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	<title>religionline</title>
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	<description>O sentido da vida, a experiência religiosa e a cultura: notas, procuras, interrogações.</description>
	<pubDate>Sun, 17 Feb 2008 01:02:33 +0000</pubDate>
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		<title>estamos agora em http://religionline.blog.com/</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Feb 2008 00:59:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>religionline</dc:creator>
		
	<category>[não classificado]</category>
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		<description><![CDATA[	Querendo, pode ir por aqui.
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			<content:encoded><![CDATA[	<p>Querendo, pode ir por <a href="http://religionline.blogsome.com/go.php?http://religionline.blog.com/" target="_self">aqui</a>.</p>
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		<title>Compras de Natal</title>
		<link>http://religionline.blogsome.com/2007/12/09/193/</link>
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		<pubDate>Sun, 09 Dec 2007 01:37:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ejmadureira</dc:creator>
		
	<category>Cristianismo (generalidades)</category>
	<category>Ecologia, Integridade da Criação</category>
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		<title>Bento XVI propõe esperança cristã contra limites do marxismo, ateísmo e progresso</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Dec 2007 21:08:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>religionline</dc:creator>
		
	<category>Papa</category>
	<category>Igreja Católica</category>
	<category>Cristianismo (generalidades)</category>
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		<description><![CDATA[	
No Público de hoje, António Marujo apresenta aspectos da nova encíclica do Papa, já aqui transcrita na íntegra.
	Texto intimista, uma longa reflex&atilde;o bíblica e filosófica, que &quot;parece especialmente dirigido &agrave; Europa&quot;, como admite o arcebispo de Mil&atilde;o, e merece reparos de protestantes.
	Dirigida só aos católicos, recusa que a humanidade será salva pelas revolu&ccedil;&otilde;es políticas (como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><font>
<p>No Público de hoje, António Marujo apresenta aspectos da nova encíclica do Papa, já aqui transcrita na íntegra.</p>
	<p>Texto intimista, uma longa reflex&atilde;o bíblica e filosófica, que &quot;parece especialmente dirigido &agrave; Europa&quot;, como admite o arcebispo de Mil&atilde;o, e merece reparos de protestantes.</p>
	<p>Dirigida só aos católicos, recusa que a humanidade será salva pelas revolu&ccedil;&otilde;es políticas (como o marxismo), pelo progresso científico ou pelo ateísmo. É uma reflex&atilde;o pessoal e intimista a segunda encíclica do Papa Bento XVI, Spe Salvi, dedicada &agrave; esperan&ccedil;a, e ontem apresentada no Vaticano. O título em latim do documento significa &quot;Salvos pela esperan&ccedil;a&quot;. Foi retirado da Carta aos Romanos, texto atribuído a S&atilde;o Paulo: &quot;Foi na esperan&ccedil;a que fomos salvos.&quot; Bento XVI desenvolve uma longa reflex&atilde;o bíblica, teológica e filosófica. A esperan&ccedil;a é uma das tr&ecirc;s virtudes teologais, consideradas pela doutrina católica como dons de Deus, que sintetizam o cristianismo: fé, esperan&ccedil;a, amor. A primeira encíclica, Deus Caritas Est, tratou do amor. É de prever que uma próxima seja dedicada &agrave; fé - antes, deverá escrever uma sobre quest&otilde;es sociais. N&atilde;o faltam, no texto, nomes do pensamento europeu (Emmanuel Kant, Karl Marx, Fiodor Dosto&iuml;evski) e exemplos de pessoas que, para o Papa, testemunharam a esperan&ccedil;a crist&atilde; (ver caixa). &quot;Como crist&atilde;os, n&atilde;o basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos perguntar-nos: o que posso fazer para que os outros sejam salvos e nas&ccedil;a também para eles a estrela da esperan&ccedil;a? Ent&atilde;o terei feito o máximo pela minha salva&ccedil;&atilde;o pessoal.&quot; Talvez pelo seu carácter doutrinário, o Papa dirige esta encíclica, tal como a anterior, apenas aos católicos. A fórmula &quot;e a todas as pessoas de boa vontade&quot;, utilizada pelos anteriores papas, sobretudo em encíclicas de dimens&atilde;o mais política ou social, n&atilde;o foi ainda usada por Bento XVI. É um texto em que o Papa exprime &quot;a convic&ccedil;&atilde;o de que a recusa da fé e da esperan&ccedil;a crist&atilde;, a recusa de Deus, levam o homem a perder-se a si mesmo&quot;, disse o porta-voz do Vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi. &quot;Parece especialmente dirigido &agrave; Europa&quot;, admitiu o arcebispo de Mil&atilde;o, Dionigi Tettamanzi. &quot;O Papa quer despertar a esperan&ccedil;a dos países da velha cristandade, em especial a Europa, mas a sua perspectiva n&atilde;o se limita a este continente&quot;, disse o cardeal franc&ecirc;s Albert Vanhoye.</p>
	<p>O erro de Marx</p>
	<p>A crítica de ser uma reflex&atilde;o demasiado centrada na Europa foi feita já &agrave; primeira encíclica. Bento XVI tem um vasto pensamento sobre a presen&ccedil;a do cristianismo no contexto europeu e a escolha do seu nome de Papa reflecte a preocupa&ccedil;&atilde;o com o futuro do cristianismo no Velho Continente. O Papa dirige reparos &agrave; ambiguidade do progresso, capaz do bem e do mal, ao &quot;erro fundamental de Marx&quot;, que n&atilde;o disse o que fazer depois do derrube das injusti&ccedil;as do seu tempo, ou ao ateísmo, que surgiu nos séculos XIX e XX como &quot;um moralismo&quot;, um &quot;protesto contra as injusti&ccedil;as do mundo e da história universal&quot;. A par de parágrafos intensos sobre o que é a vida eterna (na peugada de Santo Agostinho), sobre a ora&ccedil;&atilde;o como &quot;escola de esperan&ccedil;a&quot;, ou sobre o sofrimento (que &quot;faz parte da exist&ecirc;ncia humana&quot;, mas contra o qual se pode &quot;lutar&quot;) e o agir, o Papa prop&otilde;e a necessidade de uma &quot;autocrítica da idade moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concep&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a&quot;. E diz que os crist&atilde;os devem aprender de novo o que t&ecirc;m para &quot;oferecer ao mundo&quot;. A esperan&ccedil;a crist&atilde; tem &quot;os outros&quot; como horizonte, insiste Bento XVI. Um texto intimista, que procura recentrar a fé crist&atilde; no que lhe é central. Mas que inclui refer&ecirc;ncias que n&atilde;o s&atilde;o consideradas centrais por outros crist&atilde;os. A parte final é dedicada &agrave; figura da m&atilde;e de Jesus, &quot;Maria, estrela da esperan&ccedil;a&quot;. O pastor Gill Daude, da Federa&ccedil;&atilde;o dos Protestantes de Fran&ccedil;a, perguntava ontem no sítio da Internet do jornal La Croix: &quot;Porqu&ecirc; invocá-la no final, mais que a Cristo, ele que se fez próximo de nós (&#8230;), ele que é &quot;mais íntimo a nós mesmos que nós mesmos&quot; (Santo Agostinho).&quot; </p>
</font>
</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Carta Encíclica Spe Salvi de Bento XVI</title>
		<link>http://religionline.blogsome.com/2007/11/30/lettre-encyclique-spe-salvi-de-benoit-xvi/</link>
		<comments>http://religionline.blogsome.com/2007/11/30/lettre-encyclique-spe-salvi-de-benoit-xvi/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 30 Nov 2007 13:08:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>religionline</dc:creator>
		
	<category>Igreja Católica</category>
	<category>Cristianismo (generalidades)</category>
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		<description><![CDATA[	CARTA ENCÍCLICASPE SALVIDO SUMO PONTÍFICEBENTO XVIAOS BISPOSAOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS&Agrave;S PESSOAS CONSAGRADASE A TODOS OS FIÉIS LEIGOSSOBRE A ESPERAN&Ccedil;A CRIST&Atilde;
&nbsp;
	Introdu&ccedil;&atilde;o
	1. &laquo; SPE SALVI facti sumus &raquo; &ndash; é na esperan&ccedil;a que fomos salvos: diz S&atilde;o Paulo aos Romanos e a nós também (Rm 8,24). A &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo;, a salva&ccedil;&atilde;o, segundo a fé crist&atilde;, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<h5><font></font><font color="#663300">CARTA ENCÍCLICA</font><em><br /><strong><font color="#663300">SPE SALVI<br /></font></strong></em><font color="#663300">DO SUMO PONTÍFICE<br /></font><font color="#663300"><strong>BENTO XVI<br /></strong>AOS BISPOS<br />AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS<br />&Agrave;S PESSOAS CONSAGRADAS<br />E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS<br />SOBRE A ESPERAN&Ccedil;A CRIST&Atilde;</font><br />
<p align="center">&nbsp;</p>
	<p align="left"><em><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o</strong></em></p>
	<p>1. &laquo; <em>SPE SALVI facti sumus</em> &raquo; &ndash; é na esperan&ccedil;a que fomos salvos: diz S&atilde;o Paulo aos Romanos e a nós também (<em>Rm</em> 8,24). A &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo;, a salva&ccedil;&atilde;o, segundo a fé crist&atilde;, n&atilde;o é um simples dado de facto. A reden&ccedil;&atilde;o é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperan&ccedil;a, uma esperan&ccedil;a fidedigna, gra&ccedil;as &agrave; qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for t&atilde;o grande que justifique a canseira do caminho. E imediatamente se levanta a quest&atilde;o: mas de que género é uma tal esperan&ccedil;a para poder justificar a afirma&ccedil;&atilde;o segundo a qual a partir dela, e simplesmente porque ela existe, nós fomos redimidos? E de que tipo de certeza se trata?</p>
	<p><strong><em>A fé é esperan&ccedil;a</em></strong></p>
	<p>2. Antes de nos debru&ccedil;armos sobre estas quest&otilde;es, hoje particularmente sentidas, devemos escutar com um pouco mais de aten&ccedil;&atilde;o o testemunho da Bíblia sobre a esperan&ccedil;a. Esta é, de facto, uma palavra central da fé bíblica, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos &laquo; fé &raquo; e &laquo; esperan&ccedil;a &raquo;. Assim, a<em> Carta aos Hebreus</em> liga estreitamente a &laquo; plenitude da fé &raquo; (10,22) com a &laquo; imutável profiss&atilde;o da esperan&ccedil;a &raquo; (10,23). De igual modo, quando a<em> Primeira Carta de Pedro</em> exorta os crist&atilde;os a estarem sempre prontos a responder a propósito do<em> logos </em>&ndash; o sentido e a raz&atilde;o &ndash; da sua esperan&ccedil;a (3,15), &laquo; esperan&ccedil;a &raquo; equivale a &laquo; fé &raquo;. Qu&atilde;o determinante se revelasse para a consci&ecirc;ncia dos primeiros crist&atilde;os o facto de terem recebido o dom de uma esperan&ccedil;a fidedigna, manifesta-se também nos textos onde se compara a exist&ecirc;ncia crist&atilde; com a vida anterior &agrave; fé ou com a situa&ccedil;&atilde;o dos adeptos de outras religi&otilde;es. Paulo lembra aos Efésios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam &laquo; sem esperan&ccedil;a e sem Deus no mundo &raquo; (<em>Ef </em>2,12). Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religi&atilde;o, mas os seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, n&atilde;o emanava qualquer esperan&ccedil;a. Apesar de terem deuses, estavam &laquo; sem Deus &raquo; e, consequentemente, achavam-se num mundo tenebroso, perante um futuro obscuro. &laquo; <em>In nihil ab nihilo quam cito recidimus</em> &raquo; (No nada, do nada, qu&atilde;o cedo recaímos) <a "" href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> diz um epitáfio daquela época; palavras nas quais aparece, sem rodeios, aquilo a que Paulo alude. Ao mesmo tempo, diz aos Tessalonicenses: n&atilde;o deveis &laquo; entristecer-vos como os outros que n&atilde;o t&ecirc;m esperan&ccedil;a &raquo; (<em>1 Ts</em> 4,13). Aparece aqui também como elemento distintivo dos crist&atilde;os o facto de estes terem um futuro: n&atilde;o é que conhe&ccedil;am em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida n&atilde;o acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo n&atilde;o era apenas uma &laquo; boa nova &raquo;, ou seja, uma comunica&ccedil;&atilde;o de conteúdos até ent&atilde;o ignorados. Em linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem crist&atilde; n&atilde;o era só &laquo; informativa &raquo;, mas &laquo; performativa &raquo;. Significa isto que o Evangelho n&atilde;o é apenas uma comunica&ccedil;&atilde;o de realidades que se podem saber, mas uma comunica&ccedil;&atilde;o que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperan&ccedil;a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.</p>
	<p>3. Porém, agora coloca-se a quest&atilde;o: em que consiste esta esperan&ccedil;a que, enquanto esperan&ccedil;a, é &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo;? Pois bem, o núcleo da resposta encontra-se no trecho da<em> Carta aos Efésios</em> já citado: os Efésios, antes do encontro com Cristo, estavam sem esperan&ccedil;a, porque estavam &laquo; sem Deus no mundo &raquo;. Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperan&ccedil;a. A nós, que desde sempre convivemos com o conceito crist&atilde;o de Deus e a ele nos habituamos, a posse duma tal esperan&ccedil;a que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida. O exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa Jo&atilde;o Paulo II. Nascera por volta de 1869 &ndash; ela mesma n&atilde;o sabia a data precisa &ndash; no Darfur, Sud&atilde;o. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sud&atilde;o. Por último, acabou escrava ao servi&ccedil;o da m&atilde;e e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o c&ocirc;nsul Callisto Legnani que, ante a avan&ccedil;ada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de &laquo; patr&otilde;es &raquo; t&atilde;o terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um &laquo; patr&atilde;o &raquo; totalmente diferente &ndash; no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava &laquo; paron &raquo; ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até ent&atilde;o só tinha conhecido patr&otilde;es que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um &laquo; paron &raquo; acima de todos os patr&otilde;es, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo &laquo; Paron &raquo; supremo, diante do qual todos os outros patr&otilde;es n&atilde;o passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada.</p>
	<p>Mais ainda, este Patr&atilde;o tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava &agrave; espera dela &laquo; &agrave; direita de Deus Pai &raquo;. Agora ela tinha &laquo; esperan&ccedil;a &raquo;; já n&atilde;o aquela pequena esperan&ccedil;a de achar patr&otilde;es menos cruéis, mas a grande esperan&ccedil;a: eu sou definitivamente amada e aconte&ccedil;a o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperan&ccedil;a, ela estava &laquo; redimida &raquo;, já n&atilde;o se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperan&ccedil;a e sem Deus no mundo: sem esperan&ccedil;a porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sud&atilde;o, Bakhita negou-se; n&atilde;o estava disposta a deixar-se separar novamente do seu &laquo; Paron &raquo;. A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunh&atilde;o das m&atilde;os do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congrega&ccedil;&atilde;o das Irm&atilde;s Canossianas e desde ent&atilde;o, a par dos servi&ccedil;os na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou sobretudo incitar &agrave; miss&atilde;o: a liberta&ccedil;&atilde;o recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estend&ecirc;-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperan&ccedil;a, que nascera para ela e a &laquo; redimira &raquo;, n&atilde;o podia guardá-la para si; esta esperan&ccedil;a devia chegar a muitos, chegar a todos.</p>
	<p><strong><em>O conceito de esperan&ccedil;a baseada sobre a fé no Novo Testamento e na Igreja primitiva</em></strong></p>
	<p>4. Antes de enfrentar a quest&atilde;o de saber se também para nós o encontro com aquele Deus que, em Cristo, nos mostrou a sua Face e abriu o seu Cora&ccedil;&atilde;o poderá ser &laquo; performativo &raquo; e n&atilde;o somente &laquo; informativo &raquo;, ou seja, se poderá transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir redimidos através da esperan&ccedil;a que o mesmo exprime, voltemos de novo &agrave; Igreja primitiva. N&atilde;o é difícil notar como a experi&ecirc;ncia da humilde escrava africana Bakhita foi também a experi&ecirc;ncia de muitas pessoas maltratadas e condenadas &agrave; escravid&atilde;o no tempo do cristianismo nascente. O cristianismo n&atilde;o tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante &agrave; de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus n&atilde;o era Espártaco, n&atilde;o era um guerreiro em luta por uma liberta&ccedil;&atilde;o política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus &ndash; Ele mesmo morto na cruz &ndash; tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperan&ccedil;a que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. A novidade do que tinha acontecido revela-se, com a máxima evid&ecirc;ncia, na <em>Carta </em>de S&atilde;o Paulo<em> a Filémon</em>. Trata-se de uma carta, muito pessoal, que Paulo escreve no cárcere e entrega ao escravo fugitivo Onésimo para o seu patr&atilde;o &ndash; precisamente Filémon. É verdade, Paulo envia de novo o escravo para o seu patr&atilde;o, de quem tinha fugido, e fá-lo n&atilde;o impondo, mas suplicando: &laquo; Venho pedir-te por Onésimo, meu filho, que gerei na pris&atilde;o [&#8230;]. De novo to enviei e tu torna a receb&ecirc;-lo, como &agrave;s minhas entranhas [&#8230;]. Talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que tu o recobrasses para sempre, n&atilde;o já como escravo, mas, em vez de escravo, como irm&atilde;o muito amado &raquo; (<em>Flm </em>10-16). Os homens que, segundo o próprio estado civil, se relacionam entre si como patr&otilde;es e escravos, quando se tornaram membros da única Igreja passaram as ser entre si irm&atilde;os e irm&atilde;s &ndash; assim se tratavam os crist&atilde;os mutuamente. Em virtude do Baptismo, tinham sido regenerados, tinham bebido do mesmo Espírito e recebiam conjuntamente, um ao lado do outro, o Corpo do Senhor. Apesar de as estruturas externas permanecerem as mesmas, isto transformava a sociedade a partir de dentro. Se a<em> Carta aos Hebreus</em> diz que os crist&atilde;os n&atilde;o t&ecirc;m aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf.<em> Heb </em>11, 13-14;<em> Fil</em> 3,20), isto n&atilde;o significa de modo algum adiar para uma perspectiva futura: a sociedade presente é reconhecida pelos crist&atilde;os como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo &agrave; qual caminham e que, na sua peregrina&ccedil;&atilde;o, é antecipada.</p>
	<p>5. Devemos acrescentar ainda um outro ponto de vista. A<em> Primeira Carta aos Coríntios</em> (1,18-31) mostra-nos que uma grande parte dos primeiros crist&atilde;os pertencia &agrave;s classes baixas da sociedade e, por isso mesmo, se sentia livre para a experi&ecirc;ncia da nova esperan&ccedil;a, como constatámos no exemplo de Bakhita. Porém, já desde os come&ccedil;os, havia também convers&otilde;es nas classes aristocráticas e cultas, visto que também estas viviam &laquo; sem esperan&ccedil;a e sem Deus no mundo &raquo;. O mito tinha perdido a sua credibilidade; a religi&atilde;o romana de Estado tinha-se esclerosado em mero cerimonial, que se realizava escrupulosamente, mas reduzido já simplesmente a uma &laquo; religi&atilde;o política &raquo;. O racionalismo filosófico tinha relegado os deuses para o campo do irreal. O Divino era visto de variados modos nas for&ccedil;as cósmicas, mas um Deus a Quem se podia rezar n&atilde;o existia. Paulo ilustra, de forma absolutamente apropriada, a problemática essencial da religi&atilde;o de ent&atilde;o, quando contrap&otilde;e &agrave; vida &laquo; segundo Cristo &raquo; uma vida sob o domínio dos &laquo; elementos do mundo &raquo; (<em>Col </em>2,8). Nesta perspectiva, pode ser esclarecedor um texto de S&atilde;o Gregório Nazianzeno. Diz ele que, no momento em que os magos guiados pela estrela adoraram Cristo, o novo rei, deu-se por encerrada a astrologia, pois agora as estrelas giram segundo a órbita determinada por Cristo <a "" href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> De facto, nesta cena fica invertida a concep&ccedil;&atilde;o do mundo de ent&atilde;o, que hoje, de um modo distinto, aparece de novo florescente. N&atilde;o s&atilde;o os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem, mas é um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo; as leis da matéria e da evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o a última inst&acirc;ncia, mas raz&atilde;o, vontade, amor: uma Pessoa. E se conhecemos esta Pessoa e Ela nos conhece, ent&atilde;o verdadeiramente o poder inexorável dos elementos materiais deixa de ser a última inst&acirc;ncia; deixámos de ser escravos do universo e das suas leis, ent&atilde;o somos livres. Tal consci&ecirc;ncia impeliu na antiguidade os &acirc;nimos sinceros a indagar. O céu n&atilde;o está vazio. A vida n&atilde;o é um simples produto das leis e da casualidade da matéria, mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há uma vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus Se revelou como Amor.<a "" href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a></p>
	<p>6. Os sarcófagos dos primórdios do cristianismo ilustram visivelmente esta concep&ccedil;&atilde;o (com a morte diante dos olhos a quest&atilde;o do significado da vida torna-se inevitável). A figura de Cristo é interpretada, nos antigos sarcófagos, sobretudo através de duas imagens: a do filósofo e a do pastor. Em geral, por filosofia n&atilde;o se entendia ent&atilde;o uma difícil disciplina académica, tal como ela se apresenta hoje. O filósofo era antes aquele que sabia ensinar a arte essencial: a arte de ser rectamente homem, a arte de viver e de morrer. Certamente, já há muito tempo que os homens se tinham apercebido de que boa parte dos que circulavam como filósofos, como mestres de vida, n&atilde;o passavam de charlat&atilde;es que com suas palavras granjeavam dinheiro, enquanto sobre a verdadeira vida nada tinham a dizer. Isto era mais uma raz&atilde;o para se procurar o verdadeiro filósofo que soubesse realmente indicar o itinerário da vida. Quase ao fim do século terceiro, encontramos pela primeira vez em Roma, no sarcófago de um menino e no contexto da ressurrei&ccedil;&atilde;o de Lázaro, a figura de Cristo como o verdadeiro filósofo que, numa m&atilde;o, segura o Evangelho e, na outra, o bast&atilde;o do viandante, próprio do filósofo. Com este bast&atilde;o, Ele vence a morte; o Evangelho traz a verdade que os filósofos peregrinos tinham buscado em v&atilde;o. Nesta imagem, que sucessivamente por um longo período havia de perdurar na arte dos sarcófagos, torna-se evidente aquilo que tanto as pessoas cultas como as simples encontravam em Cristo: Ele diz-nos quem é na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem. Ele indica-nos o caminho, e este caminho é a verdade. Ele mesmo é simultaneamente um e outra, sendo por isso também a vida de que todos nós andamos &agrave; procura. Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida. O mesmo se torna visível na imagem do pastor. Tal como sucedia com a representa&ccedil;&atilde;o do filósofo, assim também na figura do pastor a Igreja primitiva podia apelar-se a modelos existentes da arte romana. Nesta, o pastor era, em geral, express&atilde;o do sonho de uma vida serena e simples de que as pessoas, na confus&atilde;o da grande cidade, sentiam saudade. Agora a imagem era lida no &acirc;mbito de um novo cenário que lhe conferia um conteúdo mais profundo: &laquo; O Senhor é meu pastor, nada me falta [&#8230;] Mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo &raquo; (<em>Sal</em> 23[22], 1.4). O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solid&atilde;o, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravessá-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu &laquo; bast&atilde;o e o seu cajado me conforta &raquo;, de modo que &laquo; n&atilde;o devo temer nenhum mal &raquo; (cf.<em> Sal</em> 23[22],4): esta era a nova &laquo; esperan&ccedil;a &raquo; que surgia na vida dos crentes.</p>
	<p>7. Devemos voltar, uma vez mais, ao Novo Testamento. No décimo primeiro capítulo da<em> Carta aos Hebreus </em>(v. 1), encontra-se, por assim dizer, uma certa defini&ccedil;&atilde;o da fé que entrela&ccedil;a estreitamente esta virtude com a esperan&ccedil;a. &Agrave; volta da palavra central desta frase come&ccedil;ou a gerar-se desde a Reforma, uma discuss&atilde;o entre os exegetas, mas que parece hoje encaminhar-se para uma interpreta&ccedil;&atilde;o comum. Por enquanto, deixo o termo em quest&atilde;o sem traduzir. A frase soa, pois, assim: &laquo; A fé é<em> hypostasis</em> das coisas que se esperam; prova das coisas que n&atilde;o se v&ecirc;em &raquo;. Para os Padres e para os teólogos da Idade Média era claro que a palavra grega<em> hypostasis</em> devia ser traduzida em latim pelo termo<em> substantia</em>. De facto, a tradu&ccedil;&atilde;o latina do texto, feita na Igreja antiga, diz: &laquo; <em>Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium </em>&ndash; a fé é a &ldquo;subst&acirc;ncia&rdquo; das coisas que se esperam; a prova das coisas que n&atilde;o se v&ecirc;em &raquo;. Tomás de Aquino,<a "" href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> servindo-se da terminologia da tradi&ccedil;&atilde;o filosófica em que se encontra, explica: a fé é um &laquo; <em>habitus</em> &raquo;, ou seja, uma predisposi&ccedil;&atilde;o constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a raz&atilde;o é levada a consentir naquilo que n&atilde;o v&ecirc;. Deste modo, o conceito de &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa &ndash; poderíamos dizer &laquo; em gérmen &raquo; e portanto segundo a &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; &ndash; já est&atilde;o presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira. E precisamente porque a coisa em si já está presente, esta presen&ccedil;a daquilo que há-de vir cria também certeza: esta &laquo; coisa &raquo; que deve vir ainda n&atilde;o é visível no mundo externo (n&atilde;o &laquo; aparece &raquo;), mas pelo facto de a trazermos, como realidade incoativa e din&acirc;mica dentro de nós, surge já agora uma certa percep&ccedil;&atilde;o dela. Para Lutero, que n&atilde;o nutria muita simpatia pela<em> Carta aos Hebreus </em>em si própria, o conceito de &laquo; subst&acirc;ncia &raquo;, no contexto da sua vis&atilde;o da fé, nada significava. Por isso, interpretou o termo<em> hipóstase/subst&acirc;ncia</em> n&atilde;o no sentido objectivo (de realidade presente em nós), mas no subjectivo, isto é, como express&atilde;o de uma atitude interior e, consequentemente, teve naturalmente de entender também o termo <em>argumentum</em> como uma disposi&ccedil;&atilde;o do sujeito. No século XX, esta interpreta&ccedil;&atilde;o imp&ocirc;s-se também na exegese católica &ndash; pelo menos na Alemanha &ndash; de modo que a tradu&ccedil;&atilde;o ecuménica em alem&atilde;o do Novo Testamento, aprovada pelos Bispos diz: &laquo; <em>Glaube aber ist: Feststehen in dem, was man erhofft, &Uuml;berzeugtsein von dem, was man nicht sieht</em> &raquo; (fé é: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que n&atilde;o se v&ecirc;). Em si mesmo, isto n&atilde;o está errado; mas n&atilde;o é o sentido do texto, porque o termo grego usado (<em>elenchos</em>) n&atilde;o tem o valor subjectivo de &laquo; convic&ccedil;&atilde;o &raquo;, mas o valor objectivo de &laquo; prova &raquo;. Com raz&atilde;o, pois, a recente exegese protestante chegou a uma convic&ccedil;&atilde;o diversa: &laquo; Agora, porém, já n&atilde;o restam dúvidas de que esta interpreta&ccedil;&atilde;o protestante, tida como clássica, é insustentável &raquo;.<a "" href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a> A fé n&atilde;o é só uma inclina&ccedil;&atilde;o da pessoa para realidades que h&atilde;o-de vir, mas est&atilde;o ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma &laquo; prova &raquo; das coisas que ainda n&atilde;o se v&ecirc;em. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já n&atilde;o é o puro &laquo; ainda-n&atilde;o &raquo;. O facto de este futuro existir, muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras.</p>
	<p>8. Esta explica&ccedil;&atilde;o fica ainda mais refor&ccedil;ada e aplicada &agrave; vida concreta, se considerarmos o versículo 34 do décimo capítulo da<em> Carta aos Hebreus</em> que<em>, </em>sob o aspecto da língua e do conteúdo, tem a ver com esta defini&ccedil;&atilde;o de uma fé perpassada de esperan&ccedil;a e prepara-a. No texto, o autor fala aos crentes que viveram a experi&ecirc;ncia da persegui&ccedil;&atilde;o, dizendo-lhes: &laquo; N&atilde;o só vos compadecestes dos encarcerados, mas aceitastes com alegria a confisca&ccedil;&atilde;o dos vossos bens (<em>hyparchonton &ndash;</em> Vg:<em> bonorum</em>), sabendo que possuís uma riqueza melhor (<em>hyparxin</em> &ndash; Vg: <em>substantiam</em>) e imperecível &raquo;.<em> Hyparchonta </em>s&atilde;o as propriedades, aquilo que na vida terrena constitui a sustenta&ccedil;&atilde;o, precisamente a base, a &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; da qual se necessita para viver. Esta &laquo; subst&acirc;ncia &raquo;, a seguran&ccedil;a normal para a vida, foi tirada aos crist&atilde;os durante a persegui&ccedil;&atilde;o. Eles suportaram-no, porque em todo o caso consideravam transcurável esta subst&acirc;ncia material. Podiam prescindir dela, porque tinham achado uma &laquo; base &raquo; melhor para a sua exist&ecirc;ncia &ndash; uma base que permanece e que ninguém lhes pode tirar. N&atilde;o é possível deixar de ver a liga&ccedil;&atilde;o existente entre estas duas espécies de &laquo; subst&acirc;ncia &raquo;, entre a sustenta&ccedil;&atilde;o ou base material e a afirma&ccedil;&atilde;o da fé como &laquo; base &raquo;, como &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; que permanece. A fé confere &agrave; vida uma nova base, um novo fundamento, sobre o qual o homem se pode apoiar, e consequentemente, o fundamento habitual, ou seja a confian&ccedil;a na riqueza material, relativiza-se. Cria-se uma nova liberdade diante deste fundamento da vida que só aparentemente é capaz de sustentar, embora o seu significado normal n&atilde;o seja certamente negado com isso. Esta nova liberdade, a consci&ecirc;ncia da nova &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; que nos foi dada, ficou patente no martírio, quando as pessoas se opuseram &agrave; prepot&ecirc;ncia da ideologia e dos seus órg&atilde;os políticos e, com a sua morte, renovaram o mundo. Mas n&atilde;o é só no martírio&#8230; Aquela manifestou-se sobretudo nas grandes renúncias a come&ccedil;ar dos monges da antiguidade até Francisco de Assis e &agrave;s pessoas do nosso tempo que, nos Institutos e Movimentos religiosos actuais, deixaram tudo para levar aos homens a fé e o amor de Cristo, para ajudar as pessoas que sofrem no corpo e na alma. Aqui a nova &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; confirmou-se realmente como &laquo; subst&acirc;ncia &raquo;: da esperan&ccedil;a destas pessoas tocadas por Cristo brotou esperan&ccedil;a para outros que viviam na escurid&atilde;o e sem esperan&ccedil;a. Ficou demonstrado que esta nova vida possui realmente &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; e é &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; que suscita vida para os outros. Para nós, que vemos tais figuras, este seu actuar e viver é, de facto, uma &laquo; prova &raquo; de que as coisas futuras, ou seja, a promessa de Cristo n&atilde;o é uma realidade apenas esperada, mas uma verdadeira presen&ccedil;a: Ele é realmente o &laquo; filósofo &raquo; e o &laquo; pastor &raquo; que nos indica o que seja e onde está a vida.</p>
	<p>9. Para compreender mais profundamente esta reflex&atilde;o sobre as duas espécies de subst&acirc;ncias -<em> hypostasis</em> e <em>hyparchonta</em> &ndash; e sobre as duas maneiras de viver que com elas se exprimem, devemos reflectir ainda brevemente sobre duas palavras referentes ao assunto, que se encontram no décimo capítulo da<em> Carta aos Hebreus</em>. Trata-se das palavras<em> hypomone </em>(10,36) e<em> hypostole</em> (10,39).<em> Hypomone</em> traduz-se normalmente por &laquo; paci&ecirc;ncia &raquo;, perseveran&ccedil;a, const&acirc;ncia. Este saber esperar, suportando pacientemente as provas, é necessário para o crente poder &laquo; obter as coisas prometidas &raquo; (cf. 10,36). Na religiosidade do antigo judaísmo, esta palavra era usada expressamente para a espera de Deus, característica de Israel, para este perseverar na fidelidade a Deus, na base da certeza da Alian&ccedil;a, num mundo que contradiz a Deus. Sendo assim, a palavra indica uma esperan&ccedil;a vivida, uma vida baseada na certeza da esperan&ccedil;a. No Novo Testamento, esta espera de Deus, este estar da parte de Deus assume um novo significado: é que em Cristo, Deus manifestou-Se. Comunicou-nos já a &laquo; subst&acirc;ncia &raquo; das coisas futuras, e assim a espera de Deus adquire uma nova certeza. É espera das coisas futuras a partir de um dom já presente. É espera &ndash; na presen&ccedil;a de Cristo, isto é, com Cristo presente &ndash; que se completa no seu Corpo, na perspectiva da sua vinda definitiva. Diversamente com<em> hypostole</em>, exprime-se o esquivar-se de alguém que n&atilde;o ousa dizer, abertamente e com franqueza, a verdade talvez perigosa. Este dissimular por espírito de temor diante dos homens, conduz &agrave; &laquo; perdi&ccedil;&atilde;o &raquo; (<em>Heb </em>10,39). Pois, &laquo; Deus n&atilde;o nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, amor e sabedoria &raquo;, l&ecirc;-se na <em>Segunda Carta a Timóteo</em> (1,7) caracterizando assim, com uma bela express&atilde;o, a atitude fundamental do crist&atilde;o.</p>
	<p><strong><em>A vida eterna &ndash; o que é?</em></strong></p>
	<p>10. Até agora estivemos a falar da fé e da esperan&ccedil;a no Novo Testamento e nos inícios do cristianismo, mas deixando sempre claro que n&atilde;o se tratava apenas do passado; toda a reflex&atilde;o feita tem a ver com a vida e a morte do homem em geral e, portanto, interessa-nos também a nós, aqui e agora. Chegou o momento, porém, de nos colocarmos explicitamente a quest&atilde;o: para nós, hoje a fé crist&atilde; é também uma esperan&ccedil;a que transforma e sustenta a nossa vida? Para nós aquela é &laquo; performativa &raquo; &ndash; uma mensagem que plasma de modo novo a mesma vida &ndash; ou é simplesmente &laquo; informa&ccedil;&atilde;o &raquo; que, entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informa&ccedil;&otilde;es mais recentes? Na busca de uma resposta, desejo partir da forma clássica do diálogo, usado no rito do Baptismo, para exprimir o acolhimento do recém-nascido na comunidade dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote perguntava, antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a crian&ccedil;a, e prosseguia: &laquo; O que é que pedis &agrave; Igreja? &raquo;. Resposta: &laquo; A fé &raquo;. &laquo; E o que é que vos dá a fé? &raquo;. &laquo; A vida eterna &raquo;. Como vemos por este diálogo, os pais pediam para a crian&ccedil;a o acesso &agrave; fé, a comunh&atilde;o com os crentes, porque viam na fé a chave para a &laquo; vida eterna &raquo;. Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata no Baptismo, quando nos tornamos crist&atilde;os: é n&atilde;o somente um acto de socializa&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na Igreja. Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a fé &ndash; de que faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos &ndash; lhe d&ecirc; a vida, a vida eterna. Fé é subst&acirc;ncia da esperan&ccedil;a. Aqui, porém, surge a pergunta: Queremos nós realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a fé, talvez simplesmente porque a vida eterna n&atilde;o lhes parece uma coisa desejável. N&atilde;o querem de modo algum a vida eterna, mas a presente; antes, a fé na vida eterna parece, para tal fim, um obstáculo. Continuar a viver eternamente &ndash; sem fim &ndash; parece mais uma condena&ccedil;&atilde;o do que um dom. Certamente a morte queria-se adiá-la o mais possível. Mas, viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável. É isto precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio na sua elegia pelo irm&atilde;o defunto Sátiro: &laquo; Sem dúvida, a morte n&atilde;o fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus n&atilde;o instituiu a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamenta&ccedil;&otilde;es insuportáveis, a vida dos homens come&ccedil;ou a ser miserável. Deus teve de p&ocirc;r fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se n&atilde;o fosse promovida pela gra&ccedil;a &raquo;.<a "" href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a> Antes, Ambrósio tinha dito: &laquo; N&atilde;o devemos chorar a morte, que é a causa de salva&ccedil;&atilde;o universal &raquo;<a "" href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>.</p>
	<p>11. Independentemente do que Santo Ambrósio quisesse dizer precisamente com estas palavras, é certo que a elimina&ccedil;&atilde;o da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condi&ccedil;&atilde;o impossível e nem mesmo prestaria um benefício ao indivíduo. Obviamente há uma contradi&ccedil;&atilde;o na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma exist&ecirc;ncia. Por um lado, n&atilde;o queremos morrer; sobretudo quem nos ama n&atilde;o quer que morramos. Mas, por outro, também n&atilde;o desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspectiva. Ent&atilde;o, o que é que queremos na realidade? Este paradoxo da nossa própria conduta suscita uma quest&atilde;o mais profunda: o que é, na verdade, a &laquo; vida &raquo;? E o que significa realmente &laquo; eternidade &raquo;? Há momentos em que de repente temos a sua percep&ccedil;&atilde;o: sim, isto seria precisamente a &laquo; vida &raquo; verdadeira, assim deveria ser. Em compara&ccedil;&atilde;o, aquilo que no dia-a-dia chamamos &laquo; vida &raquo;, na verdade n&atilde;o o é. Agostinho, na sua extensa carta sobre a ora&ccedil;&atilde;o, dirigida a Proba &ndash; uma viúva romana rica e m&atilde;e de tr&ecirc;s c&ocirc;nsules &ndash;, escreve: no fundo, queremos uma só coisa, &laquo; a vida bem-aventurada &raquo;, a vida que é simplesmente vida, pura &laquo; felicidade &raquo;. No fim de contas, nada mais pedimos na ora&ccedil;&atilde;o. Só para ela caminhamos; só disto se trata. Porém, depois Agostinho diz também: se considerarmos melhor, no fundo n&atilde;o sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente queremos. N&atilde;o conhecemos de modo algum esta realidade; mesmo naqueles momentos em que pensamos tocá-la, n&atilde;o a alcan&ccedil;amos realmente. &laquo; N&atilde;o sabemos o que convém pedir &raquo; &ndash; confessa ele citando S&atilde;o Paulo (<em>Rm</em> 8,26). Sabemos apenas que n&atilde;o é isto. Porém, no facto de n&atilde;o saber sabemos que esta realidade deve existir. &laquo; Há em nós, por assim dizer, uma douta ignor&acirc;ncia &raquo; (<em>docta ignorantia</em>) &ndash; escreve ele. N&atilde;o sabemos realmente o que queremos; n&atilde;o conhecemos esta &laquo; vida verdadeira &raquo;; e, no entanto, sabemos que deve existir algo que n&atilde;o conhecemos e para isso nos sentimos impelidos.<a "" href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a></p>
	<p>12. Penso que Agostinho descreve aqui, de modo muito preciso e sempre válido, a situa&ccedil;&atilde;o essencial do homem, uma situa&ccedil;&atilde;o donde prov&ecirc;m todas as suas contradi&ccedil;&otilde;es e as suas esperan&ccedil;as. De certo modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois n&atilde;o seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. N&atilde;o podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar n&atilde;o é aquilo por que anelamos. Esta &laquo; coisa &raquo; desconhecida é a verdadeira &laquo; esperan&ccedil;a &raquo; que nos impele e o facto de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo aut&ecirc;ntico e o homem verdadeiro. A palavra &laquo; vida eterna &raquo; procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma express&atilde;o insuficiente, que cria confus&atilde;o. Com efeito, &laquo; eterno &raquo; suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; &laquo; vida &raquo;, faz-nos pensar na exist&ecirc;ncia por nós conhecida, que amamos e n&atilde;o queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfa&ccedil;&otilde;es, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro n&atilde;o a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade n&atilde;o seja uma sucess&atilde;o contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfa&ccedil;&atilde;o, onde a totalidade nos abra&ccedil;a e nós abra&ccedil;amos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo &ndash; o antes e o depois &ndash; já n&atilde;o existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastid&atilde;o do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de Jo&atilde;o: &laquo; Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso cora&ccedil;&atilde;o alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria &raquo; (16,22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperan&ccedil;a crist&atilde;, o que esperamos da fé, do nosso estar com Cristo.<a "" href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a></p>
	<p><strong><em>A esperan&ccedil;a crist&atilde; é individualista?</em></strong></p>
	<p>13. Ao longo da sua história, os crist&atilde;os procuraram traduzir este saber, que desconhece, em figuras ilustrativas, explanando imagens do &laquo; céu &raquo; que ficam sempre aquém daquilo que conhecemos precisamente só por nega&ccedil;&atilde;o, através de um n&atilde;o-conhecimento. Todas estas tentativas de representa&ccedil;&atilde;o da esperan&ccedil;a deram a muitos, no decorrer dos séculos, a coragem de viverem segundo a fé e, assim, abandonarem inclusivamente os seus &laquo; <em>hyparchonta</em> &raquo;, os bens materiais para a sua exist&ecirc;ncia. O autor da<em> Carta aos Hebreus</em>, no décimo primeiro capítulo, tra&ccedil;ou, por assim dizer, uma história daqueles que vivem na esperan&ccedil;a e da sua condi&ccedil;&atilde;o de caminhantes, uma história que desde Abel chega até &agrave; sua época. Contra este tipo de esperan&ccedil;a acendeu-se, na idade moderna, uma crítica sempre mais dura: tratar-se-ia de puro individualismo, que teria abandonado o mundo &agrave; sua miséria indo refugiar-se numa salva&ccedil;&atilde;o eterna puramente privada. Henry de Lubac, na introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; sua obra fundamental &laquo; <em>Catholicisme. Aspects sociaux du dogme</em> &raquo;, recolheu algumas vozes características deste tipo, uma das quais merece ser citada: &laquo; Será que encontrei a alegria? N&atilde;o&#8230; Encontrei a minha alegria. O que é algo terrivelmente diferente&#8230; A alegria de Jesus pode ser individual. Pode pertencer a uma só pessoa, e esta está salva. Está em paz&#8230; agora e para sempre, mas ela só. Esta solid&atilde;o na alegria n&atilde;o a perturba. Pelo contrário: ela sente-se precisamente a eleita! Na sua bem-aventuran&ccedil;a, atravessa as batalhas com uma rosa na m&atilde;o &raquo;.<a "" href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a></p>
	<p>14. A este respeito, Henry de Lubac, baseando-se na teologia dos Padres em toda a sua amplid&atilde;o, p&ocirc;de demonstrar que a salva&ccedil;&atilde;o foi sempre considerada como uma realidade comunitária. A mesma<em> Carta aos Hebreus</em> fala de uma &laquo; cidade &raquo; (cf. 11,10.16; 12,22; 13,14) e, portanto, de uma salva&ccedil;&atilde;o comunitária. Coerentemente, o pecado é entendido pelos Padres como destrui&ccedil;&atilde;o da unidade do género humano, como fragmenta&ccedil;&atilde;o e divis&atilde;o. Babel, o lugar da confus&atilde;o das línguas e da separa&ccedil;&atilde;o, apresenta-se como express&atilde;o daquilo que é radicalmente o pecado. Deste modo, a &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo; aparece precisamente como a restaura&ccedil;&atilde;o da unidade, onde nos encontramos novamente juntos numa uni&atilde;o que se delínea na comunidade mundial dos crentes. N&atilde;o é necessário ocuparmo-nos aqui de todos os textos, onde transparece o carácter comunitário da esperan&ccedil;a. Retomemos a<em> Carta a Proba</em> em que Agostinho tenta ilustrar um pouco esta desconhecida realidade conhecida de que andamos &agrave; procura. O seu ponto de partida é simplesmente a express&atilde;o &laquo; vida bem-aventurada [feliz] &raquo;. Em seguida cita o<em> Salmo</em> 144 (143), 15: &laquo; Feliz o povo cujo Deus é o Senhor &raquo;. E continua: &laquo; Para poder formar parte deste povo e [&#8230;] viver eternamente com Ele, recordemos que &ldquo;o fim dos mandamentos é promover a caridade, que procede de um cora&ccedil;&atilde;o puro, de uma consci&ecirc;ncia recta e de uma fé sincera&rdquo; (<em>1 Tm </em>1,5) &raquo;.<a "" href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a> Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do facto de se estar na uni&atilde;o existencial com um &laquo; povo &raquo; e pode realizar-se para cada pessoa somente no &acirc;mbito deste &laquo; nós &raquo;. Aquela pressup&otilde;e, precisamente, o &ecirc;xodo da pris&atilde;o do próprio &laquo; eu &raquo;, pois só na abertura deste sujeito universal é que se abre também o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus.</p>
	<p>15. Esta vis&atilde;o da &laquo; vida bem-aventurada &raquo; orientada para a comunidade visa, certamente, algo que está para além do mundo presente, mas é precisamente deste modo que ela tem a ver também com a edifica&ccedil;&atilde;o do mundo &ndash; segundo formas muito distintas, conforme o contexto histórico e as possibilidades por ele oferecidas ou excluídas. No tempo de Agostinho, quando a irrup&ccedil;&atilde;o de novos povos amea&ccedil;ava aquela coes&atilde;o do mundo que dava uma certa garantia de direito e de vida numa comunidade jurídica, tratava-se de fortalecer os fundamentos realmente basilares desta comunidade de vida e de paz, para poder sobreviver no meio da transforma&ccedil;&atilde;o do mundo. Deixando de lado outros casos, procuremos lan&ccedil;ar um olhar sobre um momento da Idade Média, emblemático sob determinados aspectos. Na consci&ecirc;ncia comum, os mosteiros eram vistos como os lugares da fuga do mundo (&laquo; <em>contemptus mundi</em> &raquo;) e do subtrair-se &agrave; responsabilidade pelo mundo na procura da salva&ccedil;&atilde;o privada. Bernardo de Claraval, que, com a sua Ordem reformada, trouxe uma multid&atilde;o de jovens para os mosteiros, tinha a este respeito uma vis&atilde;o muito distinta. Na sua opini&atilde;o, os monges desempenham uma tarefa para bem de toda a Igreja e, por conseguinte, também de todo o mundo. Com muitas imagens, ele ilustra a responsabilidade dos monges pelo organismo inteiro da Igreja, antes, pela humanidade; aplica a eles esta frase do Pseudo-Rufino: &laquo; O género humano vive gra&ccedil;as a poucos; se estes n&atilde;o existissem, o mundo pereceria&#8230; &raquo;.<a "" href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a> Os contemplativos (<em>contemplantes</em>) devem tornar-se trabalhadores agrícolas (<em>laborantes</em>) &ndash; diz ele. A nobreza do trabalho, que o cristianismo herdou do judaísmo, estava patente nas regras monásticas de Agostinho e de Bento. Bernardo retoma este conceito. Os jovens nobres que afluíam aos seus mosteiros deviam submeter-se ao trabalho manual. É verdade que Bernardo diz explicitamente que nem mesmo o mosteiro pode restabelecer o Paraíso; mas defende que aquele deve, como lugar de amanho manual e espiritual, preparar o novo Paraíso. O terreno bravio de um bosque torna-se fértil, precisamente quando, ao mesmo tempo, se deitam abaixo as árvores da soberba, se extirpa o que de bravio cresce nas almas e se prepara assim o terreno onde possa prosperar p&atilde;o para o corpo e para a alma.<a "" href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a> Por acaso, olhando precisamente a história actual, n&atilde;o se constata novamente que nenhuma estrutura&ccedil;&atilde;o positiva do mundo é possível nos lugares onde as almas se brutalizam?</p>
	<p><strong><em>A transforma&ccedil;&atilde;o da fé-esperan&ccedil;a crist&atilde; no tempo moderno</em></strong></p>
	<p>16. Como p&ocirc;de desenvolver-se a ideia de que a mensagem de Jesus é estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a interpretar a &laquo; salva&ccedil;&atilde;o da alma &raquo; como fuga da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salva&ccedil;&atilde;o que se recusa a servir os outros? Para encontrar uma resposta &agrave; quest&atilde;o, devemos lan&ccedil;ar um olhar sobre as componentes fundamentais do tempo moderno. Estas aparecem, com particular clareza, em Francisco Bacon. Que uma nova época tenha surgido &ndash; gra&ccedil;as &agrave; descoberta da América e &agrave;s novas conquistas técnicas que permitiram este desenvolvimento &ndash; é um dado fora de discuss&atilde;o. Mas, sobre o que é que se baseia esta mudan&ccedil;a epocal? É a nova correla&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncia e método que coloca o homem em condi&ccedil;&otilde;es de chegar a uma interpreta&ccedil;&atilde;o da natureza conforme &agrave;s suas leis e, deste modo, conseguir finalmente &laquo; a vitória da arte sobre a natureza &raquo; (<em>victoria cursus artis super naturam</em>).<a "" href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a> A novidade &ndash; conforme a vis&atilde;o de Bacon &ndash; está numa nova correla&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e prática. Isto foi depois aplicado também teologicamente: esta nova correla&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e prática significaria que o domínio sobre a cria&ccedil;&atilde;o, dado ao homem por Deus e perdido no pecado original, ficaria restabelecido.<a "" href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a></p>
	<p>17. Quem l&ecirc; estas afirma&ccedil;&otilde;es e nelas reflecte com aten&ccedil;&atilde;o, reconhece uma transi&ccedil;&atilde;o desconcertante: até ent&atilde;o a recupera&ccedil;&atilde;o daquilo que o homem, expulso do paraíso terrestre, tinha perdido esperava-se da fé em Jesus Cristo, e nisto se via a &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo;. Agora, esta &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo;, a restaura&ccedil;&atilde;o do &laquo; paraíso &raquo; perdido, já n&atilde;o se espera da fé, mas da liga&ccedil;&atilde;o recém-descoberta entre ci&ecirc;ncia e prática. Com isto, n&atilde;o é que se negue simplesmente a fé; mas, esta acaba deslocada para outro nível &ndash; o das coisas somente privadas e ultraterrestres &ndash; e, simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante para o mundo. Esta vis&atilde;o programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a actual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperan&ccedil;a crist&atilde;. Assim também a esperan&ccedil;a, segundo Bacon, ganha uma nova forma. Agora chama-se fé no progresso. Com efeito, para Bacon, resulta claro que os descobrimentos e as recentes inven&ccedil;&otilde;es s&atilde;o apenas um come&ccedil;o e que, gra&ccedil;as &agrave; sinergia entre ci&ecirc;ncia e prática, seguir-se-&atilde;o descobertas completamente novas, surgirá um mundo totalmente novo, o reino do homem. <a "" href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a> Nesta linha, apresentou um panorama das inven&ccedil;&otilde;es previsíveis, chegando ao avi&atilde;o e ao submarino. Ao longo do sucessivo desenvolvimento da ideologia do progresso, a alegria pelos avan&ccedil;os palpáveis das potencialidades humanas permanece uma confirma&ccedil;&atilde;o constante da fé no progresso enquanto tal.</p>
	<p>18. Simultaneamente, há duas categorias que penetram sempre mais no centro da ideia de progresso: raz&atilde;o e liberdade. Aquele é sobretudo um progresso no crescente domínio da raz&atilde;o, sendo esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso é a supera&ccedil;&atilde;o de todas as depend&ecirc;ncias; é avan&ccedil;o para a liberdade perfeita. Também a liberdade é vista só como promessa, na qual o homem se realiza rumo &agrave; plenitude. Em ambos os conceitos &ndash; liberdade e raz&atilde;o &ndash; está presente um aspecto político. O reino da raz&atilde;o, de facto, é aguardado como a nova condi&ccedil;&atilde;o da humanidade feita totalmente livre. Todavia, as condi&ccedil;&otilde;es políticas deste reino da raz&atilde;o e da liberdade aparecem, &agrave; primeira vista, pouco definidas. Raz&atilde;o e liberdade parecem garantir por si mesmas, em virtude da sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita. Nos dois conceitos-chave de &laquo; raz&atilde;o &raquo; e &laquo; liberdade &raquo;, tacitamente o pensamento coloca-se sempre em contraste com os vínculos da fé e da Igreja, como também com os vínculos dos ordenamentos estatais de ent&atilde;o. Por isso, ambos os conceitos trazem em si um potencial revolucionário de enorme for&ccedil;a explosiva.</p>
	<p>19. Temos de lan&ccedil;ar brevemente um olhar sobre duas etapas essenciais da concretiza&ccedil;&atilde;o política desta esperan&ccedil;a, porque s&atilde;o de grande import&acirc;ncia para o caminho da esperan&ccedil;a crist&atilde;, para a sua compreens&atilde;o e persist&ecirc;ncia. Há, antes de mais nada, a Revolu&ccedil;&atilde;o francesa como tentativa de instaurar o domínio da raz&atilde;o e da liberdade agora também de modo politicamente real. Inicialmente, a Europa do Iluminismo contemplou fascinada estes acontecimentos, mas depois, &agrave; vista da sua evolu&ccedil;&atilde;o, teve de reflectir de modo novo sobre raz&atilde;o e liberdade. Significativos destas duas fases de recep&ccedil;&atilde;o do que acontecera em Fran&ccedil;a s&atilde;o dois escritos de Emanuel Kant, nos quais ele reflecte sobre os acontecimentos. Em 1792, escreve a obra &laquo; <em>Der Sieg des guten Prinzips &uuml;ber das b&ouml;se und die Gr&uuml;ndung eines Reichs Gottes auf Erden</em> &raquo; (A vitória do princípio bom sobre o princípio mau e a constitui&ccedil;&atilde;o de um reino de Deus sobre a terra). Nela afirma: &laquo; A passagem gradual da fé eclesiástica ao domínio exclusivo da pura fé religiosa constitui a aproxima&ccedil;&atilde;o do reino de Deus &raquo;.<a "" href="#_ftn17" name="_ftnref17">[17]</a> Diz também que as revolu&ccedil;&otilde;es podem apressar os tempos desta passagem da fé eclesiástica &agrave; fé racional. O &laquo; reino de Deus &raquo;, de que falara Jesus, recebeu aqui uma nova defini&ccedil;&atilde;o e assumiu também uma nova presen&ccedil;a; existe, por assim dizer, uma nova &laquo; expectativa imediata &raquo;: o &laquo; reino de Deus &raquo; chega onde a &laquo; fé eclesiástica &raquo; é superada e substituída pela &laquo; fé religiosa &raquo;, ou seja, pela mera fé racional. Em 1795, no livro &laquo; <em>Das Ende aller Dinge</em> &raquo; (O fim de todas as coisas), aparece uma imagem diferente. Agora, Kant toma em considera&ccedil;&atilde;o a possibilidade de que, a par do fim natural de todas as coisas, se verifique também um fim contrário &agrave; natureza, perverso. Escreve a tal respeito: &laquo; Se acontecesse um dia chegar o cristianismo a n&atilde;o ser mais digno de amor, ent&atilde;o o pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma de rejei&ccedil;&atilde;o e de oposi&ccedil;&atilde;o contra ele; e o anticristo [&#8230;] inauguraria o seu regime, mesmo que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo e o egoísmo). Em seguida, porém, visto que o cristianismo, embora destinado a ser a religi&atilde;o universal, de facto n&atilde;o teria sido ajudado pelo destino a s&ecirc;-lo, poderia verificar-se, sob o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas &raquo;.<a "" href="#_ftn18" name="_ftnref18">[18]</a></p>
	<p>20. O século XIX n&atilde;o perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperan&ccedil;a humana e continuou a considerar raz&atilde;o e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperan&ccedil;a. Todavia a evolu&ccedil;&atilde;o sempre mais rápida do progresso técnico e a industrializa&ccedil;&atilde;o com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situa&ccedil;&atilde;o social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado &laquo; proletariado industrial &raquo;, cujas terríveis condi&ccedil;&otilde;es de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto n&atilde;o pode continuar; é necessária uma mudan&ccedil;a. Mas a mudan&ccedil;a haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolu&ccedil;&atilde;o burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolu&ccedil;&atilde;o: a proletária. O progresso n&atilde;o podia limitar-se a avan&ccedil;ar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo &agrave; salva&ccedil;&atilde;o, rumo &agrave;quilo que Kant tinha qualificado como o &laquo; reino de Deus &raquo;. Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já n&atilde;o vem simplesmente da ci&ecirc;ncia, mas da política &ndash; de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolu&ccedil;&atilde;o, da mudan&ccedil;a de todas as coisas. Com pontual precis&atilde;o, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situa&ccedil;&atilde;o do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolu&ccedil;&atilde;o. E n&atilde;o só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, gra&ccedil;as &agrave; agudeza das análises e &agrave; clara indica&ccedil;&atilde;o dos instrumentos para a mudan&ccedil;a radical, fascinou e n&atilde;o cessa de fascinar ainda hoje. E a revolu&ccedil;&atilde;o deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.</p>
	<p>21. Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactid&atilde;o o modo como realizar o derrubamento. Mas, n&atilde;o nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropria&ccedil;&atilde;o da classe dominante, a queda do poder político e a socializa&ccedil;&atilde;o dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, ent&atilde;o ficariam anuladas todas as contradi&ccedil;&otilde;es; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Ent&atilde;o tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolu&ccedil;&atilde;o, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, n&atilde;o se achava qualquer indica&ccedil;&atilde;o sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta &laquo; fase intermédia &raquo; conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, n&atilde;o dando &agrave; luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destrui&ccedil;&atilde;o desoladora. Marx n&atilde;o falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já n&atilde;o deveria haver mais necessidade deles. O facto de n&atilde;o dizer nada sobre isso é lógica consequ&ecirc;ncia da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem n&atilde;o é só o produto de condi&ccedil;&otilde;es económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condi&ccedil;&otilde;es económicas favoráveis.</p>
	<p>22. Encontramo-nos assim novamente diante da quest&atilde;o: o que é que podemos esperar? É necessária uma autocrítica da idade moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concep&ccedil;&atilde;o da esperan&ccedil;a. Neste diálogo, também os crist&atilde;os devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experi&ecirc;ncias, em que consiste verdadeiramente a sua esperan&ccedil;a, o que é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que n&atilde;o podemos oferecer. É preciso que, na autocrítica da idade moderna, conflua também uma autocrítica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes. A este respeito, pode-se aqui mencionar somente alguns indícios. Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que é que significa verdadeiramente &laquo; progresso &raquo;; o que é que ele promete e o que é que n&atilde;o promete? No século XIX, já existia uma crítica &agrave; fé no progresso. No século XX, Teodoro W. Adorno formulou, de modo drástico, a problematicidade da fé no progresso: este, visto de perto, seria o progresso da funda &agrave; megabomba. Certamente, este é um lado do progresso que n&atilde;o se deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se evidente a ambiguidade do progresso. N&atilde;o há dúvida que este oferece novas potencialidades para o bem, mas abre também possibilidades abissais de mal &ndash; possibilidades que antes n&atilde;o existiam. Todos fomos testemunhas de como o progresso em m&atilde;os erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal. Se ao progresso técnico n&atilde;o corresponde um progresso na forma&ccedil;&atilde;o ética do homem, no crescimento do homem interior (cf.<em> Ef </em>3,16;<em> 2 Cor</em> 4,16), ent&atilde;o aquele n&atilde;o é um progresso, mas uma amea&ccedil;a para o homem e para o mundo.</p>
	<p>23. No que diz respeito aos dois grandes temas &laquo; raz&atilde;o &raquo; e &laquo; liberdade &raquo;, aqui é possível apenas acenar &agrave;s quest&otilde;es relacionadas com eles. Sem dúvida, a raz&atilde;o é o grande dom de Deus ao homem, e a vitória da raz&atilde;o sobre a irracionalidade é também um objectivo da fé crist&atilde;. Mas, quando é que a raz&atilde;o domina verdadeiramente? Quando se separou de Deus? Quando ficou cega a Deus? A raz&atilde;o inteira reduz-se &agrave; raz&atilde;o do poder e do fazer? Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da humanidade, ent&atilde;o a raz&atilde;o do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente ser integrada mediante a abertura da raz&atilde;o &agrave;s for&ccedil;as salvíficas da fé, ao discernimento entre o bem e o mal. Somente assim é que se torna uma raz&atilde;o verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for capaz de indicar o caminho &agrave; vontade, e só é capaz disso se olhar para além de si própria. Caso contrário, a situa&ccedil;&atilde;o do homem, devido &agrave; discrep&acirc;ncia entre a capacidade material e a falta de juízo do cora&ccedil;&atilde;o, torna-se uma amea&ccedil;a para ele e para a cria&ccedil;&atilde;o. Por isso, falando de liberdade, é preciso recordar que a liberdade humana requer sempre um concurso de várias liberdades. Este concurso, porém, n&atilde;o se pode efectuar se n&atilde;o for determinado por um critério intrínseco comum de pondera&ccedil;&atilde;o, que é fundamento e meta da nossa liberdade. Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperan&ccedil;a. Consideradas as mudan&ccedil;as da era moderna, a afirma&ccedil;&atilde;o de S. Paulo, citada ao princípio (<em>Ef</em> 2,12), revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, n&atilde;o há dúvida de que um &laquo; reino de Deus &raquo; realizado sem Deus &ndash; e por conseguinte um reino somente do homem &ndash; resolve-se inevitavelmente no &laquo; fim perverso &raquo; de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também n&atilde;o há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, n&atilde;o basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a raz&atilde;o necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: raz&atilde;o e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e miss&atilde;o.</p>
	<p><strong><em>A verdadeira fisionomia da esperan&ccedil;a crist&atilde;</em></strong></p>
	<p>24. Retomemos agora a quest&atilde;o: o que é que podemos esperar? E o que é que n&atilde;o podemos esperar? Antes de mais, devemos constatar que um progresso por adi&ccedil;&atilde;o só é possível no campo material. Aqui, no conhecimento crescente das estruturas da matéria e correlativas inven&ccedil;&otilde;es cada vez mais avan&ccedil;adas, verifica-se claramente uma continuidade do progresso rumo a um domínio sempre maior da natureza. Mas, no &acirc;mbito da consci&ecirc;ncia ética e da decis&atilde;o moral, n&atilde;o há tal possibilidade de adi&ccedil;&atilde;o, simplesmente porque a liberdade do homem é sempre nova e deve sempre de novo tomar as suas decis&otilde;es. Nunca aparecem simplesmente já tomadas em nossa vez por outros &ndash; neste caso, de facto, deixaríamos de ser livres. A liberdade pressup&otilde;e que, nas decis&otilde;es fundamentais, cada homem, cada gera&ccedil;&atilde;o seja um novo início. Certamente as novas gera&ccedil;&otilde;es, tal como podem construir sobre os conhecimentos e as experi&ecirc;ncias daqueles que as precederam, podem haurir do tesouro moral da humanidade inteira. Mas podem também recusá-lo, pois este n&atilde;o pode ter a mesma evid&ecirc;ncia das inven&ccedil;&otilde;es materiais. O tesouro moral da humanidade n&atilde;o está presente como o est&atilde;o os instrumentos que se usam; aquele existe como convite &agrave; liberdade e como sua possibilidade. Isto, porém, significa que:</p>
	<p><em>a</em>) O recto estado das coisas humanas, o bem-estar moral do mundo n&atilde;o pode jamais ser garantido simplesmente mediante as estruturas, por mais válidas que estas sejam. Tais estruturas s&atilde;o n&atilde;o só importantes, mas necessárias; todavia, n&atilde;o podem nem devem impedir a liberdade do homem. Inclusive, as melhores estruturas só funcionam se numa comunidade subsistem convic&ccedil;&otilde;es que sejam capazes de motivar os homens para uma livre ades&atilde;o ao ordenamento comunitário. A liberdade necessita de uma convic&ccedil;&atilde;o; esta n&atilde;o existe por si mesma, mas deve ser sempre novamente conquistada comunitariamente.</p>
	<p><em>b</em>) Visto que o homem permanece sempre livre e dado que a sua liberdade é também sempre frágil, n&atilde;o existirá jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre ades&atilde;o ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevogável uma determinada &ndash; boa &ndash; condi&ccedil;&atilde;o do mundo, ficaria negada a liberdade do homem e, por este motivo, n&atilde;o seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas.</p>
	<p>25. Consequ&ecirc;ncia de tudo isto é que a busca sempre nova e trabalhosa de rectos ordenamentos para as realidades humanas é tarefa de cada gera&ccedil;&atilde;o: nunca é uma tarefa que se possa simplesmente dar por concluída. Mas, cada gera&ccedil;&atilde;o deve dar a própria contribui&ccedil;&atilde;o para estabelecer razoáveis ordenamentos de liberdade e de bem, que ajudem a gera&ccedil;&atilde;o seguinte na sua orienta&ccedil;&atilde;o para o recto uso da liberdade humana, dando assim &ndash; sempre dentro dos limites humanos &ndash; uma certa garantia para o futuro também. Por outras palavras: as boas estruturas ajudam, mas por si só n&atilde;o bastam. O homem n&atilde;o poderá jamais ser redimido simplesmente a partir de fora. Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ci&ecirc;ncia. Com uma tal expectativa, está-se a pedir demasiado &agrave; ci&ecirc;ncia; esta espécie de esperan&ccedil;a é falaz. A ci&ecirc;ncia pode contribuir muito para a humaniza&ccedil;&atilde;o do mundo e dos povos. Mas, pode também pode destruir o homem e o mundo, se n&atilde;o for orientada por for&ccedil;as que se encontram fora dela. Além disso, devemos constatar também que o cristianismo moderno, diante dos sucessos da ci&ecirc;ncia na progressiva estrutura&ccedil;&atilde;o do mundo, tinha-se concentrado em grande parte somente sobre o indivíduo e a sua salva&ccedil;&atilde;o. Deste modo, restringiu o horizonte da sua esperan&ccedil;a e n&atilde;o reconheceu suficientemente sequer a grandeza da sua tarefa &ndash; apesar de ser grande o que continuou a fazer na forma&ccedil;&atilde;o do homem e no cuidado dos fracos e dos que sofrem.</p>
	<p>26. N&atilde;o é a ci&ecirc;ncia que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no &acirc;mbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de &laquo; reden&ccedil;&atilde;o &raquo; que dá um sentido novo &agrave; sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado n&atilde;o resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: &laquo; Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor &raquo; (<em>Rom </em>8,38-39). Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, ent&atilde;o &ndash; e somente ent&atilde;o &ndash; o homem está &laquo; redimido &raquo;, independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunst&acirc;ncia. É isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo &laquo; redimiu-nos &raquo;. Através d&#8217;Ele tornamo-nos seguros de Deus &ndash; de um Deus que n&atilde;o constitui uma remota &laquo; causa primeira &raquo; do mundo, porque o seu Filho unigénito fez-Se homem e d&#8217;Ele pode cada um dizer: &laquo; Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim &raquo; (<em>Gal</em> 2,20).</p>
	<p>27. Neste sentido, é verdade que quem n&atilde;o conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperan&ccedil;as, no fundo está sem esperan&ccedil;a, sem a grande esperan&ccedil;a que sustenta toda a vida (cf. <em>Ef</em> 2,12). A verdadeira e grande esperan&ccedil;a do homem, que resiste apesar de todas as desilus&otilde;es, só pode ser Deus &ndash; o Deus que nos amou, e ama ainda agora &laquo; até ao fim &raquo;, &laquo; até &agrave; plena consuma&ccedil;&atilde;o &raquo; (cf.<em> Jo</em> 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor come&ccedil;a a intuir em que consistiria propriamente a &laquo; vida &raquo;. Come&ccedil;a a intuir o significado da palavra de esperan&ccedil;a que encontramos no rito do Baptismo: da fé espero a &laquo; vida eterna &raquo; &ndash; a vida verdadeira que, inteiramente e sem amea&ccedil;as, em toda a sua plenitude é simplesmente vida. Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abund&acirc;ncia (cf.<em> Jo</em> 10,10), também nos explicou o que significa &laquo; vida &raquo;: &laquo; A vida eterna consiste nisto: Que Te conhe&ccedil;am a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste &raquo; (<em>Jo </em>17,3). A vida, no verdadeiro sentido, n&atilde;o a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma rela&ccedil;&atilde;o. E a vida na sua totalidade é rela&ccedil;&atilde;o com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em rela&ccedil;&atilde;o com Aquele que n&atilde;o morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, ent&atilde;o estamos na vida. Ent&atilde;o &laquo; vivemos &raquo;.</p>
	<p>28. Surge agora, porém, a quest&atilde;o: n&atilde;o será que, desta maneira, caímos de novo no individualismo da salva&ccedil;&atilde;o? Na esperan&ccedil;a só para mim, que aliás n&atilde;o é uma esperan&ccedil;a verdadeira porque esquece e descuida os outros? N&atilde;o. A rela&ccedil;&atilde;o com Deus estabelece-se através da comunh&atilde;o com Jesus &ndash; sozinhos e apenas com as nossas possibilidades n&atilde;o o conseguimos. Mas, a rela&ccedil;&atilde;o com Jesus é uma rela&ccedil;&atilde;o com Aquele que Se entregou a Si próprio em resgate por todos nós (cf.<em> 1 Tim </em>2,6). O facto de estarmos em comunh&atilde;o com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser &laquo; para todos &raquo;, fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a ser para os outros, mas só na comunh&atilde;o com Ele é que se torna possível sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade. Neste contexto, queria citar o grande doutor grego da Igreja, S. Máximo o Confessor (&dagger; 662), o qual come&ccedil;a por exortar a n&atilde;o antepor nada ao conhecimento e ao amor de Deus, mas depois passa imediatamente a aplica&ccedil;&otilde;es muito práticas: &laquo; Quem ama Deus n&atilde;o pode reservar o dinheiro para si próprio. Distribui-o de modo &ldquo;divino&rdquo; [&#8230;] do mesmo modo segundo a medida da justi&ccedil;a &raquo;.<a "" href="#_ftn19" name="_ftnref19">[19]</a> Do amor para com Deus consegue a participa&ccedil;&atilde;o na justi&ccedil;a e na bondade de Deus para com os outros; amar a Deus requer a liberdade interior diante de cada bem possuído e de todas as coisas materiais: o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro.<a "" href="#_ftn20" name="_ftnref20">[20]</a> A mesma conex&atilde;o entre amor de Deus e responsabilidade pelos homens podemos observá-la com como&ccedil;&atilde;o na vida de S. Agostinho. Depois da sua convers&atilde;o &agrave; fé crist&atilde;, ele, juntamente com alguns amigos possuídos pelos mesmos ideais, queria levar uma vida dedicada totalmente &agrave; palavra de Deus e &agrave;s realidades eternas. Pretendia realizar com valores crist&atilde;os o ideal da vida contemplativa expressa pela grande filosofia grega, escolhendo deste modo &laquo; a melhor parte &raquo; (cf.<em> Lc</em> 10,42). Mas as coisas foram de outro modo. Participava ele na Missa dominical, na cidade portuária de Hipona, quando foi chamado pelo Bispo do meio da multid&atilde;o e instado a deixar-se ordenar para exercer o ministério sacerdotal naquela cidade. Olhando retrospectivamente para aquela hora, escreve nas suas &laquo; <em>Confiss&otilde;es</em> &raquo;: &laquo; Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha resolvido e meditado em meu cora&ccedil;&atilde;o, o projecto de fugir para o ermo. Mas Vós mo impedistes e me fortalecestes dizendo: &ldquo;Cristo morreu por todos, para que os viventes n&atilde;o vivam para si, mas para Aquele que morreu por todos&rdquo; (cf.<em> 2 Cor</em> 5,15) &raquo;.<a "" href="#_ftn21" name="_ftnref21">[21]</a> Cristo morreu por todos. Viver para Ele significa deixar-se envolver no seu &laquo; ser para &raquo;.</p>
	<p>29. Para Agostinho, isto significou uma vida totalmente nova. Assim descreveu ele uma vez o seu dia-a-dia: &laquo; Corrigir os indisciplinados, confortar os pusil&acirc;nimes, amparar os fracos, refutar os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprova&ccedil;&atilde;o aos bons, tolerar o maus e [ai de mim!] amar a todos &raquo;.<a "" href="#_ftn22" name="_ftnref22">[22]</a> &laquo; É o Evangelho que me assusta &raquo;<a "" href="#_ftn23" name="_ftnref23">[23]</a> &ndash; aquele susto salutar que nos impede de viver para nós mesmos e que nos impele a transmitir a nossa esperan&ccedil;a comum. De facto, era esta precisamente a inten&ccedil;&atilde;o de Agostinho: na difícil situa&ccedil;&atilde;o do império romano, que amea&ccedil;ava também a África romana e &ndash; no final da vida de Agostinho &ndash; até a destruiu, transmite esperan&ccedil;a, a esperan&ccedil;a que lhe vinha da fé e que, contrariamente ao seu temperamento introvertido, o tornou capaz de participar decididamente e com todas as for&ccedil;as na edifica&ccedil;&atilde;o da cidade. No mesmo capítulo das<em> Confiss&otilde;es</em>, onde acabámos de ver o motivo decisivo do seu empenhamento &laquo; por todos &raquo;, diz ele: Cristo &laquo; intercede por nós. Doutro modo desesperaria, pois s&atilde;o muitas e grandes as minhas fraquezas! Sim, s&atilde;o muito pesadas, mas maior é o poder da vossa medicina. Poderíamos pensar que a vossa Palavra Se tinha afastado da uni&atilde;o com o homem e desesperado de nos salvar, se n&atilde;o se tivesse feito homem e habitado entre nós &raquo;.<a "" href="#_ftn24" name="_ftnref24">[24]</a> Em virtude da sua esperan&ccedil;a, Agostinho prodigalizou-se pelas pessoas simples e pela sua cidade &ndash; renunciou &agrave; sua nobreza espiritual e pregou e agiu de modo simples para a gente simples.</p>
	<p>30. Fa&ccedil;amos um resumo daquilo que emergiu no desenrolar das nossas reflex&otilde;es. O homem, na sucess&atilde;o dos dias, tem muitas esperan&ccedil;as &ndash; menores ou maiores &ndash; distintas nos diversos períodos da sua vida. &Agrave;s vezes pode parecer que uma destas esperan&ccedil;as o satisfa&ccedil;a totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperan&ccedil;a do grande e fagueiro amor; a esperan&ccedil;a de uma certa posi&ccedil;&atilde;o na profiss&atilde;o, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperan&ccedil;as se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso n&atilde;o era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperan&ccedil;a que vá mais além. V&ecirc;-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcan&ccedil;ar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperan&ccedil;a da instaura&ccedil;&atilde;o de um mundo perfeito que, gra&ccedil;as aos conhecimentos da ci&ecirc;ncia e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperan&ccedil;a bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperan&ccedil;a do reino do homem, pela esperan&ccedil;a de um mundo melhor que seria o verdadeiro &laquo; reino de Deus &raquo;. Esta parecia finalmente a esperan&ccedil;a grande e realista de que o homem necessita. Estava em condi&ccedil;&otilde;es de mobilizar &ndash; por um certo tempo &ndash; todas as energias do homem; o grande objectivo parecia merecedor de todo o esfor&ccedil;o. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperan&ccedil;a escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperan&ccedil;a para os homens de amanh&atilde;, mas n&atilde;o uma esperan&ccedil;a para mim. E, embora o elemento &laquo; para todos &raquo; fa&ccedil;a parte da grande esperan&ccedil;a &ndash; com efeito, n&atilde;o posso ser feliz contra e sem os demais &ndash; o certo é que uma esperan&ccedil;a que n&atilde;o me diga respeito a mim pessoalmente n&atilde;o é sequer uma verdadeira esperan&ccedil;a. E tornou-se evidente que esta era uma esperan&ccedil;a contra a liberdade, porque a situa&ccedil;&atilde;o das realidades humanas depende em cada gera&ccedil;&atilde;o novamente da livre decis&atilde;o dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condi&ccedil;&otilde;es e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, n&atilde;o seria bom, porque um mundo sem liberdade n&atilde;o é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esfor&ccedil;o pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanh&atilde; n&atilde;o pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperan&ccedil;a. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é &laquo; melhor &raquo; o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcan&ccedil;ar esta &laquo; bondade &raquo;?</p>
	<p>31. Mais ainda: precisamos das esperan&ccedil;as &ndash; menores ou maiores &ndash; que, dia após dia, nos mant&ecirc;m a caminho. Mas, sem a grande esperan&ccedil;a que deve superar tudo o resto, aquelas n&atilde;o bastam. Esta grande esperan&ccedil;a só pode ser Deus, que abra&ccedil;a o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, n&atilde;o podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperan&ccedil;a. Deus é o fundamento da esperan&ccedil;a &ndash; n&atilde;o um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino n&atilde;o é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcan&ccedil;a. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperan&ccedil;a, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é &laquo; verdadeiramente &raquo; vida. Procuremos concretizar ainda mais esta ideia na última parte, dirigindo a nossa aten&ccedil;&atilde;o para alguns &laquo; lugares &raquo; de aprendizagem prática e de exercício da esperan&ccedil;a.</p>
	<p align="left"><em><strong>&laquo; Lugares &raquo; de aprendizagem e de exercício da esperan&ccedil;a</strong></em></p>
	<p align="center"><strong>I. A ora&ccedil;&atilde;o como escola da esperan&ccedil;a</strong></p>
	<p>32. Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperan&ccedil;a é a ora&ccedil;&atilde;o. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já n&atilde;o posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se n&atilde;o há mais ninguém que me possa ajudar &ndash; por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar &ndash; Ele pode ajudar-me.<a "" href="#_ftn25" name="_ftnref25">[25]</a> Se me encontro confinado numa extrema solid&atilde;o&#8230;o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de pris&atilde;o, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: <em>Ora&ccedil;&otilde;es de esperan&ccedil;a</em>. Durante 13 anos de pris&atilde;o, numa situa&ccedil;&atilde;o de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma for&ccedil;a crescente de esperan&ccedil;a, que, depois da sua liberta&ccedil;&atilde;o, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperan&ccedil;a, daquela grande esperan&ccedil;a que n&atilde;o declina, mesmo nas noites da solid&atilde;o.</p>
	<p>33. De forma muito bela Agostinho ilustrou a rela&ccedil;&atilde;o íntima entre ora&ccedil;&atilde;o e esperan&ccedil;a, numa homilia sobre a<em> Primeira Carta de Jo&atilde;o</em>. Ele define a ora&ccedil;&atilde;o como um exercício do desejo. O homem foi criado para uma realidade grande ou seja, para o próprio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas, o seu cora&ccedil;&atilde;o é demasiado estreito para a grande realidade que lhe está destinada. Tem de ser dilatado. &laquo; Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons &raquo;. Aqui Agostinho pensa em S. Paulo que, de si mesmo, afirma viver inclinado para as coisas que h&atilde;o-de vir (<em>Fil</em> 3,13). Depois usa uma imagem muito bela para descrever este processo de dilata&ccedil;&atilde;o e prepara&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o humano. &laquo; Sup&otilde;e que Deus queira encher-te de mel (símbolo da ternura de Deus e da sua bondade). Se tu, porém, estás cheio de vinagre, onde vais p&ocirc;r o mel? &raquo; O vaso, ou seja o cora&ccedil;&atilde;o, deve primeiro ser dilatado e depois limpo: livre do vinagre e do seu sabor. Isto requer trabalho, faz sofrer, mas só assim se realiza o ajustamento &agrave;quilo para que somos destinados.<a "" href="#_ftn26" name="_ftnref26">[26]</a> Apesar de Agostinho falar directamente só da receptividade para Deus, resulta claro, no entanto, que o homem neste esfor&ccedil;o, com que se livra do vinagre e do seu sabor amargo, n&atilde;o se torna livre só para Deus, mas abre-se também para os outros. De facto, só tornando-nos filhos de Deus é que podemos estar com o nosso Pai comum. Orar n&atilde;o significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correcto de rezar é um processo de purifica&ccedil;&atilde;o interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens. Na ora&ccedil;&atilde;o, o homem deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que é digno de Deus. Deve aprender que n&atilde;o pode rezar contra o outro. Deve aprender que n&atilde;o pode pedir as coisas superficiais e cómodas que de momento deseja &ndash; a pequena esperan&ccedil;a equivocada que o leva para longe de Deus. Deve purificar os seus desejos e as suas esperan&ccedil;as. Deve livrar-se das mentiras secretas com que se engana a si próprio: Deus perscruta-as, e o contacto com Deus obriga o homem a reconhec&ecirc;-las também. &laquo; Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas &raquo;, reza o Salmista (19/18,13). O n&atilde;o reconhecimento da culpa, a ilus&atilde;o de inoc&ecirc;ncia n&atilde;o me justifica nem me salva, porque o entorpecimento da consci&ecirc;ncia, a incapacidade de reconhecer em mim o mal enquanto tal é culpa minha. Se Deus n&atilde;o existe, talvez me deva refugiar em tais mentiras, porque n&atilde;o há ninguém que me possa perdoar, ninguém que seja a medida verdadeira. Pelo contrário, o encontro com Deus desperta a minha consci&ecirc;ncia, para que deixe de fornecer-me uma autojustifica&ccedil;&atilde;o, cesse de ser um reflexo de mim mesmo e dos contempor&acirc;neos que me condicionam, mas se torne capacidade de escuta do mesmo Bem.</p>
	<p>34. Para que a ora&ccedil;&atilde;o desenvolva esta for&ccedil;a purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes ora&ccedil;&otilde;es da Igreja e dos santos, pela ora&ccedil;&atilde;o litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo. O Cardeal Nyugen Van Thuan, contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado &agrave;s palavras de ora&ccedil;&atilde;o da Igreja: ao Pai Nosso, &agrave; Ave Maria e &agrave;s ora&ccedil;&otilde;es da Liturgia.<a "" href="#_ftn27" name="_ftnref27">[27]</a> Na ora&ccedil;&atilde;o, deve haver sempre este entrela&ccedil;amento de ora&ccedil;&atilde;o pública e ora&ccedil;&atilde;o pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus fala a nós. Deste modo, realizam-se em nós as purifica&ccedil;&otilde;es, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e idóneos ao servi&ccedil;o dos homens. Assim tornamo-nos capazes da grande esperan&ccedil;a e ministros da esperan&ccedil;a para os outros: a esperan&ccedil;a em sentido crist&atilde;o é sempre esperan&ccedil;a também para os outros. E é esperan&ccedil;a activa, que nos faz lutar para que as coisas n&atilde;o caminhem para o &laquo; fim perverso &raquo;. É esperan&ccedil;a activa precisamente também no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus. Somente assim, ela permanece também uma esperan&ccedil;a verdadeiramente humana.</p>
	<p align="center"><strong>II. Agir e sofrer como lugares de aprendizagem da esperan&ccedil;a</strong></p>
	<p>35. Toda a ac&ccedil;&atilde;o séria e recta do homem é esperan&ccedil;a em acto. É-o antes de tudo no sentido de que assim procuramos concretizar as nossas esperan&ccedil;as menores ou maiores: resolver este ou aquele assunto que é importante, para prosseguir na caminhada da vida; com o nosso empenho contribuir a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram também as portas para o futuro. Mas o esfor&ccedil;o quotidiano pela continua&ccedil;&atilde;o da nossa vida e pelo futuro da comunidade cansa-nos ou transforma-se em fanatismo, se n&atilde;o nos ilumina a luz daquela grande esperan&ccedil;a que n&atilde;o pode ser destruída sequer pelos pequenos fracassos e pela fal&ecirc;ncia em vicissitudes de alcance histórico. Se n&atilde;o podemos esperar mais do que é realmente alcan&ccedil;ável de cada vez e de quanto nos seja possível oferecerem as autoridades políticas e económicas, a nossa vida arrisca-se a ficar bem depressa sem esperan&ccedil;a. É importante saber: eu posso sempre continuar a esperar, ainda que pela minha vida ou pelo momento histórico que estou a viver aparentemente n&atilde;o tenha mais qualquer motivo para esperar. Só a grande esperan&ccedil;a-certeza de que, n&atilde;o obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto est&atilde;o conservadas no poder indestrutível do Amor e, gra&ccedil;as a isso e por isso, possuem sentido e import&acirc;ncia, só uma tal esperan&ccedil;a pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar. Certamente, n&atilde;o podemos &laquo; construir &raquo; o reino de Deus com as nossas for&ccedil;as; o que construímos permanece sempre reino do homem com todos os limites próprios da natureza humana. O reino de Deus é um dom, e por isso mesmo é grande e belo, constituindo a resposta &agrave; esperan&ccedil;a. Nem podemos &ndash; para usar a terminologia clássica &ndash; &laquo; merecer &raquo; o céu com as nossas obras. Este é sempre mais do que aquilo que merecemos, tal como o ser amados nunca é algo &laquo; merecido &raquo;, mas um dom. Porém, com toda a nossa consci&ecirc;ncia da &laquo; mais valia &raquo; do céu, permanece igualmente verdade que o nosso agir n&atilde;o é indiferente diante de Deus e, portanto, também n&atilde;o o é para o desenrolar da história. Podemos abrir-nos nós mesmos e o mundo ao ingresso de Deus: da verdade, do amor e do bem. É o que fizeram os santos que, como &laquo; colaboradores de Deus &raquo; contribuíram para a salva&ccedil;&atilde;o do mundo (cf. <em>1 Cor</em> 3,9;<em> 1 Tes </em>3,2). Temos a possibilidade de livrar a nossa vida e o mundo dos venenos e contamina&ccedil;&otilde;es que poderiam destruir o presente e o futuro. Podemos descobrir e manter limpas as fontes da cria&ccedil;&atilde;o e assim, juntamente com a cria&ccedil;&atilde;o que nos precede como dom recebido, fazer o que é justo conforme as suas intrínsecas exig&ecirc;ncias e a sua finalidade. Isto conserva um sentido, mesmo quando, aparentemente, n&atilde;o temos sucesso ou parecemos impotentes face &agrave; hegemonia de for&ccedil;as hostis. Assim, por um lado, da nossa ac&ccedil;&atilde;o nasce esperan&ccedil;a para nós e para os outros; mas, ao mesmo tempo, é a grande esperan&ccedil;a apoiada nas promessas de Deus que, tanto nos momentos bons como nos maus, nos dá coragem e orienta o nosso agir.</p>
	<p>36. Tal como o agir, também o sofrimento faz parte da exist&ecirc;ncia humana. Este deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, do volume de culpa que se acumulou ao longo da história e, mesmo actualmente, cresce de modo irreprimível. Certamente é preciso fazer tudo o possível para diminuir o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Todos estes s&atilde;o deveres tanto da justi&ccedil;a como da caridade, que se inserem nas exig&ecirc;ncias fundamentais da exist&ecirc;ncia crist&atilde; e de cada vida verdadeiramente humana. Na luta contra a dor física conseguiu-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes e inclusive os sofrimentos psíquicos aumentaram durante os últimos decénios. Devemos &ndash; é verdade &ndash; fazer tudo por superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo n&atilde;o entra nas nossas possibilidades, simplesmente porque n&atilde;o podemos desfazer-nos da nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, da culpa que &ndash; como constatámos &ndash; é fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que pessoalmente entra na história fazendo-Se homem e sofre nela. Nós sabemos que este Deus existe e que por isso este poder que &laquo; tira os pecados do mundo &raquo; (<em>Jo</em> 1,29) está presente no mundo. Com a fé na exist&ecirc;ncia deste poder, surgiu na história a esperan&ccedil;a da cura do mundo. Mas, trata-se precisamente de esperan&ccedil;a, e n&atilde;o ainda de cumprimento; esperan&ccedil;a que nos dá a coragem de nos colocarmos da parte do bem, inclusive onde a realidade parece sem esperan&ccedil;a, cientes de que, olhando o desenrolar da história tal como nos aparece exteriormente, o poder da culpa vai continuar uma presen&ccedil;a terrível ainda no futuro.</p>
	<p>37. Voltemos ao nosso tema. Podemos procurar limitar o sofrimento e lutar contra ele, mas n&atilde;o podemos eliminá-lo. Precisamente onde os homens, na tentativa de evitar qualquer sofrimento, procuram esquivar-se de tudo o que poderia significar padecimento, onde querem evitar a canseira e o sofrimento por causa da verdade, do amor, do bem, descambam numa vida vazia, na qual provavelmente já quase n&atilde;o existe a dor, mas experimenta-se muito mais a obscura sensa&ccedil;&atilde;o da falta de sentido e da solid&atilde;o. N&atilde;o é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribula&ccedil;&atilde;o e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da uni&atilde;o com Cristo, que sofreu com infinito amor. Neste contexto, desejo citar algumas frases de uma carta do mártir vietnamita Paulo Le-Bao-Thin (&dagger; 1857), onde é clara esta transforma&ccedil;&atilde;o do sofrimento mediante a for&ccedil;a da esperan&ccedil;a que provém da fé. &laquo; Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero falar-vos das tribula&ccedil;&otilde;es que suporto cada dia, para que, inflamados no amor de Deus, comigo louveis o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia (<em>Sal</em> 136/135). Este cárcere é realmente a imagem do inferno eterno: além de suplícios de todo o género, tais como algemas, grilh&otilde;es, cadeias de ferro, tenho de suportar o ódio, as agress&otilde;es, calúnias, palavras indecorosas, repreens&otilde;es, maldades, juramentos falsos, e, além disso, as angústias e a tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os tr&ecirc;s jovens da fornalha ardente, está sempre comigo e libertou-me destas tribula&ccedil;&otilde;es, convertendo-as em suave do&ccedil;ura, porque é eterna a sua misericórdia. Imerso nestes tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela gra&ccedil;a de Deus sinto-me alegre e contente, porque n&atilde;o estou só, mas estou com Cristo. [&#8230;] Como posso eu suportar este espectáculo, ao ver todos os dias os imperadores, mandarins e seus guardas blasfemar o vosso santo nome, Senhor, que estais sentado sobre os Querubins (cf. <em>Sal</em> 80/79, 2) e os Serafins? Vede como a vossas cruz é calcada aos pés dos pag&atilde;os! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isto, sinto inflamar-se o meu cora&ccedil;&atilde;o no vosso amor e prefiro ser dilacerado e morrer em testemunho da vossa infinita bondade. Mostrai, Senhor, o vosso poder, salvai-me e amparai-me, para que na minha fraqueza se manifeste a vossa for&ccedil;a e seja glorificada diante dos gentios [&#8230;] Ouvindo tudo isto, caríssimos irm&atilde;os, tende coragem e alegrai-vos, dai gra&ccedil;as eternamente a Deus, de quem procedem todos os bens, bendizei comigo ao Senhor, porque é eterna a sua misericórdia [&#8230;] Escrevo todas estas coisas, para que estejam unidas a vossa e a minha fé. No meio da tempestade, lan&ccedil;o a &acirc;ncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperan&ccedil;a viva que está no meu cora&ccedil;&atilde;o &raquo;.<a "" href="#_ftn28" name="_ftnref28">[28]</a> Esta é uma carta do &laquo; inferno &raquo;. Nela se mostra todo o horror de um campo de concentra&ccedil;&atilde;o, onde aos tormentos infligidos pelos tiranos se vem juntar o desencadeamento do mal nas mesmas vítimas que, deste modo, se tornam novos instrumentos da crueldade dos algozes. É uma carta do inferno, mas nela tem cumprimento a palavra do <em>Salmo</em>: &laquo; Se subir aos céus, lá Vos encontro, se descer aos infernos, igualmente. [&#8230;] Se eu disser: &ldquo;ao menos as trevas me cobrir&atilde;o&rdquo;, [&#8230;] nem sequer as trevas ser&atilde;o bastante escuras para Vós, e a noite será clara como o dia, tanto faz a luz como as trevas &raquo; (<em>Sl </em>139/138, 8-12; cf. também<em> Sal</em> 23//22, 4). Cristo desceu aos &laquo; infernos &raquo; ficando assim perto de quem é nele lan&ccedil;ado, transformando para ele as trevas em luz. O sofrimento, os tormentos continuam terríveis e quase insuportáveis. Surgiu, porém, a estrela da esperan&ccedil;a, a &acirc;ncora do cora&ccedil;&atilde;o chega até o trono de Deus. N&atilde;o se desencadeia o mal no homem, mas vence a luz: o sofrimento &ndash; sem deixar de o ser &ndash; torna-se, apesar de tudo, canto de louvor.</p>
	<p>38. A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na rela&ccedil;&atilde;o com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade. Uma sociedade que n&atilde;o consegue aceitar os que sofrem e n&atilde;o é capaz de contribuir, mediante a com-paix&atilde;o, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana. A sociedade, porém, n&atilde;o pode aceitar os que sofrem e apoiá-los no seu sofrimento, se os próprios indivíduos n&atilde;o s&atilde;o capazes disso mesmo; e, por outro lado, o indivíduo n&atilde;o pode aceitar o sofrimento do outro, se ele pessoalmente n&atilde;o consegue encontrar no sofrimento um sentido, um caminho de purifica&ccedil;&atilde;o e de amadurecimento, um caminho de esperan&ccedil;a. Aceitar o outro que sofre significa, de facto, assumir de alguma forma o seu sofrimento, de tal modo que este se torna também meu. Mas, precisamente porque agora se tornou sofrimento compartilhado, no qual há a presen&ccedil;a do outro, este sofrimento é penetrado pela luz do amor. A palavra latina <em>con-solatio</em>, consola&ccedil;&atilde;o, exprime isto mesmo de forma muito bela sugerindo um estar-com na solid&atilde;o, que ent&atilde;o deixa der ser solid&atilde;o. Mas, a capacidade de aceitar o sofrimento por amor do bem, da verdade e da justi&ccedil;a é também constitutiva da grandeza da humanidade, porque se, em definitiva, o meu bem-estar, a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justi&ccedil;a, ent&atilde;o vigora o domínio do mais forte; ent&atilde;o reinam a viol&ecirc;ncia e a mentira. A verdade e a justi&ccedil;a devem estar acima da minha comodidade e incolumidade física, sen&atilde;o a minha própria vida torna-se uma mentira. E, por fim, também o &laquo; sim &raquo; ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropria&ccedil;&otilde;es do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor n&atilde;o pode de modo algum existir sem esta renúncia mesmo dolorosa a mim mesmo, sen&atilde;o torna-se puro egoísmo, anulando-se deste modo a si próprio enquanto tal.</p>
	<p>39. Sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justi&ccedil;a; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes s&atilde;o elementos fundamentais de humanidade, o seu abandono destruiria o mesmo homem. Entretanto levanta-se uma vez mais a quest&atilde;o: somos capazes disto? O outro é suficientemente importante, para que por ele eu me torne uma pessoa que sofre? Para mim, a verdade é t&atilde;o importante que compensa o sofrimento? A promessa do amor é assim t&atilde;o grande que justifique o dom de mim mesmo? Na história da humanidade, cabe &agrave; fé crist&atilde; precisamente o mérito de ter suscitado no homem, de maneira nova e a uma nova profundidade, a capacidade dos referidos modos de sofrer que s&atilde;o decisivos para a sua humanidade. A fé crist&atilde; mostrou-nos que verdade, justi&ccedil;a, amor n&atilde;o s&atilde;o simplesmente ideais, mas realidades de imensa densidade. Com efeito, mostrou-nos que Deus &ndash; a Verdade e o Amor em pessoa &ndash; quis sofrer por nós e connosco. Bernardo de Claraval cunhou esta frase maravilhosa:<em> Impassibilis est Deus</em>,<em> sed non incompassibilis </em><a "" href="#_ftn29" name="_ftnref29">[29]</a> &ndash; Deus n&atilde;o pode padecer, mas pode-se compadecer. O homem tem para Deus um valor t&atilde;o grande que Ele mesmo Se fez homem para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue, como nos é demonstrado na narra&ccedil;&atilde;o da Paix&atilde;o de Jesus. A partir de lá entrou em todo o sofrimento humano alguém que partilha o sofrimento e a sua suporta&ccedil;&atilde;o; a partir de lá se propaga em todo o sofrimento a<em> con-solatio</em>, a consola&ccedil;&atilde;o do amor solidário de Deus, surgindo assim a estrela da esperan&ccedil;a. Certamente, nos nossos inúmeros sofrimentos e provas sempre temos necessidade também das nossas pequenas ou grandes esperan&ccedil;as &ndash; de uma visita amiga, da cura das feridas internas e externas, da solu&ccedil;&atilde;o positiva de uma crise, etc. Nas prova&ccedil;&otilde;es menores, estes tipos de esperan&ccedil;a podem mesmo ser suficientes. Mas, nas prova&ccedil;&otilde;es verdadeiramente graves, quando tenho de assumir a decis&atilde;o definitiva de antepor a verdade ao bem-estar, &agrave; carreira e &agrave; propriedade, a certeza da verdadeira grande esperan&ccedil;a, de que falámos, faz-se necessária. Para isto, precisamos também de testemunhas, de mártires, que se entregaram totalmente, para que no-lo manifestem, dia após dia. Temos necessidade deles para preferirmos, mesmo nas pequenas alternativas do dia-a-dia, o bem &agrave; comodidade, sabendo que precisamente assim vivemos a vida de verdade. Digamo-lo uma vez mais: a capacidade de sofrer por amor da verdade é medida de humanidade. No entanto, esta capacidade de sofrer depende do género e da grandeza da esperan&ccedil;a que trazemos dentro de nós e sobre a qual construímos. Os santos puderam percorrer o grande caminho do ser-homem no modo como Cristo o percorreu antes de nós, porque estavam repletos da grande esperan&ccedil;a.</p>
	<p>40. Gostaria de acrescentar ainda uma pequena observa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sem import&acirc;ncia para os acontecimentos de todos os dias. Fazia parte duma forma de devo&ccedil;&atilde;o &ndash; talvez menos praticada hoje, mas n&atilde;o vai ainda há muito tempo que era bastante difundida &ndash; a ideia de poder &laquo; oferecer &raquo; as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequ&ecirc;ncia como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. Nesta devo&ccedil;&atilde;o, houve sem dúvida coisas exageradas e talvez mesmo estranhas, mas é preciso interrogar-se se n&atilde;o havia de algum modo contido nela algo de essencial que poderia servir de ajuda. O que significa &laquo; oferecer &raquo;? Estas pessoas estavam convencidas de poderem inserir no grande com-padecer de Cristo as suas pequenas canseiras, que entravam assim, de algum modo, a fazer parte do tesouro de compaix&atilde;o de que o género humano necessita. Deste modo, também as mesmas pequenas moléstias do dia-a-dia poderiam adquirir um sentido e contribuir para a economia do bem, do amor entre os homens. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto n&atilde;o poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós.</p>
	<p align="center"><strong>III. O Juízo como lugar de aprendizagem e de exercício da esperan&ccedil;a</strong></p>
	<p>41. No grande <em>Credo </em>da Igreja, a parte central &ndash; que trata do mistério de Cristo a partir da sua gera&ccedil;&atilde;o eterna no Pai e do nascimento temporal da Virgem Maria, passando pela cruz e a ressurrei&ccedil;&atilde;o até ao seu retorno &ndash; conclui com as palavras: &laquo; &#8230; de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos &raquo;. Já desde os primeiros tempos, a perspectiva do Juízo influenciou os crist&atilde;os até na sua própria vida quotidiana enquanto critério segundo o qual ordenar a vida presente, enquanto apelo &agrave; sua consci&ecirc;ncia e, ao mesmo tempo, enquanto esperan&ccedil;a na justi&ccedil;a de Deus. A fé em Cristo nunca se limitou a olhar só para trás nem só para o alto, mas olhou sempre também para a frente para a hora da justi&ccedil;a que o Senhor repetidas vezes preanunciara. Este olhar para diante conferiu ao cristianismo a sua import&acirc;ncia para o presente. Na configura&ccedil;&atilde;o dos edifícios sacros crist&atilde;os, que queriam tornar visível a vastid&atilde;o histórica e cósmica da fé em Cristo, tornou-se habitual representar, no lado oriental, o Senhor que volta como rei &ndash; a imagem da esperan&ccedil;a &ndash;, e no lado ocidental, o Juízo final como imagem da responsabilidade pela nossa vida, uma representa&ccedil;&atilde;o que apontava e acompanhava precisamente os fiéis na sua caminhada diária. Na evolu&ccedil;&atilde;o da iconografia, porém, foise dando cada vez mais relevo ao aspecto amea&ccedil;ador e lúgubre do Juízo, que obviamente fascinava os artistas mais do que o esplendor da esperan&ccedil;a que acabava, com frequ&ecirc;ncia, excessivamente escondido por debaixo da amea&ccedil;a.</p>
	<p>42. Na época moderna, o pensamento do Juízo final diluiu-se: a fé crist&atilde; é caracterizada e orientada sobretudo para a salva&ccedil;&atilde;o pessoal da alma; ao contrário, a reflex&atilde;o sobre a história universal está em grande parte dominada pela ideia do progresso. Todavia, o conteúdo fundamental da expectativa do Juízo n&atilde;o desapareceu pura e simplesmente. Agora, porém, assume uma forma totalmente distinta. O ateísmo dos séculos XIX e XX é, de acordo com as suas raízes e finalidade, um moralismo: um protesto contra as injusti&ccedil;as do mundo e da história universal. Um mundo, onde exista uma tal dimens&atilde;o de injusti&ccedil;a, de sofrimento dos inocentes e de cinismo do poder, n&atilde;o pode ser a obra de um Deus bom. O Deus que tivesse a responsabilidade de um mundo assim, n&atilde;o seria um Deus justo e menos ainda um Deus bom. É em nome da moral que é preciso contestar este Deus. Visto que n&atilde;o há um Deus que cria justi&ccedil;a, parece que o próprio homem seja agora chamado a estabelecer a justi&ccedil;a. Se diante do sofrimento deste mundo o protesto contra Deus é compreensível, a pretens&atilde;o de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer, é presun&ccedil;osa e intrinsecamente n&atilde;o verdadeira. N&atilde;o é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e viola&ccedil;&otilde;es da justi&ccedil;a, mas funda-se na falsidade intrínseca desta pretens&atilde;o. Um mundo que deve criar a justi&ccedil;a por sua conta, é um mundo sem esperan&ccedil;a. Nada e ninguém responde pelo sofrimento dos séculos. Nada e ninguém garante que o cinismo do poder &ndash; independentemente do revestimento ideológico sedutor com que se apresente &ndash; n&atilde;o continue a imperar no mundo. Foi assim que os grandes pensadores da escola de Francoforte, Max Horkheimer e Teodoro W. Adorno, criticaram tanto o ateísmo como o teísmo. Horkheimer excluiu radicalmente que se possa encontrar qualquer substitutivo imanente para Deus, rejeitando porém, ao mesmo tempo, a imagem do Deus bom e justo. Numa radicaliza&ccedil;&atilde;o extrema da proibi&ccedil;&atilde;o das imagens no Antigo Testamento, ele fala da &laquo; nostalgia do totalmente Outro &raquo; que permanece inacessível &ndash; um grito do desejo dirigido &agrave; história universal. Adorno também se ateve decididamente a esta renúncia de toda a imagem que exclui, precisamente, também a &laquo; imagem &raquo; do Deus que ama. Mas ele sempre sublinhou esta dialética &laquo; negativa &raquo;, afirmando que a justi&ccedil;a, uma verdadeira justi&ccedil;a, requereria um mundo &laquo; onde n&atilde;o só fosse anulado o sofrimento presente, mas também revogado o que passou irrevogavelmente. &raquo;.<a "" href="#_ftn30" name="_ftnref30">[30]</a> Isto, porém, significaria &ndash; expresso em símbolos positivos e, portanto, para ele inadequados &ndash; que n&atilde;o pode haver justi&ccedil;a sem ressurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos e, concretamente, sem a sua ressurrei&ccedil;&atilde;o corporal. Todavia uma tal perspectiva, comportaria &laquo; a ressurrei&ccedil;&atilde;o da carne, um dado que para o idealismo, para o reino do espírito absoluto, é totalmente estranho &raquo;.<a "" href="#_ftn31" name="_ftnref31">[31]</a></p>
	<p>43. Da rigorosa renúncia a qualquer imagem, que faz parte do primeiro Mandamento de Deus (cf.<em> Ex</em> 20,4), também o crist&atilde;o pode e deve aprender sempre de novo. A verdade da teologia negativa foi evidenciada pelo IV Concílio de Latr&atilde;o, ao declarar explicitamente que, por grande que seja a semelhan&ccedil;a verificada entre o Criador e a criatura, sempre maior é a diferen&ccedil;a entre ambos.<a "" href="#_ftn32" name="_ftnref32">[32]</a> Para o crente, no entanto, a renúncia a qualquer imagem n&atilde;o pode ir até ao ponto em que se devia deter, como gostariam Horkheimer e Adorno, no &laquo; n&atilde;o &raquo; a ambas as teses: ao teísmo e ao ateísmo. O mesmo Deus fez-Se uma &laquo; imagem &raquo;: em Cristo que Se fez homem. N&#8217;Ele, o Crucificado, a nega&ccedil;&atilde;o de imagens erradas de Deus é levada ao extremo. Agora, Deus revela a sua Face precisamente na figura do servo sofredor que partilha a condi&ccedil;&atilde;o do homem abandonado por Deus, tomando-a sobre si. Este sofredor inocente tornou-se esperan&ccedil;a-certeza: Deus existe, e Deus sabe criar a justi&ccedil;a de um modo que nós n&atilde;o somos capazes de conceber mas que, pela fé, podemos intuir. Sim, existe a ressurrei&ccedil;&atilde;o da carne.<a "" href="#_ftn33" name="_ftnref33">[33]</a> Existe uma justi&ccedil;a.<a "" href="#_ftn34" name="_ftnref34">[34]</a> Existe a &laquo; revoga&ccedil;&atilde;o &raquo; do sofrimento passado, a repara&ccedil;&atilde;o que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperan&ccedil;a &ndash; aquela esperan&ccedil;a, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convuls&otilde;es dos últimos séculos. Estou convencido de que a quest&atilde;o da justi&ccedil;a constitui o argumento essencial &ndash; em todo o caso o argumento mais forte &ndash; a favor da fé na vida eterna. A necessidade meramente individual de uma satisfa&ccedil;&atilde;o &ndash; que nos é negada nesta vida &ndash; da imortalidade do amor que anelamos, é certamente um motivo importante para crer que o homem seja feito para a eternidade; mas só em conex&atilde;o com a impossibilidade de a injusti&ccedil;a da história ser a última palavra, é que se torna plenamente convincente a necessidade do retorno de Cristo e da nova vida.</p>
	<p>44. O protesto contra Deus em nome da justi&ccedil;a n&atilde;o basta. Um mundo sem Deus é um mundo sem esperan&ccedil;a (cf. <em>Ef</em> 2,12). Só Deus pode criar justi&ccedil;a. E a fé dá-nos a certeza: Ele fá-lo. A imagem do Juízo final n&atilde;o é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperan&ccedil;a; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperan&ccedil;a. Mas n&atilde;o é porventura também uma imagem assustadora? Eu diria: é uma imagem que apela &agrave; responsabilidade. Portanto, uma imagem daquele susto acerca do qual, como diz Santo Hilário que todo o nosso medo tem lugar no amor.<a "" href="#_ftn35" name="_ftnref35">[35]</a> Deus é justi&ccedil;a e cria justi&ccedil;a. Tal é a nossa consola&ccedil;&atilde;o e a nossa esperan&ccedil;a. Mas, na sua justi&ccedil;a, Ele é conjuntamente também gra&ccedil;a. Isto podemos sab&ecirc;-lo fixando o olhar em Cristo crucificado e ressuscitado. Ambas &ndash; justi&ccedil;a e gra&ccedil;a &ndash; devem ser vistas na sua justa liga&ccedil;&atilde;o interior. A gra&ccedil;a n&atilde;o exclui a justi&ccedil;a. N&atilde;o muda a injusti&ccedil;a em direito. N&atilde;o é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma gra&ccedil;a deste tipo protestou com raz&atilde;o, por exemplo, Dosto&euml;vskij no seu romance &laquo; <em>Os irm&atilde;os Karamazov</em> &raquo;. No fim, no banquete, eterno, n&atilde;o se sentar&atilde;o &agrave; mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido. Aqui gostaria de citar um texto de Plat&atilde;o que exprime um pressentimento do justo juízo que, em boa parte, permanece verdadeiro e salutar também para o crist&atilde;o. Embora com imagens mitológicas mas que apresentam com uma evid&ecirc;ncia inequívoca a verdade, ele diz que, no fim, as almas estar&atilde;o nuas diante do juíz. Agora já n&atilde;o importa o que eram outrora na história, mas só aquilo que s&atilde;o de verdade. &laquo; Agora [o juiz] tem diante de si talvez a alma de um [&#8230;] rei ou dominador, e nada v&ecirc; de s&atilde;o nela. Encontra-a flagelada e cheia de cicatrizes resultantes de perjúrio e injusti&ccedil;a [&#8230;] e está tudo torto, cheio de mentira e orgulho, e nada está direito, porque ela cresceu sem verdade. E ele v&ecirc; como a alma, por causa do arbítrio, exagero, arrog&acirc;ncia e leviandade no agir, se encheu de emproamento e inf&acirc;mia. Diante de um tal espectáculo, ele envia-a imediatamente para a pris&atilde;o, onde padecerá os castigos merecidos [&#8230;]. &Agrave;s vezes, porém, ele v&ecirc; diante de si uma alma diferente, uma alma que levou uma vida piedosa e sincera [&#8230;], compraz-se com ela e manda-a sem dúvida para as ilhas dos bem-aventurados &raquo;.<a "" href="#_ftn36" name="_ftnref36">[36]</a> Jesus, na parábola do rico epul&atilde;o e do pobre Lázaro (cf.<em> Lc</em> 16,19-31), apresentou, para nossa advert&ecirc;ncia, a imagem de uma tal alma devastada pela arrog&acirc;ncia e opul&ecirc;ncia, que criou, ela mesma, um fosso intransponível entre si e o pobre: o fosso do encerramento dentro dos prazeres materiais; o fosso do esquecimento do outro, da incapacidade de amar, que se transforma agora numa sede ardente e já irremediável. Devemos aqui destacar que Jesus, nesta parábola, n&atilde;o fala do destino definitivo depois do Juízo universal, mas retoma a concep&ccedil;&atilde;o do judaísmo antigo de uma condi&ccedil;&atilde;o intermédia entre morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o, um estado em que falta ainda a última senten&ccedil;a.</p>
	<p>45. Esta ideia do judaísmo antigo da condi&ccedil;&atilde;o intermédia inclui a opini&atilde;o de que as almas n&atilde;o se encontram simplesmente numa espécie de custódia provisória, mas já padecem um castigo, como demonstra a parábola do rico epul&atilde;o, ou, ao contrário, gozam já de formas provisórias de bem-aventuran&ccedil;a. E, por último, n&atilde;o falta a no&ccedil;&atilde;o de que, neste estado, sejam possíveis também purifica&ccedil;&otilde;es e curas, que tornam a alma madura para a comunh&atilde;o com Deus. A Igreja primitiva assumiu tais ideias, a partir das quais, se desenvolveu aos poucos na Igreja ocidental a doutrina do purgatório. N&atilde;o há necessidade de examinar aqui as complicadas vias históricas desta evolu&ccedil;&atilde;o; perguntemo-nos apenas de que se trata realmente. Com a morte, a op&ccedil;&atilde;o de vida feita pelo homem torna-se definitiva; esta sua vida está diante do Juiz. A sua op&ccedil;&atilde;o, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter caracteres diversos. Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste género. Em tais indivíduos, n&atilde;o haveria nada de remediável e a destrui&ccedil;&atilde;o do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra<em> inferno</em>.<a "" href="#_ftn37" name="_ftnref37">[37]</a> Por outro lado, podem existir pessoas puríssimas, que se deixaram penetrar inteiramente por Deus e, consequentemente, est&atilde;o totalmente abertas ao próximo &ndash; pessoas em quem a comunh&atilde;o com Deus orienta desde já todo o seu ser e cuja chegada a Deus apenas leva a cumprimento aquilo que já s&atilde;o.<a "" href="#_ftn38" name="_ftnref38">[38]</a></p>
	<p>46. Mas, segundo a nossa experi&ecirc;ncia, nem um nem outro s&atilde;o o caso normal da exist&ecirc;ncia humana. Na maioria dos homens &ndash; como podemos supor &ndash; perdura no mais profundo da sua ess&ecirc;ncia uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus. Nas op&ccedil;&otilde;es concretas da vida, porém, aquela é sepultada sob repetidos compromissos com o mal: muita sujeira cobre a pureza, da qual, contudo, permanece a sede e que, apesar de tudo, ressurge sempre de toda a abjec&ccedil;&atilde;o e continua presente na alma. O que acontece a tais indivíduos quando comparecem diante do Juiz? Será que todas as coisas imundas que acumularam na sua vida se tornar&atilde;o de repente irrelevantes? Ou acontecerá algo de diverso? S&atilde;o Paulo, na<em> Primeira Carta aos Coríntios</em>, dá-nos uma ideia da distinta repercuss&atilde;o do juízo de Deus sobre o homem, conforme as suas condi&ccedil;&otilde;es. Fá-lo com imagens que, de alguma forma, querem exprimir o invisível, mas sem as podermos transformar em conceitos, pelo simples motivo de que n&atilde;o nos é possível entrever o mundo além da morte nem possuímos qualquer experi&ecirc;ncia dele. Acerca da exist&ecirc;ncia crist&atilde;, Paulo afirma antes de mais que está construída sobre um fundamento comum: Jesus Cristo. Este fundamento resiste. Se nele permanecermos firmes e sobre ele construirmos a nossa vida, sabemos que este fundamento n&atilde;o nos pode ser tirado, nem mesmo na morte. E Paulo continua: &laquo; Se alguém edifica sobre este fundamento com ouro, prata, pedras preciosas, madeiras, feno ou palha, a obra de cada um ficará patente, pois o dia do Senhor a fará conhecer. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída subsistir, o construtor receberá a paga. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá a perda. Ele, porém, será salvo, como que através do fogo &raquo; (3,12-15). Seja como for, neste texto torna-se evidente que a salva&ccedil;&atilde;o dos homens pode acontecer sob distintas formas: algumas coisas edificadas podem queimar completamente; para alcan&ccedil;ar a salva&ccedil;&atilde;o, é preciso atravessar pessoalmente o &laquo; fogo &raquo; para se tornar definitivamente capaz de Deus e poder sentar-se &agrave; mesa do banquete nupcial eterno.</p>
	<p>47. Alguns teólogos recentes s&atilde;o de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador. O encontro com Ele é o acto decisivo do Juízo. Ante o seu olhar, funde-se toda a falsidade. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem ent&atilde;o revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se. Porém, na dor deste encontro, em que o impuro e o nocivo do nosso ser se tornam evidentes, está a salva&ccedil;&atilde;o. O seu olhar, o toque do seu cora&ccedil;&atilde;o cura-nos através de uma transforma&ccedil;&atilde;o certamente dolorosa &laquo; como pelo fogo &raquo;. Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus. Deste modo, torna-se evidente também a compenetra&ccedil;&atilde;o entre justi&ccedil;a e gra&ccedil;a: o nosso modo de viver n&atilde;o é irrelevante, mas a nossa sujeira n&atilde;o nos mancha para sempre, se ao menos continuámos inclinados para Cristo, para a verdade e para o amor. No fim de contas, esta sujeira já foi queimada na Paix&atilde;o de Cristo. No momento do Juízo, experimentamos e acolhemos este prevalecer do seu amor sobre todo o mal no mundo e em nós. A dor do amor torna-se a nossa salva&ccedil;&atilde;o e a nossa alegria. É claro que a &laquo; dura&ccedil;&atilde;o &raquo; deste queimar que transforma n&atilde;o a podemos calcular com as medidas de cronometragem deste mundo. O &laquo; momento &raquo; transformador deste encontro escapa &agrave; cronometragem terrena: é tempo do cora&ccedil;&atilde;o, tempo da &laquo; passagem &raquo; &agrave; comunh&atilde;o com Deus no Corpo de Cristo.<a "" href="#_ftn39" name="_ftnref39">[39]</a> O Juízo de Deus é esperan&ccedil;a quer porque é justi&ccedil;a, quer porque é gra&ccedil;a. Se fosse somente gra&ccedil;a que torna irrelevante tudo o que é terreno, Deus ficar-nos-ia devedor da resposta &agrave; pergunta acerca da justi&ccedil;a &ndash; pergunta que se nos apresenta decisiva diante da história e do mesmo Deus. E, se fosse pura justi&ccedil;a, o Juízo em definitivo poderia ser para todos nós só motivo de temor. A encarna&ccedil;&atilde;o de Deus em Cristo uniu de tal modo um &agrave; outra, o juízo &agrave; gra&ccedil;a, que a justi&ccedil;a ficou estabelecida com firmeza: todos nós cuidamos da nossa salva&ccedil;&atilde;o &laquo; com temor e tremor &raquo; (<em>Fil </em>2,12). Apesar de tudo, a gra&ccedil;a permite-nos a todos nós esperar e caminhar cheios de confian&ccedil;a ao encontro do Juiz que conhecemos como nosso &laquo; advogado &raquo;,<em> parakletos</em> (cf.<em> 1 Jo </em>2,1).</p>
	<p>48. Há ainda um motivo que deve ser mencionado aqui, porque é importante para a prática da esperan&ccedil;a crist&atilde;. No antigo judaísmo, existe também a ideia de que se possa ajudar, através da ora&ccedil;&atilde;o, os defuntos no seu estado intermédio (cf. por exemplo,<em> 2Mac</em> 12,38-45: obra do I século a.C.). A prática correspondente foi adoptada pelos crist&atilde;os com grande naturalidade e é comum &agrave; Igreja oriental e ocidental. O Oriente n&atilde;o conhece um sofrimento purificador e expiatório das almas no &laquo; além &raquo;, mas conhece diversos graus de bem-aventuran&ccedil;a ou também de sofrimento na condi&ccedil;&atilde;o intermédia. &Agrave;s almas dos defuntos, porém, pode ser dado &laquo; alívio e refrigério &raquo; mediante a Eucaristia, a ora&ccedil;&atilde;o e a esmola. O facto de que o amor possa chegar até ao além, que seja possível um mútuo dar e receber, permanecendo ligados uns aos outros por vínculos de afecto para além das fronteiras da morte, constituiu uma convic&ccedil;&atilde;o fundamental do cristianismo através de todos os séculos e ainda hoje permanece uma experi&ecirc;ncia reconfortante. Quem n&atilde;o sentiria a necessidade de fazer chegar aos seus entes queridos, que já partiram para o além, um sinal de bondade, de gratid&atilde;o ou mesmo de pedido de perd&atilde;o? Aqui levantar-se-ia uma nova quest&atilde;o: se o &laquo; purgatório &raquo; consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode ent&atilde;o intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada &agrave; outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma m&ocirc;nada fechada em si mesma. As nossas vidas est&atilde;o em profunda comunh&atilde;o entre si; através de numerosas interac&ccedil;&otilde;es, est&atilde;o concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha exist&ecirc;ncia a vida dos outros: naquilo que penso, digo, fa&cc