que disponho, quero destacar – com palavras dos conferencistas – a grande importância do tema e a responsabilidade académica que ele assumiu.
David Sloan, da Universidade de Binghawton (EUA), o primeiro conferencista, realçou uma mudança significativa na abordagem da religião. Se durante quase todo o século XX, a teoria evolutiva esteve apenas confiada às ciências biológicas, hoje os temas geralmente associados às ciências humanas e humanidades passaram também eles a ser analisados numa perspectiva evolutiva. Para esta tendência, o estudo da religião, assim como os seus vários elementos podem ser estudados do mesmo modo que os evolucionistas investigam as várias características das espécies humanas e não humanas.
Para Keith Parsons, da Universidade de Houston (EUA), existem várias evidências de que a religião se apresenta como um fenómeno natural. É actualmente objecto de investigação científica e de tentativas de explicação através das neurociências e da biologia evolutiva. Estes avanços têm uma enorme relevância para as apologéticas teístas, isto é, para o esforço de mostrar que a fé teística é totalmente fundamentada ou racionalmente justificada. Alvin Plantinga, talvez o mais avançado dos actuais filósofos da religião, argumentou que os seres humanos possuem uma faculdade cognitiva natural que, ao operar de acordo com a sua função, e em circunstâncias apropriadas, nos providencia um sensus divinitatis, ou seja, uma sabedoria básica e fundamentada acerca da realidade de Deus. Keith Parsons examinou, na sua conferência, o impacto das mais recentes descobertas sobre as origens evolucionistas da religiosidade.
Para Lewis Wolpert, do University College de Londres, os seres humanos são diferentes de todos os outros animais por possuírem crenças causais acerca do mundo físico. As crianças têm estas crenças desde muito cedo. Por contraste, os chimpanzés têm uma ideia muito limitada acerca das relações de causa-efeito de base física. A vantagem evolutiva para os seres humanos foi a habilidade para construir ferramentas e foi esta tecnologia que levou à evolução humana. Quiseram perceber as causas das coisas que afectavam as suas vidas. Um Deus semelhante ao ser humano providenciava uma resposta clara e era vantajoso. Esta foi a origem de muitas religiões.
Richard Sosis, da Universidade Hebraica de Jerusalém, centrou-se no debate dos investigadores que estudam a religião em perspectiva evolutiva, tentando saber se ela é ou não adaptativa. Os adaptativos demonstraram duas vantagens primárias: promover a cooperação no grupo e reduzir o stress. R. Sosis discutiu as principais teorias e dados empíricos que as suportam. Apontou caminhos possíveis à investigação futura que os investigadores evolutivos deveriam explorar para resolver adequadamente o debate adaptativo.
Depois das verosímeis explicações evolucionistas das crenças religiosas – no momento em que escrevo ainda não me posso referir ao colóquio sobre a A religião fora dos templos –, quero sugerir uma visita à parábola “do filho pródigo” (Lc 15) que é lida hoje na Eucaristia. E apresentada na Bíblia de Jerusalém como “O Evangelho dentro do Evangelho”. Com toda a razão. Esta peça literária é uma novidade impressionante no panorama da experiência religiosa sempre que as práticas das Igrejas cristãs a esquecem, em vez de evoluírem, regridem para os critérios da moral convencional e para a prisão de rituais sem sentido.
A parábola supõe que, para Jesus, um Deus que não respeitasse a liberdade dos seus filhos, nem fosse compassivo, não seria Deus. E sem liberdade não é possível ser humano, nem religioso. Nesta parábola, Deus é a casa da festa para todos os que regressam do mundo onde se perderam da alegria.
11 March, 2007
No caderno P2 do Público de hoje, Alexandra Prado Coelho recolheu depoimentos de cinco "filhos de Abraão", a propósito do ciclo que durante mês e meio decorreu na Culturgest. Os cinco depoimentos - Sam Levy, Silas Oliveira, AbdoolKarim Vakil, Ivan Moody e José Tolentino Mendonça - serão aqui reproduzidos nos próximos dias. Para já, fica a introdução ao trabalho.
Durante cinco semanas, de 29 de Janeiro a 5 de Março, cinco crentes de cinco religiões monoteístas descendentes de Abraão falaram na Culturgest no ciclo de conferências As Religiões dos Filhos de Abraão. Filas enormes para levantar senha de acesso, o auditório principal cheio, durante cinco segundas-feiras ao final da tarde a Culturgest encheu-se para ouvir estes homens falarem da sua fé.O que se lhes pedia, no texto de apresentação, era “que viessem dizer, por palavras que todos entendam, que acreditam, porque acreditam e como acreditam. Talvez porque, sabendo, nós possamos compreender melhor”.
Eles falaram, explicaram, contaram histórias, enumeraram regras e dogmas, esclareceram diferenças. Mas também trouxeram músicas, cânticos, imagens, e tentaram que não fossem só as palavras a explicar a fé. Quiserem partilhar experiências, sensações, mostrar, como disse José Tolentino Mendonça no último dia, que “o percurso da beleza é um percurso que nos transforma” e que “cada beleza guarda a promessa de uma beleza sem fim”.
O PÚBLICO pediu-lhes que, em poucas palavras, respondessem apenas a uma pergunta: porque acreditam? E porque acreditam hoje, num mundo em que o cepticismo é forte e em que as descobertas científicas abalam dogmas. Eles aceitaram responder, embora pensem que aquilo de que aqui se fala não é algo que se explique. Como disse ainda Tolentino Mendonça: “O verdadeiro encontro religioso transforma-nos em solitários, porque o que atingimos é da ordem do indizível”.
1 March, 2007
É já este fim-de-semana que o Metanoia – Movimento Católico de Profissionais realiza a sua Sessão de Estudos sobre "As Religiões num Mundo Globalizado". O Seminário de Vilar no Porto, a 3 e 4 de Março, acolherá um debate que pretende evitar "juízos precipitados a partir de pontos de vista culturalmente enviesados", contextualizando o fenómeno religioso nos dias de hoje, num mundo pós-11 de Setembro. A Sessão de Estudos terá como principais intervenientes AbdoolKarim Vakil, muçulmano e professor no King’s College, de Londres, e António Matos Ferreira, membro do Metanoia e professor da Universidade Católica. Haverá ainda uma comunicação da socióloga Helena Vilaça, que parte da sua tese sobre o pluralismo religioso em Portugal – com o título "Da Torre de Babel às Terras Prometidas" – para questionar o Estado, as religiões e a construção do espaço público na actualidade. O fenómeno religioso nos dias de hoje, cruzado com a imigração, no mundo dilacerado por conflitos que se reivindicam de Deus, parece ser um tema cada vez mais dominante nos debates que cruzam a sociedade. Depois da Semana de Estudos Teológicos da Faculdade de Teologia de Lisboa ter optado por abordar "as novas procuras de Deus" – sabendo que "o cristianismo deve estar historicamente preparado para responder aos novos desafios" – e antes do Fórum Gulbenkian Imigração, na próxima semana, esta Sessão de Estudos do Metanoia é mais uma etapa na "construção de uma sociedade mais livre e democrática e de um mundo mais justo, solidário e sustentável".
(adaptado de Fátima Missionária)
9 February, 2007
É um livro e uma exposição de Eduardo Gageiro, que vale a pena ler/ver. O texto é do Mil Folhas de hoje (o último), no Público:
Uma cruz na paisagem transmontana ou no silêncio da Cartuxa de Évora, duas silhuetas de monjas de branco vestidas, os mesmos braços levantados em baptismos no rio Jordão ou na Ladeira do Pinheiro, rosários católicos ou muçulmanos, a água e a luz como símbolos maiores da vida e do divino, a natureza como lugar que transfigura a solidão, a multidão. Eduardo Gageiro propõe em "Fé - Olhares sobre o Sagrado" uma leitura fotográfica do fenómeno religioso através do mundo, com fotos captadas ao longo de cerca de meio século. Se os rostos mudam com o tempo, permanecem gestos nos quais se põe o corpo a falar: as mãos - estendidas, recolhidas, em oração; os braços; os pés que se fazem ao caminho; o rosto que se contrai ou se expande. E símbolos que se repetem, cartografando uma "geografia do invisível", na expressão de José Mattoso no prefácio. Para lá das fronteiras de cada credo, o autor busca a transcendência através da lente fotográfica e da sedução em que se deixou envolver pelas pessoas que experimentam Deus. À semelhança da frase de Santo Agostinho, citada também por Mattoso: "Fizeste-nos para ti, Senhor. O nosso coração está inquieto até repousar em ti." Uma exposição pode ser vista no Panteão Nacional até final do mês (de segunda a domingo, das 10h às 17h).