15 April, 2007
O anunciado livro do Papa Bento XVI sobre Jesus estará à venda a partir desta segunda-feira, em Itália, e chegará em Maio a Portugal. Hoje, no Público, levantei um pouco do véu sobre o conteúdo, a partir da leitura já feita por várias agências.
É um livro que pretende traduzir apenas uma “busca pessoal” e não quer afi rmar-se como um “acto relevante” do magistério do Papa. Jesus de Nazaré, da autoria de Joseph Ratzinger ou Bento XVI, será posto à venda em Itália, Alemanha e Polónia amanhã, dia em que o Papa faz 80 anos. Em Maio estará nas livrarias portuguesas. O livro já se anuncia como tentativa de contrariar perspectivas políticas da fi gura de Jesus ou especulações sem fundamento histórico como as veiculadas por fi cções como O Código Da Vinci. Mas a obra pode ser discutida e contestada. “Qualquer pessoa é livre de me contradizer”, escreveu o Papa, citado pela Reuters. Com este texto, começado a escrever em 2003, dois anos antes de ser eleito Papa, Ratzinger denuncia os “maus livros, destruidores da fi gura de Jesus e da fé, cheios de resultados presumidos de exegese”. A citação, transcrita pela AFP, pode ser lida como alusão ao Código, que foi criticado por várias fi guras destacadas da Igreja. “Tentei apresentar o Jesus dos evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o Jesus histórico no verdadeiro sentido”, escreve o Papa, que já antes de ser eleito, faz quinta-feira dois anos, era um dos mais importantes teólogos católicos. A reafi rmação de que esta é uma obra do pensador e não do líder da Igreja Católica é feita numa sinopse do livro, citada pela Zenit, uma agência ofi ciosa do Vaticano. Jesus de Nazaré “refl ecte a busca pessoal do ‘rosto do Senhor’ por parte de Ratzinger e não pretende ser um documento do magistério”, diz o texto. Ou seja, não tem o carácter ofi cial e hierárquico de textos como as encíclicas ou as exortações. Com um livro pleno de citações da Bíblia e de autores tão diferentes como Karl Marx, Madre Teresa, Sócrates, Confúcio, Dante ou Nietzsche, Ratzinger alerta: “A interpretação da Bíblia pode tornar-se um instrumento do Anticristo”. O Papa insiste na ideia do “primado de Deus” e critica os que pretendem que a Igreja “se preocupe antes de mais com o pão a dar ao mundo”. Quando Deus é considerado “secundário” em relação a outras coisas pretensamente mais importantes, estas “fracassam”. “A experiência negativa do marxismo não é a única a demonstrá-lo”, acrescenta. Estas referências têm outros alvos: de um lado, os biblistas que acentuam o estudo histórico da fi gura de Jesus. Nesta perspectiva, o Papa enal- O livro será posto à venda amanhã em Itália, Alemanha e Polónia; em Maio, estará nas livrarias portuguesas tece o método histórico-crítico como “indispensável para uma exegese séria” e que colocou à disposição uma grande quantidade de material e conhecimentos que permitem reconstruir a fi gura de Jesus”. Apesar disso, Ratzinger diz que “só a fé pode fazer compreender que Jesus é Deus”. O outro alvo é a teologia da libertação, que defendia, a partir da análise da realidade, uma maior intervenção social da Igreja. “Sim, realmente aconteceu. Jesus não é um mito. É um homem feito de carne e sangue, uma presença totalmente real na história. Ele morreu e ressuscitou de entre os mortos”, escreve Ratzinger. O livro cita ainda problemas do mundo contemporâneo como o drama das populações de África, “roubadas e pilhadas” pelo “estilo de vida” ocidental. A obra será publicado em 20 línguas. Ratzinger planeia um segundo volume consagrado às narrativas da infância de Jesus. No primeiro, analisa a vida pública de Cristo, desde o baptismo no Jordão até ao episódio da Transfiguração.
3 April, 2007
A acompanhar o texto sobre os 40 anos da Populorum progressio, a encíclica social do Papa Paulo VI, publiquei na edição do
Público de dia 1 uma entrevista com o padre Calvez, um dos mais importantes especialistas em doutrina social da Igreja.
Jean-Yves Calvez, um dos redactores da encíclica de Paulo VI, esteve quarta-feira em Lisboa. E fez o balanço do que mudou no mundo. Não se deve generalizar o pessimismo, avisa.
É preciso fazer coisas positivas, diz Jean-Yves Calvez, e encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital.
Recordo três frases da encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos): "Em alguns continentes, são incontáveis os homens torturados pela fome." "O mundo está doente." "Os povos da fome apelam aos povos da opulência." Parece terem sido escritas hoje.
É verdade. Mas também eram verdadeiras naquela época.
Estamos melhor ou pior?
Há países que estão muito melhor. Creio que não se deve generalizar o pessimismo. Repare num país como a Coreia do Sul, que tinha o mesmo rendimento per capita que os Camarões, em 1950. Hoje, a Coreia do Sul tem um rendimento comparável à Europa Mediterrânica e é um país industrial bem avançado. Quando comecei a interessar-me por estas questões, nos anos 50, o Japão estava entre os países em vias de desenvolvimento. Há transformações profundas em muitos países. Hoje, na China, o desenvolvimento é um pouco caótico, mas o que se passa na parte oriental do país é espectacular.
Significa que há países ou políticas que colocaram em prática princípios da doutrina social da Igreja?
Sim, alguns países foram inspirados por ela. Por exemplo, através de um homem como o padre Lebret, que foi conselheiro de vários governos: Senegal, Brasil, Uruguai, Peru. Encontrei-o, no terreno, na Venezuela. Houve influência, claro. Não podemos pensar que a China escute muito as encíclicas, mas talvez escute algumas coisas do Ocidente que não são estranhas à doutrina social da Igreja.
Há, em toda a encíclica, um sentimento de urgência em resolver os problemas de quem sofre. Hoje, somos menos sensíveis ao sofrimento de outros?
É pior: por vezes estamos resignados. Há pessoas que têm a impressão de que se ensaiaram muitas coisas - em África, por exemplo -, que se desejaram políticas de desenvolvimento que falharam e já não há nada a fazer. Creio que estão erradas e exageram. Mas tenho alunos africanos, que estão condicionados por este afro-pessimismo ocidental.
Digo, por exemplo a alunos do Burkina Faso: "Conheço o vosso país há 50 anos. Regressei há pouco tempo a Ouagadougou. A transformação da cidade é extraordinária. É um país muito pobre, mas não se deve dizer que não há nada. O país é desigual, há muito a fazer, mas é preciso fazer um julgamento mais justo.
Há urgências ainda hoje?
Sim. Há países como esse, muito desnutridos no plano agrícola. Em alguns casos, perguntamos o que é preciso fazer. É urgente encontrar soluções novas.
Se pensarmos em alguns temas da encíclica - racismo, nacionalismos, distribuição da terra, guerra, fome, dívida externa, especulação financeira - parece que muitas coisas caminham à margem do que a Igreja propõe.
Em todos esses domínios há problemas, é verdade. Mas será que podemos dizer que está tudo pior? Não. Mesmo o racismo, se quiser. Há racismo na Europa, por causa do encontro das populações, da imigração. Mas na atitude com relação aos africanos, em geral, há muito menos racismo hoje do que há 50 anos.
Nessa altura havia uma espécie de crença de que a África estava condenada para sempre. Hoje, há muita gente que vê que a África é capaz de se desenvolver e educar. Há muitos africanos que demonstram uma capacidade intelectual notável e são reconhecidos como tal. Não podemos dizer que o racismo está generalizado. É preciso lutar, mas já se obtiveram alguns resultados: nas escolas, as crianças vivem juntas sem muitos problemas.
Paulo VI pedia a criação de um fundo de ajuda sustentado em parte por despesas militares, que não interferisse nos países. O Fundo Monetário Internacional [FMI] é acusado disso mesmo…
O FMI não é um organismo de ajuda, mas de gestão de dinheiro. Mas tem muita influência pelo julgamento que faz sobre as economias de diversos países. Os banqueiros, os financeiros agem tendo em conta o juízo do FMI. O fundo impõe medidas muito imperativas, para estabilizar a moeda, por vezes com algum desprezo para com a autonomia dos países. Isso é verdade.
É necessário ainda, então, criar esse fundo de que Paulo VI falava?
Sim. O melhor seria uma participação igualitária dos diversos países na sua gestão. Na realidade,
o FMI é gerido pelos países mais ricos.
A Igreja propõe os princípios do destino universal dos bens e do bem comum. Mas há políticos e empresários católicos que não têm em conta esses princípios e para os quais é mais fácil, por exemplo, enviar gente para o desemprego. Falta formação no campo da doutrina social?
Sim, falta. Há alguma coisa, mas é preciso ocuparmo-nos de toda a gente. Seria necessário este campo essencial estar presente na catequização: se isso não for algo comum a todos os católicos, é muito difícil falar apenas a especialistas e responsáveis. Se o conjunto da comunidade for mais consciente, teremos mais possibilidades de conseguir.
Tem um livro sobre os silêncios do pensamento social católico. Na sua conferência referiu a imigração. Que outros temas estão ausentes?
O sistema de economia financeira, o capitalismo - no sentido do carácter desigual da gestão do capital. Demasiado poucos homens intervêm para determinar o destino dos outros, por exemplo nas empresas. A maior parte das pessoas - mesmo quem tem responsabilidades - depende do capital financeiro exterior, que age sobre elas.
Pode dizer-se que o verdadeiro poder do mundo e dos países é o capital financeiro?
Não, mas joga um papel, por vezes, muito prejudicial. O capital financeiro divorciado da economia real é muito perigoso. Mas não podemos dizer que seja a única coisa a actuar. As empresas também têm responsabilidade, a inteligência e a ciência, também actuam.
Como dizia, "não temos o direito de nos mostrarmos negligentes, resignados ou adormecidos". É preciso resistir?
Resistir, sim. Mas também trabalhar para fazer coisas positivas. Não apenas estar perante [os problemas], é preciso criar, encontrar soluções. A propósito do capital, é necessário encontrar meios para que muitas mais pessoas disponham de capital, e sendo por consequência capazes de intervir na gestão do capital, associando-se.
18 March, 2007
Na sua coluna de domingo no DN, o padre Anselmo Borges fala da figura do Pai, a propósito do seu dia, e das imagens de Deus.
O génio de Kant não estaria num dos seus momentos mais altos, quando, num texto célebre, pôs esta pergunta na boca de Deus: "Não conseguimos libertar-nos deste pensamento, mas também não podemos suportá-lo: que um ser, que nos representamos como o supremo entre todos os possíveis, de certo modo se diga a si mesmo: ‘Eu sou de eternidade em eternidade, fora de mim não existe senão o que existe por minha vontade; mas então donde venho eu?’ Aqui, tudo se afunda debaixo dos nossos pés."
Há realmente uma pergunta vertiginosa, que constitui um abismo para a razão humana: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Mas essa é uma pergunta do Homem e para o Homem, não de Deus e para Deus. Deus não pergunta, porque é Deus. O animal não pergunta, porque é animal. A pergunta é própria do Homem, e a razão é que ele é ao mesmo tempo finito e abertura ao infinito. Perguntar é constitutivo do Homem, e a pergunta radical é precisamente: qual é o Fundo sem fundo donde vem tudo o que vem à luz e se manifesta? Porque ao mesmo tempo que se manifesta esconde-se - revela-se e oculta-se simultaneamente.
Na tentativa de balbuciarem algo sobre o Mistério último da realidade, a fé e a teologia cristãs falam de Deus como comunhão de diferentes - Pai, Filho e Espírito Santo -, sendo o Pai o Princípio sem princípio, a Fonte originária, Criador de tudo o que existe e Mistério abissal, invisível e inexprimível. Ele diz-se no Filho, que é o Verbo, a Palavra do Pai, e o Espírito Santo é o Amor que une o Pai e o Filho.
Pai é alguém que está na origem de, algo ou alguém que é força criadora do novo.
O pai humano é criador - com-criador, juntamente com a mãe (o óvulo feminino só foi descoberto em 1827) - de um ser livre. E isto é misterioso. O mistério é este: como pode um ser humano estar na origem de um ser livre? Neste sentido, Kant escreveu: "É impossível compreender a produção de um ser dotado de liberdade por uma operação física. Não se pode nem mesmo compreender como é possível Deus criar seres livres; de facto, parece que todas as suas acções futuras deveriam ser predeterminadas por esse primeiro acto e compreendidas na cadeia da necessidade natural e, consequentemente, elas não seriam livres."
Não basta, porém, criar fisicamente. A palavra pai (Vater, papa, father, padre…) talvez tenha como étimo o indo-europeu "po(i)", com o sentido de proteger, defender. Criar é educar: alimentar, física, psíquica, cultural, social, espiritual e religiosamente, ajudar a vir à luz da consciência um novo ser humano único e irrepetível em relação. Há pais que investem na carreira e no dinheiro, esquecendo que a obra mais importante são os filhos.
Base da educação é o afecto e o amor sem condições, para que a criança cresça segura. Sem esse amor, não haverá confiança nem em si nem nos outros nem na realidade, de tal modo que o que poderá sobrar é a violência da destruição: como amar, se não se foi amado, como entregar-se confiadamente à construção de si e do mundo, se a confiança de base não foi assegurada e a realidade apareceu, desde o início, desfavorável e agressiva?
Em ordem à constituição e desenvolvimento harmónico da pessoa, a tradição psicanalítica sublinhou a importância determinante da figura da mãe, mas fê-lo igualmente em relação ao princípio antropológico do pai, independentemente das suas concretizações históricas nas diferentes sociedades e épocas. A figura do pai é fundamental para a necessária ruptura da unidade íntima, quase não dual, de mãe-filho/filha. O pai representa o transpessoal e social e, portanto, a disciplina, o direito, a autoridade, a consciência dos limites, a coragem para o sacrifício. A criança que não aprende que há regras e limites torna-se anárquica e com pretensões de omnipotência.
O teólogo Leonardo Boff, numa obra inesperada: São José. A Personificação do Pai - não se esqueça que o Dia do Pai está ligado à festa da Igreja em honra de São José -, para sublinhar as consequências dramáticas da ausência do pai para os filhos e filhas na actual sociedade de enfraquecimento do pai e até do seu eclipse, apresenta estatísticas oficiais recentes dos Estados Unidos: 90% dos filhos fugidos de casa, 70% da criminalidade juvenil, 85% dos jovens nas prisões, 63% de jovens suicidas provinham de famílias sem pai ou onde o pai era ausente.
Também no domínio religioso é reconhecida a importância da imagem da figura e das experiências com o pai e com a mãe para a imagem que se tem de Deus.
Terça-feira passada, foi publicada a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras do padre jesuíta Jon Sobrino. No Público de hoje, sai a notícia que escrevi sobre o tema.
O padre Jon Sobrino, jesuíta de origem espanhola a trabalhar desde há décadas em El Salvador, viu partes de dois dos seus livros sobre Jesus serem censuradas pelo Vaticano. A notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), enviada a Jon Sobrino, um dos mais importantes teólogos contemporâneos, não prevê medidas disciplinares, deixando a questão para o bispo local. O arcebispo de San Salvador, Fernando Sanez Lacalle, que, de acordo com a AFP, é membro da Opus Dei, já interditou Sobrino de ensinar em nome da Igreja e publicar livros com autorização eclesiástica.
Sobrino, nascido em 1938, é um dos expoentes da teologia da libertação, uma corrente nascida na América Latina no final da década de 60. Os teólogos da libertação defendem que a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos deve ser uma prioridade da missão da Igreja, tomando como referência as atitudes de Jesus relatadas nos evangelhos.
Na opinião da CDF, as teses do padre jesuíta não estão "conformes à doutrina da Igreja" (www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/doc_doc_index_po.htm). Apesar de apreciar "a preocupação do autor com a sorte dos pobres", a congregação diz que as duas obras em questão "apresentam, em certos pontos, notáveis divergências com a fé da Igreja". Os "pressupostos metodológicos", a "divindade de Jesus", a "encarnação do filho de Deus", a "relação entre Jesus" e o tema do reino de Deus, a "autoconsciência" de Cristo e "o valor salvífico da sua morte" são os seis temas referidos pela CDF, que afirma não pretender "julgar as intenções subjectivas" do autor.
Estes enunciados têm a ver, por exemplo, com a insistência que, no entender da congregação, Sobrino faz da dimensão humana de Jesus em detrimento da sua divindade. Também a expressão "Igreja dos pobres" em vez de "opção preferencial pelos pobres", está em causa.
Método desconfiado
Os livros analisados pela CDF foram Jesus, o Libertador - A História de Jesus de Nazaré (1991) e A Fé em Jesus Cristo - Ensaio a Partir das Vítimas (1999), ambos publicados em português pela Vozes, do Brasil. No primeiro, Sobrino escreve que a realidade salvadorenha, a partir da qual reflecte, "ilumina o que é o divino e o que é o humano, e o Cristo que os unifica".
Numa carta ao superior geral dos jesuítas, Peter-Hans Kolvenbach (em www.redescristianas.net/2007/03/14), Sobrino recusa assinar a notificação, por não se reconhecer na leitura que é feita dos livros. Acrescenta que seria "uma falta de respeito para teólogos por ele consultados previamente e que não encontraram qualquer "erro doutrinal ou afirmação perigosa". Um dos colegas consultados, Bernard Sesboué, dizia que uma carta da congregação a Jon Sobrino, de 2004, era "tão exagerada que não tem valor". E acrescenta: "Com este método deliberadamente desconfiado, eu também podia ler heresias nas encíclicas de João Paulo II!".
Na mesma carta, Sobrino cita vários comentários aos seus livros do então cardeal Joseph Ratzinger - o agora Papa Bento XVI, que autorizou a notificação da CDF. Mas, no entender do teólogo da libertação, o cardeal citou erradamente várias passagens. Esses excertos serviriam, mesmo, para condenar determinadas perspectivas da teologia da libertação, em dois documentos sobre o tema publicados pela CDF, então presidida pelo agora Papa.
Na mesma carta, Sobrino conta que quando Alfonso López Trujillo foi nomeado cardeal, afirmou "num grupo que ia acabar com Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Ronaldo Muñoz e Jon Sobrino". De uma forma ou de outra, todos estes teólogos tiveram problemas com o Vaticano. No caso de Sobrino, o próprio conta que desde 1975 que teve que responder a várias interpelações do Vaticano. Até chegar a esta notificação.
11 March, 2007
Com o título "Fábrica de desejos", frei Bento Domingues escreve hoje no Público acerca das tentações entre capitalismo e religião. Excertos:
(…) Nos gritos do populismo político-religioso contra o capitalismo, corre-se o risco de esquecer o essencial. Repete-se, desde o século XIX, que, devido às suas contradições, o capitalismo não pode sobreviver. É certo que precisou, várias vezes, da mão visível do Estado - medidas de tipo político, fiscal e legal - para responder às incapacidades da "mão invisível" do mercado. Hoje, o capitalismo está globalizado e é nele que vivem, bem ou mal, americanos e europeus, indianos e chineses, oligarcas russos e príncipes sauditas. Por uma questão de sustentabilidade - e sem contar com as extravagâncias dos super-ricos - pensa-se que o nosso planeta não aguentaria 6 500 milhões de pessoas a viver, como é desejável e como já vivem hoje os consumidores da classe média do rico hemisfério norte.
O ser humano, movido pelo desejo do Ilimitado perde-se no labirinto dos desejos desgarrados e distorcidos, tornados mediaticamente inadiáveis como uma droga. A genialidade do capitalismo contemporâneo consiste precisamente em ser uma fábrica, em contínua produção, de novos desejos. A publicidade vive de nos tornar infelizes se os não satisfizermos.
O Budismo dispõe de uma resposta clara e radical: a supressão do desejo através de um caminho de auto-iluminação marcado por verdades e práticas bem estabelecidas e numeradas. Os paralelismos entre Buda e Jesus, entre o cristianismo e o budismo têm sido muito estudados. Mas também podem ser apontadas profundas diferenças. O percurso cristão não segue a via da auto-iluminação nem procura a supressão, mas a conversão do desejo como puro dom da graça divina, enquanto iluminante e transformante da condição humana. Mas a graça da conversão do desejo não suprime, reorienta as energias e paixões humanas. Pode e deve acolher sabedorias, regras de vida e métodos de espiritualidade de todas as proveniências para hierarquizar necessidades materiais e espirituais num mundo dominado pela fábrica de novos e insaciáveis desejos que nos devoram e alimentam ódios e violência. Paz com a Terra e o Céu, paz dentro de nós próprios, paz e a justiça com os que precisam da nossa solidariedade.
No seu artigo de hoje no Diário de Notícias, Anselmo Borges fala da busca de um novo paradigma teológico. Alguns excertos:
(…) Procura-se um "Novo Paradigma Teológico para Outro Mundo Possível", dentro de horizontes teológicos novos como resposta aos novos desafios.
O horizonte intercultural implica a passagem da cultura única ao pluralismo cultural e, concretamente, da inculturação da teologia, que continua ainda a manter os princípios e as categorias teológicas da cultura dominante, à elaboração de uma teologia intercultural, que assuma o diálogo entre culturas baseado na igualdade.
O horizonte inter-religioso requer a passagem da religião única à elaboração de uma teologia ecuménica das religiões para a paz, a partir das vítimas e com a praxis de libertação, que não é assunto de uma religião, mas de todas.
O horizonte hermenêutico é a chave de toda a teologia, implicando a passagem da mera exegese dos textos sagrados a uma teologia toda ela hermenêutica enquanto procura de sentido, na nossa experiência de mundo.
Dentro do horizonte hermenêutico, é preciso sublinhar a perspectiva teológica de género, pondo em questão a estrutura androcêntrica e patriarcal das doutrinas e teorias religiosas e teológicas. Neste contexto, surge a teologia feminista, não como teologia regional, no sentido de ocupar-se de questões relativas às mulheres, mas como teologia fundamental, que procura dar razão da fé em Deus sem a submissão ao modelo divino patriarcal.
Há o horizonte ecológico, exigindo que se ouça o grito da Terra em busca de libertação. O Credo cristão confessa a criação amorosa do mundo por Deus, de tal modo que se impõe também uma leitura ecológico-festiva da criação. (…)
Indissociável do horizonte utópico, ético-praxístico e anamnético aparece o horizonte político e económico, que exige uma praxis libertadora e inclusiva das pessoas, dos povos, dos países e continentes. Ainda seria teologia aquela que contemporizasse com a globalização da rapina e da exclusão, ignorando a justiça e a solidariedade?
Não se pode esquecer o horizonte simbólico, porque, pela sua própria natureza, a teologia, se quiser manter-se fiel ao Sagrado que se revela e oculta, tem de substituir a linguagem dogmática pela linguagem simbólica. Como dizia Ricoeur, "o símbolo dá que pensar", enquanto o dogma tende a fechar o horizonte do pensamento e do sentido. Embora não seja o único, o compromisso com os direitos humanos e a salvaguarda da criação é critério decisivo da verdade de uma religião e das religiões.
A teologia é teologia das religiões empenhadas na libertação, portanto, teologia libertadora das religiões. O horizonte do diálogo inter-religioso é a libertação-salvação enquanto experiência radical de sentido frente ao sem sentido dos explorados, dos humilhados, das vítimas e da morte.
12 February, 2007
Do texto de frei Bento Domingues no Público deste domingo, 11, sobre as bem-aventuranças, destaca-se:
(…) S. Paulo tinha por médico o evangelista S. Lucas e este fala de Jesus, precisamente, através da figura do médico de todas as doenças espirituais, físicas e sociais, mas implacável com quem não quer ter olhos nem coração para as vítimas das suas políticas e do seu arrogante estilo de vida. Para que não se diga que isso só valia na "era dos milagres", o autor dos Actos dos Apóstolos apresentou a Igreja através de uma comunidade exemplar, sem indigentes, na qual, os bens deste mundo eram distribuídos segundo as necessidades de cada um (Act 4, 32-35). Isto significa que a mudança dos tempos exige imaginação social na utilização de todos os recursos naturais, científicos e técnicos, em todos os sectores da vida, realizando o que a linguagem dos milagres anunciava.
As "bem-aventuranças", segundo S. Lucas, não são palavras de resignação alienante: tu que sofres, aguenta e cala; terás, no céu, uma grande recompensa; e tu, rico que agora te regalas, terás que prestar contas no outro mundo. Quer dizer, tudo adiado…
Ao falar de "bem-aventuranças", o caminho cristão surge como uma fonte de alegria num mundo fechado na tristeza. Porque será, então, que se apresenta sempre semeado de crucifixos?
Desde o começo até hoje, não faltaram as propostas para descrucificar o cristianismo. Paulo de Tarso, judeu e bem instruído na cultura helenista, foi dos primeiros a resistir a essa tentação: “Os judeus pedem sinais e os gregos andam à procura de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado que, para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 22-24). (…)
13 November, 2006
O século XX teve inúmeros teólogos geniais, observa Ricardo Próspero no Religion Digital.
"Pareciera que todo estaba preparado para que se diera la reforma del Concilio Vaticano II
La historia de la teología podría decirnos los factores que hicieron posible que en este siglo XX hubiera este gran boom de personas que con su inteligencia y genialidad aportaron tantas cosas en el campo teológico.
La reforma protestante, la ilustración, el modernismo y la revolución industrial sin lugar a dudas fueron grandes motivadores de la renovación teológica.
La crítica Bíblica y la exégesis moderna pronto empezaron a minar la teología de la época para que surgiera una nueva reflexión.
Muchos grandes teólogos fueron apareciendo, pero hubo unos cuantos que marcaron el Siglo XX con sus ideas especialmente plasmadas en el Concilio Vaticano II.
Esperando ser justo, sin prejuicio y sin deseo intencional de descartar a ninguno, enumero a los siguientes:
Pierre Teilhard de Chardin
Karl Rahner
Yves Congar
Joseph Ratzinger
Hans Küng
Edward Shillebeeckx
Hans Urs Von Balthasar
H. de Lubac
Bernard Häring
J. B. Metz
Hay más grandes teólogos de esta época, pero sin lugar a dudas estos nombres marcaron el rumbo de la Iglesia católica para el siguiente siglo.
Algunos de ellos fueron admirados y alabados, otros duramente criticados y censurados. En esta lista no hago distinción entre ortodoxos ni progresistas. Sea como sea, ellos lograron el cambio del panorama teológico y de la vida de la Iglesia actual. Su obra es digna de leerse, reflexionarse, criticarse y mejorarse sin olvidar que a pesar de las fallas humanas, la Iglesia siempre es una.
Actualmente, de todos estos grandes solo quedan vivos y con actividad 2 personas que un tiempo caminaron juntas, luego se distanciaron y hace unos meses volvieron a reunirse en un contexto nunca antes pensado: Joseph Ratzinger y Hans Küng."