26 November, 2007
No Público de domingo, 25 (caderno P2), é publicada uma entrevista ao padre e teólogo jesuíta Juan Masiá Clavel, que há ano e meio foi obrigado a deixar uma cátedra em Espanha depois de pressões do arcebispo de Madrid. A entrevista é de António Marujo
Manifesta opiniões sobre temas como o aborto, o divórcio ou a bioética que, dentro da Igreja, estão muito longe das teses oficiais. Apesar disso, o padre Juan Masiá diz que não se cala. Esta semana, em Lisboa, explicou ao P2 as suas razões
Apesar das suas opiniões dissonantes da doutrina oficial católica, Juan Masiá, 66 anos, diz que o que propõe é o caminho de futuro e que apenas pretende "salvar o Papa" dos que querem impor a sua moral como um dogma. Após 35 anos no Japão a ensinar teologia moral, o teólogo e padre jesuíta espanhol foi pressionado, há ano e meio - pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, disse-se na altura - a deixar a cátedra que tinha em Espanha, por causa das teses defendidas no livro Tertúlias de Bioética (ed. Trotta). Voltou a Kobe (Japão), onde ensina na Universidade Católica e trabalha em organismos da Igreja. Esteve em Portugal esta semana num colóquio sobre o cristianismo no Japão e na conferência Debates de Bioética: novos desafios políticos e religiosos. Em Portugal tem publicado A Sabedoria do Oriente.
Sente-se expulso?
Não. Os superiores da Companhia [de Jesus] e da universidade tiveram necessidade de proteger a instituição e demasiado medo dos cardeais e bispos. Pude voltar ao meu trabalho no Japão e falar com mais liberdade, não estou condenado nem proibido…
Tem dito que é mais natural ser padre no Japão que em Espanha. Porquê?
No meu país, se um teólogo fosse chamado a uma comissão nacional de bioética, algumas pessoas considerariam isso um privilégio, outras diriam que a Igreja não se devia meter. No Japão, o facto de ser teólogo ou padre não dá nenhum privilégio, mas também não é objecto de preconceito. Estou com naturalidade num mundo plural.
Teve essa experiência?
Sim, estive num comité de bioética da Faculdade de Medicina da universidade civil de Tóquio, em representação do mundo das religiões, porque o budista convidado não pôde e o protestante também não. Isto é tomar com naturalidade o pluralismo, a laicidade bem entendida.
É essa a experiência que falta à Igreja na Europa?
Em Espanha, percebi isso. O caso em que a hierarquia eclesiástica se opôs à lei de reprodução assistida ou à legislação biomédica não era possível discuti-lo por razões políticas ou religiosas. Se digo que sim a uma lei porque o meu partido diz que sim ou se digo que não porque a Igreja diz que não, isso é ideologia. Não se deve impor a ideologia de um partido ou igreja, mas debater as questões civicamente, antes que se politizem no parlamento.
As questões de bioética não estão muito partidarizadas?
Sim, e também muito "religiosizadas", quer dizer, tanto pela política como pela religião se faz ideologia, não se permite pensar.
O que o separa dos bispos que pressionaram a sua saída?
Se me tivessem dito, eu teria agradecido. Não disseram nada. Isto ocorre muito dentro da Igreja. Se tivessem sido leais numa carta, pedindo para explicar ou corrigir seis ou sete pontos de um livro… Mas nunca disseram nada. Suspeito que [a razão] não foi o preservativo, citado pelos jornalistas, mas o tema da dissensão na Igreja, que não agrada nada ao cardeal Rouco Varela [arcebispo de Madrid], nem a muitos bispos espanhóis. Não lhes agrada ouvir que a Igreja no Japão tem outro modo de dizer e fazer. E têm muito medo dos meios de comunicação. Dizem que escreva a minha opinião num livro, com muitas notas, mas na imprensa, na Internet, numa entrevista…
Essa atitude de pressionar alguém…
É muito típica e o Vaticano utiliza-a muito, também.
Não é contrária ao evangelho?
Totalmente.
E porque é tão utilizada?
Isso também me pergunto. Desgraçadamente, usou-se muito ao longo da história. É uma questão de poder.
Dá a impressão que, por vezes, alguns argumentos que a Igreja propõe perdem força porque predomina o dedo apontado a dizer não.
É um semáforo vermelho, que é uma lástima, perde-se credibilidade. É o que dizia o Papa João XXIII acerca dos profetas da desgraça: parece que se sentem obrigados a queixar-se do mal que há no mundo. Como se o papel da Igreja fosse o de ser polícia da moralidade, em vez de dar esperança.
A religião tem que aparecer como algo que trava a ciência?
Não, pelo contrário. Tanto a ciência como a mística, que parecem opostas, coincidem em deixar-se mudar pela realidade. O autêntico cientista não presume ter a totalidade da verdade, está disposto a mudar. E o autêntico teólogo tem que ser humilde e admitir que a realidade vai mudando. Religião e ciência têm que ter uma atitude de busca e de caminho e não de dizer que têm as respostas todas.
Isso significa que a ciência pode fazer tudo o que a técnica permite?
Não, a pergunta do cientista é: "Devemos fazer tudo o que podemos?" O mesmo do ponto de vista religioso ou ético. Temos que a responder debatendo.
A partir dos diferentes pontos de vista?
Admitindo todos os pontos de vista. Primeiro, temos que ter os dados da ciência. Se a ciência se torna um dogma ou quer impor uma visão da vida, converte-se em ideologia. A religião ou a ética, quando querem impor as suas respostas, também estão a fazer ideologia. O problema não é religião ou ciência, mas a ciência e a religião convertidas em ideologia. Isso é fundamentalismo. O autêntico cientista e o autêntico religioso são abertos a uma ética de perguntas: descobrimos algo novo, como usá-lo para bem da humanidade e da vida?
O que propõe no subtítulo do seu livro - Manejar a vida, cuidar das pessoas - é para situar os limites da ética?
Primeiro, há que cuidar das pessoas, os limites vêm depois. Podemos manejar a vida mais que antes, mas isso deve ser feito para favorecer a vida, as pessoas, a ecologia, o planeta. Antes das normas, temos os valores da vida, da pessoa, do futuro da humanidade e do planeta. Porque damos importância a esses valores, aparece a ética e fazemos perguntas. Por vezes haverá que colocar limites, outras há que fomentar novas descobertas.
No centro deve estar a pessoa?
A pessoa, incluindo as gerações futuras e o planeta. Não podemos destruir o que nos rodeia. Temos que cuidar o planeta. Isto foi enfatizado pela bioética desde o início.
A regulação da natalidade deve ser natural ou artificial?
Essa definição natural/artificial é um equívoco que deveria estar superado há mais de 40 anos. O natural é, muitas vezes, muito pouco natural. E o artificial não é mau por isso. Ambos estão bem, se forem usados responsavelmente.
Mas a doutrina da Igreja insiste na distinção.
Há que ter cuidado em dizer "a Igreja". Sobre os métodos naturais ou artificiais há um dissentimento na Igreja que, por desgraça, está por resolver. É uma questão secundária, não é matéria de fé, de obediência ao Papa, nem de pecado. Em bioética não há dogmas. Esta é uma questão de eclesiologia mal aprendida: muita gente tem uma visão da Igreja como se fosse dogma tudo o que diz o Papa.
A selecção de embriões pode ser uma utopia biologista? Há um risco de criar discriminação?
Há esse risco. Conheço um caso de um casal muito a favor da vida, a quem recomendaram abortar e que não o fez. Tiveram um filho com deficiência. Quiseram o segundo e o médico disse que poderiam ter o mesmo problema. Mas disse-lhes que havia possibilidade de fazer fertilização in vitro e eles optaram por isso. Vendo esse caso, não diria que esta família está contra a vida.
No Japão, as associações de deficientes perguntaram se, ao tornar rotina a selecção de embriões, isso não seria dizer que pessoas como eles não são necessárias nesta sociedade, que seria melhor que não tivessem nascido. Isto faz pensar e devemos ver como é que muda a nossa maneira de ver. Mas dizer que de nenhuma maneira se pode fazer é exagerado.
Os transplantes podem dar a ilusão do homem perfeito?
Há esse perigo. Mas, por existir o perigo, não tem que se dizer não a todas essas situações. Nos transplantes, mesmo que aumentasse o número de doadores e de pessoas que não queriam receber, não haveria número suficiente de órgãos. Criámos uma expectativa que antes não havia. Não haverá nunca órgãos suficientes, veremos o que sucede com os artificiais ou as células estaminais. Há um problema na nossa cultura, de como vemos o corpo. Isso deve fazer-nos pensar. Mas, por essa razão, dizer que não aos transplantes, é exagerado.
O aborto deve ser despenalizado ou liberalizado?
É discutível. Uma pessoa contra a liberalização ou a despenalização não tem o direito de dizer que quem é a favor é assassino. É como na eutanásia: como crente, não digo que a minha fé me obriga a não optar por isso, mas que me sinto chamado a deixar o final da minha vida nas mãos do Deus em quem creio. Mas não iria a uma manifestação contra a despenalização da eutanásia. Opor-me, em nome da Igreja ou da fé, à despenalização do aborto ou da eutanásia não vejo [possível]. Se há um debate cívico, posso dar as minhas razões, chamar a atenção para os riscos ou…
Não se pode cair na tentação da facilidade?
Sim, mas a tentação é de ambos os extremos. Quando se diz "não haverá perigo de…?", não se faz nada? Se há perigo, evite-se o perigo.
O divórcio é o fim de um compromisso ou a possibilidade de recomeçar?
É muito interessante a maneira como os bispos japoneses falaram do problema. Primeiro, dedicam várias páginas ao ideal. Depois referem: dito isto, a realidade é que esse ideal foi rompido, por circunstâncias que são culpa de ambos ou de nenhum. E dizem três coisas: que os casais sejam acolhidos como Cristo os acolheria; que sejam acolhidos calorosamente; e que se caminhe com eles nos passos que dão para refazer a vida.
Não chegam a dizer que quem volta a casar pode comungar.
Em japonês, pode ser-se muito claro sem ser explícito. Se o dissessem, provavelmente criariam problemas em Roma. De facto, ao dizerem aquela frase, disseram-no. E é isso que se está a praticar.
Pode-se dissentir na Igreja?
Alguém me dizia: "E a tua fidelidade ao Papa?" A fidelidade ao Papa não é lealdade feudal, obriga-me a uma fidelidade criativa, a defender o Papa de tudo o que o rodeia e que impede que se façam todas estas mudanças que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Por fidelidade criativa, sentimo-nos obrigados a dissentir na Igreja - não da Igreja.
Como jesuíta, tem o voto de obediência ao Papa, tal como o seu colega, padre Jon Sobrino. Ambos foram "castigados"…
Avisados. Recebemos o aviso, com todo o respeito, mas estamos convencidos…
Sente-se a desobedecer ao Papa?
Não, não, não. Sinto-me obrigado a continuar dizendo, com muito respeito e humildade, sem querer impor a minha opinião, mas… a salvar o Papa.
Às vezes não seria mais prudente não criticar algumas coisas?
Seria mais prudente, mas a questão da prudência leva-nos ao perigo contrário. Daqui a dez ou 20 anos, iriam dizer-nos: porque estavam calados, porque não falaram?
Seria imoral?
Calar é imoral. Se falar é imprudente, calar é manter uma situação. É uma responsabilidade muito grande. Fazem falta mais bispos que não aspirem ao poder e falem com toda a liberdade.
O que defende não é minoritário entre os católicos?
Em alguns lugares, sim, noutros não. É verdade que houve retrocesso em relação ao Vaticano II, mas por isso é preciso continuar afirmando-o.
Esse é o caminho do futuro?
Creio que sim, mesmo se gerações de neoconservadores e de alguns padres jovens vão por outra linha, atrás deles virá outra geração que aproveitará as sementes já lançadas. Há que continuar com optimismo e esperança. Sem crispação e com espírito evangélico, é preciso falar admitindo o pluralismo.
Já compreendeu o pontificado de Bento XVI?
Não. Dão-me mais medo pessoas ao redor dele. Confio que Ratzinger não é fanático. Tivemos vinte e tantos anos de documentos numa linha distinta, de repressão de teólogos, controlo de seminários, fomento de determinado tipo de vocações…
Apesar de tudo, continua optimista e sorrindo.
Se não fosse assim, não estaríamos aqui. A ideia de Jesus é essa. O [antigo] padre [geral dos jesuítas] Pedro Arrupe dizia isso: o cristianismo, mais que religião do amor, é religião de esperança.
10 October, 2007
Jesus de Nazaré, o livro escrito por Bento XVI, é publicado em Portugal este mês pela Esfera dos Livros. Hoje, a editora apresentava a obra com este texto do próprio Joseph Ratzinger:

Cheguei a este livro sobre Jesus, cuja primeira parte é agora publicada, após um longo caminho interior. No tempo da minha juventude – anos 30 e 40 –, houve uma série de obras sobre Jesus que suscitavam verdadeiramente entusiasmo. Limito-me a citar o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Daniel-Rops. Em todas estas obras, a imagem de Jesus Cristo era delineada a partir dos evangelhos: mostravam como Ele viveu sobre a terra e como, sendo inteiramente homem, ao mesmo tempo trouxe aos homens Deus, com o Qual, enquanto Filho, era um só. Deste modo, através do homem Jesus, tornou-Se visível Deus e, a partir de Deus, pôde ver-se a imagem do homem autêntico.
A partir dos anos 50, a situação alterou-se. A cisão entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» foi-se tornando cada vez mais ampla; um afastou-se do outro a olhos vistos. Mas que significado poderia ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus tivesse sido tão diverso da forma como O apresentam os evangelistas e do modo como a Igreja, partindo dos evangelhos, O anuncia?
Os progressos da pesquisa histórico-crítica levaram a distinções sempre mais subtis entre os diversos estratos da tradição. Por trás destes, a figura de Jesus, sobre a qual assenta a fé, foi ficando cada vez mais diluída, com contornos sempre menos claros. Ao mesmo tempo as reconstruções deste Jesus, que devia ser procurado por trás das tradições dos evangelistas e das suas fontes, tornaram-se cada vez mais contrastantes: desde o revolucionário anti-romano que visa a derrocada dos poderes constituídos e naturalmente fracassa, até ao pacífico moralista que tudo permite e de modo inconcebível acaba por causar a própria ruína. Quem lê sucessivamente várias destas reconstruções, imediatamente se dá conta de que elas são muito mais a fotografia dos autores e dos seus ideais do que a reposição de um ícone que entretanto se tinha diluído. Por isso, foi crescendo a desconfiança a respeito destas imagens de Jesus; mas, a figura própria de Jesus afastou-se ainda mais de nós.
Como resultado comum de todas estas tentativas ficou a impressão de que, em todo o caso, de seguro sabemos muito pouco sobre Jesus e de que a sua imagem só posteriormente foi plasmada pela fé na sua divindade. Entretanto, esta impressão penetrou profundamente na consciência comum do cristianismo. Uma tal situação é dramática para a fé, porque torna incerto o seu verdadeiro ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, da qual tudo depende, corre o perigo de cair no vazio.
Joseph Ratzinger
18 March, 2007
Terça-feira passada, foi publicada a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé sobre duas obras do padre jesuíta Jon Sobrino. No Público de hoje, sai a notícia que escrevi sobre o tema.
O padre Jon Sobrino, jesuíta de origem espanhola a trabalhar desde há décadas em El Salvador, viu partes de dois dos seus livros sobre Jesus serem censuradas pelo Vaticano. A notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), enviada a Jon Sobrino, um dos mais importantes teólogos contemporâneos, não prevê medidas disciplinares, deixando a questão para o bispo local. O arcebispo de San Salvador, Fernando Sanez Lacalle, que, de acordo com a AFP, é membro da Opus Dei, já interditou Sobrino de ensinar em nome da Igreja e publicar livros com autorização eclesiástica.
Sobrino, nascido em 1938, é um dos expoentes da teologia da libertação, uma corrente nascida na América Latina no final da década de 60. Os teólogos da libertação defendem que a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos deve ser uma prioridade da missão da Igreja, tomando como referência as atitudes de Jesus relatadas nos evangelhos.
Na opinião da CDF, as teses do padre jesuíta não estão "conformes à doutrina da Igreja" (www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/doc_doc_index_po.htm). Apesar de apreciar "a preocupação do autor com a sorte dos pobres", a congregação diz que as duas obras em questão "apresentam, em certos pontos, notáveis divergências com a fé da Igreja". Os "pressupostos metodológicos", a "divindade de Jesus", a "encarnação do filho de Deus", a "relação entre Jesus" e o tema do reino de Deus, a "autoconsciência" de Cristo e "o valor salvífico da sua morte" são os seis temas referidos pela CDF, que afirma não pretender "julgar as intenções subjectivas" do autor.
Estes enunciados têm a ver, por exemplo, com a insistência que, no entender da congregação, Sobrino faz da dimensão humana de Jesus em detrimento da sua divindade. Também a expressão "Igreja dos pobres" em vez de "opção preferencial pelos pobres", está em causa.
Método desconfiado
Os livros analisados pela CDF foram Jesus, o Libertador - A História de Jesus de Nazaré (1991) e A Fé em Jesus Cristo - Ensaio a Partir das Vítimas (1999), ambos publicados em português pela Vozes, do Brasil. No primeiro, Sobrino escreve que a realidade salvadorenha, a partir da qual reflecte, "ilumina o que é o divino e o que é o humano, e o Cristo que os unifica".
Numa carta ao superior geral dos jesuítas, Peter-Hans Kolvenbach (em www.redescristianas.net/2007/03/14), Sobrino recusa assinar a notificação, por não se reconhecer na leitura que é feita dos livros. Acrescenta que seria "uma falta de respeito para teólogos por ele consultados previamente e que não encontraram qualquer "erro doutrinal ou afirmação perigosa". Um dos colegas consultados, Bernard Sesboué, dizia que uma carta da congregação a Jon Sobrino, de 2004, era "tão exagerada que não tem valor". E acrescenta: "Com este método deliberadamente desconfiado, eu também podia ler heresias nas encíclicas de João Paulo II!".
Na mesma carta, Sobrino cita vários comentários aos seus livros do então cardeal Joseph Ratzinger - o agora Papa Bento XVI, que autorizou a notificação da CDF. Mas, no entender do teólogo da libertação, o cardeal citou erradamente várias passagens. Esses excertos serviriam, mesmo, para condenar determinadas perspectivas da teologia da libertação, em dois documentos sobre o tema publicados pela CDF, então presidida pelo agora Papa.
Na mesma carta, Sobrino conta que quando Alfonso López Trujillo foi nomeado cardeal, afirmou "num grupo que ia acabar com Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Ronaldo Muñoz e Jon Sobrino". De uma forma ou de outra, todos estes teólogos tiveram problemas com o Vaticano. No caso de Sobrino, o próprio conta que desde 1975 que teve que responder a várias interpelações do Vaticano. Até chegar a esta notificação.
16 January, 2007
Como nasceu, quem protagonizou e o que pretendeu quem esteve na base do lançamento do H2O News TV, novo serviço televisivo distribuído a partir do Vaticano? A intervenção do seu principal responsável, Jesus Colina, no congresso mundial das televisões católicas, realizado em Outubro último em Madrid, traça um esboço de resposta a essas perguntas.
O projecto tem vindo a ser desenvolvido nos últimos meses, sem que se percebam ainda em toda a extensão quais os seus contornos, apoios e alcance. De qualquer modo, fica claro que o Vaticano está formalmente envolvido na iniciativa, como de resto Colina havia tornado claro, na sua intervenção de há três meses.
Parece ser preocupação da equipa responsável demarcar-se de comentários que dão o projecto ora como ligado à agência Zenit ora como próxima da organização Legionários de Cristo.
Um aspecto interessante que aparentemente se mantém de pé é a possibilidade de acesso gratuito a conteúdos vídeo disponibilizados pela nova agência por parte de sites da Internet.
(Cf. o que aqui se publicou em 16 de Dezembro sobre este assunto).
10 January, 2007
O Governo de Itália acaba de apresentar formalmente no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma iniciativa com vista a uma moratória internacional sobre a pena de morte. Actualmente membro daquele órgão, a Itália conseguiu, para já, o apoio da Alemanha que detém, neste primeiro semestre do ano, a presidência da União Europeia. Roma tomou já idêntica iniciativa em 1994 e 1999, mas sem sucesso.
Segundo a revista The Tablet, a proposta italiana foi já saudada por diversos grupos religiosos, designadamente pela Comunidade de Santo Egídio que há anos vem defendendo a mesma causa.
O Vaticano não comentou directamente a campanha de Itália, se bem que, após a recente execução do ex-líder iraquiano Saddam Hussein, o director do Gabinete de Imprensa do Vaticano, Federico Lombardi, tenha comentado que "uma condenação à morte é sempre uma notícia trágica e motivo de tristeza". Por sua vez o presidente do Consleho Pontifício da Justiça e Paz, cardeal Renato Martino, terá comentado, sobre o mesmo assunto, que o enforcamento de Saddam era "um erro, tal como era erro não situar o julgamento no âmbito de um Tribunal Criminal Internacional".
Ainda segundo The Tablet, a pena de morte vigora em 54 estados, entre os quais a China, Arábia Saudita, Irão e Estados Unidos da América.
16 December, 2006
Está desde quinta-feira, 14, operacional na rede de banda larga da Internet a agência televisiva de notícias "Rome Reports" . Os promotores da iniciativa caracterizam este serviço como "próximo das fontes, conhecedor da instituição, profissionalmente criativo e procurando a excelência do ponto de vista técnico". "Como em qualquer outro campo da informação", sublinham.
Com sede em Roma, a agência disponibiliza a todo o tipo de media e a particulares informação especializada não confessional, em distintos géneros e formatos: informação diária, documentários semanais e reportagens mais extensas com ritmo mensal.
Para já em ingês e espanhol, o serviço é disponibilizado de forma gratuita até fins de Janeiro, após o que os interessados poderão aceder mediante o pagamento de oito euros mensais.
Segundo o director da iniciativa, que é docente na Faculdade de Comunicação Institucional da Universidade da Santa Cruz em Roma,não se trata de informação religiosa, mas, antes, de «informação política, social e económica tendo por base o ponto de vista do Vaticano».
A "Rome Reports" já difundia desde há algum tempo informação sobre o Vaticano para os media confessionais e não confessionais.
Cf., a este propósito, o que escreve o jornalista John Allen, no seu blogue:
News agency with ties to Legionaries to launch video service (Updated with reply)
13 December, 2006
A Shoah é uma "tragédia imensa", diz o Vaticano num comunicado emitido hoje a propósito de uma conferência negacionista promovida pelo presidente do Irão.
Ao contrário do que se tem afirmado na iniciativa que hoje termina em Teerão, o Holocausto do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial existiu, foi uma "tragédia imensa" e subsiste como uma "advertência" para as consciências.
O comunicado, emitido pela Sala de Imprensa da Santa Sé nesta terça-feira, afirma textualmente:
"Relativamente à Conferência, que decorre em Teerão, a Santa Sé recorda sua posição, já expressa no documento da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo ‘Nós recordamos: uma reflexão sobre a Shoah‘. O século passado foi testemunha da tentativa de exterminío do povo judeu, com o assassinato de milhões de judeus de todas as idades e categorias sociais apenas por serem judeus. A Shoah foi uma tragédia imensa, ante a qual não é possível permanecer indiferente. A Igreja sente um profundo respeito e uma grande compaixão pela experiência vivida pelo povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial: a lembrança daqueles terríveis factos representa uma advertência dirigida às consciências para eliminar os conflitos, respeitar os legítimos direitos de todos os povos, exortar à paz, na verdade e na justiça. Esta posição foi afirmada pelo Papa João Paulo II no Monumento à Memória Yad Vashem em Jerusalém, no dia 23 de Março de 2000, e foi confirmada por Sua Santidade o Papa Bento XVI durante a visita ao campo de extermínio de Auschwitz, no dia 28 de Maio de 2006.
20 November, 2006
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A notícia é de sábado. O núncio apostólico do Vaticano na Rússia disse, na assembleia dos bispos católicos, que o diálogo com a Igreja Ortodoxa é necessário. Um recado claro numa altura em que todas as vozes do Vaticano – incluindo Bento XVI – aparecem a manifestar-se pelo degelo entre católicos e ortodoxos na Rússia. Vale a pena registar o que conta a Asia News:
Nuncio in Russia: dialogue with Orthodox a must
At the closing of the plenary session of the Conference of Catholic Bishops, Mgr Mennini made a call for ecumenism, “fulfillment of Christ’s will to unity among Christians”. Saratov (AsiaNews) – The Apostolic Nuncio in Russia, Mgr Antonio Mennini, has once more emphasised the importance of Orthodox-Catholic dialogue. He was speaking yesterday at the close of the 23rd plenary session of the Conference of Catholic Bishops of Russia. “Ecumenical activity is not just a choice made by certain clergymen, but the fulfillment of Christ’s will to unity among Christians,” said the Vatican representative.The Conference’s general secretary, Fr Igor Kovalevsky, said participants of the plenary had paid particular attention to inter-confessional and inter-religious dialogue.
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9 November, 2006
A posição do Vaticano sobre a marcha do orgulho gay em Jerusalém foi notícia na Reuters:
By Robin Pomeroy
VATICAN CITY, Nov 8 (Reuters) - The Vatican has condemned a gay pride parade due to be held in Jerusalem on Friday as offensive to religious believers and urged Israeli authorities to stop it taking place.
"It is with bitterness that we have learned that the day after tomorrow, Nov. 10, 2006, there is scheduled in Jerusalem a so-called ‘gay pride parade’," the Vatican said in a statement issued on Wednesday.
In a letter to Israel’s Foreign Ministry, the Vatican urged authorities to withdraw permission for the parade which is expected to attract up to 8,000 people.
"The Holy See has reiterated on many occasions that the right to freedom of expression, sanctioned by the Universal Declaration of Human Rights, is subject to just limits, in particular when the exercise of this right would offend the religious sentiments of believers," the letter said.
"It is clear that the gay parade scheduled to take place in Jerusalem will prove offensive to the great majority of Jews, Muslims and Christians, given the sacred character of the City of Jerusalem."
Gay pride festivals have been held each year in Jerusalem since 2001, but this year’s, bigger and with international participation, has caused greater outrage than before.
Ultra-Orthodox Jews, dressed in black suits and hats, have protested in the city, burning tyres and pelting the police with stones. Organisers say the parade will promote understanding, tolerance and open-mindedness.
The Vatican has often criticised the rise of gay rights as a potential threat to the traditional model of the family.
In June, it said gay marriage, abortion, lesbians wanting to bear children and a host of other practices it saw as threats to the traditional family, were signs of "the eclipse of God".
Fonte: REUTERS
2 November, 2006
A agência Zenit foi à Reuters ler as primeiras declarações do novo responsável da Congregação para o Clero, do Vaticano. A nomeação do cardeal Claudio Hummes foi conhecida dia 31 de Outubro. Amigo de Lula, Hummes distinguiu-se pela luta contra a ditadura militar, pela sua amizade com teólogos da libertação e pela doutrina de moral individual alinhada pela do Vaticano. As primeiras declarações do cardeal são as que seguem.
Cardeal Hummes: deve haver mais rigor na seleção de seminaristas
O prefeito escolhido para a Congregação para o Clero da Santa Sé, o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, fez algumas declarações publicadas poucas horas depois de sua nomeação nas quais afirma que um dos desafios da Igreja católica é procurar mais rigor na seleção e na formação dos seminaristas. O cardeal Hummes revelou que o Vaticano «tem dado orientações e é isso que se está seguindo. (É necessário) que nos seminários haja uma seleção mais rigorosa, uma formação mais exigente, para que nós tenhamos essa certeza moral de que eles (os futuros padres) vão ter condições de viver o celibato assim como a Igreja pede que eles vivam». O cardeal fez estas declarações em sua residência de São Paulo à agência Reuters, horas depois da Santa Sé anunciar que o purpurado brasileiro de 72 anos passaria a ocupar o novo cargo, no qual será responsável por cerca de 400.000 sacerdotes em todo o mundo. Em respeito aos escândalos sexuais relacionados com sacerdotes, o cardeal afirmou que «Se houver casos, denúncias, então devem ser encaminhados para a Santa Sé» Para o purpurado, até agora arcebispo de São Paulo, a perda de fiéis é outro desafio que a Igreja deve enfrentar. «Nós devemos evangelizar mais, ir à periferia pobre de casa em casa. Nós temos que visitar as pessoas. Elas têm que sentir o calor da Igreja em que foram batizadas. Têm que sentir que nós vamos fazer todo o possível para que eles possam sair de sua pobreza», declarou o cardeal, conhecido por sua defesa das causas sociais. Sobre questões sociais, inclusive, e sua luta no passado pelos direitos humanos e contra a ditadura, o cardeal disse: «Para mim, as questões todas que nós defendíamos continuam sendo sagradas. A questão de vencer a pobreza, a questão do emprego, a questão do salário justo, do direito dos trabalhadores. A ética continua de pé», reconhecendo ainda que o tempo também trouxe mudanças. «O mundo mudou. Claro que eu mudei, como todos nós mudamos e devemos mudar com a história» – afirmou –. Você não pode usar o mesmo discurso e a mesma prática de 1980 para hoje», disse referindo-se ao apoio que deu à luta contra a ditadura no Brasil. O cardeal Hummes se disse «otimista» sobre o rumo que está seguindo o pontificado do Papa Bento XVI, anunciando «boas surpresas». O mundo criou uma imagem de Bento XVI que não é real: « Ele como personalidade é um homem muito inteligente, muito sábio, muito fino, muito afável, muito bondoso», disse. «O mundo tinha através dele feito uma caricatura pelo fato de que ele tinha de cuidar da doutrina da fé e aí, de vez em quando, tinha que dizer: “Olha, isso não está dentro da fé”», acrescentou. Sobre a Teologia da Libertação, o cardeal Hummes indicou: «O que foi o grande fato de conflito foi o uso da análise marxista dentro da teologia. Isso deu o grande desacordo entre o papa e alguns teólogos da libertação, que faziam esse uso. Além do mais, a análise marxista leva ao materialismo e ao ateísmo e até mesmo à revolução armada». O novo prefeito da Congregação para o Clero indicou que a notícia foi uma «surpresa muito grande», lembrando o telefonema recebido no dia 8 de outubro, do novo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone. «A primeira coisa que eu senti que deveria fazer era começar a rezar, pedir a Deus que me iluminasse, porque para mim a voz do papa é a voz de Deus e, portanto, era necessário lhe dizer sim», confessou. Desde sua nomeação, Hummes passou a ser administrador apostólico da Arquidiocese de São Paulo, cargo no qual permanecerá até tomar posse da prefeitura da Congregação, o que acontecerá, segundo ele, mais ou menos dentro de um mês. A partir daí, será nomeado um novo arcebispo para a diocese.
Fonte: Zenit
Em França, há movimentações públicas entre bispos e padres contestando a possibilidade de o Vaticano autorizar a celebração da missa em latim para grupos como os lefèbvrianos. O Público traz hoje um trabalho sobre o tema, assinado por António Marujo
Bispos franceses manifestam-se contra regresso da missa em latim
Hipótese em estudo no Vaticano rejeitada por padres e membros do episcopado, que se queixam de não terem sido ouvidos
Cresce a contestação, em França, à hipótese de se poder voltar a celebrar a missa também em latim, regressando ao missal tridentino, anterior ao Concílio Vaticano II (1962-65). Bispos e padres assumiram a contestação a uma medida que está em preparação no Vaticano, destinada a acolher no recém-criado Instituto do Bom Pastor (IBP) os padres que deixaram a movimento integrista da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X para voltarem à comunhão plena com o Papa. As declarações e tomadas de posição têm-se sucedido desde há pouco mais de um mês, quando o Vaticano criou o IBP. A decisão implicou o estudo da concessão de autorização aos padres e católicos interessados para celebrarem a missa segundo o rito tridentino (o padre reza em latim, voltado de costas para as pessoas). As línguas vernáculas continuariam a ser, entretanto, o modo geral de celebração da missa. Nos últimos 15 dias, vários bispos franceses queixaram-se do facto de o Vaticano não os ter ainda ouvido acerca do assunto - a Fraternidade Pio X tem uma grande implantação em França e na Suíça. Na semana que findou, o La Croix noticiava que os seis bispos de toda a região eclesiástica da Normandia (norte) também se opõem a tal mudança. Os bispos enviaram uma carta a todos os padres das dioceses de Rouen, Sées, Le Havre, Évreux, Bayeux-Lisieux e Avranches. Nela, enaltecem a importância das reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II, alertando para os riscos de divisão na Igreja. "Os caminhos de diálogo e reconciliação recentemente abertos" levantam interrogações, dizem os bispos no documento. E, apesar da crise que se seguiu ao Concílio, muitos padres permaneceram fiéis ao seu ministério, enquanto outros aproveitaram "alguns erros ou faltas de habilidade" para "recusar o Concílio".
O ecumenismo é "uma confusão total", diz superior da Fraternidade S. Pio X em Portugal
Primeira posição colectiva de bispos, esta carta segue-se a um texto assinado por 30 padres "nascidos depois do Vaticano II" - ou seja, com menos de 40 anos - e oriundos de 15 dioceses diferentes. Na semana passada, uma carta colectiva foi enviada aos respectivos bispos, chamando a atenção para o "risco" que pode significar a decisão "simbólica de propor o regresso a um rito antigo", que ameaça "a unidade dos jovens padres" de sensibilidades "muito diferentes". Há duas semanas, o arcebispo de Toulouse, Robert Le Gall, responsável do episcopado para a liturgia, desabafava perante um grupo de jornalistas: "Os senhores sabem tanto como eu sobre o assunto…" Mas o bispo Le Gall não resistiu a comentar a possibilidade do regresso do missal tridentino: "Isto pode criar graves dificuldades, especialmente para aqueles que permaneceram leais ao Vaticano II." Em fundo, está a ruptura consumada pelo arcebispo Marcel Lefèbvre, quando ordenou quatro bispos à revelia do Vaticano para a sua Fraternidade Pio X. Lefèbvre contestava o fim da missa em latim, o diálogo ecuménico e a aproximação inter-religiosa, assumidos nos documentos do Vaticano II. O ecumenismo é "uma confusão total", mantém o padre Daniel Maret, único membro da Fraternidade presente em Portugal. Maret celebra missa para cerca de 100 pessoas em Lisboa, Fátima e Monforte. Para este padre, também "não está bem" que a Igreja Católica não se assuma como a única fé verdadeira e admita que "cada um possa escolher a sua religião": "Há uma verdade na matemática, na geografia, por isso é ir contra a inteligência de reconhecer Deus admitir que cada um pode escolher a sua religião." Por isso o padre Maret diz que "é um passo" o facto de o Vaticano estar a estudar o regresso do missal tridentino. "Mas vamos ver o que significa, ver se há bispos capazes de reconhecer o valor da tradição."
Especialista desvaloriza discussão
O padre carmelita Pedro Ferreira, director do Secretariado Nacional de Liturgia (SNL), comenta, a propósito das reacções de bispos e padres católicos franceses, que há o risco de divisão, sobretudo pensando na realidade daquele país: "Em França, este é um problema pastoral que pode dividir a Igreja e os fiéis." Mas acrescenta que é um falso problema: "Isto já foi vivido no século III, quando em Roma se passou do grego para o latim. Eu não gastaria latim com isso." Pedro Ferreira pensa que o tema surge de um mal-entendido: "A Igreja nunca proibiu a celebração em latim, mas para o bem dos fiéis e para que estes entendam a celebração, recomenda o uso das línguas vernáculas." E diz que, para a Igreja Católica, não há problema de se celebrar ou rezar em latim, se a herança e os documentos do Concílio Vaticano II forem aceites - o que os lefebvrianos não fazem.
Fonte: Público